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CINTO DE CASTIDADE
Tortura Nunca Mais
Johanne Liffey
[Chastity Belt: No More Torture!]
É um “instante de perplexidade arrebatando-nos para a reflexão” [Barcellos, 2007, pode-se dizer após a observação calma e detalhada sobre os cintos de castidade reinventados por Susumo Harada para um novo olhar humano, humanista, acerca de nós.
A exposição/instalação do consagrado artista plástico nipo-brasileiro observa “A Práxis Da Tortura Na Utopia Poética”. Ele vestiu bonecas/modelos com cintos de castidade para nos dar a idéia do que foi “a tortura sócio-sexual da mulher na Idade Média européia sob o regime feudal-católico, ou, o ato de posse do macho todo-poderoso sobre a fêmea consagrada para dar à luz o filho-herdeiro, e só” [Macedo, 1975], uma prática anti-humana, absurda, de manter princípios de tortura pela sustentação do poder, individual e/ou grupal [Liffey, 1977]. Embora os europeus tenham ficado com a fama da utilização do Cinto de Castidade, “o cinto da tortura/proteção sexual teve a sua origem nas sociedades patriarcais orientais disseminando-se entre os ocidentais rapidamente, principalmente entre homens de poder feudal que tinham a esposa como prostituta privada e queriam-na inviolável sempre que deixavam os seus castelos em direção a alguma batalha” [Liffey, 2009]. Mas, “...existem outros ´valores´ para justificar o Cinto de Castidade, como a cultura africana da excisão, ou seja, a dominação da mulher pela mutilação do clitóris, de maneira a que a menina de 7 ou 8 anos chegue virgem ao casamento comercialmente arranjado” [Abdullah, 2004], o que acontecia, também, com os senhores feudais que utilizavam o Cinto de Castidade para impedir que as filhas tivessem relacionamentos sexuais antes do casamento determinado logo após o nascimento.
Isolar a mulher da roda social e impedi-la de ter prazer sexual é uma prática tão comum e tão disseminada que isso é parte da retórica patriarcal política e religiosa; mas, no campo religioso, a ação é bem mais violenta, porque a mulher é catequizada moralmente contra o prazer de ser mulher inteiramente e viver sob a apetência dos dogmas do poder instituído.
Pela importância do estudo/pensamento, reproduzo aqui um artigo de meu pai:
“Na antiguidade pagã os deuses eram criados pelo Homem, na sua diversidade sociocultural, para reverenciarem a deusa-Mulher.
A fé na própria identidade telúrico-cósmica, i.e., biológica, fazia a Pessoa observar em si mesma a Criação, percebia que o Homem era parte de uma Mulher que o gerava na partilha do prazer sexual, ele via nela o ´algo sagrado´ a ser reverenciado enquanto ´altar´ da Vida.
Na criação do deus-único, a Pessoa acabou por ceifar o princípio do Diálogo sociocultural, pois, a liberdade de criação mística passou a ser violentamente combatida por políticas religiosas de pessoas sequiosas de Poder – mas, um Poder de domínio efetivo sobre o mundo feminino, vergando-o à vontade de um patriarcalismo neurótico com o chicote e o fio d´espada da ideologia anti-civilizacional. E o mundo patriarcal passou a considerar a Mulher culta e que se expressava livremente como ´o demônio de saias que tenta os filhos de deus´. Tudo por uma política de ação pública que impedisse a Mulher de se manifestar superiormente ao Homem, e até no casamento ela se obrigava a adquirir o sobrenome dele!... A criação do deus-único fez a Humanidade se virar contra si mesma entre opulências eclesiástico-orgiásticas e inquisições sanguinárias. Mas, nem por isso a Mulher deixou de ser o ´altar´ da Vida, e, um dia, a Humanidade cairá em si mesma para louvar de novo a sua própria essência feminina e destruir os dogmas das igrejas institucionalmente político-econômicas...
Liberdade é, enquanto ação noética da Pessoa responsavelmente civilizada, como define o filósofo Manuel Reis, a busca dos caminhos necessários ao Amor – o individual e o comunitário, entendendo-se aqui o Amor como bem-estar no desenvolvimento das igualdades sociais.
Através da Mulher é que as civilizações alçaram vôo para a Liberdade da expressão numa cultura artística que o eco do seu ventre criativo poderia gerar, que o mesmo é dizer: o Prazer da vivência sexual da Mulher, compartilhado com o Homem, faz deste um parceiro na e pela Paz e o faz reverenciá-la como ´altar´ da Vida.
Ao buscar um padrão de mando social e político eis que o Homem percebe que só será Poder reduzindo a Mulher à condição de prostituta social – e, a par da criação de dogmas místicos patriarcalistas, ele insinua isso mesmo para determinar hegemonia da ´sabedoria do filho de deus´ a quem a Mulher deve obediência. É a divinização do Homem no padrão patriarcal do mando político e místico sob o manto do ´deus-único´... E surge a ´raínha do lar´, escrava que deve gerar a continuidade da família sob o chicote hierárquico (e na maioria das vezes, físico) do Homem-senhor.
É que o Homem torna-se então o espelho do deus-único e não criado à sua semelhança, mas idealizado para ser o algo acima de tudo, vingativo-punitivo e/ou amoroso, como definira o pensador grego Xenófanes [560 aC - 460 aC] ao opor-se ao conceito antropomórfico [i.e., na forma humana] da criação dos deuses e deusas... logo, o desamor e a guerra são geradas por serem ´a vontade de deus´ – esse ´algo´ tão inexplicável quanto inexistente, mas fundamentalísticamente conveniente a todos os poderes patriarcais sabiamente estabelecidos por egípcios, gregos e judeus, onde Jesus bebeu também a matriz da sua atividade política e teológica.
No mesmo círculo de pensamento, também Sócrates [469-399 aC] aceita a identificação com um deus unificador, mas vai mais longe ao afirmar [e definir] que o deus-único é a imagem da virtude nas ações humanas, daí o universalismo que Jesus vem mais tarde a tomar e integrar na sua palavra, o que não acontece com os seus seguidores/apóstolos, mas, apenas com a sua companheira Madalena, a Mulher que dá início à igreja cristã ao anunciar a ´boa nova´!
E, por ser ´a vontade de deus´... quanta Vida perdida...! E quanta Mulher assassinada brutalmente na tortura, na fogueira, na forca, no fio da lâmina d´espada ou apedrejada...! E até no que deveria ser Amor eis a Mulher amordaçada no seu desejo de ser feliz, envolta num cinto de ´castidade´...
Por isso é que a idade da Mulher, enquanto parte igual do Todo social, é a idade poética que não tem tempo, não é mensurável, pois, a Mulher é a poética da Humanidade livre e civilizada” – MACEDO, J. C., in “Mulher: A Idade Poética Da Humanidade”, 2007.
Ao fazer a leitura dos cintos de castidade artisticamente confeccionados por Susumo Harada percebe-se como a mulher é reduzida a nada até nas civilizações ditas de ´alta cultura´, entretanto, “o olhar matriarcal puramente humano, e não como poder de oposição ao patriarcalismo, já expressa o sentimento de crítica construtiva que deve orientar a nova idade civilizacional” [Barcellos, 2008].
Desde a prática da Infibulação faraônica, que é a costura dos lábios vaginais, ao Cinto de Castidade feudal passando pela Excisão, a mulher está nas mãos de um homem que a prefere morta-viva e doada apenas para gerar a descendência para o pilar econômico que dá continuidade à herança familiar.
O trabalho de Harada é a expressão artística do homem que percebe a mulher como parte de uma humanidade que se ama e se opõe a quaisquer barreiras, sociais e sexuais, e lembra o trabalho literário do português Branco de Matos acerca do celibato eclesiástico, porque tudo na tortura sexual tem a mesma origem: um poder patriarcal que nega a poesia da vida através e com a mulher.
LIFFEY, Johane
Dublin/Ie, 2009.
ABDULLAH, Celine - MUTILAÇÃO CLITORIANA: O ABSURDO TRIBAL. Maputo/Mz., 2004.
BARCELLOS. João - IMAGEM HISTÓRICA: A METALINGUAGEM DE SUSUMO HARADA. Itapevi/SP-Br, 2008.
HARADA, Susumo - A PRAXIS DA TORTURA NA UTOPIA POÉTICA. Exposição/instalação, Brasil, 2002.
LIFFEY, Hanne - A ESTÚPIDA AVENTURA DE CONSERVAR A HERANÇA. Cadernos da ´Turma de Jovens Intelectuais Anarquistas – tjia´; ; Vigo/Esp., 1977.
LIFFEY, Johanne - MISSION OF POWER THROUGH THE SON SAID HEIR. Dublin/Ie, 2006.
LIFFEY, Johanne - GIRDLE OF CHASTIDY: THE BELT OF HORROR. Dublin/Ie, 2009.
MACEDO, J. C. - A ARMADURA DO ATO DE POSSE. Cadernos da ´Turma de Jovens Intelectuais Anarquistas – tjia´; Guimarães/Pt, 1977.
MACEDO, J. C. - LA EXPRESIÓN SEXUAL DEL PODER: LA MUJER ES NADA. Palestra c/ Ivone Hidalgo; Buenos Aires / Arg., 1987.
MATOS, A. Branco de - O CELIBATO ECLESIÁSTICO NA LITERATURA PORTUGUESA. Brasil e Portugal, Ed Edicon/CEHC/GG - 2009.
Ilustrações: Fotos de peças da exposição de Susumo Harada registradas por João Barcellos [Itapevi/SP-Br., 2009].

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