| |
clique aqui para voltar para HOME
MANUEL REIS
DEUS/SIM OU DEUS/NÃO?!
(Em nome da humana Liberdade Responsável
primacial e primordial)
BALANÇO CRÍTICO DA MODERNIDADE OCIDENTAL
• Sob o signo de Goethe: “O espírito ajuda-me! De repente, vejo o conselho e escrevo, consolado: ‘No princípio era a acção’”! E não te esqueças que a utopia de hoje é a verdade de amanhã (como disse Victor Hugo).
• Por obra das novas tecnologias da informação e da comunicação, mal aplicadas, até porque estão a ser draconeanamente impostas em molde ditatorial, o Processo histórico/civilizatório está a deixar-se afunilar assustadoramente. O caminho em frente é cada vez mais uniforme e uniformista. A democracia tornou-se uma pura falácia, uma vez que o carro foi posto à frente dos bois. Representativa ou directa, a Democracia não se tornou, apenas, de execução difícil; ela está a tornar-se, cada vez mais, impossível, — impossível é o termo exacto!...
• Em termos de antropologia cultural, sabe-se que o Homem é a única espécie biológica, capaz de jejuar ou morrer no meio da abundância alimentar. E, na Teoria e na História políticas, sabe-se que há Sociedades democráticas, organizadas sob o ceptro da Monarquia. Isso acontece e é possível, porque se respeitou o fenómeno da Consciência dos Sujeitos humanos/indivíduos-pessoas e se deixou algum espaço para a prática paradigmática do sempre emergente Diálogo socrático.
Í N D I C E
— Exergos: à maneira de intróito
— DEUS SIVE CONSCIENTIA
— PODE ILUDIR-SE A CONSCIÊNCIA...
MAS NÃO SE PODE ELUDIR-ELIDI-LA!...
— O Ocidente está doente
— Que é a Consciência humana, como funciona e para que serve?
— No horizonte dos Gnósticos judeo-cristãos primevos
— A Lição central-nuclear dos Gnósticos
— EPÍLOGO: Sobre a Grande Ruptura da Modernidade
— Promover uma Sociedade civil crítica e adulta — é preciso e urgente!...
Exergos: à maneira de intróito
• Tudo o que dizemos de Deus ou da Divindade são sempre Seres Humanos que o proferem ou revelam; mesmo no concernente a todas as religiões reveladas. Não há dimensão divina para além do Universo humano. Como supõem, erroneamente, as Igrejas cristãs e as religiões monoteístas, em geral. A obra teológica de Henri De Lubac, ‘Le Surnaturel’ (que ainda era clássica em meados do séc. XX), não passa de um conto de fadas, na medida em que pressupunha e caracterizava uma ‘ordem sobrenatural’ acima da ‘ordem natural’. Para perscrutar a dimensão do divino, no Universo Humano, nada melhor que a obra de James Davidson:‘The Greeks and Greek Love’/A Radical Reap-praisal of Homosexuality in Ancient Greece,Weinfeld & Nicholson, London, 2007. Quanto às religiões reveladas, elas tanto podem humanizar como desumanizar o Huma-no. Desumanizam, sempre que funcionam com o camartelo da Potestas d’abord. Sobre esta matéria, veja-se Raoul Vaneigem:‘Da (in)Humanidade da Religião’, Notícias Edi-torial, Lisboa, 2002.
• Falar de Deus, na era da Pós-Modernidade positiva e crítica (que já são os tempos em que vivemos), em termos de hermenêutica crítica, só pode ser entendido como sinónimo das reivindicações gêmeas da Liberdade Responsável dos Indivíduos-Pes-soas e da Justiça social entre os Seres Humanos, na Organização societária.
• A Metafísica Clássico-tradicional, sempre enunciada na 3ª pessoa gramatical, com os seus estigmas do Objectivo-Objectualismo (essa Religião laica, que fundou toda a sorte de Terciarismos), encontra-se, finalmente, prostituída e proscrita. Que vá, pois, para os ‘Infernos’, onde as Inquisições e Torturas, as Dominações e Potestades dogmá-ticas de Instituições societárias, como a Igreja Católica Romana (ICR), poderão atear, à vontade, os seus cadafalsos ardentes.
Todas essas constuções metafísicas fizeram profissão de fé no inveterado Mo-nismo Epistémico (próprio e legítimo, apenas, no que nós chamamos o hemisfério das ciências físico-naturais). Sobre esta problemática, cf., v.g., os meus dois trabalhos: ‘Carta Aberta’ (pp.33 e ss.), e ‘Metafísica/Religião/Mitologia/’Poiética’: seu Entrosamen-to Crítico’ (pp.53 e ss.) (in ‘A Vida em Construção’, de J. C. Macedo, Edicon, São Pau-lo, 2010).
Em lugar das metafísicas clássico-tradicionais, seria, estratégica e epistemologi-camente, muito mais recomendável o empenhamento na assimilação e na divulgação dos Direitos Humanos (direitos, sem dúvida, mas sempre na sua correlação com os deve-res). A este respeito, pode constituir um bom manual de introdução a obra de Raoul Va-neigem: ‘Declaração Universal dos Direitos do Ser Humano’ (Edições Antígona, Lisboa, 2003).
• Basta de alegóricas/míticas Hipóstases Metafísicas a enredarem e a super-con-dicionarem a vida dos Indivíduos-Pessoas e as suas Sociedades só nominalmente ditas humanas... No horizonte de uma desconstrução crítica, séria e honesta, já procedia, exem-plarmente, a obra ‘Deus/Uma Biografia’, de Jack Miles (ex-jesuíta norte-americano), (E-ditorial Presença, Lisboa, 1997), o qual trata o Senhor Iahwéh/Deus como personagem literária, ao longo da Bíblia hebraica (ou do que os cristãos chamam Antigo Testamento). Essa personagem literária acaba por desaparecer quase completamente no Livro de Ester (da 2ª metade do séc. IV a.E.C., na versão hebraica).
Na verdade, “ este livro é acerca do Senhor Deus, enquanto protagonista de uma obra clássica da literatura universal [...]. Deus tem uma primeira e uma última entrada na Bíblia hebraica. Ao princípio surge como o Criador, fora da história, anterior a ela [...]. Por fim, vêmo-lo como o ‘Ancião’, de cabeleira branca, silencioso, ansioso pelo fim da história, sentado no seu trono distante e enevoado” (contracapa do Livro).
Para esta Agenda da Desconstrução crítica da Metafísica, em que ainda, infe-lizmente, estão encerradas a maior parte das leituras e dos leitores da Bíblia, continuam, sem dúvida, a ajudar muito, quando lidos com atenção e armadura crítica, os sete livros sapienciais ou didácticos, a saber: Job, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sapiência e Eclesiástico. Existe Deus//Não existe Deus?! ‘Dixit insipiens in corde suo: non est Deus’! O tema do Ateísmo — 3 milénios antes do séc. XVIII ociden-tal — já havia sido glosado, e até na própria voz da personagem alegórica de Deus intro-duzida no texto bíblico. O assunto é abordado, com alguma contundência, nas discussões de Job com os seus amigos, que o vieram visitar, sob a inspiração de Satã, e com a per-missão do Senhor Deus. Tudo suficientemente controlado pelo ‘Monarca celeste’!...
• Na galáxia do primado absoluto do Poder sobre os Saberes: do Poder de Deus sobre os Saberes dos Humanos. Deus está sempre do lado do Poder (absoluto)... Por isso, supostamente, ele detém todos os Saberes!... É esta a Weltanschauung que pre-side à construção noética/teológica da Bíblia. A sua configuração é, indiscutivelmente, a da Cultura do Poder-Dominação d’abord, em todos os azimutes.
Neste horizonte, a Sapiência é o atributo de Deus, por excelência, visto que foi nele e por ele que tudo foi criado e é regido. Veja-se, por ex.: Job 12,12; Ps. 103,24; 146,5; Prov. 3,19; Eccli. 1,3. Sapiência personificada: Prov. 8,12-16; Eccli. 24,5. Como hipóstase distinta de Deus: Sap. 7,24-26 (Col. 1,15; Heb. 1,3). A Sapiência, ao ser comu-nicada aos homens, faz deles amigos de Deus e profetas: Prov. 8,31; Sap. 7,27-30. Pode ser adquirida pelo estudo das coisas criadas e pela meditação da lei divina: Deut. 4,6; 3Reg. 4,29-34; Prov. 2,6; Eccli. 24,13. Deste modo, não há saber e sabedoria fora de Deus, a não ser a falsa sabedoria dos ímpios... Em suma, Deus é a fons et origo de todo o Poder (animado de Saber/Sabedoria). É por isso que, por definição, Deus protege sem-pre o Rei!... E o Poder não deve cair na rua... ‘Rei morto/Rei posto’!...
Nessa mesma ordem de ideias, a aquisição da Sabedoria, por parte dos huma-nos, supõe neles, inevitavelmente, o temor do Senhor Deus: Ps. 110,10; Prov. 1,7; 9,10; 14, 27; Eccli. 1,16. Para a mundividência bíblica, o temor do Senhor constitui o início da Sabedoria: Eccli. 1,11 e ss.; ao mesmo tempo, é o seu prémio (uma espécie de ‘prémio de seguro’...): Ps. 33. O que se propõe e prega, em nome do bem e da virtude, é a obediên-cia, a submissão e a resignação. Distingue-se, nesse prisma, o amigo vero e o falso (Ec-cli. 37,1-6); o conselheiro bom e o mau (37,8...); a sapiência vera e a falsa (37,20...; 20,12...). Se o ímpio fizer penitência e se arrepender de todos os seus pecados (negativa-mente), e depois (positivamente), guardar os preceitos do Senhor e pagar as dívidas aos seus credores, terá a vida e não morrerá: (Ez. 18,21).
A principal manifestação da sabedoria consiste no culto de Deus e na observân-cia dos seus mandamentos: Prov. 3,1-12; Eccli. 2,16-23. — Obediência e Submissão são as regras de vida; associadas às manifestações externas, societárias, do culto e de uma re-ligião societariamente institucionalizada. Num tal horizonte, indiscutivelmente, nos antí-podas do ‘Deus sive Natura’ de Espinosa, bem como nos antípodas do ‘intimior intimo meo’ da Cultura céltica, tão perspicazmente repegado por Aurélio Agostinho, nas suas ‘Confissões’.
Em suma, toda a sensatez e sabedoria procedem da Divindade, enquanto fonte e origem de todo o Poder; — daí, a fixação do primado absoluto do Poder sobre o Sa-ber. Ora, em tal horizonte, já, por certo, se deu conta, com evidência encalacrante, que neste contexto, só é possível e viável o livre-arbítrio, ou seja, nada mais que a ‘lei do pêndulo’... Nas sociedades constituídas segundo este catecismo, não é possível nem viá-vel a emergência das Liberdades Responsáveis (primaciais e primordiais) dos Indiví-duos-Pessoas/ /Cidadãos. Pela simples e fundamental razão de estarmos integrados num Universo criado e regido por uma Divindade extrínseca, omnipotente e omnisciente.
Os existencialistas ateus do pós-guerra (1939-1945), por exemplo, da escola de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, já conheciam o dilema encalacrante: ou Deus ou a Liberdade dos Humanos; e optaram sábia e criticamente pela 2ª parte do binómio dile-mático. Diga-se, aqui, en passant, que esta doutrina crítica já era do conhecimento lúcido dos Gnósticos judeo-cristãos primevos (séc. I a.E.C.-séc. IV E.C.).
DEUS SIVE CONSCIENTIA
A nossa proposta, ao falarmos de Deus em termos filosóficos e culturais, vai no sentido de o conceber e percepcionar no horizonte crítico e sábio do ‘Deus sive Natura’ de Baruch de Espinosa. Para o efeito, veja-se o nosso livro: ‘Caminho Novo com Espino-sa e Reis’. (Edicon, São Paulo, 2008).
Como tinha razão e penetrava fundo Fernando Pessoa, ao asseverar, com a sua sa-bedoria crítica (para além da inocência e dos culpados...): ‘Não haver Deus é um Deus também’. Há, na verdade, um absoluto, que sempre tem sido esquecido e ignorado, prete-rido e esconjurado, ao longo de toda a História (dita) humana e do processo civilizatório do ‘Homo Sapiens’, o qual tem permanecido multi-milenarmente no seu estádio atrasado de ‘Sapiens tout court’, sem ser capaz de transpor o limiar do ‘Sapiens/Sapiens’. Referi-mo-nos ao fenómeno humano da Consciência. Ora este absoluto tem sido iludido e drib-lado ao longo de toda a História da Humanidade até ao presente. No seu lugar, concebe-ram e construíram o absoluto de Deus como realidade metafísica, transcendente e extrín-seca ao Universo... Para justificar essa invenção, as elites pensantes de todos os tempos atribuíram-lhe as funções (mitológicas) da criação do Universo, bem como do Cuidado/ /Providência do Mundo dos humanos.
Por isso mesmo, as Sociedades humanas e o Mundo são concebidos e organiza-dos de fora para dentro e de cima para baixo (não, como cumpre, de dentro para fora se-gundo a consciência, e de baixo para cima segundo a biogénese): Nada entra no foro da Inteligência que não tenha passado, primeiro, pelos Sentidos externos! — Ensinam os filósofos, parecendo, até, que o têm ensinado em vão... Paradoxalmente, o motor primeiro das Sociedades humanas e do Mundo tem sido, inegavelmente, o Dualismo metafísico--ontológico de Platão e Paulo. Todas as ideias, iniciativas e empreendimentos procedem dos Poderes Estabelecidos, ou são previamente sancionados pela Ordem Estabelecida. É o que nos ensinam as doutrinas políticas, tanto as tradicionais como as modernas (as que emergiram com o ‘Nouveau Régime’).
Sejamos claros e lúcidos e honestos; e que o nosso discurso fale aos nossos com-panheiros(as) de existência, sempre joeirado pela Evidência crítica. DEUS-SIM// //DEUS-NÃO!... Eis o Dilema encalacrante, na sua radicalidade. No binómio dilemático, o primeiro monómio refere-se aos Sujeitos (humanos); o segundo monómio aos Objec-tos (reais ou ficcionados...). Os Sujeitos humanos, qua Sujeitos, detêm uma Epistéme própria e específica, que os impede de serem legitimamente objectualizados, em qualquer circunstância. Os Objectos qua Objectos têm outra Epistéme própria, que não pode con-fundir-se com a primeira.
Ora, nesta óptica conjugada, que entrosou funções e características respectivas dos Sujeitos (do Conhecimento) e dos Objectos (conhecidos), só os Objectos das ciên-cias físico-naturais (além das matemáticas) podem ser considerados reduplicativamente. Os Objectos das ciências psico-sociais e/ou humanas só podem ser, aí, considerados ob-jectos, de modo provisório e em função do método: aquilo que os escolásticos medievais ou da ‘segunda escolástica’ exprimiam na fórmula consagrada ‘secundum quid’.
Quanto aos Sujeitos humanos qua Sujeitos, no processo do Conhecimento, eles nunca poderão ser, legitimamente, reduzidos a Objectos. Esta Lectio, na galáxia da Ci-vilização/Cultura do Ocidente, tem a sua fons et origo em dois Tópoi clássicos: A) na condenação severa da idolatria, em termos psico-culturais, por parte de Moisés e Iah-wéh, no Livro do Êxodo e nos Livros Sapienciais, em geral (o topos hebraico); B) na promoção e defesa do paradigmático Diálogo socrático, enquanto meio e forma de evitar e impedir a fácil e sempre disponível objectualização dos Sujeitos humanos/indivíduos--pessoas/cidadãos, na organização social-societária (o topos helénico).
Com tal gramática de comunicação, anunciada como manifesto, estamos conver-sados perante o Projecto da edificação, necessária e indispensável, de uma Sociedade ve-ramente humana, organizada segundo a gramática social-societária do ‘Homo Sapiens/Sa-piens’, e já não segundo o catecismo do ‘Homo Sapiens tout court’, onde os Poderes ins-titucionalizados se acham constituídos em separado, em confronto com as Liberdades Responsáveis dos Indivíduos-Pessoas e seus Saberes. Cesse, aqui, tudo o que a Ideologia moderna (e antiga) tem matraqueado: não há, afinal, (não deve haver...) nenhuma ‘res cogitans’ a fazer parelha geométrica e gnoseológica com a ‘res extensa’, — tal como su-pôs, erroneamente, René Descartes, no ‘Discours de la Méthode’. Toda a ‘coisa pensante’ (agente pensante) é sempre um Sujeito humano, que até pode ser e assumir-se como li-vre e responsável.
Num artigo notável (que, apesar de tudo, nos mereceu respigos e comentários crí-ticos), celebrando o falecimento de José Saramago, e subordinado ao título (extraído do livro de J.S. ‘O Ano da Morte de Ricardo Reis’), ‘Aqui o Mar acaba e a Terra princi-pia’, Eduardo Lourenço inscreveu, a começar, os dois parágrafos seguintes (cf. ‘Expres-so’/Actual, 26.6.2010, pp.10-11):
“‘Disse o insensato no seu coração: não há Deus’. Naturalmente, esta pouco mi-sericordiosa denegação do homem como ser de razão, ou esta terrível ironia divina — co-mo se tivesse adivinhado, como é do seu ofício, a futura ironia do meu amigo Saramago —, é posta no livro sagrado nos lábios mesmo de Deus. Apesar deste sarcasmo divino, os homens, na sua peripécia histórica, sempre disseram no seu coração — ou tiveram a ten-tação de o pensar —: ‘Não há Deus’. [Os entes espirituais e as coisas reais/materiais... não tem, tudo, a mesma evidência...].
“ Os mais peremptórios, em épocas que o permitiam, como no séc. XVIII e nos seguintes, assumiam essa negação de Deus chamando-se a si mesmos ‘ateus’. Na verda-de, foram ‘os homens de Deus’, ou o mesmo Deus, como o texto bíblico o testemunha, que primeiro os separaram dos outros homens. Ou registaram a separação, marcando-a para séculos com um sinal de fogo”.
Lobrigou certo, sem dúvida, E.C.. Foram, de facto, ‘os homens de Deus’ e os pon-tífices das religiões reveladas, estabelecidas, os primeiros a inaugurar e a fixar, a régua e a esquadro, a famigerada Separação... E fizeram-no — convém não esquecer — em no-me da sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord, bem como da Ordem/Desor-dem Estabelecida, sempre caucionados pela sua Divindade, à qual, aparentemente, pro-testavam a sua fé ou crença. Em nome da Identidade/Mesmidade, a Ordem societária Es-tabelecida, regida pela Cultura do Poder-Condomínio, tem por hábito separar, excluir e marginalizar, por sistema, todos os que apresentem ou ostentem qualquer espécie ou mar-ca de Alteridade ou Diferença, de dissensão ou divergência.
Ao longo de séculos e milénios de Culturas e Civilizações, os sectores mais es-clarecidos e críticos da Humanidade têm pugnado pela extinção dos deuses e pela Liber-tação das Divindades e do seu jugo, sobremaneira no atinente às doutrinas imperialistas das três religiões monoteístas, consideradas como ‘religiões reveladas’. Razão central: o carácter absoluto e a soberania absoluta das três Divindades (Iahwéh, Deus, Allah) não podem, por definição, ensinar aos Humanos as práticas de uma Vida em Diálogo com os outros, bem como a organização democrática das Sociedades humanas.
Por outro lado, os grupos humanos mais críticos e perscrutadores da Sabedoria, ao longo de séculos e milénios, sabem, igualmente, que a ‘notio Dei’ e a noética da Di-vindade, ao lado da sua vertente negativa e destruidora, encerram uma vertente positiva, capaz de promover a autonomia e a personalização dos Humanos e a boa organização das Sociedades humanas. Admitir, nesta problemática das ‘religiões reveladas’, uma só vertente (a negativa convertida em positiva e a positiva em negativa) é de gente escassa e mazorra!... Estamos, obviamente, a referir-nos ao Deus das religiões reveladas (e a algu-ma da sua teologia... sobretudo a ‘teologia negativa’), que tem actuado como uma ‘mo-la’ psico--cultural, com o seu fluxo de energia psicológica/espiritual, cuja função precisa é a de promover e impulsionar o descentramento da ipseidade do Indivíduo egocêntrico, do seu egoísmo identitário, abrindo-o e orientando-o para os outros humanos, seus com-panheiros de existência, em suma, para a descoberta do Altruísmo. As famosas ‘Socie-dades Abertas’ à Karl Popper agradecem estas reflexões.
Para o Centro de Estudos do Humanismo Crítico (C.E.H.C.), a Teologia (as teo-logias, em geral) está pejada de aporias e paradoxos. Mas o caminho, é preciso rasgá-lo, criticamente, em cada geração que passa rumo ao futuro: um futuro, que tem de ser pro-jectado, criticamente, segundo a bitola que foi possível construir em cada geração; por-quanto, o ‘futuro absoluto’ à maneira, v.g., de Karl Rahner, ou não passa de uma tauto-logia para dizer a ‘notio Dei’, ou acaba por levar as águas aos moinhos do tradicional Dualismo metafísico-ontológico de Platão e Paulo e das Cristandades tradicionais.
Onde, na verdade, a ‘notio Dei’ (no horizonte que é oriundo das religiões revela-das) pode operar como uma vera bússola de marear é, justamente, quando procedemos à diagnose e ao levantamento dos percursos na conceptualização e na mundividência do ‘Deus sive Natura’ de Bento de Espinosa (1632-1677), que tão bem soube criticar e com-bater o malsão e desumano universo do Mecanicismo Cartesiano; e quando, glosando essa mundividência espinosiana, transitamos, a partir daí, para a nossa e bem actual (en-quanto solução, que a História das Sociedades ainda não cumpriu...) mundividência do ‘Deus sive Conscientia’.
O que pode valer uma teológica concepção crítica de Deus, para todo o universo dos problemas da organização política (a mais honesta e acertada possível!...) das Socie-dades humanas, dos seus Estados e Nações?! Tudo e nada... E não valerá mesmo nada, sobremaneira quando a vertente teológica adoptada for a ‘negativa’, a da Divindade transcendente e extrínseca, actuando com toda a sua omnipotência e omnisciência, redu-zindo, autocrática e hierarquicamente, os seres humanos a servos e escravos. Por parado-xal que pareça, foi este o horizonte em que, por princípio, operaram e construíram as suas teorias e doutrinas político-societárias Thomas Hobbes (1588-1679), John Locke (1632-1704), David Hume (1711-1776), Adam Smith (1723-1790), entre outros.
Deve, aqui, advertir-se, entretanto, que não foi esse o horizonte teológico pressu-posto por Bento de Espinosa, nas suas conceptualizações e doutrinas sócio-políticas, ex-pressa ou tacitamente sempre orientadas, quer para o respeito da Consciência dos Indiví-duos-Pessoas/Cidadãos, quer para a prática exigente do Diálogo social e da Crítica, quer para a organização democrática das Sociedades humanas. Dá-se conta deste horizonte crítico espinosiano, muito especialmente nas cinco partes da sua obra maior, a ‘Ética’, e bem assim no seu pólo simétrico, que é o ‘Tratado Teológico-Político’.
A Ética (com introdução e notas de Joaquim de Carvalho) (Relógio D’Água, Lis-boa, 1992) está configurada nas 5 partes seguintes: I — De Deus; II — Da Natureza e da Origem da Alma; III — Da Origem e da Natureza das Afecções; IV — Da Servidão hu-mana e da Força das Afecções; V — Da potência da Inteligência ou da Liberdade huma-na. O ‘Tratado Teológico-Político’ foi editado, com uma tradução cuidada, introdução e notas de Diogo Pires Aurélio, pela Imp.Nac./Casa da Moeda, Lisboa, 1988. A redistri-buição temática dos capítulos foi operada criticamente por D.P.A., que, a propósito, escreveu na sua Introdução (ibi, p.20):
“ Assim, nos três primeiros (capítulos) [sobre o conhecimento e os seres], podere-mos ler, através da análise do conceito de profecia ou da função profética, uma reformu-lação do problema do conhecimento. Depois, nos três capítulos seguintes [sobre o ser e os seres], em que se fala da lei divina, das cerimónias e dos milagres, é toda a ontologia es-pinosista que aparece refeita, mediante o reconhecimento de uma fractura irremediável entre o natural e o artificial e a tentativa de os conjugar no sistema. Entra-se então na questão da Bíblia: primeiro, o método de interpretação (cap.VII); em seguida, a análise do Antigo (cap.VIII-X) e do Novo Testamento (cap. XI); depois, o conteúdo global de to-do o Livro (cap.XII-XIII); e, finalmente, os limites do saber aí apurado e a necessidade de o não tomar por filosofia (cap. XIV-XV). A terminar, vêm os capítulos expressamente dedicados à política [XVI-XX]”.
Só para o leitor ficar com uma ideia dos cuidados e da perspicácia de B. de E. em matéria política, vamos transcrever os enunciados completos, que surgem como títulos dos 4 capítulos seguintes:
Cap-XVI: Dos fundamentos do Estado, do direito natural e civil de cada indiví-duo e do direito dos soberanos. Cap. XVII: Onde se mostra que é impossível e desnecessário alguém transferir todos os seus direitos para o poder soberano; como era o Estado hebraico enquanto vi-veu Moisés e como foi depois, entre a morte deste e o início da eleição dos reis; até que ponto ele estava numa posição privilegiada, e quais as razões por que desapareceu, en-fim, o Estado teocrático, e por que é que só se não houvesse lutas intestinas ele poderia subsistir. — Acrescentamos, agora, nós: o que se vislumbra, no princípio ou no fim deste caminho processual, é o absoluto da Consciência de cada Indivíduo-Pessoa, que é preci-so reconhecer e respeitar, democraticamente.
Cap.XIX: Onde se demonstra que o direito em matéria religiosa pertence inte-gralmente às autoridades soberanas, e que o culto externo não deve perturbar a paz do Estado, se se quer obedecer fielmente a Deus.
Cap.XX: Onde se demonstra que num Estado livre, é lícito a cada um pensar o que quiser e dizer aquilo que pensa. — Como estamos tão longe desta gramática social-societária (adicionamos nós)!...
Em termos contrastivos, é mister prestar atenção a dois factos paralelos: enquanto Hobbes, no concernente ao pressuposto para a construção da sua teoria/doutrina da Socie-dade e do Estado, precisou da redução das diferentes religiões específicas a uma noção genérica e universal de religião, para fundar a nova Filosofia Política emergente, e aca-bou o processus com a exigência de um Monarca dotado de soberania absoluta (à ima-gem do Deus bíblico vétero-testamentário), — Espinosa, por seu turno, mantendo-se fiel à hermenêutica teológica tradicional, mas entendida de modo crítico, consegue vislum-brar, na própria teologia política, a forja real dos seus pressupostos, a partir dos quais vai edificar uma Sociedade e um Estado de pendor horizontal-democrático, onde as sobera-nias são necessariamente limitadas, ao abrigo do Direito Natural. Mas Espinosa (em vir-tude dos preconceitos do Establishment a seu respeito...) foi muito pouco ouvido e ensi-nado, tanto na 1ª como na 2ª Modernidades. E ainda hoje, ele prossegue o seu triste fado, por uma primeira e última ratio: ele não fez cedências à cartilha do Poder-Dominação d’abord, cuja cultura imperial(ista) continua, infelizmente, no tempo que nos foi dado pa-ra viver!...
Quanta cegueira, ilusão e evasão, quantas guerras e males morais, que o processo civilizatório produziu e acumulou, ao longo de dois milénios e meio, na Cultura/ /Civili-zação do Ocidente, pela simples razão fundamental de não se ter dado ouvidos às Mensa-gens gêmeas de Sócrates e de Jesus, e, em resumo, a Escola (alexandrina) dos Gnósti-cos judeo-cristãos primevos!... Confunde-se e mistura-se tudo no mesmo saco das fata-lidades e das predestinações: os males físicos e os biológicos, dum lado, e os males mo-rais, do outro. Enquanto este horizonte ingénuo, simplista e acrítico continuar, havemos de pre-cisar sempre de muita Metafísica e de um Deus extrínseco e transcendente, que nos go-verne e providencie sobre as Sociedades humanas. Ao mesmo tempo, os humanos terão de abdicar da sua Liberdade Responsável e contentar-se com essa ‘lei do pêndulo’, que é a sua condição do ‘livre arbítrio’ (acerca do qual dissertaram: Paulo, Agostinho, Lute-ro, Erasmo, e tutti quanti, na História da Cultura Ocidental).
Mas, afinal, no que tange ao entrosado de toda esta problemática, Eduardo Lou-renço e José Saramago (apesar do prisma criticista do primeiro ser razoavelmente dife-rente do prisma do segundo) encontram-se na mesma Nau transoceânica. Escreve, assim, E.L. a propósito das posições confessadamente ateias de J.S. (ibi, p.11): “ A sua ‘cruzada contra Deus’, a espécie de Western metafísico implacável em que a converteu, é filha de uma funda vivência, de uma humaníssima vulnerabilidade, frente à universal e aterradora presença do Mal. Não tanto do chamado mal metafísico ou ôntico (se tal é possível), do mal como rosto humano. Não seria arriscado pensar que a manifestação desta presença — para além da sua vivência entre os outros — tenha adquirido a seus olhos a figura de um anti-Deus e, em seguida, de um não-Deus diante da ficção comum da Humanidade que chamamos História”.
De facto, muito pouco ou nenhum interesse estratégico terá invocar a figura de um anti-Deus ou não-Deus para explicar essa realidade trágica, registada pela História e ainda bem presente nas nossas Sociedades contemporâneas, que é ‘o mal com rosto hu-mano’. O Demiurgo dos Gnósticos, concebido e estabelecido como o Ersatz do Deus criador, omnipotente e omnisciente, de hebreus/judeus, cristãos e islâmicos, já facultava essa explicação, de modo cabal. Todavia, a grande Diferença da Weltanschauung dos Gnósticos judeo-cristãos primevos, em confronto com os prosélitas das três religiões mo-noteístas, consistia justamente no seu revolucionário programa antropológico social-so-cietário, precisamente no horizonte das Mensagens gêmeas de Sócrates e de Jesus. (Estas duas Mensagens já foram, por nós, recuperadas e caracterizadas em vários livros, mas es-pecialmente em: ‘Sócrates e Jesus — Esses Desconhecidos: as duas Mensagens Gêmeas’; e ‘Traição de São Paulo’ ou ‘Despaulinizar o N.T. sob o signo do Jesuanismo’, na edição Br. da Edicon, São Paulo).
Como é sabido, a sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord, que, proh dolor, ainda persiste actualmente, mesmo na mais esclarecida das Culturas mundiais, a Ocidental, sempre tem obstruído e exterminado o Projecto social-societário dos Gnós-ticos (que são os primeiros agnósticos/ateus, do ponto de vista teológico), o qual fixava a sua âncora, precisamente, no tesário da Liberdade Responsável dos Seres humanos, qua tais, de todos os Seres humanos, que, uma vez formados e educados, poderiam dar-se as mãos para edificarem uma Sociedade Humana digna do nome, a um só tempo saudável e salvífica.
Na mundividência e no contexto de J.S. e E.L., a Literatura (quer como realida-de projectada de uma ficção, quer como ficção/descrição de uma realidade trágica) bem pode procurar e construir explicações para o espectáculo tenebroso do Mal em geral e, especificamente, do Mal moral... Ora, se nem as Lições da História são aprendidas, co-mo se impõe, que se pode esperar das Lições procedentes da Literatura?!... É por tudo isto que, em termos históricos, as Sociedades humanas continuam a funcionar, em roda livre, no estafado esquema do eterno retorno nietzscheano!...
Para os dois pensadores/filósofos, a História é perspectivada no horizonte objec-tivo-objectualista, e concebida como uma sorte de ‘cuir de chagrin’ (marcado pela deso-lação e pela dor, pela melancolia e pela tristeza), onde as leis que imperam são de ordem determinística/fatalista: é nesse espaço-tempo sombrio, na melhor das hipóteses claro/es-curo, que uns procuram uma Divindade oculta, para a responsabilizar, outros entendem que é mister descartar-se dela o mais cedo possível, mas sem nunca cuidarem de mudar, na sua concepção antropológica, o teclado do instrumento musical, ou seja, a ‘lei do pên-dulo’ que é o livre arbítrio.
Escreve E.L. sobre a mundividência da História de J.S. (ibidem): “ Foi — parece--me — nesse espelho monstruoso e sublimado do nosso destino, que os avatares do Mal adquiriram, para ele, esse estatuto mítico. Mas também porque no seu propósito de lutar contra as mais recorrentes formas do Mal — a injustiça, a prepotência, a opressão, a cru-eldade, o menosprezo da condição humana — foi na História como narrativa dos males, e sobretudo dos Males apresentados como Bens, que a sua imaginação banhou para inven-tar, através da sua revisitação, uma contra-História ou uma a-História. Aquela que é o palco onírico dos seus sonhos verdadeiros, os de Blimunda, de Bartolomeu, de Lídia, do mesmo Jesus de Nazaré”.
Ao abrigo da cartilha de funcionamento do ‘livre arbítrio’, os chefes e as elites societárias quase nunca são responsabilizados dos males cometidos; até porque, a priori, eles são considerados como responsáveis por todos os bens que acontecem. Entretanto, quando as coisas correm mal, são sempre ‘os pequenos’ (as extensões dos processos em curso...) a serem responsabilizados, com a imediata formação da culpa e do culpado. Considere-se o binómio dilemático: É preciso responsabilizar Deus pelos Males do Mun-do... Mas os Males não têm sujeito responsável por detrás!... É caso para sentenciar, es-clarecidamente: entre as duas soluções venha o Diabo e escolha! Quer isto dizer que nem uma solução, nem a outra têm consistência filosófica séria.
Identificando o prisma supremo da visão crítica de J.S., escreve E.L. (ibidem):
“E então pensou e sentiu sem fim que Deus não se saía muito bem deste passo, remeten-do para a culpa a responsabilidade dos males [o pecado original?...] e do Mal para os so-nhos dos homens, do Homem. Stendhal resolvera, em tempos, a questão por sua conta, mais lógica mas talvez menos profundamente, escrevendo que não se podia culpar Deus dos horrores de que a História está feita, porque não havia sujeito de culpa. Segundo ele, o Mal não tem sujeito por trás”.
Afinal, nesta mesma quaestio, Stendhal parece-nos mais profundo que J.S., visto que se aproxima muito mais do pensamento gnóstico: é patente em S. o pressuposto da doutrina da Liberdade Responsável, da qual decorre a necessidade da demanda: saber, de modo bem preciso, a quem cabe a culpa!... Os povos ibéricos não têm sido, historica-mente, mais predestinacionistas que os gauleses, sempre mais proclives ao gosto/sabor da Liberdade?!...
E.L. conclui o seu ‘artigo blindado’, como segue (ibidem): “Saramago, mais sen-sível e português nisso, exigiu com todas as forças do seu coração e da sua vontade um Deus que assumisse os males, que a narrativa bíblica imputa à desobediência humana e que um Deus bom devia ter impedido. Não são elucubrações teológicas as de Saramago — embora o autor do ‘Memorial...’ seja um ‘teólogo’ espontâneo —, mas apenas exigên-cia existencial, resposta, se não grito de culpado inocente, que inverte e subverte a essên-cia do conto sagrado, substituindo-o por um conto puramente humano. Para isso, parado-xalmente, necessita daquele Deus em que não crê, como utopicamente se diz, mas em que crê superlativamente em termos de ficção, para dar sentido — e mesmo tornar possí-vel — o processo de Deus como referente supremo da História. Quem pode separar o Deus da ficção da ficção de Deus?”.
A obra de J.S., como de resto este texto de E.L. e sua mundividência crítica, es-tão repletos de aporias e paradoxos... ‘passagens de nível’ sem guarda, diríamos na lin-guagem dos Caminhos de ferro. O ‘órgão’ psico-sócio-antropológico, que aí se vê a fun-cionar, é o puro ‘livre arbítrio’, e nada mais... a não ser o odre em que ele se move: a Divindade ou a História, com a sua energia de predestinação/providência ou de puro e simples determinismo. O Leit-motiv, que predomina, é sempre o do primado (absoluto) do Poder sobre o Saber. Não se conhece outra gramática de funcionamento psico-sócio--antropológico.
Eis por que, quando se pressupõe ou conclui, argumentando, que um Deus bom deveria ter impedido toda essa ladainha infinda de Males, que a História das Culturas e das Civilizações regista, o que é facultado à percepção dos ouvintes e dos leitores é sem-pre uma Divindade/Poder extrínseca e transcendente, separada por abismos do univer-so humano. Nunca é o ‘intimior intimo meo’ de Aurélio Agostinho, de Sócrates e de Je-sus, dos Gnósticos judeo-cristãos primevos, os primeiros agnósticos/ateus, que nos ensi-naram essa revolucionária Alavanca de Arquimedes, que é a Liberdade Responsável dos Indivíduos-Pessoas/Cidadãos, ancorada na sua Consciência pessoal, reflexiva e crítica.
PODE ILUDIR-SE A CONSCIÊNCIA...
MAS NÃO SE PODE ELUDIR/ELIDI-LA!...
No horizonte da Evolução cósmica da Vida (cosmogénese e biogénese nela im-bricada), no patamar do chamado ‘Homo Sapiens/Sapiens’ e ao nível da sua psico-só-cio-antropologia específica, não é legítimo, nem justo (porque a Justiça em acção cons-titui parte integrante do Psico-Sócio-Ânthropos do ‘H.S./S.’), iludir as Consciências dos Indivíduos-Pessoas... Até porque elas não podem, em rigor ontológico, ser eludidas e, muito menos, elididas!... Tão-somente, elas terão de ser reconhecidas e respeitadas.
Em confronto com Thomas Hobbes (e depois, os modernos filósofos anglófo-nos: John Locke, David Hume, Adam Smith), que se amarrou, nos seus pressupostos para a moderna Filosofia Política, ao cliché da religião, entendida abstracto-genericamente, Bento de Espinosa, no quadrante dos seus pressupostos para a edificação da Filosofia Po-lítica, manteve por inteiro a teologia política da Tradição, mas re-entendendo-a de modo crítico. Residiu, aí, precisamente, o segredo da fecundidade e da coerência da sua teoria/ /doutrina política (ao longo de toda a Modernidade ocidental).
Há uma psicanalítica fenda sísmica nos comportamentos e na Cultura do Ociden-te, que o impede de se ver a si mesmo, criticamente, no espelho, à força de, historicamen-te, se haver extrovertido em Descobrimentos, Conquistas e Dominações de toda a sorte sobre o resto do Mundo!... O ‘Mal-Estar na Civilização’, vituperado por Freud e Ein-stein (nas décadas de 20/30 do séc. XX), concernia, antes de tudo, à Civilização Ociden-tal, enquanto protagonista de uma Civilização em curso de mundialização. É nesta óptica que o Ocidente, enquanto vanguardista indiscutido e irredento, em termos tecnológicos e tecnocientíficos, se habituou a tomar a nuvem por Juno: por exemplo, ao criticar e com-bater as religiões, em nome das doutrinas do Iluminismo, fá-lo, na generalidade dos ca-sos, tão abstracta e genericamente, que não se dá conta do que, acima de tudo, está mes-mo em causa: as religiões institucionalizadas, enquanto tais... O mesmo é dizer: a ques-tão central/nuclear do Poder!...
Desta maneira, soam a um verdadeiro toque de gong, nas audiências culturais do Ocidente, as advertências críticas que um filósofo (e artista) muçulmano (ismaelita) culto, como Aziz Esmail (indiano de origem e naturalizado no Quénia), foi capaz de proferir como frechas, dirigidas à ‘consciência’ embotada e autista do Ocidente: uma vez que per-deu o ‘ouvido’ (a linguagem tem a sua musicalidade natural e é aí que o nosso ouvido se educa...) da fé (religiosa...), ‘o Ocidente deve prestar mais atenção à Religião’ (cf. ‘Ex-presso’/Actual, nº cit., pp.54-56).
Em termos metodológicos, o filósofo Esmail está, muito justa e acertadamente, contra toda a sorte de compartimentação dos Saberes, à semelhança do que acontecia com os antigos e clássicos filósofos humanistas. ‘Há uma negação do poder histórico da fé na evolução das sociedades europeias’ (ibi, p.54), — argumenta ele. E o seu esclarecimento é ad hominem: a) a tradição islâmica tem feito o seu percurso histórico, ligada ao que era a antiga tradição judaico-cristã; b) na ruptura operada nos últimos quatro séculos da Mo-dernidade, os europeus foram mais contundentes e radicais do que os americanos (cf. ibi-dem).
“Uma das razões por que as sociedades ocidentais acham tão difícil compreender o Islão, é porque não têm uma visão religiosa do mundo, não entendem o poder da fé. Se os europeus pudessem entender o seu próprio passado, ser-lhes-ia mais fácil perceber por que é que os seus ‘primos muçulmanos’ (primos espirituais na tradição abraâmica) se agarram à fé” (idem, ibidem). Aziz Esmail sabe muito bem onde se encontra a forja da Revolução cultural em demanda da Modernidade, para todos os povos e nações; por isso, ele põe igualmente o dedo na ferida: a “escola é um lugar onde as pessoas devem ser encorajadas a ser cidadãos e a fazer parte de uma cultura mais abrangente. E os símbolos religiosos, tribais ou étnicos, impedem-no” (ibidem).
À força de descobrir, conquistar e dominar outros territórios, povos e nações, o Ocidente perdeu-se a si próprio, na medida em que secou ou cortou as raízes da Árvore, que lhe garantiam a seiva e a vida. Pôs-se a funcionar em roda livre e virou paranóico e autista. Nesta mesma óptica, constituiu, sem dúvida, um bom protesto crítico de ordem cultural e política o livro de Martine Bulard e Jack Dion: ‘L’Occident Malade de l’Occi-dent’ (Fayard, Paris, 2009). É a bem diagnosticada doença do ocidentalo-centrismo.
“O Ocidente vive hoje como uma cidadela sitiada. Minada do interior por uma crise sistémica, durável portanto, detentor de uma liderança cada vez mais contestada, ele sente-se assaltado por uma multidão de ‘inimigos’ exteriores. Visto através do prisma ocidentalo-cêntrico, o mundo reduz-se a um eterno afrontamento entre ‘eles’ (os Chine-ses, os Russos, os Árabo-muçulmanos...) e ‘nós’” (na contracapa do livro cit.).
Na sua metodologia, bem avisada, Aziz Esmail procura recuperar e reabilitar, co-mo filósofo, a perdida Identidade humana, qua humana, que está a ser avassalada pelo dilúvio das tecnologias difundidas imperialisticamente, cujas consequências são o inevi-tável corte das raízes, que alimentavam a Árvore!... Quando todos os saberes se resumem ou submetem ao saber tecnológico, todo o Saber começará a ser puramente tecnológico... Os Humanos terão desaparecido, para só restarem marionetas e bonecos de Stº Aleixo!...
O filósofo (que não gosta da expressão ‘filosofia islâmica’, prefere a fórmula ‘pensamento sistemático’!...) advertiu: ‘É aqui [no corte das raízes] que reside o perigo; até o capitalismo perde sentido, se se desligar das suas raízes judaico-cristãs’ (loc. cit., p.55). Esmail chamou, ainda, a atenção para o que pode representar, em termos de teoria e doutrina política, o enigma da Revelação (nas três religiões monoteístas); e não se es-queceu de salientar o óbvio: ‘o moderno pensamento secular não tem vocabulário para a compreender, não nos são disponibilizados conceitos, que nos possam fazer entendê-la do ponto de vista humanístico’ (loc. cit., p.56).
O filósofo humanista acertou na área precisa do Alvo: os centros do pensar e do agir, que são os Humanos, os Sujeitos individuais-pessoais, cuja Consciência tem sido sempre obliterada e repelida, pelo Processo civilizatório, ao longo da História das Socie-dades humanas... seja na vertente tradicionalista dos Poderes autoritaristas das Religiões institucionalizadas, seja na vertente, tingida de Modernidade, das Revoluções indus-triais e tecnocientíficas. Nos dois horizontes — não pode esquecer-se —, o fenómeno da Consciência humana, qua tal, foi, pura e simplesmente, banido ou, então, mantido numa ignorância ignava e ignara. (A ‘caixa dos segredos’ das elites de ‘má fé’ só fez serventia às explorações financeiras da magia branca ou negra, ou aos truques de prepotência na gouvernance dos Estados).
Na entrevista citada a Luísa Meireles, o prof. Esmail exprime uma opinião escla-recida e crítica sobre o processo de secularização no Islão, a introdução ocidental da no-ção de Estado e o relacionamento entre a Religião e o Estado. “Mas então, se o Ocidente desenvolveu um pensamento racionalista, que se passou com o Islão? Há quem negue o processo de secularização no seio das sociedades islâmicas, mas o professor adverte: ‘Depende do que se entende pelo termo’. Se é a separação entre o poder da Igreja e do Estado, não ocorreu, em parte porque não existia uma Igreja e, em parte, porque o Estado também não existia no mundo muçulmano, até à chegada dos poderes coloniais e da mo-dernidade, — afinal de contas, as nações muçulmanas são um produto da História política europeia.
“Mas, ‘se entendermos a secularização como um pensamento que assenta na ra-zão e é livre do dogma, então existem muitos exemplos no Islão. Temos tendência para confundir a religião com a cultura islâmica, mas esta é muito mais abrangente, — que di-zer, pois, da poesia da celebração do vinho, do sexo, da pompa e do prazer, que constituía a poesia da corte dos grandes Abássidas’, pergunta-se Esmail. ‘É a poesia secular, no sen-tido em que celebra a glória da vida mundana, — tal como era secular o pensamento filo-sófico presente em Al-Farabi, Avicena ou Averróis, entre os sécs. IX e XII’. Não é essa, porém, a percepção de muitos, que pensam as que expressões do mundo islâmico são to-das religiosas. Esmail lamenta que essa ideia seja encorajada pelos próprios muçulmanos: ‘É uma visão ideológica, porque todas as provas indicam que há uma grande variedade de literatura e de pensamento no Islão’” (ibidem).
Esmail não toma a nuvem por Juno: sabe assumir criticamente as categorias filo-sóficas e políticas da Cultura do Ocidente, como sabe assumir criticamente as categorias filosófico-culturais do mundo Islâmico, sem esquecer o processo da colonização do mun-do islâmico por parte do Ocidente e, aí, a introdução moderna do movimento da seculari-zação. Por isso tudo, o filósofo não tem uma ‘resposta a preto e branco’ sobre a questão da imposição da fé na esfera pública. (Espinosa — como já observámos — era mais radi-cal nesta matéria!...). E a sua sensibilidade crítica leva-o a desconstruir a fórmula habi-tual: ‘o Islão é uma forma de vida’, no sentido de não implicar a separação entre o mate-rial e o espiritual (à boa maneira do dualismo praxístico da Cristandade ocidental) (cf. ibidem). A citada fórmula é por ele entendida do seguinte modo: ‘Forma de vida é sempre que um crente leva a sério a sua fé, qualquer que ela seja’ (ibidem).
É óbvio que, segundo esta gramática, a autenticidade de vida se encontra do la-do do Islão (como, aliás, havia percebido o filósofo marxiano ocidental, Roger Garaudy, que se converteu ao Islão, na década de 80 do séc. XX), contra os dualismos, metafísicos e societários, as duplicidades e as hipocrisias, que têm sido a prática corrente no mundo cristão. Ora, uma vida autêntica e íntegra está sempre em melhores condições, não só pa-ra encarar e resolver os problemas do presente, como também para projectar um futuro digno dos Humanos.
Aziz Esmail entendeu criticamente que a Modernidade falhou no mundo islâ-mico... Mas ela — questionamos nós — não falhou, igualmente, no mundo cristão oci-dental?!... Escreve Luísa Meireles (ibidem): “ Esmail vai à raiz das coisas, acha que o mundo islâmico falhou em desenvolver a sua própria linguagem da modernidade, ‘em parte porque a sua fase moderna coincidiu com a dominação dos poderes ocidentais, mas também devido ao seu próprio fracasso em atingir a modernidade seguindo o seu cami-nho’. Não teve o tempo histórico para o fazer. O discurso antiocidental inicial, que depois se manifesta através do nacionalismo marxista, acaba, com o fim deste, por encontrar no Islão a sua expressão de revolta: ‘O fundamentalismo é isso mesmo, um movimento de protesto’”.
— Quem comanda, nos bastidores, as operações da sócio-história à escala global, por forma a transformar os seus interlocutores, em, tanto na 1ª fase como na 2ª fase, bo-necos de Stº Aleixo?!... Sempre o Ocidente!... Eis por que, na psico-sócio-história, à es-cala universal, e tendo em conta a sempiterna e universal Cultura do Poder-Dominação d’abord, a questão do Tempo histórico oportuno para encetar o processo de Libertação e Autonomia, é absolutamente importante e decisiva, para todos os povos e nações que, em determinadas épocas da História, estiveram sob o martelo-pilão da colonização ou so-freram o jugo da opressão/dominação, por parte de outros Estados ou Impérios.
Mas destas tristes e trágicas realidades, que a História universal das Civilizações e dos Estados/Nações tem registado, não se deverá, também, extrair a Lectio no sentido de o mais forte e poderoso ser capaz de operar o seu haraquiri, que o capacite para con-verter o seu paternalismo/despotismo imperial em cooperação em-pé-de-igualdade com os povos e nações outrora subjugados e oprimidos?! A Cultura/Civilização do Ocidente, se for capaz de escutar, atentamente, as Mensagens revolucionárias de Sócrates e de Je-sus, está habilitada para se lançar a esta proeza.
Esta última opção/orientação sócio-histórica e política é tanto mais pertinente e decisiva, quanto, em boa verdade, mesmo joeirada por toda a hermenêutica possível, o Ocidente, no seu universo ideológico e filosófico, não pode nem deve alimentar ilusões sobre a presença real, em outros povos e nações, em outras civilizações, de conceitos e categorias mentais/sociais, os quais, atendendo ao metabolismo bio-cultural, só na Civili-zação Ocidental tiveram a sua odisseia histórica. É o que acontece com os lexemas: De-mocracia (directa ou indirecta/representativa); Estado (sua soberania: limitada ou ilimi-tada); relações entre o Estado e uma dada Religião societariamente institucionalizada na sua órbita (na condição de maioritária ou minoritária).
Algumas destas questões são abordadas, com honestidade e franqueza, no último parágrafo da entrevista do filósofo Esmail a Luísa Meireles (ibidem): “Outra coisa seria se o mundo muçulmano tivesse tido oportunidade de, por si só, ‘conceptualizar’ essas mudanças. Aziz Esmail pergunta: ‘Como elaboramos o conceito de democracia? No mundo muçulmano não existe vocbulário que ligue democracia à História islâmica, por isso se torna artificial’. E, para muitos muçulmanos, o seu conceito, nos termos em que o Ocidente o define, é inaceitável, diz. Seja como for, o filósofo pensa que os movimentos extremistas são minoritários e que o terrorismo, embora chocante e dramático, não é tão-pouco o principal problema. ‘O mundo muçulmano sofre da ausência de liberdade, de cultura, de educação, de pensamento científico’. Isso, sim, é a verdadeira crise. Isso, sim, é a questão de longo prazo”.
Ora, como a aposta nas revoluções políticas ou tecnológicas, polarizadas na sim-ples e estrutural mudança de Poderes, foi, hoje em dia, altamente desvalorizada nas agen-das estratégicas da Psico-Sócio-História, o que resta, para recuperar e salientar, rumo ao Futuro, é a revolução cultural susceptível de ser operada mediante os meios e as funções, próprias e específicas, da Escola e da Educação, em suma, dos Sistemas Educativos (prioritariamente as Escolas públicas, como é óbvio!) dos diferentes Estados/Nações.
O Ocidente está doente!...
A Cultura/Civilização do Ocidente acha-se gravemente enferma, afectada de um Triplo Mal (Moral/praxeológico e gnóseo-epistemológico) matricial, ao qual são recon-duzidos todos os restantes sectores da Malignidade (não se pode olvidar que esses três ti-pos de Mal fundamentais se encontram entrosados numa tríade, que pode ser perspecti-vada como uma trempe):
A) Ela entende e pratica a Política, de modo tão enviezado e reducionista (sempre dentro da sua cartilha Objectivo-Objectualista), que acaba por circunscrevê-la e polarizá--la, exclusivamente, na Economia; mas a concepção desta é, ainda, gravemente mutilada, visto que já não é da Oikonomia aristotélica, que se trata, mas do que o Filósofo denun-ciava com o termo pejorativo de Khrematística.
B) Entende e pratica, assim, uma Economia política dentro do catecismo (pre-ponderante e, no fim de contas, exclusivo...) do Sistema capitalista que é, por definição e princípio, amoral/imoral. Resultado desta praxis e desta praxeologia: o Economicismo imperante como Regra absoluta.
C) Entende e pratica esse Economicismo capitalista, precisamente, como a mo-derna Religião secular e laica, que pretende impor, absolutamente, como tal a todos os Estados ou Nações do Mundo. Quando se fala de Imperialismo à escala mundial (que o actual processo de globalização está proporcionando) é, em substância, do Economicis-mo capitalista que se trata (contemporaneamente balizado e conduzido pelas ditaduras financeiras e movimentos da Bolsa).
O processo civilizatório do Ocidente de tal modo apostou nesta Religião secular e laica do Economicismo capitalista, que partiu e parte, ainda, do pressuposto (no qual mantém a sua fé indefectível...) de que uma tal religião é capaz de levar de vencida todas as restantes Religiões tradicionais/tradicionalistas. Se, no passado, a História registou guerras e cruzadas em nome da Religião, o Sistema capitalista moderno, supostamente esclarecido, continua a fazer Economia política pelo mais diversificado leque de meios guerreiros, violentos, bélicos: de prepotência e dominação, de destruição e devastação. Não sabia já o general prussiano Karl von Clausewitz que a Guerra é a continuação da Política, por meios diferentes?!... Vistas bem as coisas, a essa trempe do Mal do Oci-dente vêm a reconduzir-se (pela positiva ou pela negativa), como penduricalhos na capa do Leviatão, todos os outros males (maleficências e malevolências) advenientes.
A Cultura oficial (não a subterrânea ou face escondida da Lua) do processo civi-lizatório do Ocidente, sempre forjada no horizonte do Objectivo-Objectualismo, evitou e impediu, absolutamente, que os Projectos socialistas (desde a Revolução leninista de Outubro de 1917 até ao presente, em todas as latitudes e longitudes do Mundo) vingas-sem, definitivamente, na sócio-história. Ao adoptar-se a estratégia metafísica do ‘tudo ou nada’, o plano socialista da Economia política foi concebido e praticado como radical-mente excludente das ‘forças do Mercado’. Desta sorte, a Economia política, centralmen-te planificada, só podia proceder e funcionar a partir dos Poderes Estabelecidos, ainda que pela via da Revolução... Os trabalhadores e os cidadãos, qua tais, não eram ouvidos e achados para nada!...
Em tal horizonte, os Projectos socialistas de transformação das Sociedades hu-manas resultaram completamente gorados!... É que o vero e autêntico Socialismo edifica--se a partir dessa Alavanca de Arquimedes, que são os Sujeitos humanos, livres e res-ponsáveis, não a partir de programas objectivo-objectuais, fixados pelos Poderes estabe-lecidos, ainda que revolucionários. O que na antiga U.R.S.S. tomou corpo, não foi um Projecto socialista; foi, outrossim, a aplicação do modelo do Capitalismo monopolista do Estado. Já na década de ’60 do séc. XX, J.K. Galbraith pôs criticamente de manifesto esta triste e dramática realidade, no seu livro célebre ‘O Novo Estado Industrial’ (Ed. Ci-vilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1969, 2ª ed.).
E, entretanto, todas as tentativas de moralizar o Capitalismo têm resultado malo-gradas até ao presente... precisamente, porque o Sistema capitalista é, por definição e princípio, amoral/imoral. (Vd. O artigo de Yvon Quiniou, Imposture du capitalisme mo-ral (in ‘Le Monde Diplomatique’, Julho de 2010, p.3). Ao longo de 2009, nas oitavas da eclosão da Crise Financeira actual, ainda se ouviam algumas vozes (de analistas e de po-líticos) a clamar pela moralização do Sistema, com receio de ele vir a ser posto em causa. As promessas dessas vozes cairam em saco roto. Não resta outra coisa senão a mistifica-ção e a aldrabice da sempiterna Dominação dos despossuídos pelos possidónios.
É que, na verdade, “a imoralidade é constitutiva do capitalismo, contrariamente à concepção, que pretende fazer da economia uma realidade que escape à moral” (idem, ibi). Nunca se poderá esquecer que o Sistema capitalista se converteu numa vera religião, oficialmente institucionalizada, desde ‘A Riqueza das Nações...’ (1776) de Adam Smith (a Bíblia do Capitalismo). Ora, as religiões institucionalizadas — todas elas — são pouco susceptíveis a alterações substanciais!...
O último toque de gong, sonoro e com alcance universal, no sentido da necessá-ria e imprescindível superação do Sistema capitalista, foi dado, há século e meio, pelo Marxismo e pelo Humanismo marxista. Que valeu e que efeitos produziu, até ao pre-sente, o grito de K. Marx, nos ‘Manuscrits de 1844’, reivindicando que a Economia é ‘uma ciência moral real, a mais moral de todas as ciências’?!... Como esta reivindicação marxiana não foi teorizada, nas obras da maturidade, o espaço específico da Cultura nesta área ficou entregue a toda a sorte de reducionismos selvagens, no sentido do positivismo e do mecanicismo cientificistas, ditados pelo que nós temos chamado, no C.E.H.C., a re-ligião do Objectivo-Objectualismo.
Alguns arautos desta ciência degenerada da Economia política: Milton Friedman e a escola neoliberalista de Chicago (para M.F., que valorizou ao máximo a teoria quanti-tativa da moeda, todas as actividades humanas devem submeter-se à Lei do Mercado... às leis da oferta e da procura); Friedrich Hayek (da escola austríaca) e a sua ‘bandeira negra’ da ‘destruição criadora’; André Comte-Sponville, que prossegue cometendo o erro (ob-jectivo-objectualista) de, no universo da vida social, colocar sempre em 1º plano a Eco-nomia, — o que é levado a efeito, por força das distinções, aí estabelecidas, entre a ordem científico-técnica, a ordem jurídico-política, a ordem moral e a ordem ética (= amor).
À rebelia deste horizonte fraudulento, devemos saber e reconhecer que as ‘leis económicas’, uma vez que pertencem à praxis societária, recaem todas sob os espaços da legislação da Ética/Moral. Eis por que o que nos cumpre reivindicar e exigir, não é, em rigor, a moralização do Sistema capitalista, uma vez que ‘exigir a sua moralização deverá conduzir, realmente, à exigência da sua supressão, por maior que seja a dificuldade da ta-refa’ (idem, ibidem). Todavia, é preciso, para que o plano crítico seja eficaz, escolher o caminho certo e original, baseado, justamente, em 1ª e última instância, nas Consciências dos Indivíduos-Pessoas/Cidadãos.
Na esteira de Emmanuel Kant, “é o critério do universal que manda respeitar o outro, não o instrumentalizar, e que exige a promoção da sua autonomia. Desembaraçado de qualquer pressuposto metafísico ou religioso, ele exige que suprimamos a dominação política (o que é, em parte, realizado pelas instituições democráticas), a opressão social (o que foi feito, em parte, através dos direitos conquistados, desde o séc. XIX, pelo mo-vimento operário), mas, de igual modo, a exploração económica: esta é preciso ganhá-la, ainda, em larga medida. Só assim se poderá proteger e aprofundar, mediante a política, os adquiridos morais obtidos nos outros domínios” (idem, ibidem).
O neoliberalismo capitalista global conduziu o Sistema capitalista a um patente paroxismo agónico demencial. Uma inteligência sensata e crítica, no meio da actual Cri-se Financeira®Económica, facilmente chega à conclusão de que é uma aposta impossí-vel a redução da dívida pública sem alterar os mecanismos que a originaram. Curiosa-mente, Jacques Attali (o ‘delfim’ dos economistas franceses vivos) e outros (armados em ‘chicos espertos’), diante do ‘muro das Lamentações’, só sabem repetir o refrão: a auste-ridade ou a guerra!... (cf. loc. cit., p.10). Tertium non datur... Triste e desgraçado mun-do, o nosso!...
• Que é a Consciência humana, como funciona e para que serve?!
— Não vamos, aqui, responder directamente a estas três questões fundamen-talíssimas do ‘Homo Sapiens/Sapiens’. Já o fizémos, a um nível ineditamente razoável, no nosso livro anterior, ‘‘Memória Genética’: Avaliações e Enquadramento Crítico’ (Ju-nho de 2010: edição electrónica na Web, pela NOÉTICA, São Paulo/Br. e Mundo). Tó-picos mais relevantes aí desenvolvidos: a Consciência como fenómeno epigenético (pp. 28-34); a Consciência opera em esquema triangular (pp.34-39); o fenómeno da Cons-ciência humana no Homo Sapiens/Sapiens (pp.66-70); Deus e a Consciência (pp.71-76).
O nosso intuito, aqui e agora, é tão-só o de facultar aos leitores alguns exemplos ou situações configuradas, onde o fenómeno da Consciência surge, indubitavelmente, ora como Enigma à espera de ser identificado, ora como Enigma que, muito simples-mente, se pressupõe (e como tal continua) para que o discurso, na linguagem oral, faça sentido e, na linguagem escrita, permita a articulação com sentido da diegése do discurso.
Entretanto, para que o metabolismo (neste caso, cultural!) cumpra o seu proces-sus ‘natural’ de assimilação, por parte do organismo, culturalmente vivo, vamos, aqui, proceder à evocação e ao esclarecimento mnémico de quatro tópicos importantes e decisi-vos:
A) A Consciência, primeira e fontal, é do Indivíduo-Pessoa, enquanto tal. B) Não é simplesmente homologável ao Conhecimento (objectivo-objectual) e seu proces-sus; por outras palavras, ela não é ‘o conhecimento do conhecimento’ (como num plano linear, sem desnivelamento...), tal como tem sido concebida e pressuposta, pelos investi-gadores da matéria. C) Apresenta-se como um ‘absoluto’ humano inabalável, que é mo-ralmente obrigtório reconhecer e respeitar. D) O funcionamento da Consciência humana configura-se numa geometria relacional triádica.
A) Original e fontalmente, a Consciência é do Indivíduo-Pessoa/Cidadão, co-mo seu Sujeito inabalável e insubstituível. Essa Consciência é o princeps analogatorum; a consciência de um dado Grupo ou a consciência colectiva de toda uma Sociedade na-cional, já são os analogata da 1ª Realidade. Esta é que constitui o berço onde a Consci-ência emerge e o guarda-roupa onde ela toma corpo e dirige as operações da representa-ção. O puzzle de elementos que entram em jogo: a Identidade do Indivíduo-Pessoa; noção de Indivíduo: ‘indistinctum in se et distinctum a quolibet alio’; noção de Pessoa: centro de relações responsáveis, ad intra e ad extra: consigo mesma e com as outras pessoas.
Nesta perspectiva tópica, não é despiciendo recuperar a semântica positiva (não a negativa...) de ‘Der Einzige’ (o Único) de Max Stirner (1806-1856). Enquadrado na chamada ‘Esquerda Hegeliana’ (mais precisamente na escola de L. Feuerbach e B. Bauer, M. Stirner vê o seu livro principal publicado em 1845: ‘Der Einzige und sein Eigentum’ (‘O Único e a sua propriedade’). O Indivíduo é encarado, por M.S., como um absoluto, anterior a toda a exterioridade (quer seja a das criações objectualizadas do espírito huma-no, quer seja a dos diversos ‘eus’ singulares e concretos).
Uma das teses centrais, nesta obra de M.S., é sintomática e esclarecedora: as doutrinas conservadoras, liberais/liberalistas ou socialistas constituem formas evolucioná-rias da Religião, as quais foram superando as antigas idolatrias das religiões instituciona-lizadas; ao mesmo tempo, elas acabam por abafar e estiolar o único valioso, i.e., a von-tade de auto-afirmação do Eu individual. As doutrinas converteram-se em novas reli-giões institucionalizadas... Daí decorre o ‘imperativo categórico’ stirneriano: a necessida-de moral de afirmação do ‘Eu/único’: a rebelião de todos contra tudo!... O único encon-trou, entretanto, a possibilidade de se associar com outros únicos, numa nova Sociedade, que ultrapassa o Estado e a Sociedade em que se vegeta.
Não é errado aproximar a ideologia de M.S. dos anarquistas (v.g. russos e espa-nhóis dos sécs. XIX/XX) ou dos existencialistas ateus francófonos do séc. XX. Mas já consideramos erróneo assumi-la como ante-câmara do ‘Übermensch’ (super-homem) de F. Nietzsche. O espaldar da cadeira, onde se assenta ‘o único’ de M.S., ainda não é, ex-pressamente, a nossa noção de Consciência (real) como um absoluto... mas é indiscutível que o alvo para que aponta, implicitamente, é mesmo esse.
B) Aqui, em jeito de um esclarecimento ulterior ao já exposto acima, é suficiente acrescentar: Mais do que um ‘conhecimento do conhecimento’, a Consciência é ‘testis’ (= testemunha), capaz de proporcionar um ‘testimonium’. O rift ou desdobramento origi-nal do Sujeito humano, enquanto tal, que obriga a uma formulação completa do Princí-pio de Identidade (= Princípio de Identidade e Contradição!...), no plano do Conheci-mento objectivo-objectual, é aí mesmo que tem o seu início: na condição de Testemu-nha, que é a própria Consciência do Indivíduo-Pessoa.
C) A Consciência individual-pessoal configura-se como um absoluto humano, perante o qual a obrigação ético-moral dos familiares, dos camaradas de convívio e de to-dos os outros seres humanos é a de o reconhecerem e respeitarem. Se as Sociedades hu-manas, em vez de se estruturarem a partir do Poder d’abord, se associassem e organizas-sem a partir desses absolutos, que são as Consciências dos Indivíduos-Pessoas, em per-manente Diálogo crítico umas com as outras, então, sim, as Sociedades humanas seriam verazes e justas, dignas do nome que ostentam na fronte!...
D) Ao falarmos da geometria relacional triádica, sob a qual se apresenta e con-figura o funcionamento da Consciência humana, estamos a referir-nos: 1. ao Eu iden-titário do Sujeito livre e responsável, que responde, perante os outros (em termos ético--morais ou jurídicos), pelos seus actos, posições e comportamento; 2. ao conhecimento (objectivo/objectual) de que se apropriou o Eu identitário, mediante a sua percepção in-teligente, e que, na situação concreta, constitui matéria de juízo/julgamento; 3. a condi-ção de ‘testis’ (= testemunha) assumida pela consciência do Eu identitário. (O exercício da testemunha acontece ad intra, in actu exercito, e ad extra — relativamente aos com-panheiros de viagem do Eu identitário — apenas in actu signato).
• No horizonte dos Gnósticos judeo-cristãos primevos (sécs. I a.E.C.-IV E.C.).
Na galáxia da Gilania Ancestral (que foi extinta e soterrada há ca. de 5.500 anos, por obra e desgraça da emergente Civilização patriarcal/machista), a escola (ale-xandrina) dos Gnósticos judeo-cristãos primevos, que perdurou desde o séc. I a.E.C. até ao séc. IV da E.C.(em cuja atmosfera — que Sócrates, 4 séculos antes, também partilhara — Jesus ‘o nazorêu’ se inseriu plenamente como seu expoente máximo), constitui, ao ca-bo de dois milénios de Cultura/Civilização dita cristã (helénica/judeo-cristã), a única (en-quanto primacial e decisiva) Tábua de Salvação, a partir da qual se pode entrever algum Futuro decente para a Humanidade, nos Tempos hodiernos, em que as Sociedades huma-nas se encontram na mais dramática e trágica encruzilhada histórica, mais agravada, ain-da, porque ocorre à escala global do Planeta Terra.
Não vamos, aqui, explanar e desenvolver, ex professo, o pensamento e a doutri-na dos Gnósticos (oximoricamente, os primeiros agnósticos ou ateus da História Cultural do Ocidente). Este empreendimento já foi razoavelmente cumprido pelo C.E.H.C., G.G., TN-Comunic, Jeroglífo e Eintritt Frei, na colecção (editada pela EDICON, São Paulo/ /Br.) ‘Debates Paralelos’/Vol.4: ‘A Palavra Jesuana, Textos Gnósticos & Outras Opi-niões’, de um grupo de 8 Autores (2007); e ‘Debates Paralelos’/Vol.5: ‘Q Jesuânica’ (História, Igreja-Estado, Política, Gnosticismo, Filosofia), de um grupo de 12 Autores (2009). Remetemos para estes estudos os nossos leitores. Uma referência, entretanto, para as duas publicações principais, em português, das Escrituras Gnósticas: Biblioteca de Nag Hammadi, editada pela ÉSQUILO: I — ‘O Livro Secreto de João e outros Textos Gnósticos’, Lisboa, 2005; II — ‘Evangelhos Gnósticos’, Lisboa, 2005. III — ‘A Revela-ção de Pedro e outros Textos Gnósticos’, Lisboa, 2005. ‘A Biblioteca de Nag Hamma-di’/ /A Tradução Completa das Escrituras Gnósticas, org. de James M. Robinson, edição de MADRAS Editora, Lda., São Paulo/Br., 2006.
Na verdade, a escola dos Gnósticos judeo-cristãos primevos é o 1º Grande Gru-po de Humanos (que a História das Culturas e das Civilizações registou...), a configurar--se, esclarecida e criticamente, na galáxia da promoção e defesa do ‘Homo Sapiens/Sa-piens’ (quando ainda não se podia sonhar, sequer, com a teoria da Evolução e com esse patamar preciso da Psico-Sócio-Antropogénese). É, efectivamente, nesse horizonte, que eles estabelecem, com todas as consequências, duas Teses básicas e primordiais: A) o Primado (gnóseo-epistemológico e ontológico) do Saber sobre o Poder; B) o Primado práxico-político da Consciência do Indivíduo-Pessoa, sobre todas as restantes realidades do Universo.
Ora essas duas Teses têm sido, sistemicamente, esquecidas ou ignoradas, na his-tória bimilenar da Civilização/Cultura do Ocidente. Mais e pior: começaram a ser, positi-vamente, repudiadas e condenadas, logo no século II, aquando da formação (v.g., com o bispo Ireneu de Lyon; foi este senhor que brandiu a fórmula eclesiástica conhecida: ‘nihil sine episcopo’: o padre/presbítero não pode fazer nada sem a deliberação e o consenti-mento do seu bispo!...) do cânone do Novo Testamento cristão/paulino; e logo a seguir, no séc. IV (313 — edito de Milão, pelo imperador Constantino; 325 — 1º Concílio Ecu-ménico de Niceia a que presidiu o próprio Imperador Constantino, ainda nem sequer bap-tizado), com a Igreja cristã de Roma transformada em Igreja imperial/imperialista, ca-pital do novo Império, agora dito cristão (e não pagão!...).
As patranhas e os embustes, as mentiras e as injustiças (sempre na decorrência do primado — oposto— do Poder sobre o Saber, e calcando aos pés o fenómeno deli-cado da Consciência individual-pessoal!...) podiam, a partir daí, andar à rédea solta, (ru-mo a um futuro sempre incerto...), no trágico e dramático caminho da Psico-Sócio-Histó-ria, sempre rasgado pelos vencedores, ou seja, pelos mais poderosos e conquistadores, com o preço da humilhação e da submissão dos vencidos. O Socratismo e o Jesuanismo (teriam dito pontífices e imperadores... se tivessem, ainda, uma réstea de consciência) fo-ram, definitivamente, sepultados nos cafundós da História societária da Civilização oci-dental.
Pode, agora, perguntar-se: Mas nos textos canónicos das Escrituras, sobremanei-ra, no Novo Testamento, não se encontram indícios e faróis do Pensamento/Doutrina dos Gnósticos?!... Certamente que sim. A peça, sem dúvida, mais importante e decisiva, nesta matéria, é o famoso ‘Sermão da Montanha’, com que Jesus de Nazaré abre, solenemente, nos inícios da fase da sua vida pública, a pregação do seu Evangelho ou Boa-Nova. Aí mesmo se pode encontrar e identificar a bandeira nuclear (polarizadora/organizadora) da Mensagem evangélica de Jesus. Aí se pode lobrigar o símbolo máximo do Jesuanismo e do ‘Deus in nobis’ (‘Gott in Uns’ é o labaro das estações televisivas germânicas ‘Erde und Mens’ e ‘Neu Jesusalem’), que não é outra coisa senão o ‘intimior intimo meo’ de Aurélio Agostinho e da Cultura céltica.
O Sermão da Montanha pode encontrar-se no evangelho de Lucas (6,20-49); e no evangelho de Mateus (caps. 5-7). Escansão do quadro narrativo em Lc. 6, 20-49: a) Bem-aventuranças (20-23); b) Malquerenças (24-26; c) praticar o amor e a misericórdia em relação aos inimigos e aos que nos odeiam (27-36); d) não julgar e não condenar os outros, como condição para não ser julgado nem condenado (37-38); e) a iluminação da inteligência não deve servir para cavar a separação (eclesiástica...) entre docentes e dis-centes (39-46; f) é preciso pôr em harmonia o que se diz e o que se faz (47-49).
Escansão do quadro narrativo em Mt. (5-7): a) Bem-aventuranças, na perspectiva da edificação de um mundo novo (5,1-12); b) os apóstolos/discípulos devem ser sal da terra e luz do mundo (5,13-16); c) a justiça como perfeição da lei (5,17-20); d) a reconci-liação a seguir à ofensa (5,21-26); e) sobre o adultério e a fidelidade (5,27-32); f) sobre o juramento e a verdade (5,33-37); g) sobre a violência e a resistência (5,38-42); h) amar como o pai ama (5,43-48); i) é preciso superar a justiça dos hipócritas (6,1); j) sobre a re-lação com o próximo (6,2-4); k) sobre a relação com Deus (6,5-6); l) o ‘Pai-Nosso’ (6,7-15); m) sobre a relação consigo mesmo (6,16-18); n) sobre a escolha fundamental (6,19-24); o) sobre a busca fundamental (6,25-34); p) ninguém pode julgar (7,1-5); q) é preciso saber discernir (7,6); r) confiança no Pai (7,7-11); s) a regra de ouro (7,12); t) o Reino exige esforço e persistência (7,13-14); u) cuidado com as falsas promessas (7,15-20); v) a fé é uma prática (7,21-23); w) é preciso passar à acção (7,24-27); y) a autoridade de Jesus foi reconhecida pelos ouvintes (7,28-29).
Com mais clareza e contundência do que Mateus, Lucas salienta que as relações humanas, numa Sociedade Nova, não devem ser de julgamento e condenação, mas, ao contrário, orientadas pelo perdão e pela doação, na perspectiva da edificação de uma So-ciedade verdadeiramente fraterna (na linha horizontal/ista, e não na linha verticalista/pi-ramidal, da ‘Ecclesia docens’//’Ecclesia discens’).
Comentando a perícopa de Lc. 6,17-26, é a própria Biblia Pastoral (ed. Ediclu-be, 1999) que estabelece a relação entre o projecto das Bem-aventuranças e as impreca-ções das malquerenças: “Não é possível abençoar o pobre sem o libertar da pobreza. Não é possível libertar o pobre da pobreza sem denunciar o rico para o libertar da rique-za”. E, em comentário a Lc. 6,27-36, estabeleceu ainda: “A vida em sociedade é feita de relacionamentos de interesses e reciprocidade, que geram lucro, poder e prestígio. O Evangelho revoluciona o campo das relações humanas, mostrando que, numa sociedade justa e fraterna, as relações devem ser gratuitas, à semelhança do amor misericordioso do Pai”.
A Verdade e a Justiça são as duas Virtudes supremas, que os Gnósticos ju-deo-cristãos primevos mais prezavam. Ao lado do Justo e da Justiça, essa exigência de falar verdade é primacial e primordial, na linguagem e no discurso dos Gnósticos, de con-trário, nem se poderia assegurar o primado do Saber sobre o Poder, nem o reconheci-mento e o respeito da Consciência individual-pessoal como um absoluto. Não é, pois, de surpreender que Jesus, no Sermão da Montanha, tenha encarecido, sobremaneira, a exi-gência de dizer a verdade: ‘Que a tua palavra seja ‘sim’, quando é ‘sim’; e ‘não’, quando é ‘não’. O que disseres a mais vem do Maligno’ (Mt. 5,37).
A ‘geometria’ noética (e epistemológica) do Psico-Sócio-Ânthropos dos Gnós-ticos movimenta-se no relacionamento e na dinâmica do Interior para o Exterior e vice--versa. A vera humanização (horizontal/horizontalista) é por essa via que se processa. Ora, as Sociedades tradicionais e modernas, ambas marcadas (muito embora por atalhos diferenciados...) pela Cultura do Poder-Dominação d’abord, comportam-se e estrutu-ram-se segundo uma ‘geometria’ que procede do Superior para o Inferior (verticalmen-te) e vice-versa (tudo ancorado, em última instância, no Dualismo metafísico-ontoló-gico).
Atente-se, por exemplo, nos U.S.A., — a Nação/Estado, constituída em Repúbli-ca democrática, desde os ‘Founding Fathers’ e a guerra da Independência (1776-81), a qual pretende, ainda hoje, apresentar-se como campeã da Liberdade e da Democracia. A notícia chegou-nos muito recentemente (já sem surpresas...): Andar armado, numa So-ciedade supostamente civilizada, como os USA, é um direito dos cidadãos?!... O Su-premo Tribunal dos EUA, numa sentença recente, entendeu que sim... ao pôr em causa todas as restrições ao uso e porte de arma. (Cf. ‘Expresso’, 1º Cad., 3.7.2010, p.30). — Estávamos nós a pressupor (ingenuamente?...) que as Sociedades nacionais configuradas, modernamente, segundo a cartilha do ‘Nouveau Régime’, eram civilizadas e democrá-ticas. Puro engano: a Barbárie e a Selvajaria, afinal, prosseguem, contrariando os es-quemas pressupostos político-antropológicos, quer os de Hobbes, quer os de Rousseau.
Do que nos podemos dar conta no fim do caminho?... — Do paradoxo/contradi-ção estrutural, que se torna cada vez mais óbvio e clamoroso: Os Gnósticos judeo-cris-tãos primevos ensinaram-nos que as Consciências dos Indivíduos-Pessoas/Cidadãos não se podem iludir nem eludir/elidir! Contudo, as Sociedades (nacionais/estatais), conheci-das e registadas na História das Civilizações, tudo têm empreendido (quer pela via positi-va, quer pela via negativa...) para bloquear, esquecer/ignorar ou ostracizar as consciên-cias singulares dos Indivíduos-Pessoas/cidadãos. O catecismo (religioso...) adoptado tem sido sempre o mesmo (no ‘Ancien Régime’ e no ‘Nouveau Régime’): a sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord.
Como é difícil penetrar nos jardins fechados da Consciência, como só os Gnós-ticos judeo-cristãos primevos souberam fazer, no seu universo mental/social (a um só tempo), baseados na simples dialéctica entre a Interioridade e a Exterioridade! As ou-tras teorias/doutrinas de organização das Sociedades humanas fizeram desses ‘jardins fe-chados’ fortalezas inexpugnáveis, alavancadas nos ideologemas do platónico/paulino Dualismo metafísico-ontológico. O trecho que vamos transcrever, subordinado ao título ‘Consciousness’, é de C.L.Burt (in Encyclopaedia Britannica, Vol.6, pp.368-9//Benton, Chicago, 1973). Tenta aproximar-se, em boa parte, da mundividência gnóstica e nossa... mas fica, apenas, na antecâmara, uma vez que dá a consciência como redutível ao ‘co-nhecimento do conhecimento’.
Leiamos atentamente: “The word ‘consciousness’ has been used in many differ-ent senses. By origin, it is a Latin compound meaning ‘knowing things together’, either because several people are privy to the knowledge, or (in later usage) because several things are known simultaneously. By a natural idiom, it was often applied, even in Latin, to knowledge a man shared with himself; i.e., self-consciousness, or attentive knowledge. The first to adopt the word in English was Francis Bacon (1601), who speaks of Augustus Caesar as ‘conscious to himself of having played his part well’. John Locke employs it in a philosophical argument in much the same sense: ‘a man, they say, is always conscious to himself of thinking’. And he is the first to use the abstract noun. ‘Consciousness’, he explains, ‘is the perception of what passes in a man’s own mind’ (1690)”.
A Lição central-nuclear dos Gnósticos
• As Lectiones dos Gnósticos judeo-cristãos primevos podem reduzir-se a uma só Lectio central-nuclear: A Sociedade humana, qua tal, deve ser percebida e organizada, justamente, a partir dessas Alavancas de Arquimedes que são as Consciências dos Indi-víduos-Pessoas/Cidadãos; portanto, a partir de dentro (da Interioridade) para fora (pa-ra o Mundo exterior). Não de cima para baixo: do Poder (soberano) para as liberdades condicionadas, aprioristicamente, dos cidadãos de banda desenhada.
Mas a partir das Liberdades Responsáveis dos Indivíduos-Pessoas para o exercício (necessário e indispensável) das funções do Poder estatal (sempre intrinseca-mente limitado, na sua soberania). Não, obviamente, a partir de um Poder estatal ilimita-do, jugulando e reduzindo, sistemicamente, as liberdades dos cidadãos à triste e trágica condição do puro ‘pêndulo do livre arbítrio’. Além de falaciosa, esta pseudo-liberdade converteu os humanos em cabeças de gado de um monstruoso rebanho societário, condu-zido por políticos que não passam de pastores de rebanhos!...
Para que possa cumprir-se o evangelho encerrado no axioma ‘opus justitiae,
pax’ (a obra da Justiça é a Paz verdadeira!), é absolutamente necessário e indispensável pôr termo à desumana e maquiavélica cartilha de Karl von Clausewitz: a guerra é a continuação da política por outros meios!... Trata-se de dois mundos em confronto, absolutamente inconciliáveis. E não se pode servir a dois senhores (Deus e o Diabo), com regras diametralmente opostas!... Entre a vida e a morte da Espécie, é preciso saber optar, com consciência crítica. Nesta perspectiva, é mister evocar a sabedoria dos Gnósticos, que entrosavam, numa unidade indissolúvel, a Justiça e a Verdade. É, com efeito, sobre essa Verdade, psico-sócio-antropologicamente originária, que se faz a Jus-tiça, segundo a conhecida ‘regra d’ouro’ jesuânica: ‘opus justitiae, pax’.
A propósito da Verdade/Justiça da Sabedoria Gnóstica, reflicta-se na situação contrastiva seguinte: a ‘Igreja Católica Romana’ (‘I.C.R.’) sempre embarcou, oficial-mente, ao longo dos dois milénicos de existência, nas metafísicas construções mistifica-doras de Paulo sobre a Ressurreição de Cristo Jesus (vd. Todo o cap. 15 da 1ª Cor.), an-coradas, precisamente, nas Ideias platónicas arquetípicas, i.e., no Dualismo metafísico--ontológico. Ora, os Gnósticos, em contrapartida, sempre entenderam a ‘Ressurreição’ de Jesus em sentido ético-moral, enquanto base inabalável para a edificação positiva de uma Sociedade humana justa, verdadeira e saudável. Ele era o paradigma dos nascidos de Ho-mem e Mulher: o Libertador por antonomásia!
No evangellho (gnóstico) de Filipe (cf. ‘A Biblioteca de Nag Hammadí’, org. por James M. Robinson, op.cit., p.138) pode ler-se com os dois olhos: “Aqueles que di-zem que morrerão primeiro e então se elevarão, estão equivocados. Se não receberem pri-meiro a ressurreição, enquanto estiverem vivos, quando morrerem, eles não receberão na-da. Da mesma forma quando falam sobre o baptismo, eles dizem, ‘O batismo é uma gran-de coisa’, porque se as pessoas receberem elas viverão”. Ora a ‘I.R.C.’ começou a escon-jurar e a proscrever o pensamento e os escritos dos Gnósticos, logo desde o séc. II. Que tem, pois, ensinado a ‘I.C.R.’, ao longo destes dois milénios? — Uma Mentira redonda, engendrada na Ideologia mistificadora construída por Paulo, na base do platónico Dua-lismo metafísico-ontológico.
Nesse horizonte, sempre estigmatizado pelas doutrinas dogmáticas decorrentes da Cultura do Poder-Dominação d’abord, que orientação proporcionou a ‘I.C.R.’, para a organização das Sociedades humanas? — Como não nos ensinou a dialogar (na esteira do que haviam feito Sócrates e Jesus), na vida real e no concernente às funções de organi-zação decente para uma Sociedade justa, como não nos habituou a deliberar em conjunto o que há a fazer de comum, os cidadãos não têm outro remédio senão falar dos ‘estados de alma/estados de consciência’ dos outros, sempre na suposição de os outros terem ‘es-tados de alma/estados de consciência’, em tudo idênticos aos deles. Só vigora o princípio ‘simile a simili cognoscitur’; não o princípio ‘simile a dissimili cognoscitur’!... Em resu-mo, fizeram de nós seres emparedados, numa Sociedade necessariamente hierárquica e mono-árquica.
A Consciência dos Indivíduos-Pessoas/Cidadãos (e o Diálogo como meio de a transmitir ou auscultar), enquanto fons et origo de toda a Realidade social-societária, não conta para nada... Foi soterrada e a sua revelação só se dá à semelhança dos pirilampos numa noite de Verão.
Dois ‘critical study cases’ paradigmáticos, de ordem pessoal. O primeiro é o ca-so (noticiado nos media televisivos há ca. de um mês) de Madame Bettencourt, impera-triz financeira da multinacional ‘L’Oreal’, a mulher mais rica de França, sua filha e o mordomo, que, ao divulgar revelações (outrora feitas em registos gravados, à sorrelfa (segundo o apurado), desencadeou todo um processo especialíssimo em Tribunal (de alta corrupção), o qual, por envolver altas personagens da Política nacional francesa, teve (!...) de ser realizado à porta fechada!...
Entretanto, que nos dizem os evangelhos (neste caso, canónicos e apócrifos)? Tudo o que está oculto será revelado, mais cedo ou mais tarde!... Este axioma procede da mundividência gnóstica. As Sociedades constituídas, ao abrigo da Cultura do Poder--Condomínio, sempre se têm esforçado por driblar e passar ao lado das exigências funda-mentais da Verdade/Justiça... Como, agora, é o caso. Tudo isso é levado a cabo pelas ins-tituições e pelas elites governantes, como se as massas populares não entendessem nada, não passassem de cabeças de gado de um grande Rebanho!...
Nisto (como em muitas outras matérias), sempre se procura obstruir ou postergar o que é essencial e decisivo, ou seja: a dialéctica Interioridade®Exterioridade, em no-me da Identidade crítica dos Humanos e da Dignidade das suas Sociedades. Como é sabi-do, a dialéctica de cima para baixo é sempre dualista metafísico-ontologicamente: Igreja docente//Igreja discente; Elites//Massas; Chefes//súbditos-subordinados. Que nos impõe o Mandato gnóstico/socrático-jesuânico da Verdade/Justiça? A obrigação sagrada de dizer a Verdade, em vez da mentira.
O segundo caso (onde nos damos conta de que as Consciências dos Indivíduos--Pessoas são, por norma, sempre dribladas...) foi respigado num texto de Zita Seabra, subordinado ao título: ‘Saramago, o último intelectual marxista’ (publicado no ‘Jornal de Notícias’ de 27.6.2010). Desde logo, a semântica estereotipada, que o título exprime, abona muito pouco, em termos críticos, a favor da Autora. Tudo se passa, afinal, para ela, no quadro do empíreo-criticismo de Ernst Mach, já duramente objurgado pelo próprio Lénine, no seu tempo.
Mas vamos citar dois parágrafos do artigo, para melhor descobrirmos os alça-pões. — “Olhando para a vida e a escrita de José Saramago, o que mais impressiona é o facto de ele ter vivido e visto o comunismo ruir na URSS e nos países do Bloco de Leste, como a RDA, a Hungria, a Checoslováquia, a Roménia, a Albânia, entre muitos outros, e ter silenciado esse facto. Confrontar-se com o sofrimento daqueles povos, já não nos re-latos de Sakharov ou de Soljenítsin, mas nas imagens dos directos das televisões e passar ao lado da alegria com que abraçaram a liberdade. Nem o confronto directo com o balan-ço dramático das vítimas dos que se libertaram do comunismo o fez alguma vez ter escri-to ou dito qualquer palavra. O silêncio de quem usa a escrita é mais visível. Os seus ges-tos foram de quem passava ao lado: logo a seguir à queda do muro de Berlim, candida-tou-se nas listas do Partido Comunista à autarquia de Lisboa. Que balanço faria dos anos de comunismo e do sofrimento das pessoas que viveram na pele um dos dois grandes hor-rores do séc. XX?”
A primeira conclusão da leitura do texto é que a psico-sócio-história, em termos objectivo-objectualizados, enganou-se redondamente!... A segunda conclusão é que (co-mo se depreende do texto e das vidas de cada um dos actores/agentes em causa), o que a própria diegése do texto nos revela é que não se saiu do plano linear, no concernente à implicada noção em acto da consciência, do chamado ‘conhecimento do conhecimento’. Por outras palavras: nas duas personalidades (autores, escritores, militantes partidários), a Consciência, propriamente dita, não foi activada, não funcionou... Joeirado foi, tão-só, o ‘conhecimento do conhecimento’.
O último parágrafo do citado artigo de Z.S. reza assim: “Nem um gesto teve quando lhe pediram apoio os dissidentes cubanos presos por Fidel. Nem mesmo quando Susan Sontag o confrontou com esse facto. Uma única dúvida subsiste, porém, quando se observa que visitou Cuba diversas vezes, mas nunca foi à Rússia libertada, apesar de ter sido convidado a lançar os seus livros e a debatê-los numa universidade de Moscovo, — aí o confronto com a história seria certamente impossível de ignorar e de silenciar. Um confronto que, reconheço, é muito difícil de viver”!...
Nas duas personagens, a dialéctica interior«exterior é absolutamente balizada e condicionada pela dialéctica de cima para baixo (própria e intrínseca à Cultura do Po-der-Condomínio). Para J.S., as realidades exteriores, que vieram contrariar e contradizer a assumida percepção consciente da Realidade, foram ocultadas de propósito ou simples-mente silenciadas, com as evidências disponíveis ao grande público e às elites de turno. Ora este — é preciso reconhecê-lo — é um modo típico de actuar sem Consciência (de vigília e crítica).
Z.S., por seu turno, fez o trânsito da sua condição de militante e dirigente do P.C.P. para a sua nova condição de militante do P.S.D.. Pelo meio, saiu a público, de sua autoria, e em jeito de testemunho vivo, o livro ‘Foi Assim’ (editado por Alétheia, Lisboa, 2007). É um livro que procede a uma narrativa biográfica fruste, frustrada e frustrante... Aparentemente, a sua cabeça e a sua ideologia integraram-se no P.S.D. com a maior das facilidades... Uma coisa destas só poderia acontecer sob o guião e o pendão do mais des-carado empíreo-criticismo à Ernst Mach. Que vem a significar esta ideologia e esta con-duta? A Realidade é assumida sem Consciência crítica, individual-pessoal; trata-se, pois, de um modo de actuar sem Consciência crítica.
Um terceiro ‘critical study case’, mas, agora, de índole institucional/societária e intrínseca e fortemente civilizacional, é o texto de Adam Smith (o patriarca fundador do Capitalismo moderno) em ‘An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Na-tions’ (ed. de 1976, pp.26-27), marcado pelo mesmo tipo de mistificações e de mentiras, utilizado por Paulo no cap. 15 da 1ª Cor. (já referenciado). Eis: “Não é da benevolência do magarefe, do cervejeiro, ou do padeiro, que nós esperamos o nosso jantar, mas dos cuidados que eles põem na defesa dos seus próprios interesses. Nós próprios nos dirigi-mos, não à sua humanidade, mas ao seu amor próprio...”. Em resumo, a Troca (nos sentidos genérico e específico do termo) é uma noção suficiente e cabal para explicar e compreender todo o mundo da Economia Política: ela presta benefícios a nós todos... e nós não temos nada que afligir-nos por não sermos altru-ístas. Já se viu um hino de louvor ao Egoísmo foncier mais radical, na organização das Sociedades humanas?! A preocupação smitheana de caracterizar e circunscrever a moder-na Economia política, como ciência autónoma, acabou por atraiçoar o anterior professor de Moral.
O postulado deste catecismo é sobejamente conhecido e experimentado, muito especialmente ao longo dos últimos três séculos das Sociedades modernas ocidentais que, apesar das sucessivas promessas, nunca foram capazes de eliminar, do seu seio, a fome e a pobreza, a miséria, o desemprego e as epidemias. (Apesar de haver recursos económi-cos e científico-técnicos para o efeito). Entretanto, não se dá conta de que foi, precisa-mente, essa reivindicação (em sede objectivo-objectualista) da autonomia da ciência (específica) da Economia política, sempre sob a batuta do espírito mecanicista e positi-vista, que nos conduziu aos desastres, às crises e às catástrofes (que, actualmente, estão a envolver a própria Natureza e o futuro da Terra).
Uma Modernidade cultural, criticamente esclarecida, tem-se preocupado, justa-mente, com a gramática da limitação dos Poderes dos Estados, a começar pela proposta das soberanias limitadas... Mas tem-se ela preocupado — como devia — em exigir um Mercado decente e razoável, enquadrado por regras básicas conhecidas de todos?!... Nes-se enquadramento com regras (comuns e universais), deveriam constar, obviamente: — Banimento cerce da produção e venda de armas para cidadãos individuais (os próprios Estados têm o direito à sua desmilitarização!...). — Eliminação da produção e da venda de drogas de efeitos perigosos e mortíferos. — Proibição de produzir e vender cereais transgénicos (esta é uma matéria que deveria, há muito, estar bem regulamentada pela F.A.O.). — Proibição da venda e da compra da humana ‘Força-e-trabalho’, como se ela pudesse ser equiparada a qualquer outra mercadoria...
Por que não se reflecte, séria e criticamente, sobre todas estas matérias, sobre o balizamento e a orientação da Economia política (a qual prossegue a sua marcha hodier-na dentro do Sistema capitalista, mais por inércia e incapacidade de decisão crítica dos governantes, do que por deliberações claramente assumidas)?!... Por quanto mais tempo teremos de ficar encurralados no cinismo estúpido e brutal, brandido (há duas décadas) pelo slogan (Tina) da Srª Thatcher: ‘There is no Alternative’?!...
A simples existência da Sociedade civil (hoje claramente reconhecida, pelo me-nos, nos Estados/Nações do Ocidente), e que é frequentemente invocada para encarar e dirimir um número largo de questões fundamentais, em contraste com o Aparelho ideo-logizado (partidariamente) do Estado (que se tornou incapaz de descobrir e fornecer as soluções necessárias e adequadas), — o que essa simples existência deixa transparecer (retrospectivamente e à la longue), na História psico-societária das Sociedades humanas, são, afinal, um vez mais, essas Alavancas de Arquimedes das Consciências dos Indiví-duos-Pessoas/Cidadãos, das quais depende quase tudo o que toma corpo nas Sociedades humanas. Ora, não é lícito nem legítimo continuar a ignorá-las, ou a omiti-las, ou a pô--las, simplesmente, entre parênteses. O mandato perene, que recebemos dos Gnósticos, para que possam ter livre curso os bons ofícios dessas Consciências, é que elas devem ser reconhecidas e respeitadas por todos.
EPÍLOGO:
Sobre a Grande Ruptura da Modernidade
A Grande Ruptura (emancipadora/libertadora) da Modernidade, na odisseia da Civilização e da Cultura do Ocidente, ainda não aconteceu, ainda não encontrou o seu lu-gar adequado, na História das Sociedades Humanas. Na sua obra (que é apesar de tudo, pertinente e interessante), ‘A Grande Separação/Religião, Política e o Ocidente Moder-no’ (Gradiva, Lisboa, 2010), Mark Lilla (prof. de Humanidades na Universidade de Co-lumbia) identificou essa Ruptura (a propor uma nova mundividência na Religião e na Política, que se tornou património cultural da Modernidade ocidental), precisamente na obra de Thomas Hobbes (1588-1679). Por que não foi ele capaz de configurar essa Rup-tura (como fazemos nós, em nome de uma vera e autêntica Modernidade, que espera ainda pela sua emergência...), na obra do ‘herético’ Bento de Espinosa (1632-1677)?!
No fundo... e em última instância, são sempre os eternos problemas do Poder (e seu primado sobre o Saber...), que estão em causa, mas não foram identificados nem re-solvidos!... Demonstração psico-sócio-histórica deste nosso teorema: Por que é que o No-vo Testamento prosseguiu, afinal, com muito poucas alterações, no mesmo caminho do Antigo Testamento? Por que é que a Nova Aliança (de que falou Paulo) continuou, sen-sivelmente, com sacramentos e meios ritualistas análogos aos da Antiga Aliança (celebra-da entre Iahwéh/Deus e Moisés/Israel, no Sinai)? E, na História sócio-política moderna--ocidental: por que é que, à rebelia, por exemplo, da obra de Alexis de Tocqueville, o chamado ‘Nouveau Régime’, resultante das 2 grandes Revoluções políticas modernas (Rev. Fr.: 1789-95; Rev. dos USA: 1776-81) não fez, substantivamente, outra coisa senão prolongar, nos novos Tempos Modernos, a estrutura político-societária (hierárquica e eli-tista...), que era própria do ‘Ancien Régime’!...
Ora, quer a problemática humana atinente à Verdade, quer a problemática huma-na concernente à Justiça, ambas estão ainda muito longe de serem identificadas nessa su-posta Grande Separação ou Ruptura, ocorrida na Modernidade ocidental. Como se ope-rou, na galáxia da Cultura ocidental, a Ruptura entre o Ancien Régime (baseado num su-posto ‘Novo Testamento’...) e o ‘Nouveau Régime’ (esperando basear-se num veramente ‘Novo Testamento’...)?! Num dado elementar, básico, consideramos que Lilla está certo: a Ruptura de que se fala (pelo menos em termos nominalísticos) é uma característica, ou uma prerrogativa, da Cultura do Ocidente.
Todavia, o Ocidente (tal como a História o tem registado) não tem sabido actuar, em consequência desse património psico-sócio-antropológico, no seu relacionamento es-trutural com o Mundo e as outras Culturas e Civilizações. Como estava habituado a reinar e a governar, segundo a Teoria do Rebanho humano na sua própria Casa, entendeu que podia proceder seguindo o mesmo catecismo, no seu relacionamento com as outras Cul-turas e Civilizações. Desta feita, converteu o Sistema capitalista smitheano (e o seu pro-cessus de universalização) numa vera religião de substituição (secular e laica), subtil-mente imposta a todos os Povos e Nações da Terra. A estratégia do ‘carro à frente dos bois’ (a economia à frente da política) permitiu, pelo menos, que os seus autores origi-nários soubessem onde estava o carro e onde estavam os bois... — A emancipação/li-bertação dos outros Povos e Nações poderia esperar... pelas calendas gregas!...
Esses comportamentos colonialistas e imperialistas do Ocidente prosseguiram, até ao presente, apenas com as resistências/contestações, que levaram às guerras anti-co-loniais e de independência nacional dos povos indígenas. Aparentemente afastadas as so-luções político-económicas de suposta índole socialista (visto que as revoluções com essa marca fracassaram...), os novos Estados/Nações acederam à independência e acabaram por integrar-se na Grande Engrenagem mundial do Sistema capitalista (que prossegue — não esquecer — com o seu estigma religioso...).
Relativamente às outras culturas e civilizações, e mesmo no concernente aos po-vos outrora colonizados e agora independentes, o Ocidente não teve o cuidado de comu-nicar com eles em-pé-de-igualdade e de lhes ensinar, pedagogicamente, as novidades que, ele próprio, havia descoberto, na sua odisseia histórica, e havia procurado pôr em prática, designadamente: a) a noção/realidade do Estado, em confronto convivencial com as diferentes religiões societariamente organizadas; b) a organização democrática das Sociedades nacionais.
Ora, não será pela via do Sistema capitalista universalizado, convertido em reli-gião secular e laica, que o Mundo se há-de democratizar e a Humanidade se há-de eman-cipar/libertar, estilhaçando os últimos grilhões da servidão e da dependência. Se não for alterada a odisseia da História humana (por forma a ‘manter os bois à frente do carro’, em todas as plagas do Planeta), a obra de mau agoiro, de Samuel P. Huntington, ‘O Choque das Civilizações e a Mudança na Ordem Mundial’ (Gradiva, Lisboa, 1999), continuará a levar a água ao seu moinho.
O horizonte crítico, que aqui estamos a respigar, apoia-se (em 1ª ou última instân-cia) nas lições dos Gnósticos judeo-cristãos primevos. Estas podem ver-se resumidas em cinco teses (psico-sócio-antropológicas) essenciais e decisivas, a saber:
1ª — Desejo e reivindicação sistémica da Autonomia pessoal, e elevação cons-tante e crescente do Conhecimento e da Sabedoria (desde logo, à escala de cada Indiví-duo-Pessoa).
2ª — A Salvação e a Felicidade só podem alcançar-se mediante o Saber e a Sabedoria.
3ª — O Deus tradicional hebraico, depois cristão e, por fim, islâmico, é, es-sencial e intrinsecamente, uma Divindade couraçada de Poder, que está muito longe de actuar com a sabedoria e o pundonor suficientes, esperados pelos seus fiéis. Como sem-pre o ensinaram os Gnósticos, essa Divindade é o Demiurgo (noção pesadamente depre-ciativa e desdenhosa...): foi constituída em criador supremo do Universo, com coisas bem feitas e outras mal feitas. O Pai/Deus dos Jesuânicos e dos Gnósticos não tem nada a ver com essa Divindade demiúrgica.
4ª — Só os Humanos, mediante a sua intrínseca Liber-dade Responsável, ancorada na união psíquica de Inteligência e Vontade, poderão dar origem a um vero Mundo Novo, a uma autêntica Sociedade Nova.
5ª — A fons et origo desta potência incomensurável dos Humanos reside no esquecido, ou ignorado, ou poster-gado fenómeno da Consciência individual-pessoal.
É por tudo isto que o C.E.H.C., quando se trata de averiguar qual o vero fundador daquela Ruptura/Separação, que inaugurou a autêntica Modernidade ocidental, opta, em termos esclarecidos e críticos, pela mundividência crítica de Baruch de Espinosa, em contraste com a mundividência de Thomas Hobbes. A obra principal de Hobbes (que o celebrizou) pôde ser publicada, pacificamente, em 1651 (tinha o Autor 63 anos). O ‘Tra-tado Teológico-Político’ e a ‘Ética’ (as duas obras mestras de Espinosa) só puderam sair do prelo, logo a seguir à sua morte, em virtude da sua condenação como herético, quer pela Sinagoga, quer por parte da ‘I.C.R.’.
Hobbes e Espinosa começam logo a divergir na própria base de construção dos respectivos Edifícios sócio-políticos: o ponto de partida do 1º é a Religião no sentido ge-nérico e absracto do termo; é isto que lhe vai permitir inaugurar toda uma Filosofia polí-tica moderna, inteiramente separada dos tradicionais fundamentos bíblicos. O ponto de partida do 2º é uma vera e autêntica Teologia política, mas criticamente joeirada.
Acerca de Hobbes, escreve Mark Lilla (op.cit., p.84): “Ele foi o primeiro pensa-dor a sugerir que o conflito religioso e o conflito político são essencialmente o mesmo conflito, que estes cresceram juntos porque partilham raízes idênticas na natureza huma-na”. Ora isto mesmo só poderá aceitar-se em termos históricos, atendendo ao facto já re-ferenciado de a obra de B. de E. só ter podido ver a luz da publicidade (para além do seu grupo de amigos), após a sua morte.
Metodologicamente e em termos epistémicos, Hobbes é um materialista inveterado, para quem a mente se reduz, cientificamente, a impulsos físicos; as acções humanas são cinicamente motivadas por interesses egoístas, inclusive o medo da morte. Na sua obra mais famosa, ele encara a humanidade no seu estado selvagem (antes de en-trar na sociedade onde acontece civilização...) segundo o axioma: ‘homo homini lupus’ (= o homem é o lobo do homem!...). Desta sorte, no seu ‘Leviathan’, que opera como se fosse uma teoria completa do contrato social, a pauta de racionalidade, aí instituída, leva--o a assumir, como inevitáveis, quer as instituições sociais, em geral, quer a própria mo-narquia absoluta, em particular.
Estamos nos antípodas das doutrinas filosóficas de Jean-Jacques Rousseau (1712-78), que, no seu ‘Émile’ (1762), via o bom selvagem que o levava a acreditar na bondade natural dos humanos. Por isso, o seu ‘Contrato Social’ (1762) não é compulsório: abre-se para a República e a Democracia... O Autor é capaz de discernir, aí, entre a ‘volonté de tous’ e a ‘volonté générale’, o que veio, posteriormente, a dar origem às duas fórmulas: democracia directa e democracia representativa. A grande e revolucionária conclusão fi-losófica de Rousseau é que as crianças devem ser educadas e instruídas, o mais possível, segundo a gramática da Natureza e da sua bondade natural, preservando-as das corrup-ções aportadas pelo processo civilizatório.
Espinosa (que de algum modo antecipa Rousseau) sabe que a Hebreia da época dos Juízes foi capaz de instaurar a Democracia e praticá-la, num tipo de regime superior ao da Democracia ateniense de Péricles (pelo menos, no que tange às condições sociais dos escravos!). Ele é um bom paladino da Democracia e da República democrática. Sa-be e defende que a Soberania do Estado tem de ser limitada pela Lei natural, pelo Di-reito natural.
Ora, a vera e autêntica Modernidade ocidental, é do lado de Espinosa e Rous-seau que se encontra e configura; não no horizonte (cínico e pessimista, sobranceiro e pa-ternalista) de T. Hobbes. Deve, aqui, observar-se que a mundividência ideológico-política de Hobbes se situa e configura no mesmo horizonte moderno, que foi construído, em sec-tores diferentes da Modernidade ocidental, por A. Smith (1723-90) e R. Descartes (1596-1650). O primeiro, na Economia política e seu processo de autonomização objectualista/ /cientificista; o segundo no lançamento dos alicerces do edifício, que veio a ser erguido pela Ciência moderna: baseada na sua distinção entre ‘Res cogitans’ (mas ‘Res’, não Su-jeito individual-pessoal!...) e ‘Res extensa’, a Ciência moderna, estigmatizada pelo Mo-nismo epistémico, foi cauterizada (até ao presente...), primeiro pelo mecanicismo carte-siano, depois pelo positivismo comteano, por fim pelo estruturalismo, refinadamente ob-jectualizante.
Ai Gnósticos!... Já ninguém vos conhece!... Como é importante e decisiva a ‘dis-cretio spirituum’ para uma qualquer boa função praticada por uma Inteligência normal e saudável.
O Poder é, efectivamente, sempre um só, mesmo quando se divide em dois (ou mais...), com o intuito, em última instância, de impedir a emergência e a afirmação das Liberdades Responsáveis, primordiais e primaciais, dos Indivíduos-Pessoas/Cidadãos. Este é o nosso Teorema originário. O próprio M. Lilla está perfeitamente compenetrado da Tese de que o Poder é um só, em primeira ou última análise. Ele sabe que já era, as-sim, no ‘Leviathan’ de T. Hobbes (cf. op.cit., p.84, p.87).
M. Lilla está convencido de que o Cristianismo medieval já adopta um pioneiro modelo de organização política diferente, quer em confronto com as religiões pagãs de Gregos e Romanos clássicos, quer em contraste com o Judaísmo e o Islão. (Cf. ibi, pp.60 e ss.). A união entre religião e política não chegava à fusão das duas; preservava-se algu-ma distinção entre ambas, designadamente, quando se tratava da execução da pena capi-tal, que era entregue à alçada do ‘braço secular’. Por outras palavras: o Cristianismo me-dieval não se assumiu enquanto religião política, que, na verdade, era (ibi, p.89). No pontificado de Inocêncio III, a teologia política medieval forjou a ‘teoria do Sol e da Lua’; (Papa = Sol; Rei ou Imperador = Lua), fórmula que veio a engendrar um labirinto de dúvidas e engulhos no relacionamento entre a ‘I.C.R.’ e os diferentes Estados. Ora, o pontapé de entrada na Modernidade ocidental, dado por Hobbes, consistiu (como o Autor argumenta) na atribuição do primado à filosofia política e ao Estado, no lugar da tradicional teologia política e da ‘I.C.R.’. Isso era possível, na medida em que o pressuposto hobbesiano (já conhecido) era o da religião em sentido genérico (cf. ibi, pp. 89-90). Escreve Lilla (p.91): “O Leviathan demonstra, com geométrica precisão matemá-tica, como criar um mundo em que os indivíduos, libertos do medo dos seus companhei-ros e da condenação eterna, podem dedicar-se à tarefa mundana mas recompensadora de melhorar a sua sorte. Era assim que o homem estava, originalmente, destinado a viver li-vremente, antes da invenção dos deuses”.
Mais abaixo (ibidem), o Autor assevera: “A verdade é que a maneira como as de-mocracias liberais modernas abordam hoje a política e a religião é inimaginável sem a ruptura decisiva operada por Thomas Hobbes”. — Só que a organização política das So-ciedades humanas viu-se reduzida, draconeanamente, na própria Modernidade (onde, se-gundo I. Kant, se esperava a maturidade dos Humanos), ao esquema estrutural do sim-ples ‘livre-arbítrio’, e o fenómeno da Consciência humana foi totalmente eclipsado.
Entendamo-nos, criticamente, sobre esta complexa problemática. Historicamente, foi, de facto, na Barca sócio-histórica da Cristandade e do Cristianismo, que se deu a des-colagem e a separação autonomizadora do Poder Político e do Estado, perante a Igreja e os Poderes religiosos, com a reconhecida soberania/supremacia do Político sobre o Re-ligioso. Desta sorte, a lealdade ao Poder do Estado exige a tolerância de base entre todas as confissões religiosas albergadas dentro da nau do Estado em causa.
Nuclearmente, o processus implicou, na sua ambiental atmosfera ideológica, a lai-cização/secularização do próprio exercício do Poder e seus agentes, em rotura e contraste com a sua anterior/tradicional divinização/sacralização. Nestes termos, foi a humaniza-ção (contra a divinização, que levava o estigma da Divindade extrínseca e separada) do exercício do Poder e dos seus agentes — agora generalizadamente eleitos pelo Povo, na chamada Modernidade tardia... — que veio, de facto, a criar as condições para que o exercício do Poder (em regime republicano e democrático) ficasse plenamente integrado no magma social-societário.
Nos sulcos ancestrais/originários, que levaram ao desbravar do Caminho para a Ruptura/Separação da Modernidade Ocidental, não poderão ser olvidados dois factos/si-tuações paradigmáticos: A) No esquema original, que presidiu à constituição da Socieda-de Hebraica, enquanto ‘Povo Eleito’ de Iahwéh (vd. Livro do Êxodo), a dupla dirigente/ /governativa ordena-se como segue: o Chefe e Presidente do Poder político (global) é Moisés; o Poder religioso/litúrgico, confiado ao seu irmão Aarão, é secundário e acha-se na dependência do primeiro. Não há dúvidas possíveis, que se possam levantar sobre o te-ma.
B) Na questão posta pelos fariseus, a Jesus, sobre o tributo/imposto, a pagar, ou não, ao César do Império Romano, pode ler-se a resposta de Jesus (em Mt. 22,21): “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Surpreendentemente, a resposta de Je-sus, que nos é facultada no evangelho de Tomé (v.100), é muito mais completa em ter-mos críticos: “Dai a César o que pertence a César, dai a Deus o que pertence a Deus, e dai-me a mim o que me pertence”. — Maior exigência de Democracia republicana era muito difícil imaginar!...
Ao procurar desfazer a pressuposta ambiguidade das ‘duas vidas’, em nome da sua clara cartilha materialista, Hobbes teve de pagar um preço: manter o Soberano terre-no com um Poder absoluto. John Locke (1632-1704), pelo contrário, confia na bondade natural dos humanos (aproximando-se de Rousseau, nesta temática). Contra o direito di-vino dos reis, ele advoga que a Autoridade das regras e da governação tem uma origem humana e é limitada por definição. Foi, por isso, constituído em precursor doutrinal da ‘Glorious Revolution’ de 1688. Na sua famosa ‘Letter Concerning Toleration’, Locke chegou ao ponto de asseverar que a Tolerância constitui ‘a principal característica da verdadeira Igreja’ (23); e teve a coragem de afirmar que ‘segundo o Evangelho, não existe nada que se assemelhe a uma comunidade cristã’ (44).
K. Lilla, ao confrontar a perspectiva de Hobbes com a de Locke, fica satisfeito com a afirmação da tese (op.cit., p.104): “O soberano de Hobbes ensinaria como doutrina que o Reino de Deus é na terra, não no céu. Locke, tendo operado a separação entre a re-ligião e o Estado, não tinha obrigação de se pronunciar sobre este ponto teológico”. Quer dizer, o enigma é deixado intacto na fortaleza ideológica inexpugnável. Por quê? Em últi-ma análise, porque, segundo a ‘I.C.R.’, com o ‘N.T.’, ficou encerrada toda a Revelação (do Alto... ou de Dentro!...). E as doutrinas dos Gnósticos, bem como o Jesuanismo co-mo Alternativa ao Cristianismo, tudo isso ficou bloqueado. Só a partir dos ‘achados’, em Nag Hammadí (em 1945), se pôde retomar a saga histórica. Quando se dá conta de que a 1ª legislação clara e oficial sobre o imperativo categórico da Separação entre o Estado e a Igreja, (de algum modo fundada no próprio lóguion evangélico de Jesus), só surge, em França, em 1905, todas as doutrinas que, antes, pareciam claras se volveram em obscuras e confusas!...
Em suma, o que estruturalmente escasseia, faz falta, se esquece, se omite ou se ignora, em toda esta problemática, registada na psico-sócio-história, é, precisamente, o fenómeno da Consciência crítica (elevada ao quadrado e ao cubo). É que a vida corren-te (e a respectiva narrativa) é elaborada e formulada, via de regra, no plano puramente li-near!... Os Poderes constituídos (terrenos ou ‘celestes’) estão lá em cima, muito distantes e separados das ‘massas humanas’, que nunca foram deixadas superar a sua eterna con-dição de Rebanhos, conduzidos por Pastores!...
Ora, é justamente por se ter votado ao ostracismo o fenómeno da Consciência crítica entre os Humanos, nas respectivas Sociedades (v.g., através do Diálogo socrático, da comunicação interpessoal das diferentes revelações, religiosas ou outras), que Mark Lilla, a propósito da redução das questões teológicas sobre Deus às questões antropológi-cas e psicológicas do comportamento humano (tudo sempre na 3ª pessoa gramatical...), pode estabelecer solenemente, em tom salomónico, o quadro paradoxal que a seguir va-mos transcrever (ibi, pp.92-93):
“Dizer que tal redução é possível não é dizer que ela é correcta; como salientá-mos, o pressuposto de Hobbes de que a religião tem apenas raízes humanas permanece um non sequitur. Nem Hobbes, nem nós podemos provar que aqueles que reivindicam a verdade revelada não a receberam, de facto, do céu. Mas a simples possibilidade dessa re-dução pôs os pensadores cristãos na defensiva, e isso foi suficiente. Se eles argumen-tassem em defesa de um sistema político particular com base na revelação, teriam, a par-tir de Hobbes, de explicar como é que essa revelação conseguiu escapar à distorção pela mente humana, às suas percepções, aos seus conceitos, ao seu raciocínio, às suas paixões e à sua busca de poder. Com o tempo, essa necessidade acabaria por ser paralisante para os partidários da teocracia, do patriarcado, do direito divino dos reis e de todas as outras ideias derivadas da longa tradição da teologia política cristã. Apesar de Hobbes não poder refutar os fundamentos revelados dessa tradição, podia (e conseguiu) ajudar a criar um ambiente, em que essas asserções vieram a parecer questionáveis, suspeitas e irrelevan-tes”.
Dir-se-ia, em resumo, que o ÓNUS da PROVA, na Modernidade sócio-política do Ocidente, através da Grande Ruptura/Separação operada, se bandeou, pura e simples-mente, para o campo dos Antigos e Tradicionais adversários. Isto é muito seco e peco, cí-nico e curto, à luz da gramática do Homo Sapiens/Sapiens, dotado de Consciência refle-xiva e crítica. Por quê e como claudicou o processo provativo (psico-sócio-histórico) tor-naram-se sobejamente manifestos: Quanto à Weltanschauung tradicional, a cartilha da (má) Modernidade ocidental só soube proceder a reconstrução do ‘Antigo e Tradicio-nal’, a partir de dentro, em nome de um processo salutar, capaz de acumular, imbrica-tivamente, as contínuas novidades emergentes.
• Promover uma Sociedade civil crítica e adulta...
— é preciso e urgente!
No seu artigo sobre ‘O Atestado médico’ (difundido na Internet, 30.6.2010), o prof. de Filosofia José Ricardo Costa escrevia, escalpelizando algumas das velhas/relhas manias lusas:
“Lá nesse aspecto somos um bom exemplo do que dizia Goebbels: uma mentira várias vezes repetida transforma-se numa verdade. Já Aristóteles percebia uma coisa muito engraçada: quando vamos ao teatro, vamos com o desejo e uma predisposição para sermos enganados. Mas isso é normal. Sabemos bem, depois de termos chorado baba e ranho a ver o ‘ET’, que este é um boneco e que temos de poupar a baba e o ranho para outras ocasiões. O problema é que, em Portugal, a ficção se confunde com a realidade. Portugal é, ele próprio, uma produção fictícia, provavelmente mesmo desde D. Afonso Henriques, que Deus me perdoe” (p.3).
Quando a regra é a mentira e esta é a atmosfera do espectáculo encenado, en-quanto a excepção é a verdade (institucionalmente exigida), a comunicação social tor-nou-se difícil e, por vezes, impossível, perante a necessidade vital de dizer a verdade, contra o eterno jogo da mentira. “Mas ela ficou zangada comigo, só porque eu vi a nódoa; sabe que eu sei que tem a nódoa e por que assumi perante ela que sei que tem a nódoa, e que sei que ela sabe que eu sei. Nós, portugueses, adoramos viver enganados, iludidos, e achamos normal que assim seja” (idem, ibi, p.4).
Os portugueses são assim... preferem os paralogismos aos sofismas, até porque estes requerem mais finura e inteligência (aquela dose de ‘vis’ irónica contida na palavra inglesa ‘wit’). Ora, os paralogismos são raciocínios falsos, feitos sem consciência da sua falsidade e sem a intenção de induzir em erro!... Aquilo mesmo que, no calão, pode ser atribuído aos estados de Consciência, ao eterno fenómeno da Consciência, sempre es-quecido, omitido ou ignorado. Mais uma vez, é preciso fazer a denúncia diante das mura-lhas da Cidade: os paralogismos da Consciência têm, ainda, por conteúdo habitual, os conhecimentos objectivo-objectualizados das consciências; eles não concernem à dimen-são ou condição de Testemunha, que é, originariamente, a Consciência individual-pes-soal.
O ‘Big Brother’ de George Orwell encerra toda uma semântica crítico-satírica, que não se pode esquecer. A sua Lectio principal pode caracterizar-se como segue: Ne-cessidade, absoluta e fundamental, de reconhecer e respeitar as Consciências dos Sujei-tos humanos/Indivíduos-Pessoas; e não fazer, ou não deixar fazer (aos Poderes Estabe-lecidos) nada que as ofenda, iluda ou eluda, nada, em suma, sem a sua autorização ou co-nhecimento. Dessa Realidade decorrem Indivíduos-Pessoas como Sujeitos Livres e Res-ponsáveis, dotados, a um só tempo, do Saber e do Poder, na sua fonte original... a partir da qual podem e devem (na medida do societariamente exigível) irradiar os Poderes legí-timos, constituídos ou a constituir nas Sociedades humanas.
Onde se encontram, hodiernamente, (sobremaneira, neste Ocidente europeu, ou-trora pioneiro de Cultura e Civilização, e que actualmente, parece já não ter lições a ensi-nar ao Mundo...), as veras Sociedades civis (substantivas) europeias e ocidentais, capazes de meterem na ordem os respectivos Estados e os seus ‘Aparelhos ideológicos de Estado’ (Louis Althusser)?!... Neste ‘peregrino de Santiago’ (que é ainda Portugal), que fez o Chefe do Governo, sem consultar as populações em causa? Mandou encerrar, através do M.E., mais cerca de 900 escolas do primeiro ciclo, com menos de 20 alunos, agravando, assim, o já assustador despovoamento/desertificação do interior do país. Ora, quem não é capaz de reconhecer a importância decisiva de uma escola das primeiras letras, integrada numa comunidade rural do interior do país? “Uma escola é a mais sólida raiz de uma pe-quena comunidade, na ligação ao território geográfico e administrativo em que se ins-creve”. (João Mendes Ferreira, in ‘JL/Ed.’, 30.6-13.7.2010, p.7).
Depois, um Sistema Educativo (SE), que se preze, não pode abandonar, à volú-pia e à ganância dos sectores privados da Ensinança e da Educação, os parâmetros essen-ciais da Educação e da Instrução públicas, que, só eles, estarão em condições de balizar e vertebrar uma vera e autêntica Sociedade civil. (Cf. a entrevista de Ricardo Jorge Costa a Teresa Ricou, subordinada ao título ‘Portugal não é um país de cultura’ in ‘A Página da Educação’, Verão de 2010, pp.92-97). Teresa Ricou (mais conhecida por Teté), que tem ainda a ambição de abrir uma Escola Superior de Artes Circenses, e é, actualmente, a pio-neira/Chefe do Circo do Chapitô, sabe muito bem do que fala, nas críticas aceradas que dirige ao Estado, por não cuidar — como devia — da Educação e da Instrução Públicas.
Acusa ela (ibi, p.97): O Estado “tem medo de investir neste tipo de projectos. E não investindo não se faz. O Estado é cobarde. O Estado não é inovador. O Estado está instalado. E não pode; tem de se desinstalar, tem de procurar fazer parcerias com as orga-nizações não governamentais. Tem de haver compromissos entre as duas partes, porque o Estado tem uma responsabilidade que tem de assumir, — para isso é que pagamos impos-tos. O serviço público tem de ser reconhecido e tem de ser da melhor qualidade. Tal co-mo se estivéssemos a referir-nos a uma entidade particular. É o caso do ensino público, que nos últimos anos adquiriu uma imagem de ineficiência, no qual se tem de apostar pa-ra que ele seja de qualidade. E qualidade implica, nomeadamente, que cada aluno seja va-lorizado individualmente”.
Sejamos sérios e honestos. Não é agitando bandeiras do tipo: a Sociedade contra a Escola... A Escola contra a Sociedade... que se podem enfrentar e resolver, adequadamen-te, os problemas reais da Escola e da Sociedade. Entretanto, o livro de José Manuel Re-sende, ‘A Sociedade contra a Escola?’ (Instituto Piaget, Lisboa, 2010) mereceu-nos aten-ção. Procura salientar, com justeza e sentido estratégico, a tese de que a socialização po-lítica deve ser dilucidada e operada na Escola, integrada no Sistema Educativo nacio-nal; nomeadamente, na Escola Secundária. Mais se afirma e defende que essa socializa-ção política deverá assentar na promoção da cidadania activa e responsável.
Isto mesmo é tanto mais importante e decisivo, quanto, na presente circunstância histórica, tanto em Portugal como em outros países da U.E. (e até mesmo à escala glo-bal), todo o conjunto de exigências, implicado nesse ideário, tem sido votado ao esqueci-mento, relegado para segundo plano, postergado, em suma, por solicitações múltiplas de ordem profissional, perante o dilúvio do desemprego e do ‘emprego precário' (sem direi-tos...), ou por desarticulações e impasses nos agenciamentos tecnológicos da indústria, do comércio e da agricultura e pescas.
*
• “Jesus disse a eles: ‘Quando fizerdes dois de um, e quando fizerdes de dentro como de fora e de fora como de dentro, e de acima como de abaixo, e quando fizerdes o homem e a mulher um único e o mesmo, para que o homem deixe de ser homem e a mulher deixe de ser mulher, e quando adaptardes os olhos no lugar de um olho, e uma mão no lugar de uma mão, e um pé no lugar de um pé, e a semelhança no lugar de uma semelhança; — então entrareis no reino’”. (Evangelho de Tomé, vers.nº22).
Guimarães, 6 de Julho de 2010.
Manuel Reis: Presidente do Centro de Estudos do Humanismo Crítico (CEHC).
Lillian Reis (secretária do CEHC): digitalizou e fez revisão de provas.
BIBLIOGRAFIA SELECCIONADA
— ‘A Biblioteca de Nag Hammadí/A Tradução Completa das Escrituras Gnósticas’. Org. de James M. Robinson, Madras Edit., Lda., São Paulo, 2006.
— AGOSTINHO, Santo: ‘Confissões’. Livraria Apostolado da Imprensa. Porto, 1952 (4ª ed.).
— ‘Bíblia Pastoral’: Edição Ediclube (em 2 volumes). Alfragide, 1999.
— ‘Biblia Vulgata’. B.A.C.. Madrid, 1953.
— ‘Biblioteca de Nag Hammadi’, edit. pela Ed. Ésquilo: I — ‘O Livro Secreto de João e Outros Textos Gnósticos’ (Lisboa, 2005); II — ‘Evangelhos Gnósticos’ (Lisboa, 2005); III — ‘A Revelação de Pedro e Outros Textos Gnósticos’ (Lisboa, 2005).
— BULARD, Martine e DION, Jack: ‘L’Occident Malade de l’Occident’. Fayard, Paris, 2009.
— CHOMSKY, Noam: ‘Discurso da Dissidência’. Edições Dinossauro, Lisboa, 2000.
— DAVIDSON, James: ‘The Greeks and Greek Love’/A Radical Reappraisal of Homosexuality in Ancient Greece’, Weinfeld & Nicholson, London, 2007.
— ‘Debates Paralelos’/Vol. 4: ‘A Palavra Jesuana, Textos Gnósticos & Outras Opiniões’. Grupo de Autores. Edicon, São Paulo, 2007.
— ‘Debates Paralelos’/Vol. 5: ‘Q Jesuânica’. Grupo de Autores. Edicon, São Paulo, 2009.
— DESCARTES, Renato: ‘DISCURSO DO MÉTODO e Tratado das Paixões da Alma’. (Tradução, Prefácio e Notas pelo Prof. Newton de Machado, Liv./Editora Sá da Costa, Lisboa, 1956 (3ª ed.).
— ‘Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português’/Coordenação de Fernando Cabral Martins. Caminho, Lisboa, 2008.
— EISLER, Riane: ‘O Cálice e a Espada’. Via Óptima, Porto, 2003 (3ª ed.).
— ESPINOSA, Bento de: ‘Ética’. (Com introdução e notas de Joaquim de Carvalho). Relógio D’Água, Lisboa, 1992.
— ESPINOSA, Bento de: ‘Tratado Teológico-Político’. (Tradução, introdução e notas por Diogo Pires Aurélio). Imp.-Nac./Casa da Moeda, Lisboa, 1988.
— GALBRAITH, John Kenneth: ‘O Nôvo Estado Industrial’. Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1969 (2ª ed.).
— HUNTINGTON, Samuel P.: ‘O Choque das Civilizações e a Mudança na Ordem Mundial’. Gradiva, Lisboa, 1999.
— LILLA, Mark: ‘A Grande Separação/Religião, Política e o Ocidente Moderno’. Gra diva, Lisboa, 2010.
— MACEDO, J.C.: ‘A Vida em Construção’. Edicon, São Paulo, 2010.
— MILES, Jack: ‘Deus/Uma Biografia’. Editorial Presença, Lisboa, 1997.
— ‘Novum Testamentum/Graece et Latine’. Org. de Augustinus Merk, S. J.; Roma, 1951 (7ª ed.).
— POPPER, Karl e LORENZ, Konrad: ‘O Futuro Está Aberto’. Editorial Fragmentos, Lisboa, 1990.
— REIS, Manuel: ‘A Falsa Questão Ateísmo-Teísmo: Crítica Necessária a José Sarama go’. Estante Editora, Aveiro, 1992.
— REIS, Manuel: ‘Caminho Novo com Espinosa e Reis’. Edicon, São Paulo, 2008.
— REIS, Manuel: ‘FLASHES SOBRE A ESQUERDA NESTE FINAL DE SÉCULO (MILÊNIO)’/Crises do PCP e da Modernidade Incluídas). Estante Editora, Aveiro, 1989.
— REIS, Manuel: ‘Honest to Gods – Já Não... Honest to Humans – Ainda Sim!’ (O que é preciso é sair do Cárcere e desbravar um Caminho Novo). Edições Alphar rabio, São Paulo, 2002.
— REIS, Manuel: “’Memória Genética’. Avaliações e Enquadramento Crítico”. Edição electrónica na Web, mediante a NOÉTICA, São Paulo/Br. e Mundo, Junho de 2010.
— REIS, Manuel: ‘Não Apaguem as Luzes!’. Editora Estante, Aveiro, 1990. (Trata-se de uma espécie de Epílogo ao livro anterior, ‘Flashes Sobre a Esquerda Neste Final de Século(Milénio) – (Crises do PCP e da Modernidade Incluídas)’. Recensão Crítica da Obra por Santos Simões).
— RESENDE, José Manuel: ‘A Sociedade contra a Escola?’. Instituto Piaget, Lisboa, 2010.
— SEABRA, Zita: ‘Foi Assim’. Alétheia, Lisboa, 2007.
— VANEIGEM, Raoul: ‘Da (in)Humanidade da Religião’, Notícias Editorial, Lisboa, 2002.
— VANEIGEM, Raoul: ‘Declaração Universal dos Direitos do Ser Humano’, Edições Antígona, Lisboa, 2003.
*
Jornais e Revistas
— ‘A Página da Educação’. (Revista trimestral sobre o mundo da Educação).
— ‘Expresso’. (Semanário à escala nacional).
— ‘JL’ (Jornal de Letras, Artes e Ideias). (Quinzenário culturalista).
— ‘Jornal de Notícias’. (Jornal diário, à escala nacional).
— ‘Le Monde Diplomatique’. (Publicação mensal para o mundo francófono).
— ‘O Atestado Médico’, de José Ricardo Costa. (Artigo na Web, 30.6.2010).

teses ebook mReis
|
|