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MANUEL REIS

 

 

EM TORNO DE IVAN ILLICH

 

Descobertas auspiciosas de ontem são exigências

incontornáveis de hoje.
A Evolução do Psico-Sócio-Ânthropos
é imparável.
Ela transformará o próprio Processo Histórico:
O ‘Homo Sapiens tout court’ será suplantado
pelo ‘HOMO SAPIENS/SAPIENS’.

 

 

Desconstruir a Pedagogia do Liberalismo
e Viver a Escola da Liberdade
e da Justiça Social

A propósito do livro “Em Torno de Ivan Illich”,
do filósofo Manuel Reis.

 

Marta Novaes

 

 

É fundamental diminuir a distância
entre o que se diz e o que se faz,
de tal forma que, num dado momento,
a tua fala seja a tua prática. 

– Paulo Freire

 

   Ao saudar Ivan Illich, em uma sessão no CIDOC, o professor, artista plástico e ex-padre cristão Figuera de Novaes, em 1963, afirmou que “[...] a palavra Liberdade é a que mais faz ousar a Humanidade consciente de si mesma, mas é uma palavra que ainda não existe no vocabulário da maioria das pessoas, ou por repressão de igrejistas e de políticos, ou por ignorância; e, por acção de Liberdade deve-se entender comportamento social e político pela Justiça, e isso, queiram ou não os igrejistas pseudo progressistas, significa também abandonar a farda do sacerdócio institucional e trocá-la pela Ética e pela Fraternidade nas comunidades” [1]. No ano 2003, o intelectual luso-brasileiro João Barcellos retomou o termo “igrejistas” e disseminou-o pelos grupos de estudos mundo afora para uma redescoberta da Liberdade em prol da pedagogia socrática agitada filosoficamente por Manuel Reis – o filósofo Reis que, hoje, brinda-nos com “Em Torno De Ivan Illich”, um “estudo primoroso de crítica construtiva e humanista no caminho fraternal para o amor entre as pessoas que se dignam ser e estar livres, e que remete, também, à obra educacional de Agostinho da Silva e de Paulo Freire”, na apreciação do próprio Barcellos.
Quando se fala de Humanidade logo sabemos que não existe universalidade, mas pontos de contacto na diversidade sociocultural, e, também por isso, sabemos que “...a sociedade global[izada] é uma farsa econômico-militar do fascismo liberal e do igrejismo que diviniza o capitalismo, e por tal razão é que, por ex., parte do professorado do segmento de ´exactas´ não consegue nem enxergar a sociedade da comunidade em que lecciona, só os números e os currículos... O capitalismo liberal forjou gerações e gerações de tecnocratas alienados, pseudo educadores, e esse ´buraco negro´ vai contribuir para o aumento do analfabetismo funcional e, então, ele mesmo vai eclipsar o próprio capitalismo. É claro que a Humanidade precisa de progresso tecnológico, mas não à custa da bestialização que infesta a rede escolar pública e privada (Barcellos tem-nos dito isto inúmeras vezes agitando o pensamento de Reis). Assim como Freire, também Reis vai ao âmago da questão para refutar a retórica dos poderes instituídos. O ponto de contacto da humanização está nas comunidades, do local ao global, e não o contrário ”, como disse Maria Vidal em 2005. É nos pontos de contacto que “o mundo é redondo”: Vidal pega no termo “igrejismo” nos Anos 90, mas já antes, em 1973, a Turma de Jovens Intelectuais Anarquistas , ou TJIA, o havia feito em Portugal, em panflo lançado no Teatro-Circo de Braga, durante evento “Contra a Pinochetada-Yankee”, no qual os jovens intelectuais foram detidos juntamente com o professor Santos Simões, um dos organizadores. E um dos jovens, J. C. Macedo, em segundo panflo sobre o mesmo tema, assinando “Alex”, diria que “o igrejismo é tão político quanto religioso nas instituições fascistas que o servem” [2]. Vem isto a propósito do olhar crítico-humanista de Reis sobre o trabalho educacional de Illich, porque nos Anos 60 e 70, “a intelectualidade está unida na busca por caminhos libertadores e os caudilhos fascistas não vão destruir esta força, seja na sociedade seja na escola” como afirmou Santos Simões no citado evento de Braga [3], ao pregar o que Freinet  e Illich agitavam pelo mundo através das suas obras. E, desde essa época até aos nossos dias (em Roma, em Coimbra, em Madrid e em Guimarães), Manuel Reis segura e agita a mesma “bandeira libertária de uma teologia na esfera do pensamento humano e para a compreensão da humanidade como tal”, como expressou Johanne Liffey quando comentou o livro “A Vida Em Construção” [Ed Edicon & TerraNova Comunic, Brasil e Portugal, 2010], um conto em que o seu pai Macedo expõe ao mundo a odisseia desse filósofo.

   O escritor e jornalista português J. C. Macedo declara que “...a Escola, assim como o Crédito Bancário e o Lixo Industrial Globalizado, funcionam, no Capitalismo, como trampolim para fazer da miséria do Pobre uma plataforma econômica em que ele aparece como Rico-pobre sob o sorriso hipócrita da Elite. Ou seja: a) ensina-se uma Profissão para os mesmos ofícios da Produção Consumista sem se apostar no Desenvolvimento Humano; b) dá-se o benefício financeiro do Falso Progresso que permite à pobreza continuar na mesma situação, porque endividada aos banqueiros (sequiosos do sangue da manada, sempre)..., embora a Pessoa pobre pense que é parte do ´sistema´ porque lhe deram o ´direito´ de comprar um televisor ou um telefone de última geração, um carro da linha ´popular´, etc. É o engodo liberal introduzido publicitariamente nas políticas públicas e ecoado pela Escola e pela Comunicação Social que lhe faz o jogo. É a Desigualdade Social institucionalizada” [4]. Este escrito repete palavras proferidas no Chile, em 1998, e na Argentina, em 2003; e aqui, em Buenos Aires, após uma intervenção de Figuera de Novaes, ele acrescentou: “Precisamos repetir os ensinamentos illichianos e freinetianos sobre a desconstrução da pedagogia que orienta o eixo senhor-escravo no mundo ocidental-católico [...], e precisamos olhar o que Manuel Reis, no caminho de Sócrates e de Jesus, aponta-nos como Liberdade de todas as Pessoas no seu meio geográfico-social e político, pois, a Pessoa é em si o caminho novo”.  Tal conceito está na bandeira que rege o

grupo Verdad y Fraternidad: “Existem duas acções que convergem para uma Ética humanizadora: a Verdade e a Liberdade. Por isso, cada Pessoa deve buscar em si mesma a Fé universal para o contacto com o Mundo”. A dura batalha do casal Maria Vidal e Figuera de Novaes para manter vivo e actuante um grupo de debates restrito a intelectuais na clandestinidade e espalhados pela América Latina e a Europa foi a mesma que levou Ivan Illich a colidir com os interesses mundano-capitalistas da cristandade corporativista, e nessa acção perceberam, por exemplo, que “religiosos, trabalhadores e empresários ligados na Teologia da Libertação passaram a ver o mundo do Capital pelos olhos do Sovietismo (tão corporativista e insano quanto o monárquico-vaticanismo), quando o que é preciso é um Olhar Humano-humanizador para a desconstrução do status quo da dependência político-econômica que sustenta as oligarquias plutocráticas”, como Vidal expôs em encontro realizado em Valparaíso, Chile, em 1964, logo após o golpe de Estado que colocou os militares brasileiros no Poder. Neste quadro percebo a actualidade, por um lado confortante e por outro revoltante, do “trampolim” citado por Macedo e, por outras palavras, que leio/lemos em Reis, e que também está na coleção de textos reunidos em “Educar Para Viver” [in Palavras Essenciais, Vol.6, 2010 / publicado na Web – noetica.com.br]
O educador brasileiro Paulo Freire gostava de dizer que “É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática”.  Eis a síntese que melhor expressa a via socrática da Ética na formação do Professorado (lembrando-se que quem Educa dá Formação, e quem Instrói dá Especialização), o que está ilustrado também nos textos coligidos em “Agostinho e Vieira: Mestres de Sujeitos!”, de Reis e Barcellos [Ediç FrenProf, Porto-Pt, 2006]. Eis também, por que Reis canaliza para quem o lê e ouve a rediscussão de temas e de personalidades que contribuíram e contribuem para uma nova pedagogia de políticas públicas, sendo certo que ele é parte dessa contribuição diante das trevas do consumismo capitalista e dos poderes dogmatizados.
Em um encontro com membros latino-americanos do Centro de Estudos do Humanismo Crítico, em 2003, Figuera de Novaes comentou as intervenções de Macedo, assim: “A reestruturação da Sociedade é, para Macedo, o foco político urgente, mas ele sabe, como sabia Illich, e Oscar Romero, e como sabe Reis, e eu sei, que o Poder institucionalizado pelas elites entre a Nobreza e o Clero, é um Poder feudal e feudalizante, e nele está a base do Capitalismo que fabrica o Ambiente Consumista pela Estratégia dos Bens Fúteis (como explicita muito bem Lutzenberger em seu Manifesto Ecológico), enquanto mágica para os olhos das pessoas incautas e as ideologicamente agregadas, e isto vale também para a Escola e a Ciência, como partes daquela instituição [...]. Na verdade, senhoras e senhores, contemplando a realidade comunitária de cada Povo [...] é preciso, sim, estabelecer uma Ordem democrático-socrática na Desordem capitalista que é orientada pelas tecnologias da futilidade: uma desconstrução consciente, humanamente justa e a serviço do bem-estar, da fraternidade pela convivialidade (a convivialidade de que falava o padre guerrilheiro Camilo Torres, porque não estamos a falar de pessoas em gozo de férias, mas de comunidade em acção pelo progresso fomentado pela inteligência que resiste aos cercos das forças das trevas). O que é isto? O esforço da consciência pela vontade de construir um mundo humano igualitário. Utopia? Talvez. Mas sem o acto utópico de pensar o futuro no presente não conseguiremos oferecer às novas gerações um mundo melhor do que o nosso”.
Em seu “Em Torno Das Novas Tecnologias e Da Nova Economia” [Edicon, Brasil; 2000], Manuel Reis abordou o assunto com uma “metodologia própria e socrática admirável” (assim definiram a irlandesa Mary O´Connor e a equatoriana Maria Vidal), e o mesmo fez o cientista brasileiro José A. Lutzenberger em “Fim do Futuro? // Manifesto Ecológico Brasileiro” [Ed Movimento, Brasil; 1976], e, em Outubro de 2010, o amigo e mestre J. C. Macedo enviou para leitura dos intelectuais ligados ao CEHC o trabalho “Em Torno De Ivan Illich”, de Reis; e este livro do filósofo reabre os caminhos illichianos para a discussão global (não globalizada) sobre a necessária desconstrução da pedagogia que sustenta a Escola sócio-política do Capitalismo.

   A professora Maria C. Arruda, que é também microempresária, diz que “o livro Em Torno De Ivan Illich não é um livro, é a alma filosófica que liberta e mostra-nos o quanto a humanidade tem de batalhar, ainda, para ser Humanidade autêntica. O autor, Manuel Reis, ao analisar o pensamento de outros intelectuais sobre Illich [5], transforma o seu trabalho em uma bandeira libertária”. Aliás, Reis, no seu livro “De Educatione et De Instructione” [Portugal, 2010],

demonstra que “É preciso e urgente ultrapassar a teoria/doutrina do Animal Social (= ´Zóon politrikón´) de Aristóteles, mantendo, por outro lado, e tirando todo o partido (em termos filosóficos e culturais) da mundividência do Hilemorfismo do Estagirita. Nesta óptica, é preciso recuperar toda a Sabedoria encerradas nos dois universais de Aristóteles: a idéia/conceito (com os seus predicados de objectividade e universalidade); e a consciência (reflexiva e crítica do ´Homo Sapiens/Sapiens´), própria do Indivíduo-Pessoa singular e concreto. Esta universalidade é dos Sujeitos humanos, qua tais. Ela não é, por definição, expressável em termos objectivo-objectuais, de modo directo”. E sobre isto, João Barcellos, em opinião através da Web [Outubro, 2010], lembrou que “o conceito matéria-forma dos escolásticos tem referência taoísta no yin-yang [passivo/noturno; ativo/diurno], e a própria configuração jesuana de divino (i.e., a liberdade das pessoas de perceberem/viverem em si o todo cósmico) deve muito aos ensinamentos orientais e nem poderia ser de outro modo, uma vez que toda a acção jesuana centra-se entre orientais. Entretanto, o Ocidente igrejista preferiu e prefere a forma temporal dos poderes que suprimem a Liberdade das pessoas e as educam para serem escravas, logo, pessoas sem a oportunidade de vivenciarem a cósmica universalidade luz/noite, quente/frio, i.e., as cores da Vida, no âmbito de uma Consciência humanizadora: o Ocidente igrejista preferiu e prefere as trevas para muitos e um pouco de luz para as elites – e pior, tornou dogma tal questão. É essa pedagogia/evangelização da “escola” das trevas divinizadas que é preciso desconstruir, porque, e tanto Reis como Illich, ensinam isso, ela é o eixo do Todo desumano”.

   De outro jeito, este assunto esteve em um dos panflos da TJIA, em Março de 1974 [6], ao anunciar: “O padre Mário, da Lixa (Felgueiras), preso em Março de 1973, foi solto ontem pela PIDE/DGS [7], e sabemos que o sacerdote cristão (não da cristandade católica dos poderes podres e capitalistas) continua a sua pregação pela Luz que um dia varrerá as Trevas com as quais as ´sacras´ elites nos atormentam através da Igreja que não foi a de Jesus e da sua companheira Madalena, mas é a do igrejismo imperial/católico de todos os poderes que negam a Liberdade. É preciso dar à Humanidade a opção por si mesma, a Fé com que Sócrates, Confúcio e Jesus iluminaram o Mundo. Seja bem-vindo, Mário de Oliveira, pois, a luta continua por uma teologia libertadora das políticas de canibalismo maquiavélico entre príncipes aristocratas e clericais”.

(O trabalho de Manuel Reis sobre Ivan Illich teve o condão de nos levar à descoberta, através de Johanne Liffey, de alguns textos clandestinos que até o próprio J. C. Macedo nem lembrava mais, mas que a então sua companheira de jornada política Hanne Liffey guardou. E ainda bem.)

E embora o foco dos eventos em que se envolveu J. C. Macedo / “Alex”, na época, fosse o trabalho freinetiano, ele chegou ao illichiano, por um livro [“Deschooling Society”; Harper and Row, USA, 1971] adquirido no mercado negro por seu pai, José Carlos Macedo,e também por Joaquim Santos Simões, professor sistematicamente perseguido pela polícia salazarista, que abordava o assunto com as devidas cautelas, principalmente a partir das reuniões em torno dos Encontros Minho-Galaicos, dos encontros no Cine-Clube de Guimarães e no Festival do Cinema Amador de Guimarães. E em 1983, então como repórter/correspondente de uma nova agência de notícias de Lisboa, ao fazer uma resenha sobre a Universidade do Minho, escreveu: “[...] Com as achegas dos intelectuais que vêem na Escola Nova uma oportunidade de se estabelecerem conteúdos que têm a ver com o desenvolvimento humano e não apenas com as tecnologias e a produtividade, a Universidade poderá ser um foco de novos olhares para a Liberdade real, e não para afectos ideológicos do tipo ´revolução virtual´, como aconteceu no parisiense Maio de 1968”. Já nesses Anos 80 ele sofrera uma desilusão política ao “perceber que as editoras mais progressistas não querem ter nas suas linhas gráficas escritores/pensadores como Manuel Reis, capazes de sinalizarem a triste realidade do animal político que prolifera entre os partidos da Esquerda, do Centro e da Direita, e isto significa que teremos de aprofundar e levar adiante a luta pela Dignidade intelectual” [8]. Vem daí a sua veia anti-academicista e anti-corporativista mais radical que, na jornada com Reis, começou a ser filosoficamente aprimorada. E foi através dele que conhecemos o filósofo Manuel Reis. Por isso, ao ler alguns textos antigos [Anos 70 e 80], percebi ser de fundamental importância mencioná-los para entendermos, na América Latina, como o CEHC tornou-se tão importante para nós.

Mas, retorno ao “Em Torno De Ivan Illich”. Para o filósofo Reis, a Sociedade tem que ser esvaziada do conceito de institucionalidade sacralizada para que as Comunidades, regionais e nacionais, possam (como ensinava também Illich, no CIDOC) erguer as vozes da Sociedade igualitariamente sustentada. O que para Novaes e para Lutzenberger, assim como para Maurício Tragtenberg, era e é uma urgência da pedagogia libertária. E é também para nós.
   “A escola parece estar destinada a ser a igreja universal da nossa cultura em decadência [...]. A escola é um rito iniciático que introduz o neófito na carreira sagrada do consumo progressivo...”, explicava Illich em seus eventos cidocianos, quando “...o movimento da Teologia da Libertação iniciava carreira para logo, como aconteceu com o CIDOC, arrepiar caminho nas muralhas do engodo ideológico  imposto pelo capitalismo liberal e suas fachadas cultural-comunicativas devidamente enlatadas para consumo imediato nas escolas, templos e governos” [TJIA, 1974]. Precisamos, então, de outra Pedagogia, de outra acção... Precisamos recolocar Illich e Freire na ordem do dia e fazer, como Reis, uma profunda reflexão sobre a Sociedade e o Ensino/Professorado, porque basta de Pensamento Único e de Lixo Ideológico.
   A verdade é que o livro de Reis sobre Illich revela-se, agora, não um livro, mas “uma bandeira para a conscientização das pessoas já envolvidas, e a envolver, no processo libertador da Humanidade, por uma Justiça social adequada. E esta bandeira/escola está presente na crítica à pedagogia institucionalizada, crítica feita em ´Ética Profissional Para Professores e Educadores´, do mesmo Reis, publicado pelo CEHC, em 2000”, como diz e lembra a professora Mariana d´Almeida y Piñon.

   Um dos temas preferidos de Illich, mas raramente discutido em público, era a Economia Política, pelo quadro holístico que este conceito apresenta; e sei, pelas conversas que tive com a minha avó Marieta (Maria Vidal), que foi Figuera de Novaes quem com ele mais questionou e, depois do encerramento das actividades cidocianas, em 1976, levou a questão para outros ambientes educacionais e políticos. O tema Economia Política é foco nas observações filosóficas de Reis em toda a sua vasta obra literária, mas foi no ensaio “Na Crise Económico-Financeira Contemporânea Em Demanda De Uma Economia Política Digna Do Nome” [Ed Edicon & CEHC. Brasil, Portugal, EUA, Espanha, Alemanha, Argentina, 2009; também na Web – noetica.com.br] que ele fez uma sinopse maravilhosa e que levou a uma melhor compreensão do assunto – a saber: “[...] Positivamente, uma Instituição, pautada por todo um Projecto de Política Económica, criticamente estabelecido à escala de todo o Planeta, (com ligações, nos dois sentidos, aos Parlamentos nacionais dos diferentes Estados-membros), estaria em condições de propor, em linhas gerais (apenas em linhas gerais, como é óbvio) as balizas e as orientações mais certas e adequadas, para todos os sectores das actividades societárias e nas mais diversas Regiões do Mundo...”. Isto explica aquilo que Maria Vidal e a moçambicana Céline Abdullah entendem e expõem por “pontos de contacto universalmente feitos na diversidade cultural dos povos” [Web / TNComunic, 2001]. Ou seja: “os caminhos políticos e culturais cruzam-se pela demanda da Liberdade e do Saber holístico” [Vidal, 2001].
Uma das conversas entre Illich e Novaes, em 1971, e comentada por este último com Macedo, 1999, tratou daquilo que o pensamento illichano compreendia como “o rito animalesco da morte que corrompe a vida humana”, e que Macedo, a citar Novaes e Vidal, em 2001, trataria como “o campus pedagógico da intoxicação das massas populares pela elite sacrossanta e plutocrática que elimina a vontade de libertação do todo humano, ora lentamente, no modo consumista de bens fúteis, ora violentamente, no modo de guerrilhas e golpes político-militares. É o ritual da morte que perspectiva o status quo da elite”.
No seu “De Educatione et De Instructione”, Reis lembra-nos que podemos perder “a exigência fundamental/fundadora da Identidade Singular dos Indivíduos-Pessoas (dotados de corpo e alma próprias)”, ou estamos sujeitos a mando “dos ideotas ou dos lunáticos e, sempre, à promoção e prosperidade dos ´Pastores de Rebanhos humanos´...!”. E, no seu “Em Torno De Ivan Illich”, o mesmo Reis, lembra-nos que o Capitalismo existe pela divisão de classes sociais/trabalhistas e pelo desenraizamento da Pessoa do seu habitat comunitário/nacional, que foi o foco principal dos eventos illich-cidocianos.

  

Mais uma vez, eis como holisticamente Ivan Illich tratou da Ecologia e Economia Política com “a aguda percepção do Educador que reconhece nas vivências a verdadeira Escola que forma a Humanidade” [Liffey, 2010].

Novaes, meu avô ´cidociano´, falava manso quando queria dizer algo muito importante. “Não precisamos de uma Escola que gere a Desigualdade Social, mas de uma Sociedade embasada na Humanidade livre e comunitária”, escreveu quando me transmitiu o desejo de me ver na continuidade do grupo Verdad y Fraternidad [9]. Por outras palavras, era o que dizia Illich e é o que diz Reis.

   E do que estamos a falar?... Entenda-se filosoficamente: estamos a falar de Fraternidade.

 

NOVAES, Marta    – Professora e jornalista.
Buenos Aires / Argentina, 2010. [CEHC/AL]

 

 

Notas

  1.  Reunião de ex-padres católicos envolvidos na luta latino-americana contra as ditaduras militares alimentadas pelas corporações multinacionais européias e norte-americanas.
  2.  Sobre o evento de Braga, os escritos guardados por Johanne Liffey mostram que foram escritos e divulgados clandestinamente 4 panflos da TJIA, e que a diretoria do grupo foi detida pela Guarda Nacional Republicana e logo repassada à PIDE (polícia política salazarista), onde esteve por 3 dias sob “porrada exemplar”.

   Observação: a Turma de Jovens Intelectuais Anarquistas – TJIA foi um grupo fundado em 1972, em Braga, Portugal, por Maria Augusta de Castro e Souza [com o codinome “MAC”], professora de história, e que logo teve o poeta e jornalista J. C. Macedo [com os codinomes “Éolo Alexandre” e “Alex”] como membro da direcção, e outros jovens professores e estudantes como Carlos Fonseca, Luciana Boaventura, Manuel Corte-Real, Elisa Campos e Isabel Aguiar, com ligação directa ao grupo basco En Vivo y Arte, chefiado pelo jornalista anarquista Ruy Hernández; a activista “MAC” foi depois para Berlim onde fundou mais um grupo de discussões restritas, o Entritt Frei, com alemães e luso-germânicos, e, depois, nos EUA, fundou o Houston Literary Group.

  1.  Do panflo mimeografado “Intelectuais Unidos Pela Liberdade”, do grupo TJIA, no qual “Alex” publica partes dos discursos políticos contra o golpe de “11 de Setembro, no Chile”. Este panflo tem uma particularidade: assinala as reuniões sobre “a Universidade do Minho que tem de se integrar à Escola democrática”, tema do prof. Simões. Essas reuniões prolongaram-se até finais de 1974, sempre interrompidas por prisões políticas antes do golpe de Estado de 25 de Abril de 1974 que, finalmente, derrubou o salazarismo perpetuado no poder.
  2. Retirado do texto de apresentação do livro “De Educatione et De Instructione” aos grupos latino-americanos.
  3. Revista Esprit. Março de 1972, França.
  4. Do panflo “Entre o Pe Mário e o Sacro Império das Trevas”, mimeografado clandestinamente na Escola Industrial e Comercial de Guimarães (Oficinas de Electrotecnia),  em 31 de Março de 1974, e distribuído a partir de 12 de Abril nas escolas de Guimarães, Barcelos, Braga, Viana do Castelo, Póvoa de Varzim, Fafe, Felgueiras e Porto (Portugal), Vigo e Santiago de Compostela (Galiza/Espanha).
  5. PIDE/DGS, ou Polícia Internacional de Defesa do Estado, ao tempo de Salazar, depois denominada Direcção Geral de Segurança no período de Marcello Caetano.
  6. Da carta/desabafo “O Que É Uma Editora? O Que é Ser/Estar Esquerda” [Novembro de 1983], enviada aos diretórios do grupo Projecto Global, após rejeitada a publicação de um livro do amigo e mestre Manuel Reis, em Lisboa. Esse evento decidiu “o corte umbilical de uma vez com o corporativismo sino-soviético-cubano que sustenta o pensamento da militância revolucionária portuguesa, e também com o comportamento eleitoreiro de Otelo, a chave desse processo”. O livro de Reis em questão era “Camelo ou Animal Político”, uma coletânea de ensaios políticos e culturais em que o autor desconstrói a apetência dos políticos maquiavélicos (e aprendizes) pelo poder.

Verdad y Fraternidad    Grupo de intelectuais com autonomia e clandestino, para debates e resistência ao fascismo político-militar e religioso, fundado em 1958 no Equador, com correspondentes no Chile, México, Brasil, Espanha e Alemanha. O núcleo fundador foi constituído pela professora Maria Vidal e professor, artista plástico e ex-padre Figuera de Novaes que, em 2002, passaram a organização para a neta Marta Novaes, professora e jornalista, que continua o

 

movimento intelectual na Argentina sob uma “regra de convivialidade: a Fraternidade existe pela comunhão de sentimentos e de acções”.

Agradecimentos Especiais      À editora e professora Valentina  Lyubtschenko, pelo apoio, a Johanne Liffey, pela pesquisa e envio de cópias do material que ela classifica como “father´s chest” (baú do pai); a Mariana d´Almeida y Piñon, pela tradução dos textos em espanhol, e também pela sua intervenção em torno das matérias; a J. C. Macedo, Lillian e Manuel Reis, por tudo. A todas as pessoas que fazem acontecer o Centro de Estudos do Humanismo Crítico. E a meus avós, Maria Vidal e Figuera de Novaes nos exemplos de vida pela liberdade do todo humano.

Actividades do CEHC/AL    Os membros latino-americanos situam-se electronicamente com o ´site´ noetica.com.br, e mantêm as colecções literárias PALAVRAS ESSENCIAIS e DEBATES PARALELOS, c/ organização de João Barcellos / Manuel Reis e apoio da Editora Edicon (Brasil).

DEBATES PARALELOS  Vol 1 [Temas Gerais], 2002; DEBATES PARALELOS  Vol 2 [Temas Gerais], 2004
DEBATES PARALELOS  Vol 3 [Igreja-Estado ou Religião], 2004; DEBATES PARALELOS  Vol 4 [A Palavra Jesuana, Textos Gnósticos & Outras Opiniões], 2007; DEBATES PARALELOS  Vol 5 [´Q´ Jesuânica / Opiniões], 2009

PALAVRAS ESSENCIAIS  Vol 1 [Políticas Educacionais + Cultura de Raiz = Projeto Nacional],  1ª e 2ª Ediç, 2003;
PALAVRAS ESSENCIAIS  Vol 2 [´Os Lusíadas´ Em Debate], 2004; PALAVRAS ESSENCIAIS  Vol 3 [Revolução de 32: Coronel Herculano], 2008; PALAVRAS ESSENCIAIS  Vol 4 [Manuel Reis: O Filósofo / A Crise], eBook em netica.com.br, 2009
PALAVRAS ESSENCIAIS  Vol 5 [O Sentido Da Vida], 2010; PALAVRAS ESSENCIAIS  Vol 6 [Educar Para Viver / eBook em noetica.com.br], 2010.

I

 

ALGUNS DADOS BIOGRÁFICOS E SÓCIO-CULTURAIS

            Ivan Illich nasceu em Viena (de Áustria) a 4 de Setembro de 1926. É filho de pai dalmata de confissão católica e de mãe alemã de ascendência judia. As circunstâncias do surto do Nazismo hitleriano obrigam-no a abandonar a Áustria, ao longo de todo esse pe-ríodo, — o que o levou a completar os seus estudos superiores em Itália: Física, em Flo-rência; Filosofia e Teologia em Roma. Doutorou-se em História, em Salzburgo; e foi or-denado sacerdote em 1951. Estudou ainda cristalografia e aprendeu oito línguas.
Trabalhou com os porto-riquenhos numa paróquia de Nova Iorque, junto dos quais exerceu o ministério sacerdotal de 1951 a 1956. Entretanto, o choque da miséria e da desgraça, recebido nas ruas de Nova Iorque, impulsionou-o para outras tarefas e outro rumo. Resolveu dedicar a sua vida à América Latina. É nomeado vice-reitor da Universi-dade Católica de Porto Rico, cargo que ocupou durante o quadriénio de 1956-1960. No termo do seu desempenho nesse cargo, abandonou o posto e obteve a sua redução ao estado laical, num processo ridículo, por parte do Santo Ofício, que o destituiu das suas prerrogativas enquanto ‘prelado’, mas o obrigou a conservar a disciplina do seu sacerdó-cio.
Quebradas algumas amarras essenciais, sentia-se, agora, mais desimpedido e li-berto para desenvolver e aprofundar o que podemos chamar a sua ‘missão especial’. Em 1960, fundou em Cuernavaca (no México), o posteriormente famoso CIDOC (Centro Intercultural de Documentação), uma sorte de Universidade Livre/Aberta, de tipo novo, voltada e polarizada nos problemas e preocupações da Educação para o chamado ‘Ter-ceiro Mundo’ e na promoção da sua independência cultural, — dirigida, muito especial-mente, aos problemas e preocupações da América Latina.
Entre os factores, que vieram a determinar a criação do CIDOC, não pode esque-cer-se a atmosfera de renovação da Igreja Católica Romana, que então se vivia, designa-damente, o anúncio do ‘Aggiornamento della Chiesa’, por parte do Buon Papa Giovanni (João XXIII), em 1959, — renovação que viria a ter lugar no Concílio Vaticano II, que decorreu, efectivamente, entre 1962 e 1965. Dir-se-ia que, em tal atmosfera, a Colegiali-dade dos Bispos e os princípios da Democracia estavam a levar a melhor sobre os princí-pios tradicionais, eclesiásticos, da Hierarquia monárquica e do primado absoluto do Papa ‘in rebus fidei et morum’!...
E terá de anotar-se, desde já, que uma tal atmosfera de inovação, de abertura e descompressão das Autoridades eclesiásticas, em direcção à descoberta e promoção do autêntico e adulto ‘Povo de Deus’, foi tão importante e decisiva, que, logo a seguir, de-pois da ‘morte por envenenamento’ de João Paulo I, os reinados de João Paulo II e de Bento XVI, até ao presente, têm-se pautado e balizado por uma linha de retrocesso às po-sições e catecismos tradicionais/tradicionalistas; regressaram as hierarquias rígidas e até a reutilização do Latim como língua litúrgica, — tudo isso acompanhado,simultaneamente, pelo encarecimento do ‘sacerdócio ordenado’ e pelo esvaziamento e obliteração do ‘sa-cerdócio universal dos fiéis’.
Principais linhas ideológicas e doutrinais, expressas em muitos artigos e livros publicados:
— Ivan Illich contesta (com argumentos sérios e sensatos), e em termos estru-turais/estruturantes, a Sociedade actual, em muitas das suas estruturas e instituições so-cietárias, com particular relevo para as áreas da Escola, da Medicina e da Saúde, dos Transportes e das Comunicações.
— Dir-se-ia que, no mesmo processus, ele denuncia, sarcástica e provocatoria-mente, a contraprodutividade dessa mesma Sociedade, verificada, por exemplo, na perda de tempo, paradoxalmente causada pela aceleração da velocidade dos Transportes, bem como pela nocividade dos ritmos mais velozes, em quase todos os sectores laborais da Sociedade.
Dirão logo alguns críticos que ele foi mais certeiro na crítica e no diagnóstico dos males sociais/societários, do que na propositura de soluções alternativas... Todavia — é preciso dizê-lo ad hominem —, quando (quase) toda a trama societária nos aparece como contraditória e absurda, é já muito bom quando se tem a lucidez e a coragem de escolher e identificar os pontos principais por onde se deva começar a Reforma!... Assim, acusar Illich de não ter sido suficientemente realista, constitui, não só, sintoma de má fé para com a personalidade e sua obra, como redunda, também, na clássica hipocrisia de pac-tuar, sistemicamente, com os males estruturais e as contradições mortíferas das nossas Sociedades actuais!... Não se pode esquecer que está já bem presente, na obra de I. Illich, a necessidade de ultrapassar os males da ‘sociedade de consumo’. Esta temática é tornada manifesta no artigo ‘Besoins et institutions’ de Everette Reimer (colaborador de I.I.), pu-blicado no nº especial da Esprit (Dez. de 1969), subordinado ao título ‘Dépasser la socié-té de consommation’.
Em 1976, Ivan Illich decidiu extinguir o CIDOC, considerando já cumprida, até certo ponto, a sua missão inicial de lançar e estimular ideias matriciais, semear inquieta-ções e perturbações, promover análises e investigações, incentivar a livre discussão, — empreendimento ciclópico de que tanto carecemos nas nossas pseudo-democracias re-presentativas do Ocidente (europeu e americano).
O ensaísta e crítico social-societário em estudo, pela clarividência e penetração das suas análises e avaliações críticas, nos domínios sociais-societários, as quais se torna-ram conhecidas everywhere, na Civilização/Cultura do Ocidente, muito particularmente nas décadas de ’60-80 do séc. XX, pode muito bem ser considerado ‘o Marx da 2ª metade do séc. XX’.
A bússola que norteia a sua crítica social/societária é o que, com Jacques Derrida, podemos designar por Desconstrução crítica. Em numerosos artigos e livros editados, ele empenhou-se em profligar e denunciar muitas das instituições e estruturas das sociedades contemporâneas. Desde logo a Escola e a Educação, monocórdicas e uniformistas, tal co-mo se acham organizadas; a medicina mecanicística e os medicamentos, cuja distribuição se vê drasticamente restringida em virtude das exigidas patentes, resultantes de um eco-nomicismo, incapaz, por definição, de se pôr ao serviço global de todas as populações, sem discriminação de recursos; os transportes e o seu sistema de organização societária que levam, paradoxalmente, à perda de tempo, quando o que se preconiza, sistemicamen-te, é a sempre maior velocidade na vida quotidiana...
O que, manifestamente, mais surpreende, na abordagem crítica de Ivan Illich, é a sua argumentação ‘ad hominem’ (uma sorte de ‘ovo de Colombo’... algo em que ainda não se havia pensado e, vistas bem as coisas, se mostra como a coisa mais evidente do mundo!): por exemplo, a denúncia da própria contra-produtividade e da sua nocividade implícita, nos processos de fabrico, distribuição e consumo estandardizados. Outro exem-plo: a perda de tempo, desencadeada pela aceleração da velocidade nos transportes.
Dir-se-ia que é o 1º Autor, onde, no nosso velho mundo ocidental da Economia e da Sociedade, começam a aflorar, com coragem e sem medo, as análises críticas capazes de denunciar as contradições estruturais, o ‘círculo quadrado’, em suma. É, afinal, toda uma Economia e uma Sociedade, que não se acham, verdadeiramente, ao serviço do Povo real, dos Indivíduos-Pessoas singulares e concretos. Herbert Marcuse fez trabalho aná-logo, mas num plano mais teorético e globalista; Wilhem Reich prodeceu à sua constru-ção crítica da Sociedade, a partir das vertentes da Sexualidade, da Psicologia e da Psica-nálise. A pontaria crítica de Ivan Illich incide sobre as próprias Instituições societárias. Por isso mesmo, a sua mensagem foi mais contringente e embaraçosa para o Establish-ment!...
A 18 de Junho de 1940, aos microfones da BBC, o General Charles De Gaulle fa-zia o apelo solene à Resistência dos Franceses contra a ocupação da França pelo nazismo hitleriano, e proclamava que a chama da Resistência nunca deverá extinguir-se. A propó-sito do tema, escreveu com acerto José Manuel dos Santos (in ‘Expresso’/Actual, 19.06. 2010, p.4): “ Passam agora 70 anos sobre o Apelo de 18 de Junho, e as celebrações na Europa têm-nos dito tudo, excepto o essencial. E não dizem o essencial, porque os polí-ticos que comemoram uma resistência e uma recusa são os políticos da aceitação e da desistência. São os filhos de Pétain e não os herdeiros de De Gaulle.
“ No tempo de todas as crises, o Apelo de 18 de Junho continua a afirmar-nos que não há quase nada que a vontade não possa defrontar. Num tempo em que o antigo deter-minismo historicista foi substituído pelo novo determinismo economicista, é altura de fa-zermos da vontade de não nos sujeitarmos um gesto lançado sobre o mundo. Porque aqueles que geraram a crise são os mesmos que a usam para acabar com o que de bom ainda não tinham conseguido destruir. Ao apontarem ao Estado Social o seu ódio, pro-clamando a inelutabilidade do seu fim, são eles os Pétains do nosso tempo, — aqueles que se rendem à força bruta de uma economia que faz da violência, da irresponsabilidade, do crime e da eugenia social a arma com que avança e submete, contando com o nosso desânimo em frente do desastre”. Por quanto mais tempo?... — É a pergunta diante das muralhas da cidade e de uma civilização em decadência acelerada!...

*

            • Obras principais de IVAN ILLICH ou que obtiveram maior repercussão:
Celebração da Consciência (1970); (trata-se do mesmo livro que dá pelo título de Li-
bertar o Futuro).
Une Société sans École (1971): tradução de Deschooling Society (Harper and Row,
N.Y., 1971).
Convivialidade (1973);
Energia e Equidade (1973);
Nemesis Médica, a Expropriação da Saúde (1976);
A Greve Criadora (1977);
O Trabalho Fantasma (1981);
O Género Vernáculo (1983);
Hdois-O e as águas do esquecimento (1985);
Libertar o Futuro (1971): Libérer l’avenir (Seuil, 1971), tradução de Celebration of
            Awareness (Doubleday, N.Y., 1969).
Nos domínios ‘ontológicos’ da Psico-Sócio-Antropologia, dir-se-á que o livro que mais se destaca, em termos de Projecto crítico, é: Libertar o Futuro ou Celebração da Consciência. Trata-se de uma obra que até se pode considerar premonitória e precursora, tanto das novas Ciências do Conhecimento, como da nova atmosfera cultural do que nós chamamos a Pós-Modernidade Crítica e Positiva. Em termos operatórios e instrumen-tais, o destaque poderá ir, sem dúvidas, para o livro Sociedade sem Escola ou Deschool-ing Society, na edição original.
Para se chegar a perceber e a captar o núcleo duro desta obra de Illich, é preciso prestar atenção crítica a duas premissas: A) o ambiente crítico-cultural que se vivia e ex-perienciava nos anos ’60 do séc. passado e que desembocou na célebre ‘Revolução do Maio/68 (em França e nos USA): a Escola institucionalizada, nos Sistemas Educativos nacionais do Ocidente, era criticamente considerada como uma ‘máquina devorante’, a forja sancionadora das desigualdades sociais e das classes sociais. (Vejam-se, entre ou-tras, as obras críticas de Bourdieu, Passeron, Baudelot e Establet); B) o desenvolvimento posterior, assumido pelo Sistema capitalista, na fase do neoliberalismo global, que foi evoluindo no sentido da industrialização dos Serviços culturais e da Educação.
O sentido profundo deste desenvolvimento posterior do Sistema capitalista ainda está por definir e caracterizar em termos críticos, sobremaneira no concernente às funções e missão substantivas da Instituição Escolar e dos respectivos sistemas educativos na-cionais, apreciadas criticamente numa óptica holística das funções antropológicas a se-rem desempenhadas nos aparelhos societários.
É que a actual industrialização dos  Serviços culturais e da Educação, o que está a fazer é atirar fora o bébé com a água do banho!... Argumentarão os próceres do Neoliberalismo capitalista global: o que nós estamos a operar, em última análise, é a de-molição do Despotismo ideológico e do paternalismo, nas áreas da cultura e da políti-ca... Não. Estão a enganar-se a si mesmos e aos seus interlocutores. Os objectivos para os quais se encaminham já são sobejamente conhecidos. Chamam-se: Religião do Econo-micismo, com a Escola e os Sistemas Educativos transformados em instrumentos e ser-vos ao serviço do Establishment neocapitalista, de dimensão, agora, pretendidamente planetária!...
Neste horizonte crítico, as denúncias de Ivan Illich eram certeiras no atinente a uma Escola institucional, que se achava, sem sombra de dúvidas, serva e submissa, ao serviço do Sistema capitalista imperante e seus interesses universais. Cumpre-nos, toda-via, asseverar hoje que a sua proposta de uma Sociedade organizada sem Escola institu-cional, não resultou, nem podia resultar, em termos da Modernidade ocidental, porque uma Sociedade destas, sem Escola institucional (organizada e estruturada democratica-mente), só tem duas saídas: ou se desagrega e dissolve... ou é reagregada (em esquemas gregários!...) pelo sistema produtivo e económico vigente (que, por sua vez, readoptará a instituição escolar em seu proveito...).

* * *

II

ILLICH EM DEBATE na Rev. ‘Esprit’ (Março de 1972):

RESPIGANDO ALGUNS TEMAS E TESES ESSENCIAIS

            Quatro anos passados sobre a tão celebrada como fracassada ‘Revolução do Maio/ /68’ em França, a Revista ‘Esprit’ (dirigida por Jean-Marie Domenach) dedicou, no nº cit., todo um dossier (de quase 100 pp.) à obra de Ivan Illich, o qual incluiu um texto in-trodutório assinado pelo próprio Autor, acompanhado de uma discussão ulterior, em que tomaram parte nove personalidades (intelectuais e universitários e figuras ligadas a parti-dos políticos). Será caso para apostrofar que a ave de Minerva só chega ao crepúsculo, dando razão ao aforismo de Goethe: ‘No princípio era a Acção’!...
O Marxismo do 1º Congresso da Associação Internacional dos Trabalhadores (1864/6) não desdenhou associar as crianças dos dois sexos, a partir dos 9 anos em geral, ao  sistema  do Trabalho produtivo da era industrial. A posição ideológico-crítica cifrava--se nesta proposição: reconhecendo e criticando, embora, as malfeitorias causadas pelo Sistema capitalista, o que se preconiza, em linhas gerais, é a combinação do trabalho produtivo com a educação das crianças e dos jovens.
Ora as propostas críticas e as teses de Ivan Illich são radicalmente novas, até em confronto com o Marxismo mais acrisolado e crítico. Ele começou por desconfiar (criti-camente) da própria Escola institucionalizada nas nossas Sociedades ocidentais, bem como da escolaridade e do universo educacional que ela promove. É óbvio que ele se dis-tancia bem de alguns dos seus detractores, que misturaram e confundiram a bandeira da ‘desescolarização’ da Sociedade com quaisquer movimentos estigmatizados pela bar-barização.
O leque das teses de I.I., apresentadas no enquadramento de base para este Deba-te, é, com efeito, tão importante e decisivo, que o Autor não se configura, deveras, em ne-nhum dos quadrantes convencionais: comunismo ou socialismo real, liberalismo clássico-tradicional (anglossaxónico), capitalismo tradicional, etc.. Por isso mesmo, as teses il-lichianas são radicais e solicitam sempre a nossa melhor atenção crítica; por isso, igual-mente, mutatis mutandis, elas são, ainda hoje, quase meio século volvido, (e na nova fase do neoliberalismo capitalista global...), absolutamente pertinentes e actualíssimas.
Os monstros principais das modernas sociedades ocidentais industrializadas, de-nunciados e combatidos por I.I., são o produtivismo e o consumismo sem limites. Daí decorrem as suas duas ideias matriciais e sistémicas: A) É preciso e urgente ‘desescola-rizar’ a Sociedade. B) A produtividade tem de ser corrigida e equilibrada pela Con-vivialidade (geminada com a primeira). Eis por que um dos axiomas mais importantes e decisivos da obra e da mundividência de Illich, é o que ele enuncia como segue: “ As ins-tituições toleráveis serão aquelas em que os objectivos de produtividade e de conviviali-dade se hão-de temperar mutuamente” (cf. ibi, p.353).
Alguns dos participantes no Debate (por ex. J.-W. Lapierre: ibi, p.385) criticaram o Autor por ter operado segundo uma grelha sociológica reducionista: a sociedade consti-tuída apenas por indivíduos e instituições; como se tudo o resto ficasse eclipsado: grupos sociais, etnias, categorias e camadas sociais, classes sociais e castas, etc.. Na verdade, o Leit-motiv de I.I. é a denúncia e a crítica das Instituições (sociais), — o que o leva a pos-tular o seu parâmetro metodológico princeps, que o Autor designa pela expressão ‘Inver-ter as Instituições’ (título do seu estudo inicial, no presente nº da Esprit).
Nas origens (ou raízes) do Pensamento criticista de Ivan Illich está já o que hoje podemos designar com as expressões filosófico-históricas: recuperação dos Sujeitos in-dividuais-pessoais, dos Sujeitos livres e responsáveis; recuperação de um Sujeito sempre ausente na odisseia da Civilização ocidental (a não ser nas categorias raras do génio ou do herói...). Contra a sempiterna religião do Objectualismo.
Assim, quando o Autor ergue a sua bandeira de uma Produtividade e Convivia-lidade juntas e unidas, ele não está a fazer outra coisa senão a exigir o cumprimento da união (sagrada) das duas dimensões essenciais da vida humana, qua tal: Produção e Convívio; dimensão vertical/instrumental//dimensão horizontal/relacional humana: respostas, em simultaneidade, ao que fazer e ao como fazer!... Escreve Illich (ibi, p.324): “ As pessoas não têm só necessidade de objectos, elas têm necessidade, acima de tudo, da liberdade de fazer coisas no meio das quais possam viver, dar-lhes formas de acordo com os seus próprios gostos, e de as porem em acção para se ocuparem com os outros”.
Sobre a Convivialidade e o que está implicado nesse conceito, diz ainda (ibi, pp. 324-325): “ Escolhi este termo para designar o contrário da produtividade. Quero indicar com isso relações autónomas e criadoras entre as pessoas, dum lado, e do outro, entre as pessoas e o seu meio-ambiente. Isto opõe-se à resposta condicionada e eficaz das pessoas às exigências do seu entorno e do seu quadro de vida. Considero que a convivialidade é a liberdade individual realizada numa interdependência mútua e pessoal, e tendo como tal um valor ético intrínseco. Creio que, sem convivialidade, a vida perde o seu sentido e os homens perecem.
“ A política é a estrutura formal, através da qual uma dada sociedade exprime e faz respeitar os valores que ela considera aceitáveis. Todas as estruturas políticas actuais, sejam elas etiquetadas de liberais, marxistas ou conservadoras, exprimem e impõem a produtividade em detrimento da convivialidade. Elas fornecem clientes às mercadorias, em vez de bens às pessoas. Os consumidores são forçados a comprar e a utilizar coisas de que não têm necessidade; não lhes é permitido participar, enquanto pessoas autónomas, no processo da escolha, e ainda menos na produção. A proliferação dos produtos é consi-derada como um objectivo, uma vez que assegura a expansão do processo de produção”.
Neste horizonte, diríamos em linguagem hodierna: o Universo humano, polariza-do, absoluta e hegemonicamente, na Produção e na Economia, deixou de estar centrado nos Sujeitos humanos, para se ver fulcrado absolutamente nas mercadorias e nos Objec-tos objectivo-objectualistas: a religião idolátrica da Mercadoria e do Objectualismo alienou e extinguiu os Sujeitos humanos individuais-pessoais. O que, de facto, se consta-ta, no Mundo de hoje, como adverte justamente o Autor (ibi, p.325), é que “ a conviviali-dade definha com o progresso da produtividade”.
Os efeitos e consequências estão à vista. “ Desta sorte, a institucionalização das necessidades sustenta a institucionalização da produção. Este círculo vicioso verifica-se tanto no domínio da produção dos bens como no domínio dos serviços” (idem, ibi, p. 326). Perante um tal estado de coisas, a preocupação principal de Illich, em termos críti-co-projectivos, consistirá em descobrir e identificar as fronteiras da lógica da institucio-nalização, para além das quais se cai na perda imediata e precipitada da Autonomia (dos Sujeitos individuais).
Se não houver limites superiores, para os processos do crescimento económico, da produção e da produtividade, todo o Universo humano, enquanto tal, se deteriora e esbar-ronda. “ O vício essencial das nossas instituições actuais não é devido a uma má gestão, nem a uma desonestidade oficial ou a um atraso técnico. Ele é devido a uma inversão fundamental das funções respectivas da produtividade e da convivialidade. Quanto mais o director é eficaz e o burocrata é minucioso, tanto maior é o poder dos instrumentos de que eles dispõem” (idem, ibi, p.328).
As sociedades contemporâneas (sejam elas capitalistas/liberais ou marxistas equa-cionadas com o capitalismo de Estado) — adverte justamente Illich — estão inexoravel-mente estigmatizadas por um crescimento contínuo e sem limites da produção e do con-sumo, que se torna necessário para justificar e financiar a primeira. “ A sociedade clássica de acumulação capitalista transformou-se numa sociedade de consumo” (idem, ibi, p. 329). E a própria noção de mercadoria abriu o seu bojo, para incorporar, além dos pro-dutos materiais e facilmente contabilizáveis, os produtos imateriais como a informação, a educação, a saúde e a justiça.
Argumenta bem I.I. ao pôr-se a questão (ibidem): “ Sugerir que a demanda da pro-dutividade sob a tutela de um bureau do plano, que protege os interesses da maioria, con-duzirá a resultados menos decepcionantes que uma produtividade que aumenta muito ra-pidamente sob a pressão de consumidores insatisfeitos, é ainda falsear o problema. [...]. Por essa razão, a crítica da má gestão, da desonestidade oficial e do atraso técnico não fa-zem outra coisa senão distrair a atenção do público face à única questão que interessa: in-verter a corrida em direcção à produtividade institucional e pôr-nos em marcha em busca da produção autónoma, por parte do homem moderno”. E assevera, logo a seguir (ibi, pp. 329-330): “ O que eu quero propor é um tipo de vida política radicalmente novo. Uma vi-da política que faria respeitar o direito do indivíduo de utilizar unicamente aquilo de que tem necessidade, de desempenhar um papel crescente, enquanto indivíduo, na produção, e que garantisse um meio-ambiente tão simples e transparente, que todos os homens pu-dessem, durante a maior parte do tempo, ter acesso a todas as coisas, que são úteis para se ocupar de si mesmos e dos outros”.
Desafiando o próprio Marxismo, Illich proclamava (ibi, p.330): “ Marx previa e esperava em 1843: uma sociedade cheia de coisas úteis e de homens inúteis. O que eu de-sejo, pela minha parte, é uma sociedade — e, por conseguinte, uma estrutura política — que permita às pessoas criativas satisfazerem as suas necesidades, tanto na condição de produtores como na de utilizadores”.
Dir-se-á que a Tese central-nuclear de I. Illich, sobre o relacionamento estrutural entre as duas dimensões societárias (Produtividade e Convivialidade), ficou bem expres-sa no seguinte passo (ibi, p.331): “ Pretendo fazer da convivialidade o critério (sobera-no) do nível de produtividade do equipamento de uma Sociedade:

           

Proponho a busca dos limites de certas dimensões de ordem tecnológica e ad-ministrativa, para além dos quais as disfunções sociais sobrepujam inevitavelmente os

benefícios para o homem médio; proponho a demanda de um procedimento político, que permita o desenvolvimento de um acordo maioritário sobre a necessidade de tornar esses limites obrigatórios, para todos os membros de uma dada sociedade. Por outras pala-vras, proponho que se faça da convivialidade o critério do nível de produtividade do equipamento de uma sociedade”.
            No concernente às Ciências Antropológicas, temos de convir que uma tal tese en-contra apoios certos e seguros no conceito de Homo Sapiens-Sapiens (o que é dotado de Consciência reflexiva e crítica); ela já não os encontrará na noção simples e elementar de Homo Sapiens (que John Gray, por exemplo, traduz por ‘Homo Rapiens’...).
            A lucidez e a perspicácia de Illich permitiram-lhe dar-se conta, nos anos ’70 do séc. passado, de que os economistas dos países (ditos) socialistas como os dos países ca-pitalistas, obedeciam todos à mesma cartilha do economicismo, i.e., do crescimento eco-nómico (financeiro!...) in infinitum. O Erro de Paralaxe era óbvio, para o Filósofo: “ A política actual procura acordos sobre o que deveria ser considerado como insuficiente e, em consequência disso, recusa definir o que deveria ser satisfatório. A política desejável deveria procurar um acordo sobre o nível de bens que uma maioria considera como sufi-ciente” (ibi, p.333).
            O próprio poder político continua a ser definido, estruturalmente, segundo o mol-de da produção interminável de mercadorias. Ora, uma concepção diferente da política exige-nos que “ o poder resultante de um consenso seja utilizado, acima de tudo, para fi-xar os limites dentro dos quais os utensílios modernos poderiam permitir ao indivíduo, numa comunidade política, satisfazer as suas necessidades e fazê-lo para si mesmo e em associação com grupos primários” (idem, ibi, p.334). Illich está a entrever, ca. de 20 anos antes, aquela problemática que nós e alguns (poucos) outros, na década de ’90, viemos a designar por exigências das Tecnologias Adequadas, — o que, infelizmente, não tem ti-do lugar no modo selvaticamente mercadorizante como se têm difundido e aplicado as novas Tecnologias da Informação e da Comunicação (T.I.C.).
            Nesse horizonte constituinte de um novo Poder político, Illich tinha uma missão bem clara e definida para a nova e verdadeira Esquerda. Escrevia ele, em 1972 (ibidem): “ Uma esquerda verdadeira não renascerá, nos planos nacional e internacional, a não ser que aprendamos a submeter ao controlo público a escolha das Tecnologias utilizadas na produção e as características dos produtos das indústrias. As Tecnologias novas tornaram a produção tão poderosa que o controlo social das suas vantagens é ilusório, a não ser que chegue ao ponto de controlar o que é produzido industrialmente e a interrogar-se sobre a sua necessidade”.
            O Autor está perfeitamente consciente da ‘metafísica’ nefasta e de sentido único, que preside à mundividência dos economistas e dos partidos políticos. O princípio que es-tá comandando o nosso Mundo é aquele segundo o qual “ o simples facto do progresso científico torna irreversível a tendência, que transforma todas as empresas comunitárias em indústrias, julgadas segundo a medida inicial da sua produção” (ibi, p.353).
            Nesta perspectiva, “ uma esquerda política, para ter sentido, deverá renunciar às diversas tentativas de tornar viáveis as nossas instituições. Ela deverá concentrar-se na tarefa de arruinar a sua tendência actual para o aumento da produtividade, que torna a convivialidade contrária ao funcionamento do sistema. Um hospital, hoje, tem por objec-tivo fornecer ao doente serviços profissionais médicos e paramédicos e excluir qualquer parente, amiga ou criança que gostaria de se ocupar com esse doente. As instituições tole-ráveis serão aquelas onde os objectivos de produtividade e de convivialidade são capa-zes de se temperar mutuamente” (idem, ibidem).
            Illich preconiza que a Inversão das Instituições (as diversas instituições que têm lugar na Sociedade) seja, o mais possível, levada a cabo em simultaneidade, visto que as suas sobredeterminações essenciais/nucleares se acham articuladas no Todo ‘orgânico’ da Sociedade. Não obstante, ele fala de razões ‘objectivas’ plausíveis que atribuem à Insti-tuição societária da Escola e dos Sistemas educativos alguma primazia reconhecida universalmente. Por isso, ele não desdenha iniciar o processus da ‘desinstitucionalização’ justamente pela ‘desescolarização’ da Sociedade (‘désinstitutionnaliser’, ‘dis-establishschools) (cf. ibi, p.335).
            A crítica primeira e fundamental, que o Autor faz aos sistemas escolares vigentes e dominantes, diz respeito ao ensino quantificável. “ O ensino quantificável, produzido pelas escolas, serve de pretexto racional para estabelecer uma correlação à escala mun-dial entre a produtividade e os proveitos. É igualmente inevitável que uma sociedade que define o ensino como um produto de base desencoraje o facto de uma pessoa se instruir participando na vida quotidiana e justifique um ambiente, no qual um número restrito de pessoas têm acesso aos factos e aos instrumentos que modelam as suas existências” (i-dem, ibidem).
            Illich penetrou a fundo nos efeitos perniciosos, nas ilusões democráticas, nas con-trafacções e nos absurdos dos sistemas escolares capitalistas. Escreve (ibi, p.336): “ Em resumo, mostrei que as escolas, ao criar uma hierarquia de capitalistas do saber (conside-re-se ou não socialista essa sociedade particular) alienam homens em confronto com ou-tros, reduzindo as relações inter-pessoais a relações entre os profissionais diplomados e os seus clientes, e alienam também o homem em confronto com o seu meio-ambiente, fa-zendo do consumidor um participante marginal nos processos pelos quais as suas necessi-dades são satisfeitas”.
            É óbvio que o problema é demasiado sério, visto que a Escola cria vínculos de uma índole muito especial no relacionamento estrutural inter-humano: “ As escolas per-mitem a um mestre estabelecer categorias de sujeitos e imputar a necessidade a categorias de gente chamadas alunos. O inverso das escolas seria um tecido de ocasiões que permita aos indivíduos mostrar o seu interesse efectivo e procurar algo que lhe corresponda” (i-dem, ibi, p.337). Eis por que “ a crise do ensino não pode ser resolvida senão através de uma inversão da estrutura institucional. Ela não pode ser superada senão na medida em que as escolas actuais, com ou sem muros, que preparam e autorizam programas para os estudantes, forem substituídas por instituições novas, mais semelhantes às bibliotecas e seus serviços anexos, que permitem ao que se instrui ter acesso aos utensílios e aos en-contros que lhe são necessários para aprender a realizar as suas próprias escolhas” (idem, ibi, p.336).
            O Autor sabe que é mais fácil a um adulto imaginar uma sociedade sem escolas do que dispensar a necessidade de um hospital. Mas assevera que “ a primeira atitude po-de conduzir à segunda. É evidente que a inversão estrutural das nossas principais ins-tituições, ou se produzirá mais ou menos simultaneamente para várias de entre elas, ou então não se produzirá de todo. Ela não pode ocorrer enquanto as pessoas não se tiverem dado conta da ilusão mantida pela economia moderna” (ibi, p.337). — Efectivamente, o que está em causa é, primordialmente, o modus operandi societário, não o que fazer de toda uma série (infinita...) de produtos e mercadorias!...
            É preciso ter a coragem de ultrapassar, criticamente, os tabús da chamada ortodo-xia económica, que, actualmente, constitui já uma vera ‘religião do Economicismo’ (cla-ro, capitalista). Estava certo, por conseguinte, o Autor, ao afirmar (ibidem): “ A aplicação de uma tal inversão dos objectivos da sociedade por uma política de limites máximos, em vez de mínimos, passaria, como indicarei mais adiante, pela inversão da estrutura das instituições, que nos facultam actualmente o ensino, os cuidados médicos, a ajuda social e outros bens”.
            Os economistas tradicionais têm conhecimento do axioma: a frustração é o resul-tado inevitável da satisfação (insaciável...). Mas não o aplicam. Preferem pensar e pres-supor, em nome do crescimento económico in infinitum, que “ o homem é um caixote do lixo sem fundo, um consumidor incurável, e um produtor marginal” (idem, ibi, p.338). No Processo histórico moderno, como é sabido, o sistema capitalista produziu, dialectica-mente, o ‘socialismo real’ (= capitalismo de Estado); e depois do colapso da U.R.S.S., em 1991, o neocapitalismo global acabou por estiolar os restos, que ainda havia, de democra-cia representativa, em nome do imperialismo capitalista planetário. Eis porque estava certo I.I. ao afirmar (ibi, p.339): “ De facto, o avanço de uma sociedade em direcção a formas mais evoluídas de produção justifica a ditadura do proletariado vitorioso, repre-sentado pelos funcionários do partido. É suposto que eles ordenam uma produção acresci-da como um objectivo em si, em vez de o fazerem para a satisfação presumida dos seus mandantes”.
            No meio de tudo isto, há um dado estruturante, que é sempre ocultado e nunca é oficialmente reconhecido: “ a evolução histórica fundamental é a da tecnologia, que ar-rasta consigo um crescimento da produtividade. O progresso da técnica acarreta consigo um crescimento da produtividade tão irreversível que é irresistível” (idem, ibidem). É sempre o atractor da ‘last frontier’ dentro da cartilha da suprema ‘religião do Objectua-lismo’!... Se há realidade que se assemelhe mais à Religião institucionalizada, essa é precisamente a do Mercado precisamente enquanto ‘jogo de azar’.
            Se quisermos fundar e constituir uma nova Esquerda verdadeira, é mister que te-nhamos o saber e a coragem de formular, sobre os meios tecnológicos, juízos de valor de índole psico-sócio-antropológica, e que, em consequência, sejamos capazes de propor e justificar a limitação voluntária das tecnologias, precisamente em nome da sua adequa-ção à Gramática dos Humanos. Os factos estão aí para serem observados criteriosa-mente: “ a nossa imaginação política está hipnotizada por escolhas que tendem à produ-ção de mais objectos por mais pessoas e se acha, assim, paralizada, quando tentamos con-centrar-nos numa inversão possível deste objectivo político. Uma política nova e radical significa fazer da necessidade de limites superiores de consumo por cabeça o centro de aspirações à escala mundial, a fim de preparar uma tecnologia para uso do homem, ca-paz de substituir a tecnologia actual, que subordina as necessidades humanas ao cresci-mento sem fim da produtividade” (idem, ibidem).
            A Crítica séria e decisiva tem de atingir as bases ‘metafísicas’ sobre as quais se edificou a Economia moderna. Escreve o nosso Autor (ibi, p.345): “ Literalmente, a eco-nomia fornece à nossa sociedade uma definição abstracta do seu pecado original, exacta-mente como os metafísicos ou os teólogos em outros termos. O economista formula a an-tropologia que se adapta à nossa sociedade nos termos mais abstractos, e define o homem como um ser que encontra a felicidade pagando o preço mais elevado possível pelo seu próprio condicionamento a uma frustração crescente”.
            Nesse horizonte — adverte justamente Illich (ibi, pp.345 e ss.) —, é óbvio que são igualmente falsas, tanto as revoluções polarizadas nas exigências do consumidor (no esquema, v.g., da contra-revolução do consumidor protagonizada pelo ‘Naderismo’), co-mo as revoluções centradas nos tecnósofos que não passam de tecnocratas impenitentes (do tipo de R. Buckminster Fuller, os quais se limitam a reformar o ambiente mas não o homem...). É que tanto as soluções tecnocráticas como as soluções ideológicas consti-tuem orientações e balizamentos que seguem, ambos, pela mesma estrada. “ Na perspec-tiva sob a qual encaro, aqui, a nossa sociedade, as ‘soluções tecnológicas’ e as soluções ‘político-económicas’, que é corrente opor umas às outras, revelam-se como dois apoios complementares do crescimento ilimitado” (idem, ibi, p.345).
            Com efeito, as duas linhas ‘revolucionárias’, que até não são nada opostas como é suposto, não chegam a romper o odre da Modernidade ocidental, com todas as suas con-tradições; elas prosseguem, afinal, soletrando e lendo pela mesma cartilha. O nosso Autor explica a problemática e caracteriza as situações no parágrafo seguinte (ibi, p.346):
            “ Os partidários da modernização, enquanto remédio para a crise das nossas insti-tuições, recorrem a duas vias reaccionárias distintas. Cada uma pretende conduzir a uma revolução e cada uma sustenta, de facto, o modo de proceder existente. Cada uma destas pretendidas revoluções atribui o funcionamento defeituoso das nossas instituições a um bode emissário diferente e nenhuma põe em acusação o próprio objectivo das institui-ções. A primeira ‘revolução’ fala em nome do consumidor e censura o produtor pelos preços e pela qualidade das mercadorias. Os seus partidários gostariam de tomar a res-ponsabilidade do departamento dos modelos e dos preços de Ford. Os defensores da se-gunda ‘revolução’, a revolução científica e técnica, vão um pouco mais longe, até à cria-ção de mitos, o que permite qualificar as suas proposições de ‘tecnosóficas’. Eles querem, por exemplo, chegar a uma abertura, em toda a indústria dos transportes, que permitiria obter uma velocidade superior, e não os preocupa que tal aconteça com ou sem viaturas. Em termos mais gerais, eles propõem colocar as nossas instituições ao serviço dos seus objectivos últimos, fornecendo-lhes utensílios mais potentes”.
            Além desses dois tipos  de ‘revolucionários’, há ainda um terceiro tipo, os ‘tecno--anarquistas’, que pressupõem poder instaurar, sem limitações de qualquer ordem, o im-perativo tecnocrático ao serviço da sociedade inteira; estes não se distanciam, qualitativa-mente, dos tecnósofos/tecnocratas. I.I. continua a caracterizar os dois tipos principais como segue (ibi, p.349): “ O porta-voz do consumidor e o tecnósofo são, um e outro, reaccionários, mas este último é-o, ainda, mais profundamente. Uma revolução dos con-sumidores é bem sucedida, se o consumidor obtem o que deseja na prateleira de um su-permercado, na barra de um tribunal ou no programa de uma universidade”. “ O consumi-dor pode, então, conseguir uma espécie de vitória, mas esta é só temporária. As soluções ‘tecnosóficas’ retiram-lhe, até, esta oportunidade” (ibidem). Além do mais, deve ob-servar-se que “ a adopção de uma ‘solução’ tecnológica significa um empenhamento polí-tico sem o recurso ao voto” (idem, ibi, p.350).

           

Voltando às Escolas, aos sistemas escolares e educativos, visto que é, operato-riamente, a partir daí, que as novas Revoluções, a haver, terão de dar os primeiros passos. Os vícios/erros estruturantes da Escola e dos Sistemas Educativos, nas modernas e con-temporâneas Sociedades ocidentais, prendem-se, todos, com essa Alavança de Arquime-des que é o Factum de as Instituições Escolares se haverem moldado e estruturado, se-gundo as formas/fôrmas industriais dos sistemas produtivos, baseados na acumulação in-cessante do capital. Illich deu-se conta deste dado sócio-histórico irrecusável.  

           

E teve a pachorra de explicar-se (ibi, p.352): “ As escolas não foram criadas, na sua origem, com a intenção de estabelecer um complexo industrial para a produção dos conhecimentos; elas tinham por objectivo dar a cada um uma oportunidade de se instruir. Mas elas tornaram-se uma forma de asseguramento obrigatório da produtividade futura de cada criança. Todos os governos do mundo estabeleceram o monopólio da profissão docente, dando-lhe o direito de decidir qual a quantidade dos seus cuidados experimenta-dos que cada cidadão deve receber. Logo a seguir, a profissão pôde igualmente decidir qual a quantidade desse tratamento que era necessária para um indivíduo concreto, e fi-nalmente, ela pôde utilizar o seu poder de lho dar. O ‘asseguramento’ de uma quantidade mínima de um serviço qualquer é sempre uma forma de controlo social, que permite ao dirigente manipular a corrente económica, ao determinar o nível desse mínimo. O assegu-ramento universal constitui, assim, um meio de utilizar o instinto de jogo de toda uma po-pulação, para tornar estimulante o consumo obrigatório”.
            O manto diáfano (ou espesso...) e universal da Religião cobriu (directa ou indirec-tamente) toda a vida quotidiana dos habitantes hominídeos da Terra e a vida económica das Sociedades, começando pela ensinança sistémica dos jogos de azar!... A religião do Economicismo e do Objectualismo não tardou a invadir todo o Planeta. Senhores e es-cravos; professores e alunos; comandantes e comandados. A díade tem de desempenhar as suas funções e cumprir a sua missão. Esta é a de manter a Sociedade humana bem hie-rarquizada e em ordem. Cada um por si; Deus por todos...; a Sorte para alguns; e o Poder (constituído) para poucos!... Potestas e submissão!... Está tudo, aí, resumido. Fora desta cartilha draconeana, não há, não pode haver salvação!... Este diagnóstico, que é um repto satírico ad hominem, — Ivan Illich compreendeu-o perfeitamente, no seu núcleo duro.
            Desde logo, tem de haver limites; tudo no Universo está, paradoxalmente, marca-do pela finitude e pelos limites (a Hélade clássica percebeu isso muito bem). Se entende-mos que não há limites, o nosso papel e o nosso comportamento serão semelhantes ao de Caim que matou seu irmão Abel e que não foi capaz de responder à reprimenda de Javé/ /Deus, que o arguira: ‘Que é feito de teu irmão Abel?’ A isto, Caim não soube responder senão com a fórmula esquiva (a culpa a pretender sempre morrer solteira...): ‘Porventura sou eu o guarda de meu irmão?’ (Gén. 4,9).
            Illich sabe criticamente que há limites; e, por isso, ele propõe um acordo sobre os limites superiores, o qual não pode deixar de ser escrutinado, pela via democrática, a par-tir, justamente, dos votos dos Indivíduos-Pessoas/Cidadãos, à escala de toda uma Colecti-vidade nacional. Na pauta desse acordo, figura o Sistema articulado e conjunto, que en-trosa as duas dimensões: a Produtividade e a Convivialidade, bem como o nível de equilíbrio necessário e suficiente (de natureza psico-sócio-antropológica) entre as duas dimensões.
            Tem razão, por conseguinte, Ivan Illich ao concluir o seu trabalho pioneiro e pro-gramático como segue (ibi, p.360): “ A minha proposta de uma política nova, fixando um limite superior ao consumo, não é um simples neo-ludismo. Eu não proponho a diminui-ção dos utensílios da vida em número e em quantidade. O que eu proponho é uma desva-lorização radical do papel que estes utensílios e a sua produção devem desempenhar na sociedade e na vida social do indivíduo.
            “ Uma política de limites superiores daria ao indivíduo um poder maximal para determinar quais os utensílios que são adaptados à sua existência, para os produzir e os utilizar à sua maneira e segundo os seus próprios objectivos, ao serviço da sua vida e da dos outros. Uma política radicalmente nova seria uma política de convivialidade”. Lobri-ga-se, aqui, em embrião, todo um Programa verdadeiramente inovador e revolucionário, — o que nós recuperámos e desenvolvemos no nosso livro ‘Em torno das Novas Tecno-logias e da Nova Economia’ (Edicon, São Paulo, 2000).

 

            • Discussão do tesário illichiano, no ‘dossier ILLICH’ (ibi, pp.367-421).
Os nove participantes no Debate sobre a Obra de I. Illich e o seu Projecto crítico, que a Rev. Esprit integrou neste nº especial de Março/1972, convergiram, todos eles, na razoabilidade e na legitimidade crítica de base de um tal Projecto, no sentido de uma ne-cessária e urgente transformação da Sociedade in melius. Apesar do discurso dos depoi-mentos ser, por vezes, violento (como o do médico Henri Pequignot, que chegou a falar de panfleto, ao referir-se ao projecto do Autor: ibi, p.374). Os reparos e as divergências incidiram em aspectos e dimensões sobre o modus operandi, para a obtenção da sua efi-cácia e sucesso. Vamos aqui respigar, apenas, alguns pontos e temas de maior interesse e decisividade.
O economista Pierre Kende (autor do livro ‘L’abondance est-elle possible?’) fez questão de sublinhar a presença do humanismo libertário de inspiração cristã, na obra e no projecto de Illich. A questão central que ele perfilou foi a do ‘máximo legal’, postu-lado por uma exigência estrutural de Disciplina, na dinâmica da Economia política. Cha-mou a atenção para o facto de que o impulso (a inércia positiva) da produção não pode ser detido por um decreto (pp.367 e ss.). Articulados com essa questão central, estão os problemas dos conteúdos e funções atribuídos às duas dimensões da vida produtiva em sociedade: a produtividade e a convivialidade; bem como o modo de conceber e reali-zar o equilíbrio crítico entre as duas, uma vez que a produtividade capitalista aliena consabidamente. O próprio Kende adverte e concorda com o Autor sobre a vitimização da sociedade que entroncaria precisamente nos capitalistas do saber.
A este ponto, é de lembrar e invocar uma das teses centrais de Illich: justamente o que ele designou pela necessidade urgente de desescolarizar a Sociedade, visto que a Escola e os próprios Sistemas Educativos estão ainda, sistémica e operosamente, ao servi-ço do Capitalismo (ainda mais, depois do colapso da URSS, em 1991, durante esta mais recente fase do neoliberalismo global). Uma questão muito pertinente é a formulada por Kende nestes termos: “ Ignoraria Illich que o crescimento da produtividade geral e a utensilagem do grande número (quaisquer que sejam os utensílios postulados) não são objectivos contraditórios”? (cf. ibi, p.370). É claro que o Autor não ignora tudo isso. Os mal-entendidos resultam, afinal, de Kende estar a funcionar sobre os pressupostos do Ho-mo Sapiens linear, ao passo que o diapasão de Illich é o do Sapiens-Sapiens (o homem racional ao quadrado!...). É que — respondendo a Kende — só nesta óptica faz sentido estabelecer um ‘máximo legal’ (obviamente, através de uma decisão democrática, obtida de modo directo ou indirecto).
Com efeito, só por essa via será possível conseguir a vera e eficaz inversão das Instituições; e, no próprio processus, descobrir e identificar, operatoriamente, os motivos estruturais por que, no Sistema capitalista dominante, a ‘produtividade’ (alienante...) es-corraça a ‘convivialidade’ (cf. ibi, p.371). Apesar de tudo, P. Kende tem a sabedoria de chegar à conclusão de que os dois controlos — o institucional e o interior — se devem completar reciprocamente. “ Uma comunidade preocupada com o equilíbrio pode de-terminar os limites toleráveis — inferiores e superiores — dos réditos privados, para aproximar — tanto quanto possível — o peso económico de uns e de outros” (idem, ibi, p.373). A condição essencial é que todo esse processus seja conduzido pela via demo-crática.
Paul Fraisse (professor de psicologia na Univ. René Descartes em Paris) optou por enaltecer, em toda esta problemática illichiana, o primado do político (cf. ibi, pp.376 e ss.), hoje tão esquecido em vantagem do que nós chamamos a religião do Economi-cismo. Diz ele no seu depoimento (p.377): “ Os problemas que estão diante de nós são de ordem política: política nacional de distribuição dos rendimentos, política mundial de produção do mínimo vital. Depois, falar-se-á dos limites superiores. Quanto a estes, não há limite absoluto, e um moralista do séc. XVIII não teria as exigências de Ivan Illich”. Entretanto, o desenvolvimento posterior do Sistema capitalista, apoiado na ‘Tecnociência de Aparelho’ ao serviço das grandes ‘Corporations’ multinacionais, impuseram-nos, contemporaneamente, novas e redobradas exigências psico-sócio-antropológicas!...
Todavia, lê-se claramente no depoimento de Fraisse (ibidem): “ Mais profunda-mente, é preciso que as instituições políticas nacionais e internacionais submetam a pro-dução aos verdadeiros interesses do homem! É a isso que eu chamo o socialismo. Esta-mos ainda, por certo, longe disso”. Não era bom que a coerência se mantivesse vigilan-te?! — Questionamos nós ad hominem. Até nos parece que Fraisse se acha engaiolado no ‘Homo Sapiens/Rapiens’ de John Gray...
Não obstante, há uma axiomática incontestável no texto de Fraisse, que é preciso reconhecer e salientar, até porque são sempre humanos a capacidade e o desejo de ultra-passar as contradições em que, tanto as instituições como a própria vida quotidiana, nos enleiam. Escreve o psicólogo, a propósito da necessidade de Inverter a Escola: “ Eu sei que a escola reproduz a classe dirigente, mas eu sei também que a classe dirigente não tem necessidade da escola pública para se reproduzir” (ibidem)!...
Há duas outras passagens, no depoimento de Fraisse, que dão testemunho de um pensamento vigilante e crítico. Uma é a que se interroga como segue: “ A socialização, a banalização do saber técnico indispensável à vida moderna, como articulá-la com o que permanece necessário em termos de especialização profissional?” (ibi, p.379). A outra diz o seguinte (ibidem): “ Illich não é desses nihilistas para quem o projecto de educar é ab-surdo ou arbitrário; ele acredita na comunicação entre gerações e na necessidade de mes-tres. O que resta é que o relacionamento pedagógico tem necessidade de uma redefinição completa, no contexto, que ele imagina, de uma libertação geral do direito de educar e do direito de escolher o seu educador”.
Yves Goussault (secretário-geral do I.R.A.M.) viu no projecto de Illich todo um questionamento pertinente e actual, com tal necessidade e urgência, que as suas origens explicativas nos podem advir de duas partes a confrontarem-se em dilema: a utopia il-lichiana seria o produto do mal-estar generalizado, que invadiu os países industriali-zados, diante da saturação e da poluição (hoje, acrescentaremos: alterações climáticas confirmadas...); ou a utopia illichiana seria a ponte de ligação entre aqueles países e os países subdesenvolvidos, a preconizar e a exigir um freio ao produtivismo ilimita-do e uma real inversão das instituições (cf. ibi, pp.379-381). A nosso ver, o projecto de I. Illich teve (e tem ainda...) o condão de se constituir como o resultado das exigências verificadas nas duas partes. É que tudo, no Universo humano, está efectivamente articula-do com todas as coisas. As especializações à outrance da Modernidade ocidental, anco-radas no princípio da Divisão social do Trabalho, conduziram-nos a negligenciar e a ignorar o Mundo Humano, na sua globalidade, e os Humanos na sua condição indecliná-vel de Sujeitos livres e responsáveis.
Jean-William Lapierre (professor de sociologia política na Univ. de Nice) levan-tou, sobretudo, questões estruturais-estruturantes, a saber: Poder-se-á inverter o curso das especializações na Modernidade? Que é mais importante: inverter as instituições  ou transformar os relacionamentos sociais? Como conciliar a busca da liberdade in-dividual e a limitação colectiva da satisfação? Sabe-se que o produtivismo é, por um lado, satisfação das necessidades, mas, por outro lado, ele constitui um poderoso ele-mento inegável do imperialismo ocidental!... (Cf. ibi, pp.381 e ss.).
Dir-se-ia, desde já, que é todo um modelo de Projecto da Cultura/Civilização do Ocidente que aqui está directamente em jogo, em termos críticos. E o Projecto de Illich — diga-se em abono da verdade — comporta perfeitamente esta questionação mais bási-ca e profunda. Lapierre avança com proposições axiomáticas do tipo seguinte: “ Reivin-dicar ‘o direito, para o indivíduo, de utilizar unicamente aquilo de que tem necessidade’, é atribuir a cada um uma consciência sem incertezas nem obscuridades sobre as suas ‘ve-ras’ necessidades”; “ podemos encarar a diminuição da raridade dos bens e aumentar, en-tão, as ocasiões de conflito, seja pela via do crescimento da produção, seja pela restrição das necessidades. Ivan Illich propõe substituir a primeira solução pela segunda” (ibi, p. 382).
O sociólogo parece esquecer o outro axioma para que advertia Illich, a saber: a consciência (e a liberdade) do indivíduo é definida e formada no quadro de ‘uma inter-dependência mútua e pessoal’ (lembrando-nos, aqui, a própria dialéctica socrática). Mais: em quase todas estas posturas críticas perante o Projecto illichiano, o que sempre parece ocultar-se nos bastidores e nunca é revelado (in actu signato) é a própria definição ele-mentar/linear de ‘Homo Sapiens’, que não é ‘dono’ de si e carece sempre de um Amo (com o qual ‘não pode jogar as pêras’, como reza o rifão popular português!...). Mas essa criatura não tem nada a ver com o ‘Sapiens/Sapiens’ (que começou com o Homem de Cro-Magnon de há 60.000/40.000 anos e constitui a definição clássica dos Humanos, enquanto tais).
Lapierre converge, na verdade, com Illich, quando se dá conta do seguinte: “ Mas trata-se, então, de uma outra escola, que não a tradicional, e não de uma supressão de qualquer escola, de uma desescolarização” da Sociedade (ibi, p.385). Ivan Illich sabe muito bem que não é o Sistema de educação que vai produzir directamente os efeitos de acabar com a exploração capitalista e com a opressão burocrática. Mas sabe, igualmente, que tais efeitos podem e devem começar a ser eliminados pelos Humanos formados em novos moldes. Dando o salto para o segundo patamar da antropogénese, (que é o do ‘Sa-piens/Sapiens’), dir-se-ia que o Projecto de Illich, ao reivindicar a re-formação dos Indi-víduos e a completa inversão das Instituições, procede à intersecção simultânea, tanto da Família como da Escola tradicionais, por forma a fazer emergir, do processus, uma Família nova e uma Escola nova.
Os principais pontos críticos de Lapierre, no seu confronto com Illich, prendem-se com um estruturador espírito de ‘compartimentos estanques’ em que a Modernidade oci-dental nos educou a todos e face ao qual cumpre estar criticamente alerta. Assevera, por exemplo, Lapierre (ibi, p.389): “ Denunciar as malfeitorias do produtivismo é uma coisa. Passar em silêncio os problemas da produção é outra coisa”. Para quê? Lançar a coima sobre os ‘indivíduos’ illichianos, cujas interrelações se devem apresentar como ‘relações autónomas  e  criadoras’, — aquilo que nós hoje designamos pela  expressão Indivíduos--Pessoas livres e responsáveis. Eis por que não faz sentido lançar-lhe em rosto a acusa-ção de herdeiro dos sonhos do mutualismo proudhoniano ou dos mitos do anarco-sin-dicalismo (cf. ibi, p.388). Quantas vezes o ‘bom comportamento’ intelectual não é outra coisa senão a cedência às tentações da acomodação e do conformismo!... Sobremaneira, no mundo académico.
Onde Lapierre nos parece raciocinar com mais acerto é quando se reporta a casos, configurados no plano das políticas práticas. Escreve (ibi, p.391): “ No conjunto, o que Ivan Illich escreveu sobre a religião da escola não é falso. Mas, em França, a escola e a Universidade públicas são também um dos raros lugares onde permanece ainda possível uma crítica radical da ordem estabelecida. É por isso que os detentores da ordem estabe-lecida não gostam nada dos ‘caros professores’. Eles não detestariam inverter esta insti-tuição e substituí-la por uma organização do género da que propõe Ivan Illich”. — É ób-vio que, em tal questão, tudo depende dos critérios dos decisores políticos... e não se pode esquecer que a ‘geometria’, tanto nas relações humanas como nas instituições, é quase sempre má conselheira!...
Procurando a moderação dos ‘práticos’, a aproximação de Lapierre ao Autor é manifesta, ao escrever (ibi, p.392): “ Condenar a produtividade em nome de uma crítica do produtivismo, é atirar fora o bébé com a água do banho. Ivan Illich reconhece-o, aliás, quando escreve que ‘as instituições toleráveis serão aquelas onde os objectivos de produ-tividade e de convivialidade resultarão mutuamente temperados’. Já não se trata, então, de inverter as instituições, mas de as reequilibrar”. Em conclusão, Lapierre chega a consi-derar o Projecto de I. Illich como uma das vias possíveis para a realização do socialismo, sobremaneira, se tivermos em conta os escolhos maiores que a história tem registado no concernente à edificação do Socialismo: os desvios burocráticos e os desvios policies-cos, que se estão nas tintas para as exigências da convivialidade. “ A luta política — es-creve Lapierre (ibi, p.393) — consistirá, então, não em ‘inverter as instituições’, mas em barrar o caminho a esses desvios, através das tácticas mais apropriadas”.
Por sua vez, J.-P. Chevènement (membro do secretariado do Partido Socialista francês) é da opinião que a ‘revolução cultural’, preconizada por Illich, constitui a base mesma de uma revolução socialista para o nosso tempo, a partir do momento em que se identifiquem os meios adequados para a pôr em marcha. Sintomaticamente, porém, o Par-tido Socialista francês não quis saber da ‘revolução cultural’ de Ivan Illich (cf. ibi, pp.393 e ss.). Até hoje...
Referindo-se ao texto em pauta de Illich, Chevènement inicia o seu depoimento como segue (ibidem): “ Este texto parece-me, não só muito rico, mas cheio de bom senso. Ivan Illich parte das necessidades profundas do homem, e não das necessidades criadas pelo crescimento da produção. É o sentido da oposição entre ‘convivialidade’ e produti-vidade”. Nesta simples reflexão, o ‘socialista’ aponta as suas baterias para a necessidade imperiosa de re-fundar os Sujeitos humanos, alienados e objectualizados no processo moderno da produção, estigmatizado a tal ponto pelas Tecnologias, imbricadas em movi-mento ascendente mas sempre objectualizadas, que a condição de operário proletarizado dos trabalhadores, em geral, carregou consigo uma espécie de ‘naturalização’ da servi-dão/escravatura!... Por que nunca se postulou a edificação de uma vera democracia eco-nómica, ao lado das democracias políticas representativas? É uma pergunta que sem-pre nos cumpre fazer ad hominem!...
Chevènement parece ter captado bem o sentido da utopia crítica de Illich. Trata-se da necessidade (indeclinável) de uma vera revolução cultural, uma revolução das sensi-bilidades, que se torna imperiosa, em primeiro lugar. O raciocínio filosófico e sócio-eco-nómico, que vai desembocar no imperativo illichiano de fixação dos ‘limites superiores’, a sua construção pode desenhar-se, sumariamente, como segue: Quer em regime capita-lista, quer em regime ‘socialista’ (=capitalismo de Estado), o que predomina absoluta-mente é a ditadura do capital e a soberania do mercado, mesmo quando este dá lugar ao ‘Plano’ (concebido e mandado executar por uma Grande Corporação Burocrática: ex.g., a velha ‘Nomenklatura soviética’). Essas duas ditaduras (capital e mercado) são a expressão mais feroz e brutal da religião do Objectualismo, a que foram submetidos os Sujeitos humanos.

           

A ultrapassagem das duas ditaduras só pode começar a ser operada mediante o que Chevènement designa por ‘autodeterminação das necessidades pelos próprios pro-dutores’ (cf. ibi, p.395). É este processus que pode ter, de facto, o condão de juntar o que tradicionalmente tem sido mantido separado pelos Poderes estabelecidos: os consumidores, dum lado, e, do outro, os ‘produtores’ bem hierarquizados numa maranha (objectua-lizada), sempre dependente de Patrões e Chefes. (Produzir por conta própria... é uma si-tuação cada vez mais rara, no regime que Marx identificou, lapidarmente, como ‘o modo de produção capitalista’!...).
Por seu turno, Pierre Caussat (assistente de Filosofia na Univ. de Nanterre) adere de boa vontade à utopia crítica de Illich; e a sua contribuição para o debate polariza-se na exigência de uma dimensão real de pluralismo, que terá de constituir a marca principal das Sociedades onde o Projecto for implantado, — pluralismo substantivo, susceptível de comportar modos de vida diferentes (não apenas ideologias...) (cf. ibi, pp.396 e ss.). Esta é, sem dúvida, uma coordenada importante e decisiva, desde logo justificada, estru-turalmente, porque o Sistema capitalista, diametralmente oposto, se caracteriza pela ho-mogeneização e pelo uniformismo, sempre embalados pelo espírito de corsário e/ou pira-ta do ‘pensamento único’.
Caussat evoca, com justeza, o axioma pervertido de Saint-Simon e Cournot, que exprime o mundo capitalista por antonomásia, e sobre o qual incidem justamente as de-núncias e as críticas de Ivan Illich: o Governo dos homens continua, infelizmente, a prevalecer sobre a Administração das coisas (a bandeira erguida por um verdadeiro e autêntico Socialismo seria constituída pela fórmula: O Governo dos homens deu lugar à Administração das coisas)!...
Que boa lição se pode e deve recuperar, ainda hoje, do conde de Saint-Simon (1760-1825)!... Sobre o regime de propriedade, ele proclamava que o princípio do respei-to pela produção e pelos produtores era muito mais importante e decisivo do que o res-peito pela propriedade e pelos proprietários. Advogava a necessidade imperiosa de ins-taurar a gramática (horizontalista) da cooperação, nos processos produtivos. Para a re-organização da Sociedade europeia, ele preconizava, já no seu tempo, o princípio da união do talento e da propriedade (efectiva).
Ancorado nas perspectivas dos efeitos positivos da Ciência e da Indústria (mo-dernas), entrosadas uma na outra, Saint-Simon defendia o princípio: De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas obras. Reivindicando uma perspectiva, professadamente socialista, Marx substituirá o segundo hemistíquio do aforismo por: a cada um segundo as suas necessidades. Curiosamente, o rift entre o vero e o falso Socia-lismo toma corpo entre as duas versões diferenciadas do aforismo!... Saint-Simon reco-mendava que o ‘poder espiritual’ fosse detido e exercido pelos cientistas e pelos filósofos da ciência, os quais, desse modo, balizariam e orientariam o ‘Poder do Estado’. Mas ele não se esqueceu, igualmente, de profligar e denunciar o nacionalismo enquanto fonte e origem das guerras entre os Estados, guerras que só haviam de ser eliminadas no estádio superior da unificação da Humanidade à escala planetária.
O depoimento de Caussat, em total apoio de Illich, apresenta-se, assim, polariza-do, além da coordenada do pluralismo societário real, na outra dimensão geminada do necessário enraizamento dos Indivíduos nos corpos-instituições sociais de que fazem parte. Com Illich, ele denuncia toda a série de danos que traz consigo o desenraizamento dos indivíduos: a frustração individual; o abandono do ‘serviço’ à comunidade; no atinen-te à colectividade nacional e internacional, o distanciamento/alheamento crescente das sa-tisfações e alegrias efectivamente oferecidas (cf. ibi, p.397).
O filósofo de Nanterre deu-se bem conta da ‘revolução cultural’ implicada no Projecto de Illich. Trata-se, efectivamente, de toda uma re-construção da Sociedade: “Uma inversão do relacionamento meios-fins na própria operação técnica, o que se tra-duz logo na fixação de um limite superior para a saciação das necessidades, — e já não inferior, como é o caso actualmente, ao preço de uma corrida/perseguição desenfreada à produção de bens sempre cada vez mais excessivos e sempre cada vez menos saborea-dos” (ibi, p.398).
O depoimento de Th. Adam (psicólogo), se bem que favorável à utopia crítica de Illich, é mais céptico no atinente aos meios e vias para a concretizar (cf. ibi, pp.400 e ss.). Mas não deixa de ser útil e pertinente, como contributo positivo, a sua questão central, muito embora ela possa transparecer como a da ‘prioridade do ovo ou da galinha’.
Adam está plenamente ciente de que o Projecto illichiano postula ou implica a edificação do ‘homem novo’, enquanto conditio sine qua non. Os limites superiores máxi-mos só poderiam ser adequada e tranquilamente estabelecidos a partir de uma sociedade onde a convivialidade já fosse um facto... o que, porém, se pretende como primeiro pro-grama é derribar o produtivismo alienador, precisamente a edificação da convivialida-de!...
Mas leiamos o próprio texto de Adam (ibi, p.403): “ A política de reserva que pre-conisa Illich, se eu bem entendi, consistiria em passar dos objectivos a evitar, das finali-dades negativas, aos objectivos a atingir, às finalidades positivas. Ela atribui aos mem-bros da sociedade, ao lugar do controlo formal do funcionamento de uma estrutura, cujo agenciamento, os conteúdos, as finalidades e os produtos escapam ao seu empreendimen-to crítico, uma participação e um controlo fundamental que fundam a estrutura, e defi-nem, ao mesmo tempo, os seus conteúdos e os seus produtos. Ela substitui o crescimento (que pode devir uma excrescência maligna) pelo desenvolvimento integrado.
“ Esta política postula um homem novo. Este, determinando o seu próprio valor segundo o que o seu desenvolvimento (ou a sua sobrevivência) pode apresentar aos ou-tros, não terá dificuldade em se fixar limites máximos. Ele terá tanto menos necessidade de reacções egoístas quanto, por seu turno, o seu círculo convivial o tratará como a sua própria justificação.
“ Mas que pesadelo se, colocando o carro à frente dos bois, uma sociedade — ou o poder — antes de ser convivial, se apodera da noção de limite máximo”.
É claro que se trata de problemas bem reais, — como nos assegura uma percepção crítica da realidade. Mas não se pode esquecer que o pensamento e o raciocínio críticos são obstruídos e infectados pelo cinismo, quando, diante de projectos bons e aceitáveis, os rechaçam a título de ‘círculo vicioso’ ou ‘círculo quadrado’!... Já nos ensinavam os Gregos clássicos: ‘Kalós ò kúndunos’: belo é o difícil! Além disso, convirá fazer aqui duas advertências. A primeira diz respeito aos negativismos sistémicos em política: eles procedem da situação canónica (dentro da Cultura do Poder-Dominação d’abord) que distingue, separa e opõe a ordem pública (substantiva), dum lado, e do outro, a ordem privada (substantiva). A segunda é concernente aos Dualismos metafísico-ontológicos que, na esteira de Platão e dos platonismos, pervadem e estigmatizam todo o ordenamen-to da Cultura e toda a organização das Sociedades no Ocidente.
A essas duas advertências convém adicionar um corolário que é uma premissa es-truturante do teor seguinte: A creatio ex nihilo (que os Gnósticos judeo-cristãos primevos sabiam rejeitar in limine como absurda) constitui, na Cultura ocidental, a última grande Ilusão/impostura metafísica, que nos compele e obriga, intelectual e moralmente, a pac-tuar, ordeira e submissamente, com os Poderes estabelecidos e a respeitar a majestade imperial da sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord. É à luz dessas duas ad-vertências e deste corolário-premissa, que nos cumpre discernir e estabelecer os critérios críticos adequados, para instaurar a união articulada e indissolúvel da produtividade e da convivialidade, por vias e processos democráticos. Há princípios de honestidade inte-lectual que é preciso defender e cumprir até ao fim.
O último depoimento, convergente com o Projecto de Illich, é do etnólogo Michel Panoff. São quase cinco páginas que é preciso ler atentamente e meditar (cf. ibi, pp.404-408). Elas respaldam e justificam perfeitamente a Utopia crítica de Ivan Illich. É sabido que o Progresso, de que tanto se fala nas Sociedades industrializadas e na Civilização do Ocidente (em vias de globalização acelerada) é, básica e supremamente, ancorado nas Tecnologias e na incessante inovação tecnocientífica. É igualmente sabido que a Política dita democrática das democracias representativas do Ocidente ainda não rompeu o odre do Despotismo (mais ou menos iluminado). Ora, o despotismo esclarecido dos tecno-cratas e o despotismo iluminado dos políticos são dois patamares que se misturam e confundem na mesma modalidade de exercício e uso da Potestas. E até acontece, com muita frequência, os políticos, que, por definição, estão mais expostos no palco societá-rio, se escudarem e desculparem nos veredictos (e possíveis culpas...) dos tecnocratas e tecnocientistas.
Uma Sociedade assim estruturada e organizada nunca sairá dos ‘infernos’ do Des-potismo iluminado e da Cultura do Poder-Condomínio!... Tem, por conseguinte, de haver uma saída, do cárcere para o ar livre. Ora, nas sociedades primitivas — como nos lembra Panoff — a ‘suficiência’ funcionava em boa harmonia com a natureza. Que está pressupondo Illich? Que os humanos queiram realmente viver em liberdade e amizade, nada mais, — o que já nos é ensinado, predominantemente, pelas sociedades primevas. Não foi a psicanálise que inventou os conflitos, que já existiam, em abundância, nas ‘so-ciedades imóveis’. A transparência nas relações humanas, a liberdade e a amizade, — será que os seres humanos não as querem admitir e aceitar ‘naturalmente’?...
É essa, na verdade, a nossa opinião crítica. E nisso, os Humanos estão a pensar certo. É que, no processus evolutivo da Antropogénese, não há dois patamares dualiza-dos/separados (como nos tem feito sentir e pressupor o Dualismo metafísico-ontológi-co): natureza, dum lado, cultura, do outro. As duas dimensões cruzam-se numa união indissolúvel. Hegel estava certo, pois, ao pressupor que o Estado emergia como desfecho de um ‘ardil’, ou seja: o processo de levar a aceitar por um colectivo o que cada um, isoladamente, não aceitaria!... Que é a política (clássica e tradicional) senão o itinerário dessa astúcia ou ardil?!... Para ultrapassar, criticamente, esse lema/chancela do Estado, só há um caminho: a vera política e a vera educação, capaz de respeitar, na base, os Indiví-duos-Pessoas livres  e  responsáveis. Em alternativa, só resta o  itinerário fatal  de Saint--Just: passar da felicidade ao terror!...
Escreve Panoff com perspicácia (ibi, pp.404-5): “ Bataille, em La part maudite, já havia mostrado que o nosso sistema tecno-económico estava votado a produzir sempre um excedente de bens e serviços, e a esta exuberância explosiva que ele comparava ao erotismo, ele não assinalava senão três derivativos: a guerra, a festa e o dom gratuito de riquezas às nações pobres. Entretanto, ele não havia imaginado que esta energia exceden-tária arranjaria emprego truncando o homem, mais precisamente a sua plenitude espiri-tual, pela obsessão da educação, da longevidade e da exterminação atómica universal. Ninguém havia ainda mostrado, com tanta clareza como Illich, a identidade profunda dos objectivos perseguidos pelos diversos regimes políticos contemporâneos, que se entre-gam, todos, ao mesmo sobrelanço no leilão da produtividade, nem sublinhado, como ele faz, que a adopção de qualquer solução tecnológica é um empenhamento político irrever-sível, que é tomado sem consultar ninguém”.
Todos os regimes políticos contemporâneos se entregam (per fas ou nefas) ao mesmo fadário... É preciso sublinhar. Isso acontece porque ainda não se rompeu o odre da sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord. Neste contexto, os indivíduos-ci-dadãos (que só assim são chamados por escárnio...) vivem uma vida estruturalmente con-traditória e absurda; até porque, não podendo usufruir da necessária e indispensável au-tenticidade, uma vez que as pautas da ‘gentileza’ societária, aparente, se lhes impõem para além dos limites, eles se vêem forçados a cometer suicídio, em situação de conflito, como ocorre em algumas culturas. Do que precisamos, por conseguinte, com a máxima urgência, é de um Projecto de ordenamento político, capaz de operar, em simultâneo, a salvação e o salvamento da Humanidade, fazendo-a passar do ‘Sapiens/Rapiens’ para o ‘Sapiens-Sapiens’.
É bom advertir que a Convivialidade começou a devir um problema humano sé-rio, muito particularmente nas Sociedades modernas, por força das tecnologias da Produ-ção em série (mecanizada... depois, automatizada!...), que trouxe, no seu bojo, o produti-vismo (a produção excedentária...), e por força, na base, da cartilha do Objectualismo tec-nocientífico, que reduziu os Sujeitos a Objectos. Nas micro-sociedades ‘primitivas’, a convivialidade não conflituava com os modos e processos de produção; mais: convivia-lidade e culto do sagrado (v.g., conhecimentos mágicos) eram perfeitamente compatíveis, mesmo quando a organização dessas sociedades era predominantemente democrática.
Eis por que Panoff, a propósito da Utopia crítica de Illich, tem razão para questio-nar ad hominem, como segue (ibi, p.408): “ a verdadeira natureza dessa convivialidade não se manifesta quando Illich expõe o seu sistema renovado de educação? No lugar das escolas tradicionais, tratar-se-ia de criar um campo, no interior do qual cada indivíduo poderia exprimir a sua necessidade efectiva de educação e encontrar os meios para lhe dar resposta. Do que, então, se trata aqui, senão do sistema do mercado segundo a defini-ção dos economistas clássicos? E por que não, depois de tudo? É preciso, entretanto, ver bem que, exactamente como o mecanismo dos preços num mercado livre, este novo siste-ma de educação supõe a igualdade entre os livre-cambistas, suposição que os economis-tas abandonaram desde há um longo tempo”.

 

III

RESPIGANDO MAIS ALGUNS TEMAS E TESES
DA OBRA DE I. ILLICH,
ENQUADRANDO-OS NO SEU E NOSSO TEMPO:
SOB O SIGNO DE UMA DECIDIDA RUPTURA
COM O PASSADO E O ESTABLISHMENT.

            As décadas de ’60 e ’70 do séc. XX foram indiscutivelmente marcadas por movi-mentações sócio-culturais, indiciações revolucionárias, acompanhadas de alguma agita-ção e perturbação da ordem social/pública (muito especialmente nos U.S.A., Alemanha e França), que atingiram o seu clímax em França (particularmente em Paris), no tão cele-brado como inconsequente ‘Maio/68’!... Atendendo às frustrações posteriores, que advie-ram no curso da História, até poderíamos encontrar analogias na chamada ‘Primavera dos povos’, ocorrida na Europa, em 1848, que foi protagonizada por revolucionários como Marx e Engels e constituiu razão e pretexto para a publicação do famoso ‘Manifesto do Partido Comunista’, em 1847. (Como disse Engels, este documento, não pôde chamar-se simplesmente, de modo mais abrangente, Manifesto Socialista, para evitar confusões com as doutrinas e orientações dos diferentes grupos e facções do Movimento socialista...).
Ora, Ivan Illich, nessas duas décadas, tem a perspicácia e a coragem de atacar o fundo dos problemas sociais/societários (até aos níveis da Cultura substantiva e do molde civilizatório edificados pelo Ocidente, ao longo de dois milénios). Por isso, as suas refle-xões, balizamentos e orientações assumiram um carácter fracturante e, como era imperio-so, de ruptura com o Passado e o Establishment. Nesta perspectiva, ele distancia-se, como protagonista crítico, de quase todas as outras figuras de proa, que então apareceram em palco. Aí, a razão principal da recuperação da sua Obra e mundividência crítica, para os dias de hoje, quase meio século volvido.
Qual o ambiente sócio-cultural/escolar de então e atinente às funções essenciais dos Sistemas educativos? Para responder a esta Questão, vamos evocar alguns livros, que se mostraram significativos nas suas análises críticas e diagnósticos bem como na vonta-de de mudança. (Apenas o esboço do painel, que aqui seria necessário fazer...).
— ‘L’hécatombe scolaire’, de Georges Bastin (Charles Dessart, Éditeur, Bruxel-les, 1966, 2ª ed.). O tema central é constituído pelos factores de inadaptação e do insuces-so escolar. Preocupações principais: a mediocridade dos alunos e as suas próprias desilu-sões: uma juventude sem futuro e um sistema escolar sem rentabilidade. O Secundário é o sector onde o mal-estar é mais notório. É urgida uma tomada de consciência mais ob-jectiva e crítica dos factores da inadaptação, encarecendo uma colaboração mais estreita entre pais, pedagogos e professores, sem excluir a colaboração dos especialistas, tais co-mo médicos, psicólogos e sociólogos.
— ‘A Escola, uma Máquina devorante’, de Pierre Joncour (Editorial Notícias, Lisboa, 1977). Escola convertida em depósito de crianças, em vez de se assumir como Instituição formativa. A escola acentua as desigualdades sociais, em vez de as anular. As ‘novas pedagogias’ tornavam-se uma engrenagem, de cunho acentuadamente mecanicís-tico, ao serviço do ‘status quo’ societário.
— ‘À qui profite l’école?’, de Jacques Hallak (P.U.F., Paris, 1974). A quem in-teressa, de facto, a escola e o sistema educativo? Aos donos e senhores dos processos produtivos ou a todos os trabalhadores enquanto seres humanos?!... A propósito do tema central do livro, que é a equidade e o desenvolvimento, o autor denuncia o falhanço re-dondo dos sistemas escolares e o mal-estar das ciências da educação no mundo: cresci-mento incontrolado dos efectivos, inflação das despesas, fraqueza dos rendimentos, de-semprego dos ‘ensinados’. O tema central dos sistemas educativos começa a ser a proble-mática da economia da educação expressa nestes termos: ‘Que educação? para quem? e para que desenvolvimento?’.
Nessa obra, é citado em exergo um crítico parágrafo luminoso de H. Marcuse, que diz o seguinte (cf. ibi, p.5): “ A consciência feliz — que acredita que o real é racional e que o sistema satisfaz as necessidades — dá a medida do que é o novo conformismo. O novo conformismo é o comportamento social influenciado pela racionalidade tecnoló-gica”.
— ‘O Desperdício escolar’, de J. Pauli/M.A. Brimer (Rés Editora, Lda., Porto, 1977). No título do orig. fr. diz-se, logo, que o desperdício escolar é um problema mundial. Tema central: o entrosamento da formação escolar com a integração na vida ac-tiva da economia. A Conferência da Unesco dividiu-se em duas frentes: a) os partidários da promoção automática, na escolaridade obrigatória, supondo que dessa forma evitariam os desperdícios escolares; b) os que, duvidando dessa solução, se faziam duas perguntas: o que virá a ocorrer ao longo dos estudos ulteriores? como se vão integrar na vida econó-mica os adolescentes livres da escola? (cf. ibi, pp.190 e ss.). Em pano de fundo, a Escola sempre encarada, apenas, como ante-câmara para o trabalho profissional e o emprego!... Como  se nisso  se esgotassem as funções do sistema escolar!... As conclusões limitaram--se a promover a transformação dos sistemas escolares e a incentivar a educação per-manente para os jovens e a educação recorrente para os adultos, numa atmosfera de co-operação internacional (cf. ibi, pp.196-199).
Mas, em todo esse processus, há iniludivelmente culpas, também, das próprias ciências da Educação. Adverte-se, aí, com justeza (p.192): “ A pedagogia experimental é uma ciência relativamente jovem, que não se pode comparar, de maneira alguma, às ciên-cias exactas ou naturais, mesmo se ela se esforça por recorrer a métodos próprios da in-vestigação científica. Ela é, por essência, intra-disciplinada, e deve incessantemente ter em conta a psicologia da criança e do adolescente, a sociologia e a concepção ética e po-lítica do homem na sociedade a que pertence”.
— ‘O Ensino Individualizado’, de Robert Dottrens (edit. em Neuchâtel, Suíça, 1967, 1971; Liv. Civilização Editora, Porto, 1975). A polarização já não é feita no ensino colectivo e no aluno médio, que não passa de uma abstracção. O que se exige, agora, é um ensino individualizado, capaz de ter em conta as características psíquicas e somáticas do aluno, de cada aluno. Mas o aluno situado numa turma de 20 ou 30 alunos, à qual o professor debita as suas lições?... É a esta questão central que as novas pedagogia e di-dáctica procuram dar resposta, segundo as técnicas das fichas individualizadas.
— ‘A Indústria do Ensino’, de Lê Thành Khôi (Liv. Civilização Editora, Porto, 1970). A bússola desta obra é logo sinalizada na introdução (p.5): “ Estamos habituados a tratar a educação como um direito do homem, origem do seu desenvolvimento moral e intelectual, instrumento de elevação social e condição para a democracia política. Mas os progressos das ciências e das técnicas, as exigências do crescimento e da pesquisa im-põem também que se peça à educação uma ‘produtividade’ máxima, que corresponda às necessidades da nossa época. Eis por que nos propomos aplicar a análise económica à educação considerada como uma ‘indústria’ que, em virtude da combinação óptima dos ‘factores de produção’, deve maximizar a sua contribuição para o desenvolvimento eco-nómico e social da nação”.

            • Entretanto, ao arrepio destas tendências reducionistas para o economicismo da educação e a industrialização do ensino, surgiram algumas obras e personalidades a to-mar posições em defesa de algum Humanismo que ainda restava. Aparecem, neste qua-drante, obras como:
— O Relatório ‘Apprendre à Être’ (ou Relatório Faure, da Unesco), conjunto de documentos utilizados pela Comissão Internacional para o Desenvolvimento da Edu-cação, para a elaboração da obra balizadora, subordinada ao título ‘A Educação do Fu-turo’ (Liv. Bertrand, Amadora, 1978). No horizonte de um mundo em transformação, dá--se conta da amplitude e da complexidade dos problemas da Educação (cf. ibi, p.11): “ A educação é uma empresa tão vasta, determina tão radicalmente o destino dos homens, que não basta considerá-la em termos de estruturas, de meios logísticos, de processos. É a sua própria substância, em relação essencial com o homem, a sua evolução, o princí-pio da interligação que reina entre o acto educativo e o meio, que tornam a educação, ao mesmo tempo, um produto e um factor da sociedade — é isto precisamente, no ponto em que estamos, que importa analisar em profundidade e repensar largamente”.
— ‘Politiques d’Éducation et Tendances’ (dans le contexte des perspectives de développement économique et social), Rapport préparé par un Groupe d’Experts (Organi-sation de Coopération et de Développement Économiques, Paris, 1977). Sobre a proble-mática central, que são os investimentos financeiros na Educação, que dizem as forças sociais e os Governos? Evoque-se o que é dito (ibi, p.17): “ Destacam-se habitualmente duas concepções, consoante: (a) a educação é considerada como um objectivo prioritário, que não pode ser submetido a constrangimentos financeiros rígidos e exige esforços con-tínuos para melhorar a sua qualidade e fazer crescer os seus meios. Esta opinião é expres-sa pelas famílias, pelos estudantes, os sindicatos de professores, o sector privado subven-cionado; (b) o crescimento contínuo das despesas públicas de educação é preocupante, tendo em conta constrangimentos orçamentais actuais, ou porque outros sectores sociais concorrentes se tornaram prioritários. Esta ideia é frequentemente expressa no seio dos Governos, e é exacto que, recentemente, as despesas de educação têm sido submetidas aos imperativos das políticas orçamentais e afectadas pelas compressões das despesas pú-blicas e pela redução dos déficits orçamentais”. Como é sabido, foi a segunda tendência que predominou absolutamente, depois da Queda do Muro de Berlim (1989) e o deflagrar do neoliberalismo capitalista global!...
— ‘Para Onde Vai a Educação?’, de Jean Piaget (Livros Horizonte, Lisboa, 1978: opúsculo preparado a convite da Unesco e editado sob a sua chancela, em 1948 e 1972). Deste importante e decisivo opúsculo do psicólogo de Genebra (chefe de escola do ‘Construtivismo’, em Psicologia e Epistemologia), não podemos deixar de citar três pas-sos.
O primeiro contraria claramente a compartimentação estanque das Disciplinas académicas e da vida (ibi, pp.27-28): “ A primeira das lições a extrair das tendências in-terdisciplinares actuais é a necessidade de uma atenta revisão no tocante às relações fu-turas entre as ciências chamadas humanas e as ciências chamadas naturais e, por conse-guinte, a necessidade de se procurar um remédio para as consequências catastróficas, que advieram da distribuição do ensino universitário em ‘Faculdades’ e secundário em ‘sec-ções’, ambas separadas por divisões estanques”.
O segundo diz respeito à necessária articulação entre os dois planos, o moral e o intelectual (ibi, pp.74-75): “ Na realidade, a educação constitui um todo indissociável, e não se pode formar personalidades autónomas no domínio moral se, por outro lado, o in-divíduo é submetido a um constrangimento intelectual, de tal ordem que tenha de se limi-tar a aprender por imposição sem descobrir, por si mesmo, a verdade: se é passivo inte-lectualmente, não conseguirá ser livre moralmente. Reciprocamente, porém, se a sua mo-ral consiste exclusivamente numa submissão à autoridade adulta, e se os únicos relacio-namentos sociais, que constituem a vida da classe, são os que ligam cada aluno indivi-dualmente a um mestre, que detém todos os poderes, ele também não conseguirá ser ac-tivo intelectualmente”.
O terceiro passo concerne aos dois aspectos fundamentais, correlativos da perso-nalidade (a autonomia e a reciprocidade), e diz-nos que, além dos professores, é neces-sário que eles sejam vivenciados nas relações recíprocas (de igualdade) entre os próprios alunos (ibi, pp.76-77): No caso de se pretender formar indivíduos, não apenas para a mo-ral da obediência, mas para a assumpção de consciências livres e responsáveis, “ é evi-dente que, nem a autoridade do professor, nem as melhores lições que ele possa dar sobre o assunto, serão o bastante para determinar essas relações intensas, fundamentadas ao mesmo tempo na autonomia e na reciprocidade. Unicamente a vida social entre os pró-prios alunos, isto é, um autogoverno levado tão longe quanto possível e paralelo ao traba-lho intelectual em comum, poderá conduzir a esse duplo desenvolvimento de personalida-des donas de si mesmas e do seu respeito mútuo”.

            • Pedagogia e Educação por Objectivos. — Nos antípodas do horizonte, onde se configuram, ainda, os últimos três livros citados, surgiu nos E.U.A., em 1965, um livro que dava pelo título ‘Management by Objectives’, do prof. da Univ. de Michigan, George S. Odiorne. Foi traduzido e editado em português com o título ‘Gestão Por Objectivos’ (Um Sistema de Direcção) (Liv. Clássica Editora, Lisboa, 1972). Menciona-se, aqui, esta obra, nos domínios da Economia política, porque ela, de facto, desde há quatro décadas, tem influenciado (de forma consciente ou inconsciente...) todo o universo da Pedagogia e da Educação, no sentido de moldar, tanto a teoria como as actuações práticas destas, se-gundo a estafada cartilha dos Objectivos. Foi a porta aberta para o culminar do que nós chamamos a ‘religião do Objectualismo’. Economia Política, dum lado, e do outro, Edu-cação/Pedagogia e Sistemas Educativos, tudo se misturou e confundiu no mesmo oceano da cartilha dos Objectivos. As degenerescências e as contrafacções, no mundo da Edu-cação e do Ensino, já nem sequer era fácil (ou possível?...) identificá-las e denunciá-las.

 

            É, pois, no horizonte deste último meio-século, teoricamente contraditório (como se deu conta anteriormente), mas onde acabaram por prevalecer, na prática societária, as tendências e os movimentos economicistas, tecnicistas/tecnocráticos, em suma, objec-tualistas e marcados pelo ‘pensamento único’, o mesmo é dizer, na era do capitalismo delirante na sua fase suprema do neoliberalismo capitalista global, que a obra e a mun-dividência de Ivan Illich se tornaram importantes e decisivas, — justamente na medida em que constituíram um caso especial/paradigmático de diagnose crítica das Sociedades em que sobrevivemos, e carreiam elementos certos e seguros para a edificação de um Projecto político-sócio-cultural com futuro.
O vero e autêntico Socialismo, por que tanto anseiam as inteligências honestas e os corações rectos, passa necessariamente por aí, desde logo porque a utopia crítica de Il-lich se constrói no plural, é pluralista por definição, e acha-se estruturada sobre a pauta dessas rochas vivas, inabaláveis, que são os Indivíduos-Pessoas livres e responsáveis (como nós temos vindo a estabelecer).
Aqui e agora, vamos limitar-nos a respigar (em jeito de recensão) alguns temas e teses dos seus livros mais conhecidos e divulgados. Consideramos, desde logo, sintoma feliz o simples facto de um dos seus livros (o mesmo) ter sido titulado, na edição portu-guesa (a partir da francesa), ‘Libertar o Futuro’ (Pub. Dom Quixote, Lisboa, 1973), e na edição brasileira (a partir da inglesa/americana), ‘Celebração da Consciência’ (Editora Vozes, Petrópolis/RJ, 1975, 2ª ed.). Dissémos que esse facto constituía um acontecimento feliz por esta razão fundamental/estruturante: Celebrar e enaltecer a Consciência dos In-divíduos-Pessoas/Cidadãos, se não é exactamente a mesma coisa que Libertar o Futuro a Haver, é, pelo menos, o fundamento para uma vera e autêntica libertação do Futuro.

            Na edição brasileira, agora citada, há uma introdução notável de Erich Fromm, que classifica e enquadra magnificamente o pensamento e a obra de I. Illich no ‘radica-lismo humanístico’, evocando a noção marxiana de radical e de raízes, onde ‘a raiz é o homem’ (cf. ibi, pp.5-7). Escreve aí o filósofo norte-americano (pp.5-6): “ Ao dizer radicalismo,

não estou me referindo, antes de tudo, a um determinado conjunto de idéias, mas antes a uma atitude, a uma certa ‘maneira de ver’. Para começar, esta maneira de ver po-de ser caracterizada pelo lema: de omnibus dubitandum (deve-se duvidar de tudo), parti-cularmente dos conceitos ideológicos, compartilhados virtualmente por todos e, conse-quentemente, investidos no papel de axiomas de senso comum, acima de qualquer contro-vérsia.
“ ‘Duvidar’, neste sentido, não implica um estado psicológico de incapacidade de chegar a decisões ou de alcançar convicções, como acontece com a dúvida obsessiva; é antes a capacidade e disposição para examinar criticamente todos os pressupostos e ins-tituições, que têm sido divinizados em nome do bom senso, da lógica, e tidos como ‘natu-rais’. Este questionamento radical só se torna possível, quando o indivíduo deixa de acei-tar passivamente os conceitos de sua própria sociedade, ou mesmo de todo um período histórico — como a cultura a partir da Renascença; ele só poderá ser empreendido se o indivíduo abrir o leque de sua consciência, a fim de penetrar nos aspectos inconscientes de seu próprio pensamento. A dúvida radical é um ato desvendador e revelador; o raiar da consciência é que desvenda a nudez do imperador, mostrando que suas vestes esplêndidas não passam de produtos da nossa fantasia”.
Esta obra fulcral, no pensamento e na mundividência de Illich (a qual prepara e constitui o fundamento das outras duas temáticas centrais, que ele desenvolve: a da Con-vivialidade e a da Desescolarização da Sociedade) é um verdadeiro Desafio psico-só-cio-cultural e político. Escreve o próprio Autor, a iniciar o prefácio (ibi, p.9): “ Cada um dos capítulos deste livro reproduz um esforço de minha parte, no sentido de questionar a natureza de algo supostamente certo. Por conseguinte, cada um deles trata de uma decep-ção — decepção contida em alguma de nossas instituições. As instituições criam certezas e, se tomadas a sério, as certezas entorpecem os ânimos e algemam a imaginação”.
Na contracapa, pode ler-se um bom resumo do livro em causa: “ Neste livro ele se volta, entre outras, contra a idéia que se faz de eficiência, de lucro, contra o dogma do consumo, da organização, da moda, contra o moderno conceito de desenvolvimento e progresso, contra a Igreja, contra os programas de ajuda internacional e, acima de tudo, contra o sistema escolar e as pessoas que o sustentam. Illich não desafia estes e tantos ou-tros conceitos e instituições, apenas para ser do contra; o seu radicalismo não é uma ati-tude de dúvida obsessiva. Leia-se a defesa que dele faz, na introdução desta obra, o igual-mente famoso Erich Fromm. Illich ataca as místicas, os dogmas e as estruturas que, por preguiça mental e por alienação, todos nós aceitamos como coisas certas, resolvidas, in-contestavelmente sérias. Mas que, na realidade, estão destruindo o homem e a própria so-ciedade, porque justamente não são coisas certas, resolvidas e sérias. Um livro de valor extraordinário, cuja leitura não é especializada, e por isso é recomendado a todos. Mas, pelo teor dos temas analisados, é aconselhado sobretudo aos estudiosos de Sociologia, Educação, Política e História”.
Por este ‘cartaz’, já se pode perceber que a INVERSÃO, de que fala frequente-mente o Projecto crítico de Ivan Illich (como sua categoria ou enteléquia central), é du-pla: ela não diz apenas respeito à Inversão, necessária, das Instituições societárias; ela tem de concernir, em primeiro lugar, à reviravolta de toda a nossa tradicional arquitectura mental/ideológica e sócio-cultural: é a completa inversão da pirâmide sócio-cultural e institucional, que está em causa. Em lugar das hierarquias substantivas e dos Poderes estabelecidos, e da cultura sempiterna do Poder-Condomínio, as raízes sociais-socie-tárias, que são os Indivíduos-Pessoas/Cidadãos, e essa Alavanca de Arquimedes que é a Cultura da Liberdade Responsável primacial e primordial. Assim como a culpa e a pena tem a sua fons et origo nos indivíduos-pessoas, assim também o bem e a virtude, a bondade e a justiça devem aí encontrar a sua primeira fonte e origem. Quanto à Verda-de, só em diálogo socrático ela pode tomar corpo, precisamente porque vai já envolta no véu diáfano da Justiça.
O Autor sabe estar atento às condições da Revolução que propõe: a Revolução Cultural tem de preceder e/ou acompanhar a transformação radical das Instituições. Esta exigência é tanto mais imperiosa, quanto nos sabemos situados numa sociedade, já não apenas tecnológica, mas tecnocrática, com todas as inércias típicas da Tecnociên-cia e, ultimamente, do que nós temos chamado a ‘Tecnociência de Aparelho’.
Escreve Illich (ibi, p.143): “ O problema crucial da nossa época ainda é o fato de que os ricos estão ficando cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. [...] A pobreza moderna é um subproduto de um mercado mundial ao serviço da ideologia de uma classe média industrial. A pobreza moderna constrói-se na comunidade internacio-nal, onde a pobreza é gerada pela publicidade, com o fito de estimular a produção de cer-tas utilidades padronizadas”.
O empreendimento crítico da Revolução Cultural é absolutamente indispensável, visto que “ por maiores que sejam as desvantagens, todos entram no jogo, porque, afinal, só há um tipo de jogo na cidade. O saber pode representar uma meta longínqua, mas ofe-rece ao indivíduo uma probabilidade de se igualar aos burocratas mais treinados do mun-do. E o estudante mal sucedido pode consolar-se com a idéia de que, desde o início, tive-ra de jogar com cartas marcadas” (idem, ibi, p.146).
Neste horizonte, “ ao revolucionário cultural continua a caber a tarefa de desfazer as bases ilusórias da escola e de traçar as diretrizes para uma desescolarização radical da sociedade” (idem, ibi, p.150). “ Demonstrei, no campo da educação, que uma revolução institucional ou cultural dependeria de uma visão mais clara da realidade. O desenvolvi-mento, tal como é agora concebido, faz justamente o contrário: organiza o ambiente e apetrecha o homem para ajustar-se a esse ambiente. A revolução cultural é uma revisão da realidade do homem e uma redefinição do mundo em termos que esteiem esta realida-de. O desenvolvimento constitui uma tentativa de criar um ambiente e, em seguida, edu-car pagando um alto preço por ele” (idem, ibi, p.151).
Tem razão Illich, quando escreve a concluir este livro: A revolução cultural “talvez tenha sido melhor formulada por Marx, quando criticou Ricardo e sua escola: ‘Eles querem que a produção fique limitada às ‘coisas úteis’, esquecendo porém que a produção de coisas úteis em número excessivo redunda num excesso de pessoas inúteis’” (p.152).
Há uma tese illichiana, central e decisiva na mundividência do Autor, que bem pode constituir o pórtico do que nós chamamos a Cultura da Liberdade responsável primacial e primordial. Ei-la, nas duas versões, ligeiramente diferentes no seu enuncia-do. Na edição brasileira (p.15): “ Para o futuro, deveremos pôr fim ao emprego do poder coercitivo e da autoridade: do poder de exigir uma ação com base na posição hierárquica. Se existe uma frase capaz de resumir a natureza da nova era, esta frase há de ser: o fim do privilégio e da permissividade”. Na edição portuguesa (p.22): “ De futuro, temos de aca-bar com o uso coercivo do poder e da autoridade: o poder de alguém exigir uma acção baseado na sua posição hierárquica. Se é possível resumir numa frase a natureza da era nova, essa será ‘o fim do privilégio e do abuso’”.

Convivialidade//Convivencialidade (Conviviality, no inglês; Convivialité, no francês; Mitmenschlichkeit, no alemão). O livro de Illich, dedicado especificamente a esta matéria (irmã gêmea da outra matéria, tratada no livro ‘Celebração da Consciência’ ou ‘Libertar o Futuro’) era titulado, no original, ‘Tools for Conviviality’ (ed. por Harper & Row Publishers, Inc.); Pub. Europa-América editou, em 1976, uma versão portuguessa desse livro com o título: ‘A Convivencialidade’. Pode perguntar-se por que não tomou o tradutor, Arsénio Mota, do francês ou do inglês, o termo, em tradução directa, Convi-vialidade. Há razões semânticas, positivas e negativas, para avençar e excluir, ora um ter-mo ora o outro. Não vamos, aqui, discutir esta questão semântico-linguística. Diremos, tão só, que a nossa preferência, dum ponto de vista filosófico, vai para a palavra Convi-vialidade. Não se presta, tanto, a equívocos...
É, também, sintomático da importância e decisividade do livro em causa, que ele tenha sido editado sob o patrocínio do Conselho editorial de ‘World Perspectives’, que adopta, como sua bandeira, “ a tese segundo a qual o homem está em vias de desenvolver uma nova consciência que, apesar da sua aparente servitude espiritual e moral, pode eventualmente colocar a raça humana acima e além do medo, da ignorância e do isola-mento em que hoje se debate. É a esta consciência nascente, a este conceito de homem nascido duma visão nova da realidade, que ‘World Perspectives’ é dedicada” (vd. op. cit., p.4).
Como nasceu o projecto deste livro? É o próprio Autor a explicá-lo no início do prefácio (ibi, p.5): “ Em Janeiro de 1972, um grupo de latino-americanos, principalmente chilenos, peruanos e mexicanos, reuniram-se no Centro Intercultural de Documentação (CIDOC), em Cuernavaca, para discutir a hipótese seguinte: existem características téc-nicas, nos meios de produção, que tornam impossível o seu controlo num processo políti-co. Só uma sociedade que aceite a necessidade de escolher um tecto comum a certas di-mensões técnicas, para os seus meios de produção, tem viabilidades políticas. A tese dis-cutida tinha sido formulada num documento elaborado com Valentina Borremans durante 1971”.
Na verdade — escreve Illich (ibi, p.126) — “ a sociedade pode delimitar a sua sobrevivência dentro dos limites fixados e reforçados por uma ditadura burocrática, ou então reagir politicamente à ameaça, recorrendo aos processos jurídico e político. A falsi-ficação ideológica do passado assiste-nos na existência e na necessidade desta escolha”. — Eis uma tese de teor psico-sócio-histórico absolutamente constatável e indiscutível.
Com efeito, “ a instalação do fascismo tecnoburocrático não está escrita nas estre-las. Existe outra possibilidade: um processo político que permita à população determinar o máximo que cada qual pode exigir, num mundo de recursos manifestamente limitados; um processo consensual destinado a fixar e a manter limites ao crescimento da ins-trumentalização; um processo de estímulo à investigação radical, de maneira que um nú-mero crescente de pessoas possa fazer cada vez mais com cada vez menos. Um programa assim pode parecer utópico na hora actual; se a crise continuar a agravar-se, em breve ele revelará um extremo realismo” (idem, ibi, p.127).
Numa espécie de zoom de holofote, o texto da contracapa resume o tema central do livro em referência: “ ‘Escolhi o termo convivialidade para designar o contrário de produtividade industrial’, diz Ivan Illich ao explicar o título do livro que apresentamos e que é, decerto, o mais importante de quantos escreveu até agora, aquele em que faz a ex-posição mais ampla e ambiciosa do seu pensamento, a muitos títulos original. A Convi-vencialidade pretende ser uma teoria acerca dos limites naturais do crescimento da socie-dade humana, uma análise da situação em que vivem os habitantes dos países superindus-trializados e um programa do que poderia ser uma fase posterior da história humana. Que acontecerá depois deste período em que vivemos, e no qual a produção industrial cria e multiplica necessidades, em que a medicina inventa doenças, a velocidade distâncias e a escola campos de conhecimento, que acabam por se incorporar no mecanismo industrial da educação organizada?”.
No horizonte crítico de I. Illich, a Reconstrução Convivial das Sociedades (a co-meçar pelas industrializadas/capitalistas/ocidentais) tem de arrancar, com segurança, do diagnóstico crítico, previamente elaborado. E o diagnóstico pôs o acento tónico nuclear no modo como são utilizadas as ferramentas/instrumentos, na relação dos humanos com as tecnologias e o seu crescimento imbricado in infinitum. O que nós exprimimos no enunciado: o reino do Objectualismo!...
A crise (societária/cultural) contemporânea, que se tem agravado nas últimas três décadas até ao presente, como muito bem diz Illich, ela “ radica no malogro da empresa moderna, isto é, na substituição do homem pela máquina” (ibi, p.23). “ O domínio do ho-mem sobre a ferramenta foi substituído pelo domínio da ferramenta sobre o homem. É aqui que se torna necessário reconhecer o malogro. Há já uma centena de anos que tenta-mos pôr a trabalhar a máquina para o homem e educar o homem a servir a máquina. [...] Durante um século, a humanidade entregou-se a uma experiência baseada na seguinte hi-pótese: a ferramenta pode substituir o escravo [aliás, na esteira da doutrina de Aristó-teles...]. Ora bem, tornou-se evidente que, aplicada a tais objectivos, é a ferramenta que torna o homem seu escravo” (idem, ibidem).
A gramática da vera e justa ferramenta, caracteriza-a Illich como segue (ibi, p.24): “ A ferramenta justa corresponde a três exigências: é criadora de eficiência sem degradar a autonomia pessoal; não provoca nem escravos nem senhores; amplia o raio de acção pessoal. O homem precisa de uma ferramenta com a qual trabalhe, não de instrumentos que trabalhem em seu lugar. Precisa de uma tecnologia que tire o melhor partido da ener-gia e da imaginação pessoais, não de uma tecnologia que o avassale e o programe”. — Este ideário constitui o núcleo duro do que nós próprios escrevemos no livro ‘Em torno das Novas Tecnologias e da Nova Economia’ (Edicon, São Paulo, 2000). A dizer toda a verdade, a vera e autêntica Convivialidade illichiana só se torna possível, em vias de se converter num facto socialmente reconhecido, sob esse pressuposto, que é condição sine qua non. É preciso, pois, inverter, totalmente, a lógica das instituições industriais e es-colares.
Com efeito, “ uma sociedade que define o bem como a satisfação máxima, pelo maior consumo de bens e de serviços industriais, do maior número de pessoas, mutila de modo intolerável a autonomia do indivíduo. Uma solução política de recurso para este utilitarismo definirá o bem como a capacidade de cada pessoa para moldar a imagem do seu próprio porvir. Esta redefinição do bem só pode ser operacional se se aplicarem crité-rios negativos. Trata-se, acima de tudo, de proscrever os instrumentos e as leis que obsta-culizam o exercício da liberdade pessoal. Esta empresa colectiva limitaria as dimensões das ferramentas, a fim de defender valores essenciais que eu intitularia de sobrevivência, equidade, autonomia criadora, mas que, ainda assim, se poderiam designar pelos três cri-térios matemáticos de viabilidade, curva de distribuição de ‘inputs’ e curva de controlo de ‘outputs’. Estes valores são fundamentais para toda a estrutura convivencial, mesmo quando as leis e a moral variarem de uma cultura para outra” (idem, ibi, p.27).
Que entende o Autor por Convivialidade (substantiva)? “ Entendo o inverso da produtividade industrial. Cada um de nós define-se pela relação com os outros e com o ambiente, assim como pela sólida estrutura das ferramentas que utiliza. Estas podem or-denar-se numa série contínua, cujos extremos são a ferramenta como instrumento domi-nante e a ferramenta convivial. A passagem da produtividade para a convivialidade é a passagem da repetição da carência para a espontaneidade do dom. A relação industrial é reflexo condicionado, uma resposta estereotipada do indivíduo às mensagens emitidas por outro usuário que jamais conhecerá, a não ser por um meio artificial que nunca com-preenderá. A relação convivial, por outro lado sempre nova, é acção de pessoas que parti-cipam na criação da vida social. A mudança da produtividade para a convivialidade subs-titui um valor técnico por um valor ético, um valor material por um valor adquirido. A convivialidade é a liberdade individual, realizada dentro do processo de produção, no seio de uma sociedade equipada com ferramentas eficazes. Quando uma sociedade, não importa qual, repele a convivialidade para atingir um certo nível, transforma-se em presa da carência, dado que nenhuma hipertrofia da produtividade conseguirá satisfazer alguma  vez as necessidades criadas e multiplicadas pela inveja” (ibi, p.25).
Os diferentes modelos de socialismo, bem como as próprias vias da social-demo-cracia, postos em marcha até ao presente, abalroaram todos, pela simples e elementar ra-zão de tais problemas básicos e nucleares nunca terem sido encarados e resolvidos. Está certo, por conseguinte, Ivan Illich, ao responder ad hominem (ibi, p.26): “ O ideal propos-to pela tradição socialista não se traduzirá em realidade, enquanto não se inverterem as instituições imperantes e não for substituída a instrumentação industrial por ferramentas conviviais. E, por seu lado, a reinstrumentação da sociedade tem todas as probabilidades de perdurar como uma intenção piedosa se os ideais socialistas de justiça a não adopta-rem”. — Homem/Ferramenta/Sociedade: esta tríade multi-milenária, é preciso e urgen-te resolvê-la definitivamente, sob pena de a Espécie humana, qua tal, se exterminar.
Austeridade/Autodeterminação/Autodomínio são as virtudes/capacidades pró-prias do Homo Sapiens-Sapiens, dotado de consciência reflexiva e crítica. As possibili-dades de Autodeterminação, que emergiram na cadeia evolutiva da Bio-Antropogénese, acham-se ancoradas, culturalmente, nas virtudes do Autodomínio e da Austeridade dos Indivíduos-Pessoas/Cidadãos. Na esteira de Aristóteles e de Tomás de Aquino (cf. ‘Sum-ma Theologiae’, IIª-IIae, Q.168, Art.4, ad tertium), a Austeridade é definida como uma virtude que não exclui todos os prazeres, mas tão somente aqueles que degradam a relação pessoal. Na verdade, esta virtude está articulada com outra, muito frágil, que a excede e engloba: a alegria ou entrapelia, a Amizade, em suma.
Ivan Illich deu-se conta, como ninguém, da crise das Sociedades contemporâneas até às suas raízes e, por isso mesmo, ele pôde começar a abrir caminho para encontrarmos as soluções adequadas. Escreveu ele, com perspicácia (op.cit., p.10):
“ Não é fácil imaginar uma sociedade na qual a organização industrial esteja equi-librada e compensada com modos diferentes de produção complementares e de alto rendi-mento. Estamos a tal ponto deformados pelos hábitos industriais, que já não ousamos considerar o campo das possibilidades. Para nós, renunciar à produção em massa signifi-caria regressar às grilhetas do passado, ou a adoptar a utopia do bom selvagem. Porém, se alargarmos o nosso ângulo de visão até à medida das dimensões da realidade, teremos de reconhecer que não existe uma forma única de utilizar as descobertas científicas, mas, pe-lo menos, duas, antinómicas entre si. Uma delas consiste na aplicação da descoberta que conduz à especialização das tarefas, à institucionalização dos valores, à centralização do poder. Nela, o homem converte-se em acessório da megamáquina, em engrenagem da bu-rocracia. Mas existe uma segunda forma de fazer frutificar a invenção, que aumenta o po-der e o saber de cada um, permitindo-lhe exercitar a sua criatividade, com a única condi-ção de não coarctar essa mesma possibilidade aos outros”.

Em termos de práticas societárias, a Revolução Cultural preconizada por I. Il-lich, tem de começar por concretizar-se nas Instituições escolares e nos Sistemas educati-vos nacionais. O seu livro célebre ‘Deschooling Society’ (publicado em 1971, por Harper and Row, New York, na colecção ‘World Perspectives’), logo foi, no mesmo ano, tradu-zido e editado em francês, pelas Éditions du Seuil, sob o título ‘Une Société sans École’. Todavia, esta foi uma obra que ficou esquecida na estante ou na gaveta, a partir da 2ª me-tade da década de ’70 do séc. passado.

Não obstante, esse livro continua a ser, ainda hoje, uma obra de referência para a Crítica das Instituições escolares e dos Sistemas educativos, em virtude da radicalidade com que aborda os problemas estruturais/estruturantes. A contracapa da edição francesa resume bem os conteúdos e o balizamento essencial do livro: “ Escola obrigatória, escola-ridade prolongada, corrida aos diplomas, tudo isso não passa de falso progresso. Devo-ções rituais, onde a sociedade de consumo se entrega ao seu próprio culto, onde ela pro-duz alunos dóceis prontos a obedecer às instituições, a consumir programas acabados, preparados por autoridades supostamente competentes. Em vez disso, é preciso edificar uma vera educação que prepare para a vida na vida, que estimule o gosto de inventar e experimentar. É preciso libertar a juventude dessa longa gestação escolar, que a conforma ao modelo oficial. Então, as nações pobres cessarão de imitar esse erro dispendioso.
“ Mais créditos desmedidos às instituições (escolares ou outras)... o que se propõe é que os meios de adquirir ou de transmitir um saber sejam postos em comum e livremen-te acessíveis a todos. Mais professores, simultaneamente, guardiães da ordem estabeleci-da, prègadores e terapeutas... o que se propõe são trocas entre ‘iguais’, educadores inde-pendentes”.
Quer tudo isto dizer que, para além da necessária ‘desescolarização’ das institui-ções, é o ethos todo inteiro da Sociedade que está em causa e precisa ser desconstruído!... De facto — escreve Illich, na introdução ao livro citado (p.8) — “ pretender assegurar a educação universal, pela escola, representa um projecto irrealizável; as oportunidades de êxito seriam maiores se isso fosse a tarefa de organismos orientados na direcção inversa à que é assumida pela escola de hoje. Com efeito, não basta querer modificar a atitude dos professores perante os alunos, nem recorrer a material pedagógico, electrónico ou não, in-cessantemente mais baralhado, nem, ainda, querer estender a responsabilidade do peda-gogo, até lhe permitir a invasão da vida privada dos seus ‘discípulos’. Tais esforços não poderiam conduzir à educação universal.
“ À investigação que, de facto, não visa descobrir senão novos métodos de ‘em-panturramento’ [P. Freire falaria da ‘educação tipo depósitos bancários a prazo ou à or-dem’], é preciso contrapor outra investigação que empreenda a concepção de verdadeiras ‘redes de comunicações’, com desígnio educativo, mediante as quais serão acrescidas as oportunidades de cada um, para fazer de cada momento da sua existência uma ocasião de se instruir, de partilhar, de se entre-ajudar. E, neste livro, nós esperamos trazer a nossa contribuição a este esforço, tornando patentes certas ideias necessárias a todos aqueles que prosseguem investigações não-convencionais em matéria de educação, bem como a todos aqueles que procuram encontrar soluções de substituição para os projectos que não visam senão o desenvolvimento das indústrias de produção de bens e de serviços”.
Não é na escola, enquanto instituição escolar, que se cria ou fabrica uma obra d’arte ou uma mercadoria. Aristóteles (na ‘Ética a Nicómaco’, 1140) empregava o termo póiesis para designar tudo o que concernia à perfeição na criação, ou seja, no mundo da arte ou da produção; e utilizava a palavra praxis para indicar o que dizia respeito ao fa-zer-agir, à perfeição na acção, que era traduzida pelo termo virtude. A escola e a insti-tuição escolar configuram-se muito mais no mundo da praxis do que no mundo da póie-sis. Isto é absolutamente óbvio e inquestionável. E, aí mesmo, se acha o que podemos de-signar como ‘calcanhar de Aquiles’ da Escola e da Instituição escolar!...
Escreve Illich (op.cit., p.49), com penetração e verdade: “ A própria existência da escola obrigatória divide toda a sociedade em duas categorias: certos períodos, certos métodos, certas profissões, são ditas ‘académicas’ ou ‘pedagógicas’; outras não o são. Assim, o poder da escola de distinguir entre duas realidades sociais apresenta-se logo sem limites: a educação situa-se num lugar apartado do mundo, ao passo que o mundo não possui nenhum valor educativo”. — Como se pode advertir, até aqui se reflectem os efei-tos psico-sócio-culturais do ocidental Dualismo metafísico-ontológico!...
Desescolarizar a sociedade constitui, pois, um imperativo categórico de índole psico-sócio-antropológica, e exprime uma espécie de salvamento da Espécie humana, ab-solutamente necessário e urgente. Na verdade, “ a desescolarização da sociedade passa pelo reconhecimento da natureza da educação que, de facto, comporta dois aspectos. Contentar-se em pôr em prática uma formação profissional conduziria a um novo desas-tre. É preciso atribuir uma importância igual a outros tipos de educação. E se na escola, não se aprende seguramente um métier, também não se beneficia de uma educação do es-pírito. A instituição escolar obtém resultados tão miseráveis, acima de tudo porque ela quer atingir todos os objectivos ao mesmo tempo, e porque ela não reconhece senão pro-gramas de ensino obrigatórios, onde todas as matérias são confundidas” (idem, ibi, p.37).
Neste horizonte crítico, e no contexto do ainda actualmente presente estado de coisas tradicional, no concernente à Escola e à Educação bem como aos Sistemas educati-vos nacionais, há duas questões essenciais e reestruturantes, que não podemos deixar de colocar, na boa companhia de Illich: A) por que se continua a misturar e a confundir, na mesma fenomenologia operatória, o acto e a atitude de ensinar e o acto e a atitude de aprender, quando, na verdade, se trata de duas operações ou fenómenos absolutamente distintos?!... (Advirta-se que é a partir da confusão do acto de aprender com o acto de ensinar que se tem alimentado o mecanicismo cartesiano, nos planos didáctico e peda-gógico, — mecanicismo que estigmatizou os últimos três séculos da Cultura e da Civili-zação ocidentais.).  B) Se o acto e a atitude do Educador têm a sua necessária ancoragem na autonomia pessoal e nas iniciativas de Sujeitos livres e responsáveis, por que é que as Sociedades e os Poderes estabelecidos continuam a preferir os educadores profissio-nais (institucionalizados...) aos educadores independentes?!...
É a estas duas questões fundamentais que o opúsculo de Ivan Illich, titulado ‘Edu-cação sem Escola?’ (orig.: ‘Education without School’, sem interrogação...) (Edit. Teore-ma, Lisboa, 1974), procura dar respostas lúcidas, convincentes e bem fundamentadas. Vamos recensear, daqui, algumas teses mais importantes e decisivas, — até para que as pessoas e os leitores de Illich se possam convencer, cada vez mais, de que o Autor não é um ‘místico’ a ditar-nos soluções do ‘outro mundo’, ou um ‘perigo’ a evitar para os ‘cães de guarda’ do Establishment, mas, outrossim, um ‘iluminado’ ou um ‘profeta’ que nos anuncia a Revolução necessária e indispensável. Justamente porque sabe cruzar e articu-lar com eficácia a honestidade intelectual e a simplicidade evangélica.
Sabemos quantas dificuldades há, hoje em dia, em conceber uma Sociedade de-sescolarizada, uma Sociedade sem Escola institucionalizada. Não obstante, a contabili-dade dos desperdícios escolares e a caterva de factores contraditórios que atravessam a moderna Escola institucionalizada e os respectivos Sistemas educativos vão abrindo por-tas e janelas para a necessária desconstrução do Edifício societário mais ou menos mons-truoso!... Na verdade, “ o que importa é criar entre o homem e aquilo que o rodeia novas relações que sejam fontes de educação. Para chegar a este resultado, deveremos modificar simultaneamente as nossas reacções, a ideia que fazemos do desenvolvimento, os utensí-lios necessários para a educação, e o estilo da vida quotidiana” (idem, ibi, p.6).
Cientistas modernos tradicionais, moldados nos critérios do materialismo dialécti-co, porão, desde logo, uma objecção. Por quê começar pela Escola e pela Instituição es-colar, se é dos sistemas económico e político que a própria Instituição escolar depende?! A resposta adequada é dada por Illich (ibi, p.8): “ A objecção pode parecer válida. Mas, na realidade, não atende suficientemente à natureza profunda da escola, ao mesmo tempo económica e política [tal como o é a Instituição escolar em que ainda vivemos, na Socie-dade capitalista.]. Por consequência, tentar uma revisão do sistema escolar abre novas perspectivas em política e em economia”.
Não é esta Instituição escolar, que temos, que abre o caminho para a utilização dos métodos, que permitem chegar ao controlo social/societário? De facto, assevera o Autor (ibidem), “ a ideia da escolaridade dissimula um programa pelo qual se trata de ini-ciar o cidadão no mito da eficácia benévola das burocracias iluminadas pelos conhe-cimentos científicos. E, por toda a parte, o aluno é levado a acreditar que só um aumento de produção é capaz de conduzir a uma vida melhor”. Desta sorte, fica o caminho desim-pedido para os vícios do consumismo e para a manutenção sempiterna das hierarquias so-cietárias...
Tem razão, pois, I. Illich, ao afirmar apodicticamente, a propósito da Revolução Cultural (necessária e urgente) (ibi, p.10): “ Um programa político que não reconheça, explicitamente, a necessidade da descolarização não pode ser considerado como revolu-cionário”. — Antes de falarmos do plano e do programa dessa Revolução Cultural, con-virá tomar consciência dos seus efeitos e consequências esperados, para melhor se poder percepcionar o alcance e as dimensões das transformações revolucionárias a operar.
Escreve o Autor (ibi, p.62): “ A descolarização da sociedade extinguirá, inevita-velmente, as distinções entre a economia, a educação e a política, sobre as quais repousa a estabilidade do mundo actual e das nações”. No mundo moderno tudo se mecanizou, ao nível do próprio exercício institucionalizado das mais diversas profissões. Onde está essa relação intelectual/moral entre mestre e discípulo, onde ambos encontram prazer e senti-do sem o ónus imposto pela busca de um objectivo particular, essa espécie de recreio (skholê, no grego), na senda de Aristóteles e Tomás de Aquino?! Em suma, “ se as esco-las deixassem de ser obrigatórias, que alunos restariam ao professor, que baseia todo o seu ensino na autoridade que exerce? O desaparecimento do mestre-escola anunciaria tal-vez o fim da nossa actual estrutura profissional” (idem, ibi, p.60). Não é verdade  que os Sistemas educativos procuram assegurar, ciosamente, por todos os meios, o monopólio da educação através do ensino institucionalizado?!...
Na esteira do que poderíamos designar como desenvolvimento do Diálogo socrá-tico, I. Illich estabelece dois pressupostos articulados da Revolução educativa: o direito (defendido intransigentemente) de livre acesso das massas populares aos instrumentos de ensino e instrução, bem como o direito de partilhar com outros os seus conhecimentos e as suas crenças. O cumprimento de tais pressupostos impõe que a revolução educativa se-ja guiada e balizada por alguns princípios, a saber (idem, ibi, pp.61-62):
“ 1) tornar livre o acesso às coisas, abolindo o controlo que as entidades particula-res e as instituições exercem sobre o seu valor educativo;
“ 2) tornar livre a partilha das aptidões, garantindo o direito de as ensinar ou de as demonstrar a pedido;
“ 3) tornar livres os recursos criadores e críticos dos seres humanos, restituindo a todo o indivíduo o poder de convocar reuniões ou de participar nelas (poder cada vez mais detido pelas instituições que pretendem falar em nome do povo);
“ 4) tornar livre o indivíduo da obrigação de limitar as suas esperanças de acordo com os serviços que podem oferecer-lhe as profissões estabelecidas (permitindo-lhe dis-por do auxílio dos seus pares, tirar proveito da sua experiência, e confiar-se ao educador, ao guia, ao conselheiro, ao médico da sua escolha.)”.
Um vero e próprio Sistema Educativo deve partir do desejo e dos Sujeitos do Aprender; não do desejo e dos Sujeitos do Ensinar. A sua Questão central-nuclear (a que se impõe dar respostas efectivas) é a seguinte: ‘Com que espécie de coisas e de pes-soas deve estar relacionado aquele que deseja aprender?’ (cf. idem, ibi, p.15). “ Um ver-dadeiro sistema educativo não impõe nada àquele que se instrui, mas permite-lhe ter acesso àquilo de que ele necessita” (idem, ibidem).
Neste horizonte, I. Illich esquadrinhou quatro redes ou organismos articulados que, pela sua importância, passamos a transcrever (ibi, pp.17-18):
“ 1º) Um primeiro serviço seria encarregado de pôr à disposição do público os ob-jectos educativos, isto é, os instrumentos, máquinas e aparelhos utilizados para a educa-ção formal. Alguns deles, concebidos com um fim puramente educativo, seriam apresen-tados em bibliotecas, laboratórios, salas de exposição (museus e salas de espectáculo, por exemplo); outros, utilizados nas actividades diárias, quer em fábricas e aeroportos, quer em quintas, etc., poderiam ser acessíveis às pessoas que desejassem conhecê-los, ou du-rante um período de aprendizagem ou fora das horas de trabalho.
“ 2º) Um serviço de troca de conhecimentos teria em dia uma lista de pessoas de-sejosas de fazer aproveitar os outros da competência própria, mencionando as condições em que desejariam fazê-lo.
“ 3º) Um organismo facilitaria os encontros entre pares. Verdadeira rede de comu-nicações, registaria a lista das pretensões, em matéria de educação, daqueles que se lhe dirigissem para encontrar um companheiro de trabalho ou de pesquisas.
“ 4º) Serviços de referência, em matéria de educadores, quaisquer que eles fos-sem, permitiriam estabelecer uma espécie de anuário, onde se encontrassem os endereços dessas pessoas, profissionais ou amadores, fazendo ou não parte de qualquer organismo. Como adiante veremos, alguns desses educadores poderiam ser encarregados desse traba-lho por um sistema de eleições, ou escolhidos por consulta aos seus antigos alunos”.
Tudo, na Sociedade e na Escola institucionalizada tradicional, desencoraja a von-tade de Aprender, o desejo e o gosto de Aprender. Dir-se-ia que “ o homem vive num meio que ele próprio concebeu, e este ambiente artificial vai-se-lhe tornando tão impene-trável como a natureza o é para os primitivos. Ao mesmo tempo, tudo quanto serve para a educação é da competência da escola” (idem, ibi, p.20), num regime de monopólio insti-tucionalizado absoluto. Ora, “ se decidirmos descolarizar, é por uma inversão destes mé-todos que temos de principiar, tornando acessíveis o meio físico e os recursos materiais próprios para a educação, que foram aviltados por serem postos ao serviço do ensino. A instrução tem de partir de uma escolha pessoal” (idem, ibi, p.21).
Illich não se esqueceu de anotar o seguinte (ibi, p.28): “ Se as escolas e os educa-dores não definissem os objectivos da educação, o mercado dos conhecimentos apresen-taria uma escolha infinitamente mais variada; a definição dos objectos e dos instrumentos considerados como educativos seria muito mais vasta”. Por outro lado, é preciso advertir que “ o livre acesso aos instrumentos educativos continuará a ser impossível, enquanto as empresas beneficiarem, ao mesmo tempo, da protecção legal concedida às actividades privadas e do poder económico que lhes conferem os seus milhões de clientes, os seus milhares de empregados, de accionistas, de fornecedores”. — Isto mesmo é o que pode-mos chamar o fascismo da concepção ideológica da ‘propriedade privada’, oriunda do Di-reito Romano imperial e que dava pela fórmula: ‘jus utendi et abutendi’!...
É preciso demandar uma nova concepção da propriedade. O Autor analisa bem a situação tradicional e perscruta bem a metamorfose necessária, quando escreve (ibi, p. 33): “ O sistema escolar apenas garante que o controlo dos objectos educativos passe das mãos da entidade privada para as do profissional. Tomar o caminho inverso deveria levar cada qual a reivindicar o seu direito de os utilizar para sua própria educação. Desapareça o controlo que o sector privado ou as instituições profissionais exercem sobre as possibi-lidades de educação contidas nos objectos, e não deixará de se chegar a uma nova cons-ciência da propriedade, definida como um bem verdadeiramente público”
A mercadorização do Ensino e da Educação e o estigma economicista dos Siste-mas educativos tradicionais são mais profundos e intrínsecos à própria realidade educati-va do que se imagina. Para tomar consciência disto, basta reflectir criticamente no fenó-meno seguinte (idem, ibi, pp.38-39): “ Os diplomas representam um obstáculo à liberdade da educação, fazendo do direito de partilhar os seus conhecimentos um privilégio reser-vado aos empregados das escolas. De tal modo que, para garantir o desenvolvimento da troca de competência, seria necessária uma legislação que garantisse esta liberdade de en-sino. O direito de ensinar o que se sabe deveria ser tão reconhecido como o da liberdade de expressão. Uma vez abolida esta restrição, o estudo ficaria facilitado”.
Mas a fenomenologia da ‘escolarização da sociedade’ não fica por aí. “ Descola-rizar é, portanto, abolir também a obrigação que nos impõem de participar numa ‘assem-bleia’. É, ao mesmo tempo, reconhecer o direito de qualquer pessoa, independentemente da idade ou do sexo, participar numa reunião. A institucionalização dos meetings repre-senta uma afronta a esse direito. A palavra meeting representava antigamente uma reu-nião de pessoas, a que assistia quem queria. Agora, faz-nos pensar no produto institucio-nal de uma agência qualquer” (idem, ibi, p.45).

            Neste horizonte crítico, “ numa sociedade descolarizada, os profissionais não esta-riam já entrincheirados por detrás dos seus diplomas, seguros de que ninguém duvidará da sua competência, visto que possuem o seu pedigree universitário! Não poderiam já

formar esses conluios proveitosos entre especialistas que fazem intercâmbio de clientes!” (idem, ibi, p.50).
Está certo Ivan Illich, quando, por último, advoga a distinção (e não-confusão) en-tre a família e a escola e suas funções respectivas (ibi, pp.51-52): “ Para indicar aos fi-lhos o caminho que leva à independência em matéria de educação, os pais reclamarão al-guma assistência. Os estudantes terão necessidade de um guia para transpor um ou outro obstáculo. Mas estas duas exigências mantêm-se distintas: o primeiro caso requer um sentido pedagógico; o segundo, conhecimentos suficientes para dominar a matéria em es-tudo. Quem diz pedagogia diz conhecimento das aptidões para aprender, dos métodos a seguir e das fontes de informação; quanto ao domínio de uma matéria, esse não se adqui-re senão com uma longa experiência, único meio de conseguir a necessária sabedoria. Pa-ra uma verdadeira obra educativa, estas duas virtudes são indispensáveis, mas separáveis; e a escola confunde-as, associa-as numa única função, lançando o descrédito sobre o exercício independente de cada uma delas”.
Eis por que a Sociedade em que (sobre)vivemos se acha, inexoravelmente, estig-matizada pelos pedagogismos e paternalismos de toda a espécie; pelo vezo dos autori-tarismos e despotismos de toda a sorte (políticos, económicos, ‘do mercado’, escolares, educativos, familiares...); — e os próprios regimes políticos, ditos de democracia repre-sentativa, não chegam a sair do odre do ‘despotismo iluminado’, que, para cúmulo do desconchavo, continuam a adoptar como uma solução legítima e justa!...
Eis, igualmente, por que a famigerada ‘doutrina’ da Autonomia das Escolas, nas presentes circunstâncias, associada à Avaliação institucional dos professores segundo a cartilha do Establishment, sempre bem hierarquizados enquanto servidores do Estado e como classe sócio-profissional dependente, só pode redundar num mundo absurdo e peja-do de contradições... Na situação actual das Escolas e dos Sistemas educativos nacionais, um tal projecto de autonomização não pode constituir senão uma aberraçao selvagem, um nado-morto monstruoso!...

 

 

IV

 

A PERTINÊNCIA E A ACTUALIDADE DA OBRA DE

ILLICH PARA OS TEMPOS (PÓS-MODERNOS) DE HOJE

            Uma vez dissipado o carácter constringente e vinculativo das cartilhas epistémico--historicistas, ora presas aos idealismos metafísicos à Hegel, ora agarradas aos materialis-mos dialécticos não-marxistas ou aos histórico-dialécticos marxianos e marxistas, os tempos da Pós-Modernidade em que vivemos (que nós fazemos questão em caracterizar de positiva e crítica, por causa das confusões e dos equívocos...) são, de facto, propícios a que a Obra revolucionária de Ivan Illich seja melhor percebida e compreendida do que há 30 ou 50 anos, e, por consequência, os planos e os programas da sua Revolução Cultural comecem a ser criticamente aplicados e realizados na Sociedade.
Centradas sobre os Sujeitos humanos individuais-pessoais e a sua iniciativa li-vre e responsável, as teses intrinsecamente humanistas de Illich, em virtude da sua radi-calidade (atingem as raízes do psico-sócio-ânthropos), embora configuradas nos anos 60/ /70 do século passado, apresentam-se como perfeitamente válidas e indispensáveis para a nossa contemporaneidade. É que, na verdade, elas procedem à desconstrução e à denún-cia (explícita ou implícita) de todas as alienações modernas e contemporâneas, na medi-da em que estabelecem e reivindicam:
a união das formas e dos conteúdos; dos significados e dos significantes, por for-ma a não perdermos o sentido das coisas e das pessoas, das instituições, da Realidade e dos processos históricos; a união dos conteúdos do ensino e do modo de ensinar; bem co-mo o primado absoluto do Aprender (que procede indiscutivelmente dos Sujeitos) sobre o Ensinar (que, sendo embora operação de Sujeitos, tem de passar pelas categorias dos objectos, para poder ser assimilado por Sujeitos). Numa palavra, I. Illich é um daqueles analistas críticos da Modernidade verdadeiramente inultrapassáveis: o que ele repudia e combate é a compartimentação estanque das Disciplinas e dos Saberes, das operações e dos processos culturais e civilizatórios; em suma, os sistemas fragmentados e fragmen-tários, que caracterizaram a Modernidade (e continuam a cauterizar as Instituições so-cietárias).
Hoje em dia, de pouco ou nada vale ouvir, dos economistas profissionais (e do seu irredento ‘economês’...) a crítica do estado da Economia e suas movimentações na Socie-dade... Com altos e baixos, fica sempre tudo na mesma... e a exterminação da vida no Planeta ali à espreita!... Que faz Illich, num horizonte radicalmente diferente? Procede à Crítica radical da Economia política, precisamente mediante a crítica das Instituições so-cietárias (a começar pela Escola e pelos Sistemas educativos), que estão, substantiva-mente, ao serviço daquela. Por isso, a sua Crítica global tem de vir a desembocar num modelo de Escola e de Sistema educativo verdadeiramente novo e radical.
Por exemplo, em vez de categorias e slogans do tipo ‘Crescimento económico’ (sempre medido, estatística e contabilisticamente, pela bitola financeira...); P.I.B. (produ-to interno bruto...); mais-valia e produtividade (onde o trabalho é avaliado e classificado em categoremas abstractos, inteiramente separados do trabalho real do Sujeito humano/ /trabalhador); o próprio meio-ambiente degradado e mercadorizado... — em vez disso, a exigência e a reivindicação, primaciais e primordiais, da Convivialidade entre os Sujei-tos humanos livres e responsáveis, em suma, aquilo que podemos chamar F.I.B. (feli-cidade interna bruta), a brotar de uma Sociedade onde os Indivíduos-Pessoas podem ex-pandir-se em regime de autodomínio (não de controlo sempiterno e hétero-domínio); a brotar de uma Sociedade onde a Escola é intrinsecamente inclusiva (e não sistemicamente exclusiva, como ainda acontece...). A escola inclusiva desta nova Sociedade é inclusiva a sério, visto que ultrapassou modelos clínicos de intervenção, sempre selectivos e obedi-entes às classes dominantes e seus interesses.
O uniformista modelo económico vigente (do neoliberalismo capitalista global), já se provou à saciedade que não serve e é suicidário para toda a Espécie humana. “ O mundo está doente por causas muito variadas, mas os ‘especialistas’ da classe dominante entretêm-se a fazer o diagnóstico centrados sobre o crescimento económico! As organiza-ções de trabalhadores devem perceber que não podem deixar-se arrastar por estes dia-gnósticos, mesmo que seja para os contestar. [...] Os ‘especialistas’ do capitalismo impu-seram por toda a parte, como paradigma, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e como maior objectivo das sociedades o seu crescimento económico. Nos últimos 50 anos o PIB não parou de crescer e, com ele, cresceram a pobreza, as desigualdades sociais e a destruição do meio ambiente. A verdade é que a vida em sociedade não é um valor mone-tário, e comparar a vida de um bosquimane com a de um nova-iorquino não faz sentido. São precisos novos critérios para avaliar as sociedades” (José Paulo Serralheiro, in ‘A Página da Educação’, Maio de 2007, p.3).
Tem razão José Paulo Serralheiro, quando escreve (ibidem): “ O problema de fun-do, que continua a colocar-se aos trabalhadores, é o de saber como ultrapassar a sua sub-jugação aos ditames do capital, escapando à exploração a que são sujeitos e impondo a supremacia do trabalho humano sobre o dinheiro. Como libertar o trabalho humano? Que novo sentido lhe dar? Como repensar a organizaçao da sociedade sem perder as conquis-tas civilizacionais e o bem-estar de que já beneficiam algumas populações? Como organi-zar o mundo de forma mais solidária? Como combater as desigualdades no seio de cada povo e entre povos e nações? A questões como estas não se responde com os velhos ritu-ais, que não são mais do que cristalizações de tentativas de resposta a velhos objectivos”.
Ora, o que vai aguentando este status quo foncièrement hipócrita, encenando ci-clicamente pseudo-soluções, que sempre vêm a fracassar, é precisamente a Escola insti-tucionalizada e os Sistemas educativos, tais como existem. É sobre toda essa paraferná-lia que incide a Luta de Illich e a nossa. Eis por que, por exemplo, a tão proclamada (e nunca concretizada, até ao presente...) escola inclusiva não se pode basear na simples ca-talogação dos alunos, para efeitos estatísticos... Onde está a aplicação consequente da Declaração de Salamanca (1994) sobre a problemática dos ‘Alunos com necessidades educativas especiais’ (NEE) e a sua plena integração no Sistema escolar?!...
A chamada ‘escola inclusiva’, nas actuais circunstâncias, continua a ser uma fic-ção e um voto piedoso de pessoas bem formadas. Escreve argutamente Jorge Humberto Nogueira (ibi, p.38): “ Das vantagens e contradições dos modelos clínico e social, (indiví-duo-ambiente), nasceu na década de ’80 o modelo de ‘escola para todos’, ou ‘escola in-clusiva’. Esta resposta institucional emerge dos modelos anteriores como novo paradig-ma, tornando necessário investir na transformação da própria escola, para gerar mudanças efectivas e duradouras na educação de todos os alunos, tendo em conta igualmente as va-riáveis ecológicas. O modelo inclusivo veio contribuir para a compreensão de como é im-portante o papel da escola e da turma, na forma como os alunos crescem e aprendem. Ao contrário dos modelos clínico e social, que subestimaram estes factores. As necessidades especiais, centradas anteriormente nos défices individuais, ou nas barreiras sociais, pas-sam a ser também abordadas no âmbito da forma como as escolas se organizam”.
— Neste contexto preciso, que se propõe dar seguimento ao ideário de uma Esco-la inclusiva, tem de perguntar-se à puridade: Onde está, para os devidos efeitos legitima-mente esperados, a Autonomia real e efectiva das Escolas do Sistema público de ensino e educação e a necessária e indispensável autonomia sócio-profissional dos professores e educadores?!... A propósito de toda esta problemática, bem se pode dizer de I. Illich, o que disse de Paulo Freire Carlos Alberto Torres (in ‘Paulo Freire: uma Biobibliografia’, Vozes, São Paulo, 1996): “... há boas razões pelas quais, na pedagogia da atualidade, po-demos ficar com Freire ou contra Freire, mas não sem Freire”.
Desde logo, é urgente começar por acabar com as ilusões e as miragens... honesti-dade intelectual para com os Humanos, acima de tudo! É preciso saber, antes de mais, o que pode e não pode a Escola institucionalizada e o Sistema educativo, que temos. Só de-pois da separação das águas, se poderão reivindicar e defender, criticamente, os projectos alternativos necessários e indispensáveis. Esta base é comum a Illich e a Freire.
Por que é que, no actual horizonte imperialista/capitalista, se pede sempre, à Es-cola institucionalizada e ao Sistema público de Ensino e Instrução, mais do que eles po-dem dar, por definição?! Precisamente, porque, como Illich muito bem observou, a Esco-la institucional e o Sistema público do Ensino incorporam, na sua realidade ‘omnipoten-te’, as três dimensões: a escolar/educativa, a económica e a política. Nesta mesma óptica, os críticos de meia-tijela continuam a alimentar ilusões e miragens, quando se põem a chorar lágrimas de crocodilo por causa do assalto actual dos processos de mercadoriza-ção (industriais e comerciais) sobre o ‘sector terciário’ dos Serviços da Educação escolar e da Cultura. A inteligência deveria servir para mais alguma coisa do que, muito simples-mente, para exercer o ofício de ‘cão de guarda’ do Establishment.
No IX Congresso Nacional dos Centros de Formação de Associações de Escolas (CFAE), levado a efeito em Guimarães, no C.C. de Vila Flor (de 3 a 5 de Maio de 2007), sob o signo da identificação dos novos desafios de qualidade para a Formação Contínua de Professores e Educadores, o Prof. Licínio Lima (Univ. do Minho), numa conferência titulada ‘Políticas de Educação e Formação ao longo da vida’, chamou em boa hora a atenção para o seguinte: “ a educação ao longo da vida tem-se tornado num processo ao serviço do poder económico, onde é difícil encontrar um projecto educativo humanista”; por isso, faz-se sentir a necessidade de “ políticas de educação consistentes, sustentadas e humildes, com uma rectaguarda cívica, cultural e antropológica”. Na linha de Paulo Freire, Licínio Lima sustentou que ‘a Educação pode alguma coisa mas não pode tudo’; por isso, não se pode ‘colocar na escola a responsabilidade da modernização, do cres-cimento económico e do combate ao desemprego’ (cf. ‘Notícias de Guimarães’, 11.5.07, p.4).
A dizer toda a verdade, os vícios ou as supostas virtudes do Economicismo, atri-buídos à Escola e ao Sistema educativo nacional, não atingiram apenas a educação ao longo da vida e o chamado ensino recorrente; eles afectaram todos os restantes sectores e segmentos do Sistema educativo, a começar pela raiz e tronco da Árvore, os anos concer-nentes à escolarização normal das crianças e dos jovens, antes da sua iniciação na vida activa.
Sistemas escolares e (des)educativos com tais características produzem Socieda-des doentes e gregárias, onde os indivíduos não chegam a ser Pessoas e Cidadãos respon-sáveis... As contradições estruturais e as violências de toda a sorte, de mãos dadas com a pobreza e a miséria (sobremaneira nos bairros periféricos das cidades...), são, aí, o pão nosso de cada dia!...
Abram-se os olhos, v.g., para o que se passa nos U.S.A., no atinente a esse espe-lho societário que são as Prisões e a vida dos que aí são detidos. (Cf. reportagem da Na-tional Geographic, passada na RTP/2 de 11.5.07). Um espelho iniludível da Sociedade norte-americana, o Estado/Nação mais rico e poderoso do Mundo. Que se lobrigou, aí, de essencial e decisivo? Os comportamentos dos presidiários são sobrecomandados, inexora-velmente, pelas leis do mais forte e da violência sempre presente. Os próprios guardas prisionais receiam diariamente pela sua própria vida; por isso, para se protegerem dos re-clusos, sempre encarados como inimigos, eles cuidam-se com coletes à prova de bala. Os presidiários, entre si, temem-se uns aos outros, sabendo-se, constantemente, com a cabeça a prémio. ‘Dar-se ao respeito’ (através da superioridade da força...) constitui a preocupa-ção quotidiana, para sair vivo ao fim de cada jornada!... Isso, porém, só é conseguido me-diante a couraça da ‘coragem’ (moral e física) que, nas brigas e contendas, leva cada um a mostrar-se como ‘o mais forte’!...
Não se vislumbrou aí, ao longo de toda a Reportagem/Documentário, qualquer as-somo ou tentativa, qualquer atitude ou orientação no sentido da recuperação social dos re-clusos: procedimentos de índole didáctico-pedagógica, cívica ou moral, para com os pre-sidiários (cumprindo, aí, penas de vária duração, até à ‘perpétua’)!...
A banalização da Tortura  é  outro fenómeno típico da  actual Sociedade  norte--americana, supostamente ainda ‘exemplar’ para muitos, no concernente, v.g., à tão bada-lada democracia em regime representativo... Como se o Imperialismo capitalista pu-desse comportar qualquer espécie de Democracia!... Ultimamente, a Opinião pública nor-te-americana e mundial ficou chocada com a série ‘24’, produzida por um republicano e transmitida pela estação Fox; esta série foi acusada de banalizar a Tortura, precisamente com o objectivo de legitimar as prisões de Guantánamo e Abu Ghraib, segundo a cartilha da Administração de G.W. Bush. (Cf. ‘Expresso’/Única, 19.5.07, pp.86-90). O Reitor da Academia Militar de West Point ficou preocupado com o efeito perverso dessa série nos cadetes. O cronista português, João Pereira Coutinho, emitiu, olimpicamente, a opinião: “Se isso acontece, a única coisa que se espera é que eles sejam punidos, como aliás são e como aliás foram, com os episódios de Abu Ghraib, porque é assim que os regimes de-mocráticos e liberais funcionam” (ibi, p.90). — Bela e produtiva democracia essa!... Ce-gos e guias de cegos!... Até quando as ilusões e as miragens?!...
Nas Sociedades modernas/contemporâneas, a recusa pertinaz e teimosa, por parte das classes dominantes, em adoptar as veras e autênticas soluções socialistas, pagam-se muito caro, já desde a chamada ‘Primavera europeia’ de 1848, ou, até mesmo, desde a Revolução francesa de 1789-1795. No Urgrund de todo este Edifício societário, protéti-co e em ruínas, sempre as estruturais/estruturantes Desigualdades  sociais. Entretanto, e surpreendentemente (para alguns...), nos inícios do terceiro milénio, dá-se conta de que a Humanidade actual dispõe de recursos e riquezas, à escala do Planeta, capazes de acudi-rem e salvarem os mais de seis biliões de seres humanos que povoam a Terra. Desde lo-go, no concernente aos bens essenciais: alimentação, vestuário, saúde e alojamento.
O que, todavia, se vê é que as Desigualdades sociais progridem, precisamente, numa época em que os Humanos dispõem, a nível global, de recursos para acudirem a to-da a gente, numa época em que a Humanidade, do ponto de vista objectivo e generalizá-vel, passou do estádio de carência, em que vivia, para o estádio de suficiência. O percurso do Desenvolvimento económico e social, nos últimos dois séculos, permitiu, tecnicamen-te, à Humanidade chegar a esta situação de possibilidades efectivas.
A F.A.O. (Organização para a Alimentação e Agricultura) e a O.N.U. conhecem esta alvorada, mas, por si sós, são incapazes de resolver os problemas, quando as Nações/ /Estados mais ricas e poderosas não demonstram vontade política para os devidos efeitos. Intelectuais críticos e generosos do coturno de Jean Ziegler conhecem, igualmente, toda a problemática e lamentam esta situação de impasse. Será que se está, tão somente, à espe-ra de que seja o desespero a despoletar a esperança? K. Marx disse um dia que o revo-lucionário é aquele que é capaz de ouvir a erva a crescer!... Ora, à força da inércia de tanto mecanicismo e processos extrínsecos, já não há revolucionários que saibam medi-tar e ouvir a erva a crescer!...

            A Didáctica concerne, primacialmente, ao mundo escolar: é o ensino que aí pre-domina; a Pedagogia é atinente, primacialmente, ao mundo da família e da educação. Ali, as operações e os processos são, primacialmente, exógenos; aqui, são, primacialmen-te, endógenos: é o Aprender (crescendo no Ser) que predomina. Contudo, se o professor (cuja função vital é diferente da do pai) é genuinamente professor/mestre, ele professa al-guma causa e por boas razões se deve supor que o faça.

            Como estava certo Fernando Pessoa, ao apostrofar no Segundo ‘Livro do Desas-sossego’ (cf. ‘JL’, 28.3-10.4.07, pp.12-13), em jeito de apotegma crítico inquestionável: ‘Todo o professor o é não só do que ensina, mas também da maneira de ensinar’! O significado

da sentença é óbvio: o conteúdo da ensinança e o modo de ensinar devem apresentar-se indissoluvelmente unidos e bem articulados. A Psicologia da Gestalt (das duas primeiras décadas do séc. XX) confirma isto mesmo. Conteúdo, dum lado, e do ou-tro, Forma/Atitude/Comportamento devem apresentar-se unidos e bem entrosados.
Nos novos inéditos, dados ao prelo pela acribía de Teresa Sobral Cunha, pode perscrutar-se o interesse de Pessoa por este tema muito preciso: “ Como toda a disciplina é ao mesmo tempo uma ciência e uma maneira de fazer ciência, toda a composição cientí-fica deve, ao mesmo tempo que ensina a matéria que expõe, não deixar de ensinar a parte, também, em ser-se mestre” (cf. ibidem). Nos inéditos ora descobertos, o Escritor genial, na secção dos Conselhos, chega a falar da impossibilidade da posse; e um fragmento os-tenta mesmo o título: Carta para não mandar (cf. ibidem).
Na história cultural e societária da Modernidade ocidental, a distinção e a separa-ção dos Poderes (na esteira de Montesquieu) foram, em geral, positivas e fecundas; mas já não foram igualmente positivas e fecundas a distinção e a separação das funções do Trabalho social e das diversas profissões sociais, multiplicadas ad infinitum. As divi-sões/distinções sociais, praticadas no universo do Trabalho e das Profissões, e multipli-cadas in infinitum, alimentaram, por um lado, os mecanicismos/atomismos mais absur-dos, e, por outro lado, reforçaram a ‘omnipotência’ indiscutida dos Poderes estabeleci-dos ou a estabelecer, conferindo às hierarquias societárias mais peso e substância, numa Sociedade moderna que, paradoxalmente, se queria a caminho de formas e regimes polí-ticos democráticos, em confronto com os hierárquico-monárquicos das Sociedades anti-gas e tradicionais. Assim se vê e percebe como, nos últimos três séculos da Modernidade ocidental, a partir da base do ‘free market’ e do sistema capitalista conjugados, se foi pre-parando todo um caldo de cultura que desaguou no contemporâneo neoliberalismo capita-lista global.
Objectualismo e Economicismo constituem-se, hoje, como uma só e a mesma religião, de alcance universal e planetário. É este o estádio final a que chegámos, no pro-cesso histórico da Modernidade ocidental pejado de contradições (nunca resolvidas) e de absurdos palmares!... Essa religião bifronte (do Objectualismo/Economicismo) está a alimentar o uniformismo (conformista) nos próprios domínios da Cultura e da História. Veja-se o triste caso ‘exemplar’ do manual único ‘Histoire/Geshichte’ para os dois paí-ses, França e Alemanha (cf., v.g., ‘A Página da Educação’, Abril de 2007, pp.22-23). Desta sorte, vão ter de ensinar aos professores muitas ‘mentiras’ que eles, por seu turno, vão ter de ‘ensinar’ aos seus alunos!... Está na forja a preparação da Didáctica e da Peda-gogia da ‘Grande Mentira’, destinada a ser consumida por todos como se de uma verdade indiscutível se tratasse!...
Que teve lugar, aí, por detrás dos bastidores? A construção ‘do outro’, ditada em padrão uniforme, e imposta pelos Poderes estabelecidos. A dogmática da ‘ortodoxia’ dos Poderes estabelecidos levou a melhor sobre a exigência elementar do ‘Pensamento li-vre’!... Tal qualmente na Igreja (dita) católica romana... Numa palavra, são os próprios Poderes estabelecidos (fascizados...), que principiam a actuar, descaradamente, no pró-prio hemisfério do Saber e da Cultura e da Educação. Escreve acertadamente João Me-nelau Paraskeva (ibi, p.22): “ Como tive oportunidade de deixar dito num outro espaço, e referindo-me ao caso de Portugal, o currículo comum é um erro e tem sido um dos gran-des responsáveis de uma escolarização segregadora, que multiplica, cada vez mais, o seu divórcio com a sociedade. Esta construção ‘do outro’ — e que se quer que a escolariza-ção legitime — surge aliás muito bem desnudada no próprio manual de Histoire/Ge-schichte — ‘ollhamos para os outros a partir do eixo Paris/Berlim e daquilo que são as nossas preocupações’, como argumentam os seus construtores”.
Neste contexto, o que, estruturalmente, se está levando a cabo (de forma expressa ou implícita) é a mais completa e descarada desprofissionalização dos professores e edu-cadores, para que, definitivamente padronizados e despersonalizados, eles possam funcio-nar ao serviço do Mercado e do Economicismo imperialistas. Nesse rumo, foi já elabora-do e promulgado o Decreto-Lei nº 43/2007, de 22 de Fevereiro, que aprova o regime jurí-dico da habilitação profissional para a docência na educação pré-escolar e nos ensinos básico e secundário.
Eis por que o Mestre Illich está cheio de razão ao protagonizar o processo da De-sescolarização da Sociedade, visto que toda a Sociedade se acha doentiamente escola-rizada pela religião do Objectualismo/Economicismo. Está certo Licínio C. Lima, quando afirma no seu livro ‘Educação ao longo da vida’ (Entre a mão direita e a mão es-querda de Miró), Cortez Editora, São Paulo, 2007 (na contracapa): “ Na mais perfeita adaptação à estrutura social, à economia e à competitividade, a educação ao longo da vida revela-se, no limite, um projecto político-educativo inviável, já definitivamente em ruptu-ra com as suas raízes humanistas e críticas. Vê, então, fortemente diluídas as suas di-mensões educativas, para ceder protagonismo a modalidades de formação de aprendiza-gem ao serviço exclusivo (...) do ajustamento económico, transformando-se em programa de ‘qualificação’, de ‘capacitação’ e de ‘gestão de recursos humanos’ (...)”.
Que Sociedade é essa que pretendem fazer emergir, ao fundo do túnel deste actual neoliberalismo capitalista global?! Aquela, precisamente, cujo oráculo fora ditado por Margaret Thatcher (cit. por M. Strathern, in Key Debates in Anthropology, Routledge, London, 1996, p.64): “ Isso a que chamam Sociedade não existe. O que há são homens e mulheres individuais, e famílias”. — Esta é a resposta mais certeira e, ao mesmo tem-po, satanicamente cruel, para os defensores, per fas et nefas, da Escola institucional e dos Sistemas educativos tradicionais!...
Marcada a fogo pelo Economicismo e por um Ensino objectualístico (perfeita-mente comparável a qualquer mercadoria...), a Escola institucionalizada, nas Sociedades modernas/capitalistas, tem-se mantido, substancialmente, como a grande fonte e a ‘pri-meira instituição responsável’ pela Reprodução das Desigualdades sociais estruturais/es-truturantes e pela Reprodução das correlativas classes sociais diferenciadas, por mais paradoxal e discutível que esta tese possa parecer.
Por que tem a Escola institucionalizada funcionado como uma espécie de ‘reli-gião de substituição’ (sobremaneira nos países secularizados e laicos...)? Ca. de 800 a. E.C., Homero anunciava que ‘todos os homens carecem de Deus’... mas não disse que eles carecessem de uma religião institucionalizada!... Ca. de 400 a.E.C., Platão proclama-va que ‘uma boa parte da humanidade não acredita na existência de deuses’ (cf. in ‘News-week’, 9.4.07, pp.42...); mas os que não acreditam nos deuses ou em Deus, espera-se que acreditem, pelo menos, em si mesmos. É, efectivamente, a partir das Identidades indivi-duais-pessoais, e só a partir daí, que se pode erguer um Mundo novo verdadeiramente humanizado.
Assim, no horizonte de Ivan Illich, quando se fala em Desescolarização da So-ciedade, é justamente a essas duas dimensões que nos referimos: a) a escola como insti-tuição societária (omniabrangente); b) a escola como ‘religião de substituição’ (Econo-micismo). Nos dois casos, o que é alimentado e fomentado, sistemicamente, é a hetero-nomia, não a Autonomia. Eis por que é absolutamente necessário e indispensável o dis-cernimento entre os dois modelos de Escola em presença: o ancorado na AUTONOMIA, e o estribado no cavalo do Poder estabelecido, ou seja, na Heteronomia.
Desta sorte, ao encararmos as operações e os processos illichianos de Desescola-rização da Sociedade, a geometria (variável!...) da Desescolarização impõe-nos, antes de tudo, a caracterização precisa do ponto de partida: a escolarização nas Sociedades mo-dernas/contemporâneas, suas funções e objectivos (explícitos e implícitos). A partir daí, dá-se logo conta de que, na época do neoliberalismo capitalista global, os dois tipos de Escola que aparecem, generalizadamente, no terreno são: o sistema público de ensino (cada vez mais minguado) e o sector privado, ambos redutíveis, como é sabido, ao Mo-delo da Heteronomia. Neste contexto, o chamado ‘sector cooperativo’, que poderá indi-ciar, na praxis societária, o Modelo illichiano, alternativo, da Autonomia, encontra-se re-duzido à condição de ilhotas isoladas (quando ainda sobrevive...). O resultado é simples: três tipos de escolas; dois Modelos apenas.
Ora — é bom sabê-lo — a Revolução Cultural illichiana não vai no sentido de desconstruir e exterminar toda a sorte de Escolas e de escolarização, toda a sorte de Sis-temas educativos. O essencial e decisivo no Projecto crítico de Ivan Illich já deve ter re-sultado claro e manifesto, ao longo destas páginas. Duas balizas podem circunscrever a sua arquitectura. A Escola e o Sistema educativo: A) têm de ser radicalmente Autóno-mos, dos pontos de vista, tanto dos profissionais, que aí laboram, como das próprias insti-tuições escolares (que não podem continuar na estrita dependência do Estado e dos su-cessivos Governos...). Se houver casos de re-fundação de instituições escolares, Illich não os recusaria. B) O seu balizamento, orientação e superintendência têm de ser efectua-dos por órgãos eleitos da Sociedade Civil, não por forças governamentais ou entidades do Estado. Esta é uma Questão indiscutível, cuja solução não pode ser outra, se na verda-de, se pretende promover e edificar uma Sociedade verdadeiramente democrática, constituída por Indivíduos-Pessoas/Cidadãos livres e responsáveis.
Nesta óptica, nunca será demais resgatar toda a obra crítica, psico-pedagógica, de Paulo Freire, polarizada precisamente nos princípios de uma Escola Cidadã. Neste hori-zonte, o Projecto crítico de P. Freire converge perfeitamente com a Utopia crítica de I. Illich. Sobre esta matéria, é de todo o interesse o livro de Licínio C. Lima, ‘Organização Escolar e Democracia Radical’ (Paulo Freire e a governação democrática da escola públi-ca), (Cortez Editora, São Paulo, 2002, 2ª ed.). No prefácio ao livro (pp.13-14), escreve Paulo Roberto Padilha (do Instituto Paulo Freire): “ É oportuno destacar que o Profes-sor Licínio vai resgatando, quase cronologicamente, algumas falas de Freire, confirman-do a sua transdisciplinaridade e a sua influência sobre o estudo e a prática das dimensões organizacionais e administrativas da educação. E lembra que o Andarilho da Utopia faz em Pedagogia do Oprimido (1970), ‘um dos mais violentos e eloquentes ataques à orga-nização burocrática e à racionalidade técnico-instrumental em educação’. (p.34)”.
Com efeito, a Revolução Cultural ou a Utopia crítica de Ivan Illich, ao estabe-lecer a sua ancoragem no binómio estrutural/estruturante da Produtividade//Conviviali-dade, com o acento tónico, necessário e indispensável, no segundo termo, podemos con-siderar que ela se alavanca em três pilares fundamentais, a saber: 1. Identidade indivi-dual-pessoal (cuja dialéctica não se compadece, simplesmente, com a gramática da dia-léctica objectualista tradicional); 2. Autonomia dos Indivíduos-Pessoas, enquanto Sujei-tos livres e responsáveis; 3. Primado absoluto do Aprender sobre o Ensinar.
Essa arquitectura triádica, ao nível psico-sócio-antropológico mais profundo, pro-duz efeitos e consequências, no plano geral da organização societária, desde logo no que tange a organização e os objectivos do Sistema educativo/escolar, no seu conjunto. Principais efeitos e consequências: A) a Escola não pode deixar de constituir-se com di-mensão colectiva, até porque, tendo como ponto de partida a ordem sócio-político-econó-mica do capitalismo, ela não pode ser eficaz no seu combate crítico senão em termos co-lectivos, preconizando sempre a associação de N + 1: se aí a regra é a exclusão e a hete-ronomia, ela tem de provar que, aqui, a regra é mesmo a da inclusão e da autonomia.
B) A Escola inclusiva tem de fazer a demonstração de que é capaz de recuperar e integrar os alunos das ‘Necessidades Educativas Especiais (NEE), satisfazendo, ao mes-mo tempo, as exigências psico-pedagógicas procedentes das suas ‘diferenças’ e as exi-gências do fundo comum das semelhanças com todo o seu Próximo. Numa palavra, esta Escola inclusiva não terá dificuldades em assumir as desigualdades oriundas da ‘natu-reza’, no universo da Cultura (humana), assumida em termos críticos. C) Desta sorte, no novo Sistema educativo/escolar, as Responsabilidades serão expressamente assumidas nos dois planos distintos: no individual e no colectivo. Não mais haverá razões para ati-rar à  cara das pessoas o estafado provérbio: ‘a culpa morreu solteira’!...
O Projecto crítico de Illich, Freire, e de alguns outros tem, de facto, tudo a ver com o sonho/projecto de Martin Luther King: um futuro ‘indiferente à cor da pele’ e — acrescente-se — ao sexo e às classes sociais e às castas ou supostas diferenciações ét-nicas. Apesar de significarem algum esforço de evolução in melius, estão muito longe desse horizonte iniciativas e atitudes tais como a ‘discriminação positiva’, praticada na Índia e na África do Sul, no concernente à equidade nos contratos de trabalho (cf. ‘ Le Monde Diplomatique’, Maio de 2007, pp.12-13); ou, até, a própria ‘affirmative action’ à americana (que, aliás, se encontra em franco declínio...) (cf. ibi, p.14).
Na Índia (onde o sistema de castas, sua estratificação e hierarquização, se acham enquistados), os chamados ‘lugares reservados’ na reforma agrária e no acesso à educa-ção não deram resultados significativos; e o próprio conceito de classe social foi conta-minado com a semântica da noção de casta. Na África do Sul, o ‘contrato de trabalho equitativo’ para os negros continua a manter a lógica classista/racial, apesar das com-pensações; são os reflexos iniludíveis da sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’a-bord. Não seria, positivamente, mais producente que o Sistema de inserção e integração tivesse em conta, explicitamente, todas as desigualdades (sexo, raça, região, ensino, et-nia), justamente para as poder ultrapassar, de modo consciente e crítico?!...
Nos E.U.A., tem de concluir-se, em abono da verdade, que a ‘affirmative action’ também não resultou. Com efeito, a taxa de desemprego dos Negros permanece duas ve-zes mais elevada que a dos Brancos. E não pode deixar de advertir-se que, “ em geral, a acção afirmativa ajuda os mais favorecidos no seio dos grupos mais desfavorecidos. Con-troversa, visto que fundada na raça, ela representa uma noção americana por excelência, porquanto o que ela procura é dar oportunidades a cada um, não instaurar a igualdade” (ibi, p.14). São medidas políticas que procedem das Autoridades estabelecidas, tão só em proveito de uma ‘gouvernance’ pacificada... Aparentemente.
Todas estas e outras medidas políticas tradicionais têm uma única fonte: a Cultu-ra do Poder-Condomínio. Por isso, o Ocidente (e designadamente a União Europeia) ainda não foi capaz de integrar, de pleno direito (em igualdade de condições com os cida-dãos nativos) os cidadãos imigrados, de tal sorte que os filhos dos imigrantes continuam a ser vítimas de tenazes desigualdades (cf. ibi, p.15). Nesta atmosfera — como constata o sociólogo François Vourc’h, do CNRS — os métodos da chamada discriminação positi-va acabam por ser pervertidos.
Escreve, em jeito de balanço, Dominique Vidal (ibidem): “ se o Estado aceita fi-nalmente ‘organizar tratamentos desiguais’, é porque estes custam ‘infinitamente menos caro do que reformas radicais a longo prazo’. A discriminação positiva, segundo o so-ciólogo, tem todo o ar de um ‘esconde-sexo’, porque ela dissimula o ‘esforço necessário para pôr fim à ordem social racista. Como se começou a fazer com a ordem social sexis-ta’. Não está em questão, é claro, a recusa das ‘políticas voluntaristas’ para ‘aliviar indi-víduos e grupos vítimas’, mas, obviamente, sob a condição de as ‘articular’ com a ‘busca de soluções duráveis’”. Em suma, sobre esta problemática, o que uma sociologia crítica traz hoje à ordem do dia é uma ‘refontização global da política da escola, do emprego e da cidade’.
Ao embarcar, sem rumo nem norte, no neoliberalismo capitalista planetário, a própria União Europeia está a fazer a prova de que ainda não entendeu nada (ou não quis entender...) desta gravíssima problemática psico-sócio-antropológica. Querem, assim, preparar o Futuro da Europa?! Escreve Bernard Cassen, com perspicácia (ibi, pp.22-23): “ Esta cegueira voluntária des-serve gravemente a construção europeia que, por quanto ela ‘interessa aos povos’ (Charles de Gaulle), deveria cessar de se comportar como ca-valo de Tróia da mundialização liberal. Não é celebrando os benefícios da ‘concorrência livre e não falseada’ e dando às liberdades de circulação dos capitais, dos bens e dos serviços o estatuto de ‘liberdades fundamentais’, quando até as suas consequências (dumping social, fiscal e ecológico, deslocalizações, generalização da precariedade) provocam uma rejeição crescente, — que se vai suscitar o euro-entusiasmo”.
Quando nos damos conta de que as iniciativas dos ‘lugares reservados’, da ‘af-firmative action’ e das diferentes modalidades da chamada ‘discriminação positiva’ não passam de soluções provisórias e de validade a termo, em suma, não passam de paliati-vos perante as soluções necessárias e indispensáveis, de que se carece, mais convicção, energia anímica e fundamento real encontramos para reivindicar e exigir, para a nossa contemporaneidade e rumo ao Futuro a haver, a Revolução Cultural ou Utopia crítica, o Projecto societário crítico de Ivan Illich.
Em termos evolucionários de psico-sócio-antropogénese, os Humanos, enquanto tais, não se definem nem caracterizam, tão só, pela sua dimensão linear do ‘Homo Sa-piens’; desde o Homem de Cro-Magnon (o chamado Homem Moderno), de há ca. de 50.000 anos, os Humanos definem-se e caracterizam-se pelas suas duas dimensões cruza-das do ‘Homo Sapiens/Sapiens’. Assim, remar contra o Sapiens linear e exigir o pleno cumprimento do Sapiens/Sapiens da Antropogénese biológico-cultural, constitui um im-perativo categórico, tanto no plano científico como no plano ético-moral. Só neste hori-zonte se pode fazer avançar a luta contra o ‘Homem dividido/esquizofrenado’ (entre Sa-ber e Poder, entre Autoridade e Poder), esse tal que se converteu, institucionalmente, no Homem Duplicado de José Saramago.
É nesta galáxia crítica que nós não podemos deixar de evocar aqui, como prova-velmente o mais lídimo representante do Movimento da Antropogénese ainda em curso, em termos crítico-culturais, o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty (1908-1961). Se há filósofos modernos e contemporâneos, que fizeram jus ao melhor e mais exigente Hi-lemorfismo aristotélico, e à melhor e mais exigente Fenomenologia, enquanto método e mundividência para superar as tradicionais antinomias metafísicas entre o mundo dos Su-jeitos e o mundo dos Objectos, esse filósofo foi justamente Merleau-Ponty e sua obra. Dele disse Paul Ricoeur, com justeza, que foi ‘o maior dos fenomenologistas franceses’.
Numa primeira abordagem, convirá afirmar que a sua Arquitectura filosófica ar-ranca das bases da Psicologia e das atmosferas psico-pedagógicas existencialistas, que se faziam sentir no seu tempo. É dos primeiros filósofos europeus a lobrigar a psique huma-na em processo de génese e dinâmica cultural. O seu edifício filosófico não tem dificul-dade em afirmar e defender o primado absoluto das existências individuais-pessoais sobre as essências humanas. Os seus livros principais ainda hoje são pertinentes e actuais, sob vários pontos de vista: A Estrutura do Comportamento; Fenomenologia da Percepção; Humanismo e Terror (ainda mais actual, depois do 11 de Setembro de 2001); As Aven-turas da Dialéctica; O Visível e o Invisível (este, igualmente, de uma actualidade espanto-sa).

            O seu Edifício filosófico pode distribuir-se por quatro áreas mais ou menos distin-tas: a) a que ficou centrada na obra ‘La Structure du Comportement’ (1942) e que foi a sua tese de doutoramento na Sorbonne. Aí mesmo, ele já se insurge, premonitoriamente,

contra os dois desvios opostos mais importantes na sua época: as concepções e correntes fisiologistas e as concepções e correntes psicologistas do comportamento humano. A analítica que ele desenvolve nesta obra vai desembocar numa noção categorial decisiva: a ‘experiência perceptiva’.
b) A segunda área acha-se polarizada na obra ‘Phénoménologie de la Perception’ (1945). O Autor rema, aí, contra o que ele designa por pensamento ‘objectivante’ (o que nós hoje chamaríamos de ‘objectual/objectualista’) segundo o esquema lógico tradicional das ‘partes extra partes’ e tudo, básica e supremamente, regido pelo princípio da causali-dade. Desde logo, o pensamento filosófico tradicional é absolutamente incapaz de perce-ber isto, ou seja: a realidade da percepção não é puramente ‘coisa’, nem é puramente ‘ideia’. Na base do novo conceito crítico de percepção, é perfeitamente possível — argu-menta M.-P. — ultrapassar as duas correntes filosóficas tradicionais antitéticas: o empi-rismo e o racionalismo. A ‘causalidade circular’ (Sinn-gebung centrípeta e centrífuga) é a noção que ele identifica neste novo patamar.
A ‘redução fenomenológica’ (que suspendeu as categorias lógicas do pensamento tradicional) traz consigo um novo modo de encarar o Sujeito do conhecimento bem co-mo um novo conceito de mundo. Noção-princeps da filosofia de Merleau-Ponty é, sem dúvida, a do ‘corpo próprio’, noção estrutural-estruturante, que junta e entrosa espírito e matéria, paixão e acção, finito e infinito, transcendente e imanente, do e para o mundo. O ‘corpo próprio’ acaba por ser uma ‘subjectividade incarnada’, à qual se oferece a percepção. É o ‘paradoxo da imanência-transcendência’, que transparece, claramente, em toda a sua obra filosófica.
c) A terceira área pode ver-se referenciada às suas obras de filosofia política, con-cebidas e estruturadas ideologicamente na esteira do ‘jovem Marx’. São de assinalar, aí, ‘Humanisme et Terreur’ (1947) e ‘Les Aventures de la Dialectique’ (1955). d) A quarta e última área acha-se ancorada na obra póstuma, que dá pelo título ‘Le Visible et l’Invisi-ble’, e que foi editada em 1964, depois da sua morte, por Claude Lefort. O farol que a ori-enta é a demanda, para além da Percepção multiforme, da ‘Unidade Primordial’. É que há, na verdade, uma realidade que precede e que excede a Percepção, ou seja: o ser que abriga o ‘em si’ e o ‘para nós’ da dialéctica perceptiva.
Por que evocámos e salientámos, aqui, o perfil e a obra de Merleau-Ponty? Por-que ele constitui um dos raros filósofos ocidentais, que nós, sem hesitações, podemos er-guer  em bandeira  do filão mais genuíno da Antropogénese, no seu patamar psico-sócio--cultural. Ele traduz e exprime toda a semântica que vai no conceito compósito de Sa-piens/Sapiens. Ao invés, por exemplo, da sofística e do cinismo do filósofo inglês John Gray (in ‘Sobre Humanos e Outros Animais’, ASA Editores, S.A., Porto, 2007), que che-ga ao desplante de equacionar, pura e simplesmente, o Sapiens linear com o Rapiens (rap-tor, conquistador, dominador!...). Do Sapiens ao quadrado não se fala... que é para se po-der continuar a legitimar e a defender o Dualismo metafísico-ontológico e a sempiterna Cultura do Poder-Dominação d’abord.
Ora, a gramática do Sapiens-Sapiens faz justamente profissão de fé em assegurar e defender a união indissolúvel de Natureza e Cultura. Sabendo-se, entretanto, que a união não confunde, diferencia (como estabelecia justamente Pierre Teilhard de Char-din). Por isso, igualmente, entre a Natureza e a Cultura não deve haver confusões, mas tão-só, dentro da união, uma distinção essencial. Como é (ou deveria ser...) sabido, esta união indissolúvel de Natureza e Cultura tem sido, sistematicamente, contrariada e blo-queada, desde há dois milénios e meio, na Civilização/Cultura do Ocidente, pelas agên-cias ideológicas da teologia e da política e da própria Filosofia, que não têm sabido en-sinar outras Lições senão as do Dualismo metafísico-ontológico e da Cultura do Poder--Condomínio.

*

                                                                       • Sobre a problemática ideológica relaciona-
da  com  a  Crise estrutural dos  Sistemas
                                                                         Educativos actuais, na Cultura/Civilização
do  Ocidente (e  de ricochete, a nível global
...), pode  ver-se, com proveito  e actualida-
de, o livro de Massimo Borghesi: ‘El Suje-
to  Ausente’/Educación y  escuela  entre el
   nihilismo  y  la  memoria,  Ediciones   En-
cuentro, Madrid, 2005.
Principais factores causais a destacar
nesta Crise: — A separação/divórcio cres-
cente  entre Escola e Mundo do Trabalho
  e da Produção (por mais paradoxais e con-
  trários  que os Factos  se apresentem...). —
A dissolução  de toda uma Tradição cultu-
ral  de marca humanista (apesar de tudo...),
  cujo processo histórico está  a culminar nas
actuais   Sociedades   tecno-burocráticas
pós-humanísticas’...  através  dos modelos
  estruturalistas  e  dos métodos genealógi-
  cos  (do tipo do  adoptado por M. Foucault,
  na  sua obra ‘As Palavras e as Coisas’/Uma
  Arqueologia  das ciências humanas (Portu-
gália  Editora,  Lisboa, 1968),  bem  como
dos  últimos historicismos tecnológico-tec-
nocráticos, que  acabaram por exterminar o
que restava do moderno Sujeito cartesiano
metafísico!... Mas ainda Sujeito...
Com efeito, o método genealógico e
estruturalismo  nos domínios  das  ciên-
cias  sociais e/ou humanas (entrosados, tais
como  eles  se  mostraram  ao longo do séc.
XX), constituem  a  saga diabólica mais en-
carniçada  contra  a  nossa  teoria/doutrina
das  duas Epistémes  distintas  e separadas:
a  das  ciências físico-naturais e a das ciên-
  cias sociais e/ou humanas.
Nesse  horizonte  (que  se  quer  pós-
-moderno...), não há mais Sujeitos... há, a-
penas, agentes... e  Rebanho, quanto  baste,
conduzido  por  pastores, já  não ‘messiâni-
cos’, mas,  tão-só, tecnocráticos.  Eclipsou-
-se  a  relação  pedagógica pais/filhos, do-
  centes/estudantes; sobrevieram  os conteú-
dos  enlatados, um suposto saber objectivo,
cada vez mais formal e formatado, tanto na
história, como na literatura. Eclipse da pró-
pria dimensão ‘narrativa’ e dos ‘aconteci-
  mentos’  enquanto tais. Já  não  há  ‘clássi-
  cos’ nem ‘cânones’, capazes de alimentar e
  fomentar a TRADIÇÃO!...
Como  já não há  um passado ‘actua-
  lizado’, constituído em modelo crítico,tam-
bem já  não há possibilidade  de  criticar  o
  presente, em nome  da Utopia  crítica: é  o
  fastio e o enfado, o aborrecimento e a  fuga
para  o  alienado ‘mundo da vida’, nas  for-
mas  mediáticas  de  uma  Sociedade  ‘exte-
rior’  à Escola, que já não sabe nem é capaz
de  se  auto-transformar,  criticamente,  em
nome de um Ideal crítico!... O círculo,  en-
tre Sociedade e Escola, fechou-se  como na
fita de Moebius... 
Entretanto, a descoberta iniludível do
Eu  e sua condição de ‘Alavanca de Arqui-
  medes’ acham-se na génese e nas estruturas
da Tradição e da Cultura ocidentais, des-
de  os  Hebreus  e  desde  os Gregos (cf. M.
Borghesi,  op.cit.,  pp.56 e ss.). Por  que  se
espera?!... Continuar  a  alimentar a ‘Razão
Cínica’ (Peter Sloterdijk) ?...

• Sobre questões de estratégia política e ava-
liações  mal feitas, antes  e depois, a propó-
sito das últimas  eleições  presidenciais em
França, escreve acertadamente Ignacio Ra-
monet  (in  ‘Le Monde Diplomatique’,  Ju-
nho de 2007, p.1):
“ Atirar para cima  das Grandes Em-
presas  Mediáticas — que já  constituem o
aparelho  ideológico  principal do Sistema

  1. a responsabilidade da derrota releva do

  infantilismo mais elementar ou da impotên-
cia. Porquanto, a nova hierarquia dos pode-
res, estabelecida pela mundialização neoli-
beral, coloca evidentemente no topo, como
poder primeiro, o poder económico e finan-
ceiro,  seguido  do poder mediático, merce-
nário  do  precedente. Este duo  dominante
comanda  o  poder político. O qual, nas de-
mocracias  de  opinião, na era da globaliza-
ção, não  se conquista a não ser com o con-
sentimento  cúmplice  dos dois primeiros”.
Obviamente, com a  Escola e o Sistema  e-
ducativo enfeudados ao Establishment!...
“ Desta evidência, a ‘esquerda da es-
querda’ não foi capaz de se aperceber, essa
esquerda  que,  apesar  da  riqueza  das suas
propostas,  ofereceu  o  mais  das  vezes um
espectáculo  consternador  de desunião e de
egotismo. Para o conjunto da esquerda, esta
derrota é decisiva. Marca o fim de uma era.
E  o  constrangimento  a uma indispensável
refundação. Para  construir, finalmente, co-
mo se diz nestes nossos tempos na América
Latina, um ‘socialismo do séc. XXI’”.
   
• Aos carreiristas e aos defensores do Estab-
                                                                         lishment, nós dizemos: Só os que prezam a
dignidade pessoal e são iguais a si próprios,
os que, em suma, não têm ambições de car-
reira, — só esses, efectivamente, — porque
pertencem  a outra Cultura — podem ter a
ousadia  e  a  coragem de criticar o que está
realmente mal nas Escolas, nos Sistemas e-
ducativos  e  nas  Sociedades  em que vive-
mos!...
Assim, quando  os Governos  estabe-
lecem leis  no sentido de  hierarquizar  a
classe sócio-profissional dos professores e
educadores e incentivam o carreirismo, in-
clusive  com prémios públicos, deve  saber-
-se  que tais  governações não estão, de fac-
to, a  servir  o Povo  e a promover a Educa-
ção  e  o  bom funcionamento  das Escolas;
estão, outrossim,  a  fazer campanha políti-
co-partidária  em benefício de  si  próprias,
estão a produzir servos  e serviçais submis-
sos ao Estado e aos sucessivos Governos!...
Notícia  de última hora: um prof.  da
Escola  Secundária  Carolina  Michaëlis do
Porto foi  suspenso das funções, que estava
a desempenhar  na  DREN,  em regime  de
destacamento, e  recambiado  à  sua Escola
de  origem, pela  directora  Margarida Mo-
reira, por haver  feito uma alusão jocosa  à
tão badalada Licenciatura do Primeiro-Mi-
nistro Sócrates. Interrogado sobre o proble-
ma, o Secretário  de  Estado  da Educação,
em  nome  das   instâncias   superiores   do
M.E., lavou daí as  suas mãos, e  fez  saber
que a responsabilidade do  sucedido  cabia
por  inteiro  dentro  das  competências   da
DREN. Seja... O  que resta  é  um dado su-
per-óbvio: a  hidra  fascista  lavra,  sempre
que  nós  abdicamos de pensar  e toleramos
que  nos  limitem  ou controlem  a  sagrada
liberdade  de  expressão. De  forma activa
ou passiva!... Ela lavra.
Tinha   razão  Agostinho  da   Silva,
quando  apostrofava: É  a  submissão  dos
                                                                         súbditos que  alimenta  a tirania dos Go-
                                                                         vernos!...

• RTP-2  (21.5.07): Programa  da  National
                                                                         Geographic  sobre as Novas Tecnologias e
Super-vigilância exercida sobre os indi-
víduos: para além da já generalizada vídeo-
-vigilância  nos espaços públicos, o que po-
dem (montados  em helicópteros  sofistica-
dos)  silenciosos  aparelhos de infra-verme-
lhos, nos processos de identificação  e loca-
lização de  indivíduos, fora  e dentro de sua

  casa, isolados ou no meio da multidão!...
Os Governos e seus funcionários ser-
viçais  argumentam que, desse modo, estão
a  proteger e  a defender os cidadãos. Argu-
mentam que estão  a prestar  assistência pú-
blica  e  a proteger os cidadãos, bem como,
tão somente, a aplicar a lei!...
Ora  isto  constitui  uma ingenuidade,
da  parte dos  expectadores, e  uma mentira
redonda, da  parte  dos  agentes  da gouver-
                                                                         nance. Além disso, deve questionar-se: me-
recem  os Governos  a  confiança dos  cida-
dãos a 100%, por forma a que estes possam
permitir  a  invasão  e  a devassa (gratuitas)
da sua privacidade?!... As  novas balizas  e
orientações dos Poderes  estabelecidos es-
tão a  construir, mais depressa do que  era
suposto  ou imaginado, um mundo  verda-
deiramente orwelliano!...
É  que as respostas dos cidadãos, di-
ante de toda esta parafernália, continuam a
ser ambíguas e esquizofrenadas: ao depara-
rem com a  evidência mostrada da  devassa
da sua privacidade, eles consideram que os
Poderes públicos  cumprem o seu dever no
concernente à protecção dos  cidadãos... só
consideram  essa vídeo-vigilância  invasiva
e  má, quando  se vêem  concretamente  en-
volvidos!...
Tais  respostas (tem de convir-se)  já
são lamentáveis em si mesmas. A hidra fas-
cista está avançando a passos de ganso. Co-
mo  se vê, providos  de  tal mentalidade, os
cidadãos  já  se  acham preparados  para  a
plena  intrusão  e dominação, por parte dos
Poderes  estabelecidos. A contemporização
dos  cidadãos  com tais iniciativas  dos  Po-
deres públicos é deletéria... Os  cidadãos só
reagem   negativamente  quando  foi  posta
em causa a  sua privacidade; não  a dos ou-
tros, a privacidade objectivamente comum.
O Fascismo (que foi sempre, na Cul-
tura  do  Ocidente, a  marca inexorável dos
Poderes  Estabelecidos,  desde  que  Platão
traiu  Sócrates  e  Paulo  atraiçoou Jesus...)
está, de facto, a metamorfosear-se, contem-
poraneamente: —  Através,  precisamente,
dos  novos  meios  tecnológicos  actuando
                                                                         substantivamente (idolatricamente). O que,
em  consequência, está  a  ocorrer é  a mais
cruel  e  completa  dissolução da Interiori-
                                                                         dade  dos indivíduos  pessoas!... Censuras,
inquisições, despedimentos, delações... —
O Poder público (ou privado...) pode fazer
e  ordenar,  activamente, tudo;  e,  passiva-
mente, ele pode exigir tudo aos cidadãos!...

  • Mas ainda haverá cidadãos, em tal con-

texto?!...

                                               Guimarães, 30 de Maio de 2007; e 20 de Junho de 2010.
Manuel Reis.
(Presidente do Centro de Estudos do Humanismo Crítico).

 

 

 

 

 

BIBLIOGRAFIA REFERENCIADA

 

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— TORRES, Carlos Alberto: ‘Paulo Freire: Uma Biobibliografia’, Vozes, São Paulo,
1996.

 

 

ÍNDICE

I: Alguns dados biográficos e sócio-culturais ..................................................... p.  2

II: Illich em Debate na Rev. ‘Esprit’ (Março de 1972):
            Respigando alguns temas e teses essenciais ........................................... p.  9

III: Respigando mais alguns temas e teses da Obra de I. Illich,
            enquadrando-os no seu e nosso tempo: sob o Signo de uma
            decidida Ruptura com o Passado e o Establishment ............................   p. 34

IV: A Pertinência e a Actualidade da Obra de Illich
            para os Tempos (Pós-modernos) de Hoje ............................................    p. 57

Exergos finais .....................................................................................................   p. 73

Bibliografia Referenciada .................................................................................   p. 81