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Máscaras Metafísicas
No Carnaval Político

 

J. C. Macedo

 

 

Apresentação dos conteúdos da colecção
PALAVRAS ESSENCIAIS / Vol 6, de 2011, sob o título
“Humanismo, Educação & Justiça Histórica”.

 

 

 

Eu sei que não sou.
Ah, e como é bom quando estou...
Percebo-me nada sob a luz
E sou tudo sob o manto que faz jus
Ao sonho do poder,
Esse sempre escondido querer!
Vivo como a solitária avestruz.
Caminho no deserto como zulu.
Sou forte. E mais forte quando estou
Poder, porque sei que não o sou...!

Ai, como é bom não ser!
Ai, como é bom estar e ter!

 

MACEDO, J. C. – Rio de Janeiro, 1989.  [1]

 

 

  1. Abertura

 

   Ser o que não somos, mas estar por vontade própria na esfera do Poder que corrompe e escraviza, é viver com a máscara metafísica uma folia ideológica que cerceia a Liberdade entre a Humanidade e permite a destruição da Terra, nosso berço e nossa estrada.
Não entender esta questão, é não entender que só o Amor e o Ato de Filosofar podem criar as condições para o bem-estar do Todo humano, livre de dogmas místicos e ditaduras sociopolíticas.

  1.  Erro Metafísico & Ilusão Dogmática

  
Já conversei com tantos religiosos, psicólogos, sociólogos, psiquiatras, etc., que vos digo: o Dogma é uma invenção humana para forjar o Poder ilimitado de algumas pessoas sobre a maioria.
Já estabeleci tantos ´debates paralelos´ entre tantas ´palavras essenciais´ (títulos de duas colecções literárias do CEHC com as quais colaboro), que vos digo: políticos, militares e académicos vivenciam objectivamente o erro metafísico ao se esconderem na ilusão dogmática que os torna escravos nas sombras da Ignorância que eles mesmos criam para estarem Poder.
A maioria das pessoas, é verdade, vive à sombra de mecanismos político-administrativos de um Poder que não a respeita nos seus direitos básicos, apenas a quer como coadjuvante no plano social sob uma doutrina económica perspectivada no consumismo. E é um Poder que se reconhece somente na Elite e nela sobrevive até que... aquela Maioria de Pessoas (vulgo, o Povo) resolve pensar e agir em benefício próprio, isto é, pela Humanidade em si mesma.

  O filósofo grego Sócrates já havia verificado e manifestado tal preocupação, e o seu aluno Platão deu-lhe continuidade, embora traindo-o na concepção de Ética, pois, a ética socrática pressupunha já um valor sociopolítico além do comportamento da Pessoa na sua circunstância, o que a retórica platónica não reteve, ou não quis, por se achar além da Humanidade (e, por isso, é uma retórica tão mimada e difundida pelas religiões-estados ocidentais). A questão psicológica da circunstância da Pessoa está intimamente ligada à Ética, por isso, o diálogo socrático buscou aí a interpretação para o Ser e o Estar que, séculos depois, Heidegger estabeleceria com um dos princípios filosóficos da modernidade na Cultura ocidental, enquanto Platão continuou, assim como Paulo/Saulo, na esfera da máscara metafísica, logo, a trair o Mestre como o fez Paulo em relação a Jesus. Na verdade, é preciso trair (no caso da pessoa acomodada ao ´sistema´) e, sempre, combater o conceito institucionalizado desse modelo de Poder que desconhece a Humanidade como base do Todo social, e é assim que tanto a Política de Estado como a Igreja-Estado fazem parte da mesma sacrossanta economia de consumo: ser não é preciso, estar é o sonho de consumo... e o todo corporativo do Estado-Deus é um ´altar´ para o sacrifício do Povo, como defendem as engajadas esferas sociológicas acampadas entre teses-de-gaveta no meio de ´visitas´ às comunidades para melhor as ´compreender´ e permitir que o Estado melhor as corrompa e domine. E é tudo tão diferente da Palavra/Acção jesuana e do Diálogo socrático, leiam-se a propósito as obras do filósofo Manuel Reis [2], que logo se percebe que “o Consumismo político-económico e religioso já tratou de conceber a Pessoa como Produto Consumível, e isso evitará (e talvez sim) que o Capitalismo caia de podre... Ou seja: ou é eliminado ou aí ficará para sempre” [3].

   A criação da Circunstância Dogmática é o contrário do Diálogo: uma determina a sombra da Ignorância por uma Ditadura ideológica, e a outra viva a Realidade da cada Pessoa no contexto telúrico-cósmico de cada Comunidade, ou Nação.
E essa Circunstância Dogmática criou o Bem e o Mal para determinar a doutrina da Elite que “faz” o Bem contra o Mal disseminado nas classes mais baixas, i.e., o Povo, que deve ser [sempre] dominado para favorecer o “bem” institucionalizado no e pelo Poder. No mesmo plano, qualquer oposição à Política estabelecida deve ser encarada como uma “força do Mal” a ser destruída. Este conceito está enraizado no processus teológico do judaísmo, cristianismo e islamismo, as três igrejas-estado que têm como denominador comum uma mesma entidade transcendental, ou “anjo” sinalizador [“gabriel”] e um mesmo código doutrinal com base no “deus único”, contra todas as manifestações esotéricas e exotéricas pagãs dos povos antigos. O “deus único” é a proposta do Pensamento Único para “catolicizar”/globalizar o Poder, ainda hoje o grande sonho sionista, que também o foi/é da cristandade e de grupos exotéricos políticos, dos maçons aos nazistas. Eis aqui a Circunstância Dogmática na sua dimensão teo-política mais repugnante, por ser a barca ideológica que conduz ao extermínio do Povo sob o riso da Elite. No seu “Ética Profissional Professores e Educadores” [4], Reis afirma que “...tanto a Moral do Utilitarismo, como a do Dogmatismo baseado no Magister dixit tradicionalista, como ainda a do Dogmatismo cientificista estribada na ideia divinizada  de Progresso [...], são concebidas, forjadas e impostas sob a  Cultura do Poder-dominação d´abord, e recusam visceralmente qualquer tentativa das práticas de livre exame”. Depois de tal explicação é preciso dizer mais o quê?!...

  1. Hierarquia, Academicismo & Comunicação Social

 

   Há muito e muito tempo no campus da Docência reina o que os igrejistas [adeptos e membros da Igreja-Estado] entendem por “lugar de regras e obediência à doutrinação”, como se uma instituição pudesse ser “o algo infalível na condução da ´coisa´ humana e natural”. Por isso, e porque também durante muito e muito tempo o igrejismo foi o alicerce ´cultural´ da Pessoa ´civilizada´, é que “...no campus da Docência convivem ´profes´ amaldiçoados pela sua inquietação filosófica, muitas vezes sob exílio na terra própria..., e ´profes´ que são parte do processus que amortalha a Pessoa numa caixinha desde o nascimento até à Morte, como se a Vida não tivesse acontecido, mesmo na estúpida e repugnante condição da Pessoa escrava” [5]. A acomodação académica foi e é parte do sistema consumista e um dos mais convenientes à ditadura educacional que promove a ´cultura enlatada´ da Ditadura política e igrejista.
Eis por que a Sociedade hierarquizada entre dogmas e poderes políticos pré-estabelecidos faz de todos os segmentos da actividade humana, e principalmente o da Universidade, tentáculos do mesmo ideal doutrinário. E diga-se: ninguém a obrigação de viver a Liberdade, mas sabe-se que ninguém nasce para a Escravidão, logo, a Liberdade é uma opção para a Pessoa que gosta de viver a Vida na sua plenitude sociocultural... Ora, basta de acomodação ideológica e financeira!

   Quando se diz que o Conhecimento leva a Pessoa a errar menos, e até a não errar – e essa foi a grande tese de Sócrates entre atenienses de todos os credos –, isso é verdade, mas... o masoquismo metafísico também leva a Pessoa ilustrada para a sombra da Ignorância [releia-se a poética filosófica de Fernando Pessoa e de Walt Whitman] e torna-a escrava da estrutura cultural do Poder pré-estabelecido pela Elite. Ou seja: quer para a Pessoa política quer para a igrejista [não digo religiosa, porque “a fé em algo é uma opção da liberdade individual, enquanto o igrejismo é uma ditadura ideológica”, como muito bem dizia Figuera de Novaes], e ainda, para a Pessoa académica, a Liberdade termina quando se ajoelha diante da ilusão dogmática e, então, pratica o erro metafísico da subserviência consciente e militante.
No caso académico é pior: a ´turma´ acredita que ao ver a realidade das outras pessoas pode modificá-la para o padrão do ideal identitário que governa a Universidade, mas essa ´turma´ não vive a [sua própria] realidade, e sim a ilusão dogmática na práxis do Poder estabelecido. É rara a Pessoa académica que abandona a barca dogmática, porque a ela só foi dado conhecer as margens ideológicas que comprimem o rio social da Intolerância que amordaça: ela desconhece o Diálogo libertador, só a Mensagem dogmática que ensina a morrer sem viver. É um baile de máscaras sem o ritmo do carnaval, só com o passo sociopolítico da dominação. Eis que por tal facto existe uma sociologia dominadora que pretende, em visitas ´sociais´ às comunidades comprimidas na lagoa da barragem ideológica, fazer ver e crer ao Povo que o Poder, sim, é uno e elitista, mas que também compreende o sofrimento da gentalha e a massageia com produtos de estética industrial – aliás, os mesmo produtos que os Srs professores-doutores e as Sras professoras-doutoras adquirem enquanto ´sociabilizam´... E se a barragem se romper, ou for rompida, aonde estará essa turma académica? De joelhos diante da nova Sociedade e da nova Universidade!

   São as máscaras, as máscaras, uh deuses meus, as máscaras!... Que rufem os tambores da hipocrisia e da ilusão!

   Sabemos que Universidade deve[ria] ser o pólo central da Liberdade através do Conhecimento, mas não o é por ser um segmento do Poder. E assim, a maioria da Docência é um indecente erro metafísico que permite a repressão à Liberdade em nome de um Poder dogmático. Ora,

a Educação
não está além da Humanidade,
é a fé da Humanidade em si mesma
e deve ser, por isso,
uma práxis de humanismo crítico
pela construção permanente
da Justiça social e da
Liberdade individual e colectiva.

   A par desta situação temos ainda a da Comunicação Social, que muitas vezes sobrevive das benesses financeiras (vulgo, actos publicitários e actos jornalísticos embutidos em matérias mascaradas e bem pagas). Obviamente, a Comunicação Social engajada [leia-se Reis e leia-se Chomsky] é um grande trunfo do Poder dogmático, a par da Educação e das Forças Armadas.
Ao ler tanto editorial e tanta reportagem ´politicamente correcta´ feitas pelo jornalismo e o academicismo engajados, eis que vos digo: as estrelas e os astros ´cintilantes´ do céu dogmático são hoje intelectuais que se autodenominam ´autoridade pública´ sobre os ´quereres´ do Povo e rabiscam teses e opiniões principescamente pagas com dinheiros do Erário Público através de ministérios e universidades e fundações corporativas de empresas transnacionais. Essa gente não quer que o Diálogo floresça, essa gente prefere o Pensamento Único do regimento corporativista, mesmo o ´eleito´ nas urnas do Capitalismo liberal.
O pano de fundo desta situação é o longo manto ideológico da Economia que gera Consumo e Sonho-de-Consumo, e, através deste, faz do Custo-Benefício mais um altar para a sacrossanta ilusão dogmática
Por isso é que vos digo: a) É preciso reaprender a refutar tudo o que é pré-estabelecido; b) É preciso aprender a filosofar para estabelecer diálogos críticos que possibilitem a integração social no Todo humano; e c) É preciso defender a Liberdade de cada Pessoa para que a Comunidade humana possa respirar livremente.

Ah, que os veros carnavalescos d´Alegria
me perdoem por esta intromissão!

 

Embu das Artes / Brasil
7 e 8, Fevereiro de  2011.

 

 

NOTAS

1 – Folia Metafísica / poema para uma marchinha do carnavalesco político. O poema foi lido, com fundo de harmónica, em encontro do grupo sócio-literário “Poesia”, do prof. Francisco Igreja, em Niterói/RJ, 1989.
2 – Livros publicados em Portugal e no Brasil pelo CEHC com apoio da Editora Edicon e TerraNova Comunic. Material com acesso pelo ´site´ www.noetica.com.br.
3 – João Barcellos, in “Não Existe Ruptura Amistosa Com Capitalismo: Urge Derrotá-lo Para Construir Um Novo Tempo Humano”, palestra. Alphaville / São Paulo, Br.,Fevereiro de 2011.
4 – Livraria Ideal Editora, Guimarães/Pt., 2003.
5 – João Barcellos & Mariana d´Almeida & Piñon – in “Profes: É Preciso Dizer Não à Acomodação Consumista”, palestras. Embu/Br., Setembro, 2006.

 

CEHC – Centro e Estudos do Humanismo Crítico, sediado em Guimarães/Portugal e com Diretórios na América Latina.
Fernando Pessoa – Portugal, 1888-1935.
J. C. Macedo – [Portugal] Jornalista e Escritor, com obras em Portugal, Irlanda, Brasil e Argentina. Membro de diversos grupos literários e editor de revistas e jornais. É um dos responsáveis editoriais das colecções “Palavras Essenciais” e “Debates Paralelos”, publicadas pela Edicon e o CEHC.
Jesus  [o Cristo da seita Nazàri] – Palestina, há 2011 anos, segundo a tradição, embora não existe um único documento que forneça uma historiografia desse profeta cuja palavra chegou aos nossos dias como a Mensagem Jesuana, logo, traída à nascença pelos próprios discípulos que edificaram o igrejismo/corporativismo cristão.
João Barcellos – [Brasil] Escritor e Conferencista.
Martin Heidegger – Alemanha, 1889-1976.
Paulo ou Saulo [ou, Shaúl, de Tarso] – Cilícia, 9-64. O ´apóstolo´ tardio que alterou a Mensagem Jesuana para condenar Maria Madalena, a companheira de Jesus, e o ideal da fraternidade universal.
Manuel Reis – [Portugal] Escritor e Filósofo, presidente e fundador do CEHC, juntamente com Lillian Reis. Autor de importantes obras para a teologia e a filosofia contemporáneas.
Mariana d´Almeida y Piñon / MAYP – [Brasil e França] Profª de Artes Visuais.
Noam Chomsky – [USA] Linguísta e escritor.
Platão [Πλάτων / Plátōn] – Atenas, c. 428-347 a.C.
Sócrates [Σωκράτης, / Sōkrátēs] – Grécia, 469-399 a.C.
Walt Whitman – USA, 1819-1892.