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Cotia-Ino
Breve Historiografia Nipo-Brasileira & da CAC

 

Apontamentos & Poemas
João Barcellos

 

Índice

 

- Introdução
- Breve Tábua Cronológica Nipo-Brasileira & Nipo-Cotiana

Anexos

- Cotia Em 7 Momentos Históricos
- Washi / O Papel Artesanal Com Fibras De Kozo
- Profª Hissa Okawara
- Escola Holística & Ecologia
- Artistas Nipo-Paulistas Em Cotia
- Empresários Nipo-Cotianos
- Poesia No Espaço Nipo-Cotiano
- Globalização Quinhentista Em Fernão Mendes Pinto
- Do Oriente Ao Brasil Com Os Portugueses

 

 

Introdução

 

   Com o grande ciclo tropeiro-mineração (Sécs. XVI a XIX) esgotado economicamente, os ciclos cafeeiro e industrial passam a dominar a Sociedade brasileira; mas um grande acontecimento, ainda no Séc. XIX, no ano 1888, determina uma alteração estrutural e mental na antiga colônia portuguesa: a Abolição da Escravatura. Com isso, o ciclo cafeeiro-industrial precisa de mão-de-obra sob contrato com direitos assegurados, e, principalmente, de pessoas qualificadas tecnicamente, tanto na área rural quanto na industrial. O novo evento sócio-profissional proporciona a contratação de pessoas de outros países: do Japão, no início do Séc. XX [ano 1906], a Companhia Imperial de Emigração nipônica envia ao Brasil os técnicos Ryu Myzuno e Teijiro Suzuki para verificarem as áreas rurais de fixação dos novos colonos em São Paulo. E logo, em 1907, o Estado paulista assina acordo para receber 3.000 emigrantes do Japão até 1910. Uma das regiões incluídas no roteiro daqueles técnicos é Cotia, a oeste da Capital e entrada do velho sertão do Piabiyu [Caminho do Peru], de tradição agro-piscatória do Povo Guarani.

 

 

 

 

 

Breve Tábua Cronológica
Nipo-Brasileira & Ino-Cotiana

 

1895 [5 de Novembro]     É assinado, em Paris, o Tratado de Amizade, de Comércio e de Navegação, pelos representantes plenipotenciários do Japão, Soné Arasuke, e do Brasil, Gabriel de Toledo Piza e Almeida. Com base no Tratado, os dois países instalam as respectivas legações. O primeiro ministro-chefe da legação do Japão, no Brasil, é Chinda, e do Brasil, Henrique Lisboa.

1908   [18 de Junho]     O navio Kasato-maru aporta em Santos, litoral paulista, e 781 japoneses iniciam a grande odisséia agro-empresarial que vai mudar o Brasil para sempre e parte da América do Sul. Os trabalhadores ficam dispersos pelo Brasil, Argentina e Peru. Tanto assim que apenas 191 desses trabalhadores ficam nos empregos que lhes foram destinados.

1910    Chega a Santos mais uma leva de trabalhadores japoneses que se dispersam pelo Brasil.

   Japoneses, de 1908 e de 1910, reúnem-se na região de Cotia e iniciam a plantação de horti-granjeiros, mas com especial atenção para a batata.
Desde os tempos das Entradas e Bandeiras, a região de Cotia é considerada “de terra fraca para a lavoura”, mas os japoneses descobrem que a terra foi mal tratada nos tempos coloniais e fazem do velho Piabiyu (que o Império português havia fechado à circulação de bens e de pessoas, no Séc. XVI) uma mina de ouro verde...

 

          Cinturão Verde & Cooperativismo

Com as atividades rurais dos japoneses, forma-se entre Cotia [e as suas regiões de Caucaia do Alto e Vargem Grande] e Ibiuna o primeiro Cinturão Verde da Grande São Paulo, popularizado como Cinturão Caipira, tendo a CAC como pólo centralizador.

 

1927 [20 de Dezembro]     Decididos a tomarem conta dos próprios negócios, os agricultores japoneses do Bairro Moinho Velho, em Cotia, organizam-se e fundam a Cooperativa Agrícola Cotia [CAC].

   A maioria dos imigrantes é de Ino, região do distrito de Kochi, por isso existe uma certa facilidade na discussão da problemática que é a sobrevivência em terra alheia, embora acolhedora, e na abertura de novos caminhos.
Fundada a CAC, os cooperados iniciam também uma expansão territorial que aproveita toda a tradição agro-piscatória guarani e apóiam a rede de pequenos sítios de lavoura de sobrevivência, o que leva o negócio de Cotia até o Paraná, sempre na linha do Piabiyu e do Aquarífero Guarani, que já havia sido roteiro bandeirístico.
Em poucos anos, a CAC transforma-se na maior empresa agrícola do Brasil e um exemplo de cooperativismo para o mundo.
O sucesso é tal que leva à fundação da Casa Bancária Bratac, depois Banco América do Sul [1940], e o espírito empreendedor nipônico faz ´escola´ entre os brasileiros, que logo aprendem ser a agricultura uma empresa de trabalho coletivo com lucros coletivos. Mas, os cooperados são agricultores simples que não entendem o jogo capitalista e especulativo em que os executivos mergulham a CAC, alguns anos depois...

 

  
          Uma Escola Japonesa No Moinho Velho

Os filhos dos imigrantes começam a aparecer e criam a necessidade de uma escolaridade que atenda a formação familiar e agrícola: a CAC estabelece e funda a primeira Escola Agrícola brasileira em anexo no território da sede, no Moinho Velho.
A escola do Moinho Velho forma centenas de jovens, mais tarde professores, cientistas, executivos, agricultores, etc., tendo a Língua e a Cultura nipônicas como eixo do aprendizado, a par das matérias do ensino brasileiro.

 

1952     Por causa das alianças políticas e militares da 2ª Guerra Mundial [entre os Anos 30 e 40], em que o Brasil ficou de um lado e o Japão do outro, as relações diplomáticas estavam cortadas; mas, poucos anos após o término desse evento bélico, as relações são restabelecidas e os japoneses, junto com os filhos já nascidos no Brasil [os ´nisseis´], iniciam uma nova etapa das suas vidas, inclusive, reabrem as suas escolas e a sua imprensa.
Por causa da destruição e da guerra, muitas famílias nipo-brasileiras recebem jovens do Japão que reiniciam a vida nas fazendas e empresas espalhadas pelo Brasil.

1955     O primeiro grupo de jovens que chega ao Brasil no pós-GG integra um grupo denominado Cotia Seinen, porque é através da CAC, sediada no Bairro Moinho Velho, em Cotia, que essa ajuda é executada. Eles são recebidos na sede da cooperativa e depois levados para outros centros da ´colônia´.

1960     Com a retomada social e industrial do Japão, muitos filhos de emigrantes nascidos no Brasil são enviados para servirem na economia do ´sol nascente´ [os ´nikkeis´], o que também ajuda na economia do Brasil, pela envio de divisas. O surge o Movimento Dekassegui, ou seja, os filhos e netos de japoneses que precisam ´trabalhar fora de casa´; um movimento que gera outros empregos e outras necessidades.
Com o sucesso da Colônia Nipo-Brasileira, a partir de Cotia e da CAC, ainda nos Anos 50 e 60 muitos descendentes ingressam nas universidades e nas escolas técnicas, no Brasil e nos EUA, e no fim dos Anos 70 existe uma geração preparada, técnica, cultural e politicamente para assumir cargos executivos.

 

 

             Comida Japonesa é divulgada no Brasil

             a partir de São Paulo

 

              A rápida integração nipônica na Sociedade brasileira não significa que a Cultura e a Dieta dos ´filhos do Sol Nascente´ esquecem a sua Tradição culinária: nos Anos 60, e principalmente através de festas das ´colônias´, os japoneses e os seus descendentes promovem a divulgação da sua culinária peculiar e verificam uma grande adesão popular que faz abrir vários restaurantes especializados em Sushi [arroz avinagrado e peixe], Sashimi [fatias de peixe cru molhadas em Shoyu com Wasabi] e Tempurã [leve e crocante: verduras, legumes e frutos do mar envoltos em massa frita], entre outras iguarias orientais.

 

 

           Cultura lítero-pictórica do Japão
           Ganha a praça social brasileira

 

           Entre outras manifestações artístico-culturais, o desenvolvimento do Haicai* [de ´Haiku´] e do Mangá ** [de ´man´/involuntário + ´gá´/imagem] levam a Cultura nipônica para as ruas e para as escolas, mas são principalmente os poetas e os artistas plásticos, brasileiros e descendentes de japoneses, que assumem esta divulgação.
Outra modalidade é o Origami [de Orikami: Ori/cortar + Kami/papel], que enche os olhos dos ocidentais brasileiros e os leva a querer aprender essa arte; o Origami, tão logo foi apresentado ao Ocidente passou a ter espaço entre os trabalhos artísticos escolares, além de dividir a mesa com Ikebana [de Tate/arranjo +Hana/flor = Tatehana], a grande arte de encantar os ambientes, muito divulgada no Séc. XVI através da Chadô [Cerimônia do Chá].

 

* Poema de 17 sílabas, que nas traduções e nos originais ocidentais, contém em 3 versos de 5, 7 e 5 sílabas para formar um terceto [o terceto é ocidental, e em japonês estes versos são escritos em uma única linha vertical ou horizontal, e sem rima].

** Mangá é o nome dado a uma história de quadrinhos, no Japão. O mangá difere dos quadrinhos ocidentais por utilizar uma representação gráfica peculiar. O alfabeto japonês é composto de ideogramas que representam sons e idéias. No mangá, o texto e as onomatopéias fazem parte da arte. A ordem de leitura do mangá difere da ocidental: começa pelo que seria o fim de uma publicação ocidental. O texto é disposto da direita para a esquerda.

 

 

 

1966     Tratado Cotia-Ino

             Por causa da forte presença de japoneses nascidos em Ino, região montanhosa de Kochi, de tradição rural e de celulose, e depois de um período de intercâmbio simplesmente familiar de ambos os lados do mundo, foi pensada a geminação cultural entre a Cotia brasileira e a Ino japonesa. O tratado de amizade é assinado em 5 de Maio. Numa primeira fase, os interesses voltam-se para a construção de uma Praça Japonesa que simboliza o ato e perpetua o interesse nipônico em investir no Brasil.

1973  O tratado perspectiva o estabelecimento de um complexo industrial para beneficiamento de celulose, i.e., plantação da árvores Kozo, de cujas fibras é confeccionado o Washi – famoso papel artesanal.
Como selo do Tratado, a municipalidade de Cotia recebe um Onaga-dori [galo empalhado], gesto-símbolo da fraternidade nipônica e que tem uma representatividade diplomática que supera quaisquer palavras.

 

 

Onaga-dori

“[...] Onaga-dori, o famoso galo empalhado, que celebra
a boa vontade e a fraternidade entre japoneses e outros povos,
é um símbolo social e cultural que está além da diplomacia:
é um objeto que se reverencia
enquanto imagem da paz que gera progresso.
Ao receberem tal presente, a Municipalidade e o Povo cotianos
não podem esquecer que ele significa, também,
um intercâmbio permanente com o Povo residente na
Municipalidade de Ino. Também e por esse motivo,
o Onaga-dori deve estar visível para todos, sempre!”

João Barcellos – in “Nós e o Onaga-dori”,
palestra para estudantes de Cotia. Gabinete do Prefeito, 1994.

 

 

   Os prefeitos cotianos que executam as políticas locais na época são Kenji Kira e Mário Isaac Pires, que receberam uma Missão Industrial de alto nível chefiada por Toshimi Iwai. Políticos de Ino propõem também a construção de um Centro Cultural da Colônia Japonesa no Brasil, na própria área onde tem sede a CAC. A certeza de um bom investimento de Ino-Kochi, em Cotia, é gorado pela falta de perspectiva empreendedora dos políticos e empresários locais, e, também, pelo início do desmonte organizacional e financeiro que dá um fim à Cooperativa Agrícola Cotia.

1973-1993     Esquecida e no meio de processos judiciais, a Praça de Amizade Ino-Cotia é reaberta pelo prefeito Ailton Ferreira [1994] e passa a sediar eventos da Comunidade Nipônica e das comunidades locais.

1985   A professora Kiyomi Kato idealiza e funda, em São Paulo, o Colégio Kosmos para o ensino da Língua e da Cultura japonesas no Brasil.

1992   O escritor João Barcellos alguns poemas sob o título Saga Nipônica Em Cotia para “contribuir para o esclarecimento da importância desse 7º Momento Histórico que passa habitualmente ao largo da história recente de Cotia... o que nem é estranho, uma vez que os outros 6 momentos raramente são observados”.

1994

          O já famoso Colégio Kosmos sai de São Paulo e estabelece sede em Cotia, a oeste da capital para continuar a sua missão pedagógico-cultural e histórica na região que é um marco para a imigração nipônica.

          Cristina Oka orienta um grupo de ecologistas, em Caucaia do Alto, sede de importantes eventos mercantis da CAC, e é fundada a Sociedade Ecológica Verde Amarelo [selva] tendo a Reserva Florestal do Morro Grande como eixo das suas atividades.

 

          [16 e 22 de Junho]     Cotia recebe uma Comissão da Cidade de Ino. Hisayoshi Sugimoto [vice-prefeito], Shugo Ageta [chefe do Departamento de Planejamento] e Koichi Noda [vereador], são recepcionados na Praça da Amizade Ino-Cotia, sob auspícios do Colégio Kosmos e da professora Kiyomi Kato, cuja família é oriunda de Ino. O jornalista e escritor João Barcellos explica a História de Cotia e da CAC aos ilustres visitantes.

 

          Ascensão e Queda da CAC

“No ano 1994 é liquidada a Cooperativa Agrícola Cotia depois de ter sido um exemplo de cooperativismo no Brasil, e do Brasil para o Mundo.
Desde a sua fundação, a CAC é uma empresa gigante por comportar interesses vários e os de muitas propriedades familiares, das quais algumas continuam assim mesmo, e outras tornam-se pólos de interesse do capital especulativo; o cooperativismo, no capitalismo, é parte do capitalismo e sujeito às regras de mercado, e o que leva a CAC à ruína interna é a não compreensão dessas regras, pois os cooperados são muitos e o jogo do investimento líquido-especulativo muito volátil. A grande cooperativa criou em si mesma o monstro para a devorar ao permitir-se atuar como uma transnacional num país cuja mentalidade empresarial, a partir do Pedro 2º, é puro colonialismo retrógrado”  – João Barcellos, in “O Fim Da CAC Não É O Fim Do Cooperativismo”. Ensaio. Cotia/SP-Br., 1994.

     Após a liquidação da CAC, antigos cooperados de Caucaia do Alto e de Vargem Grande Paulista formam associações para defesa dos seus interesses no Cinturão Verde.

 

1999     Professores e estudantes do Colégio Kosmos fazem pesquisas e publicam o livro Praça de Amizade, Praça Japonesa [A9 Serviços Editoriais].

2006 [11 de Setembro]     O prefeito Joaquim Horácio Pedroso Neto [Quinzinho] institui a “...Semana da Cultura Japonesa, a ser comemorada, anualmente, na semana que incidir o dia 18 de junho”.

2006 a 2008
Em todo o Brasil, os japoneses e os seus descendentes preparam-se para os festejos que assinalam o centenário da chegada, em 18 de Junho de 1908, do Kasato-maru no porto de Santos.

   Conhecedores da importância da Colônia Japonesa no desenvolvimento local, brasileiros e outras colônias juntam-se aos japoneses num abraço solidário.
Na região de Cotia, o grupo carnavalesco Blocica, de Caucaia do Alto, prepara um samba-enredo para apresentar no desfile local do Carnaval de 2008.

 

Fontes

Acervo João Barcellos / TerraNova Comunic
CotiaNet [www.cotianet.com.br / Cristina Oka & Afonso Roperto]
Colégio Kosmos
Gazeta de Cotia [jornalista W. Paioli]
Resgatando Valores [ong]

 

Bibliografia

AS COOPERATIVAS MISTAS DO ESTADO DE SÃO PAULO [Estudo]. SEABRA, Manoel. Instituto de Geografia, USP. São Paulo-Br, 1977.
COTIA [História Geral]. BARCELLOS, João. Edição Samper-Gonçalves. São Paulo-Br, 1993.
O COOPERATIVISMO E A COMUNIDADE: CASO DA COOPERATIVA AGRÍCOLA COTIA. [Estudo]. SAITO, Hiroshi. Ed. Sociologia e Política. São Paulo – Br, 1964.
PIABIYU [Caminho Ancestral Guarani].  BARCELLOS, João. Edit Edicon & TN Comunic. São Paulo-Br, 2004.
VARGEM GRANDE: ORGANIZAÇÃO E TRANSFORMAÇÕES DE UM SETOR DO CINTURÃO VERDE PAULISTANO [Estudo]. SEABRA, Manoel. Instituto de Geografia da USP. São Paulo-Br, 1977.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ANEXOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

C O T I A
Através De 7 Momentos Históricos

 

 

[Das pesquisas e livros de João Barcellos, de 1989 a 2003.]

 

1º Povo Karai-Yo; 2º  Povo Guayanaz; 3º  Sesmaria de 12 de Outubro de 1580; 4º Diogo Antônio Feijó;
5º Baptista Cepellos; 6º Autonomia e Cidade de Cotia; e 7º Comunidade Nipo-Cotiana & CAC.

 

 

   A cidade paulista de Cotia, cujo nome vem do Guarani m´byano “Koty” [q.s., “Ponto de Encontro”], e por isso já foi chamada e instituída como Coty, Cuty, Cutia, Acotia e Cotia, daí que há uma primeira fase de “cutienses” e uma segunda de “cotianos”, é, no Séc. XVI, marco na estratégia do Povo Karay-yo [= “Carijó” / “careó”], que habita entroncamentos de boca-de-sertão, como no planalto paulista, e ilhas, como a do Desterro, hoje Florianópolis, em Santa Catarina. Esse povo guarani, cuja Língua M´Byã se mistura muitas vezes com o Tupi [daí falar-se de uma Língua Geral tupi-guarani], assenta as suas aldeias em pontos estratégicos, por isso as designa, na maioria das vezes, por “Koty”. Assim, o 1º momento da Koty é o Povo Karai-Yo, de que as Cartas Jesuíticas e os Inventários dos colonos e dos bandeirantes dão testemunho. Esse povo é quase exterminado, e no final do Séc. XVII quase nem há vestígios dele na Koty. [Hoje, em todo o Brasil, existem de 5000 a 7000 pessoas desse Grupo M´Byá...] Entretanto, um outro Povo nativo, sob comando de Anchieta - jovem jesuíta cristão-novo e ajudante de Manoel da Nóbrega, o fundador de São Paulo – vem para a região que viria a ser a “Sesmaria dos Índios das Aldeias dos Pinheiros e Ururay”, mistura-se a outros guayanazes [do grupo Tupiniquim] que circulam entre as terras de Affonso Sardinha, em Carapocuyba e Taboam, e que ajudam no reforço de aldeias como Tapiipissapé [Itapecerica], pontos de defesa da São Paulo dos Campos de Piratininga, e, mais tarde, a outros nativos, e mais guayanazes, aprisionados por bandeirantes, e também na passagem Antônio Raposo Tavares e de Fernão Dias Paes [sobrinho, dito “o governador das esmeraldas”]: esse é o Povo Guayanáz, o 2º momento da Koty.
O 3º momento é a parte mais importante da Historiografia Cotiana: a Sesmaria de 12 de Outubro de 1580, que fica conhecida por “dos Índios das Aldeias dos Pinheiros e Ururay”. Esse território, doado pela Coroa portuguesa, através de uma canetada mais política do que administrativa do capitão Jerônymo Leitão [no âmbito da perda do Trono português para Castela], que chefia a Capitania de S. Vicente, engloba aldeias como Carapocuyba, Arassaryguama, Koty, Itapevi, etc., logo, 12 de Outubro de 1580 passa a ser a data de referência para a Koty colonial[izada], e onde, ainda no Caiapiã, já no Séc. XVII, o bandeirante, beneditino e cristão-novo Fernão Dias Paes irá erguer Capela em honra de Nª Sª do Monte Serrat, tornando-se o seu fundador cristão.
O 4º momento é Diogo Antônio Feijó, maçon e presbítero, que tem uma ascensão política extraordinária no quadro liberal-aristocrático e vem a ser eleito Regente do império bragantino-brasileiro. Nasce em Cotia no ano 1784, e logo é “exposto”, enquanto “filho de pais incógnitos”, na casa do padre Fernando Camargo, na Rua da Freira, centro de São Paulo; na verdade, ele é fruto dos amores de Maria Joaquina, irmã do Pe Fernando, com Diogo Feijó, também padre. Isso marca a sua vida e é a base para uma batalha, diante do Vaticano, contra o celibato dos padres. O cotiano Feijó é quem, em 1822, nas Cortes de Lisboa, lança o primeiro e único grito político pela Independência do Brasil, já que para os imperadores importava somente a independência da Casa de Bragança, não a do Brasil!
O escritor, promotor público e tenente da Guarda Metropolitana, Baptista Cepellos, que chega a chefiar o respectivo quartel instalado em Cotia, é o 5º momento em apreço neste breve apontamento. Ele nasce no bairro cotiano de Vargem Grande, em 1872, e vem a morrer no Rio de Janeiro, em 1915, quando se vê impossibilitado de prosseguir sem a companhia da amada Sofia, filha do senador paulista Peixoto Gomide, que a mata, em 1906, para impedir o casamento com o poeta, ´colorido´, pobre e interiorano.
O 6º momento é mais uma data histórica: 02 de Abril de 1856, quando Cotia ganha emancipação político-administrativa tendo o intendente João de Albuquerque como 1º Prefeito; mas só é Municipalidade pela Lei Estadual nº 1030, de 19 de Dezembro de 1906.
A famosa e já extinta Cooperativa Agrícola Cotia [CAC] é o 7º momento: após o assentamento de uma parte da Diáspora Nipônica [18.6.1908], no Bº do Moinho Velho, a laboriosa e criativa gente do Sol Nascente estabelece as bases para uma cooperativa [20.12.1927] que, tendo a agricultura de base familiar sobrevivendo ao longo do Piabiyu [e, este, sobre o Aqüífero Guarani], como ponto de partida, logo ganha a amplitude do Comércio Agrícola nacional e internacional. É com a CAC que a Cotia do Séc. XX se abre ao mundo, sem deixar de ser uma aldeia no âmbito metropolitano da Grande São Paulo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

WASHI
O Papel Artesanal Com Fibras De Kozo


Quando se fala do Tratado de Geminação Cotia-Ino é raro mencionar que foi o Papel Artesanal [washi] o objeto que levou ao contato, e que mudas da árvore Kozo e do vegetal Mitsumata ficaram sob experimentação na região de Cotia quando a delegação industrial visitou a cidade do poeta Baptista Cepellos e do presbítero e político Diogo Feijó.

 

1
   Koichi Matsuda, um entre os muitos imigrantes nipônicos que se estabeleceram em Cotia, trouxe mudas de Kozo para fazer Washi, nos Anos 70; a sua idéia era dar terreno físico ao sonho do governador da Província de Kochi, interessado em estabelecer uma indústria de Papel Artesanal em terras brasileiras, sendo a primeira região escolhida aquela que sediava a importante e famosa Cooperativa Agrícola Cotia [CAC]. O sonho do governador japonês de abrir uma fábrica de Washi, no entanto, não foi para frente, pois não haviam pessoas interessadas em tocar o projeto, que era mais direcionado à Comunidade Nipônica. Matsuda, então, resolveu escrever o livro “Washi - O Papel Artesanal Japonês”, a única publicação sobre o assunto no Brasil, lançada em 1994 pela Aliança Cultural Brasil-Japão. À parte as já visíveis questiúnculas internas da CAC, adensou o ambiente desfavorável a falta de visão empreendedora dos políticos de Cotia, ainda sujeitos a uma mentalidade colonial-coronelística, logo, impeditiva do progresso sustentado, apesar de algumas exceções personalizadas em raros políticos oriundos da própria comunidade nipônica.
Então, Koichi Matsuda solicitou o apoio do artista plástico Katsutoshi Mori [Kamori] para que não se perdesse tudo; e, a partir daí, Kamori estudou e aprimorou-se sobre as técnicas de produção do Washi passando a difundir essa arte milenar nipônica.

2
O que se sabe sobre “[...] o Papel Oriental, que surgiu na China em 105 dC, com o artesão T´sai Lun, e levada para o Japão em 600 dC pelos budistas”, segundo o porta luso J. C. Macedo [“Artes & Papel”, ensaio. Porto/Pt, 1983], é que foi transformado numa “arte de pureza poética agora denominada Washi, durante a dinastia Suiko. Washi é um papel especial confeccionado a partir de fibras de Kozo, árvore da família da Amoreira, comum no Japão” [idem], e é uma das imagens que temos da criatividade nipônica.
Com o papel de fibras de Kozo, os budistas veicularam os seus cânticos e a sua filosofia; mais tarde, com a popularização do papel, os japoneses deram mais um destino ao papel: a arte do Orikami [de Ori/dobrar e Kami/papel = Orikami], que no ocidente nos habituamos a dizer Origami. Com a criatividade solta em torno do Washi, os japoneses enchem o mundo de encantamentos.

BARCELLOS, João
In “Breve palestra sobre Washi para estudantes da Vargem Grande Paulista”,
20 de Dezembro de 1992.

 

 

 

 

Profª Hissa Okawara
um exemplo pedagógico

 

   Quando, em 1º de Fevereiro de 1941, Hissa Okawara iniciou as suas atividades pedagógicas e sociais na Escola do Moinho Velho, em Cotia, ela não projetou a importância que as suas ações viriam a ter na formação posterior da juventude que ajudava a crescer.

   Hissa Okawara, nasceu Hissa Kushida, em 5.12.1897, em Zentsuji [Kagawa-Ken] e casou com Jitaki Okawara; Issao, Massae, Shokichi e Harue, são os filhos do casal.
Foi uma das primeiras mulheres a cursar o ensino superior ma Universidade de Tóquio, depois dos estudos primário e secundário em Zentsuji, onde veio depois a lecionar por 7 anos [de 31.3.1919 a 31.3.1926]; embarcou para o Brasil em Setembro de 1926, tendo passado por Pindorama, Garça, Vera Cruz, Duartina, Gália, e Cotia; e de 1940 a 1970 lecionou na Escola do Moinho Velho.

   Na escola do Moinho Velho, na verdade um anexo educacional da Cooperativa Agrícola Cotia [CAC], que serviu até de base para a triagem dos jovens que chegaram do Japão após a 2ª Guerra Mundial, a Profª Hissa ensinou Aritmética [em japonês], a utilização e aplicação da ´Soroban´ [calculadora manual japonesa], além de corte-e-costura, tricô e bordado; além disso, foi responsável nesses 30 anos pela contabilidade dos recursos da escola e dos boletins periódicos sobre o aproveitamento de mais de 150 alunos / ano a serem enviados aos pais, pois a Escola do Moinho Velho funcionava também como internato. Assim, além de conhecer a Escola como espaço físico, a Profª Hissa conhecia cada jovem que ali crescia para a sociedade. A par disso, era a responsável pelas excursões de estudo orientando todos, alunos e professores, para o melhor aproveitamento didático de passeios ao Aeroporto, Praia Grande, Aquário, Museu do Ipiranga, Instituto Butantã, e outros lugares.

   Ela despediu-se do Magistério em 31 de Dezembro de 1970, mas a Profª Hissa Okawara nunca foi esquecida pelas turmas de jovens que tão bem orientou para a vida social e profissional. Hoje, muitos desses jovens lembram a angústia que foi a sua despedida na diretoria do Centro Cultural José Giorgi, então, a entidade mantenedora da escola, porque era e é raro encontrar ética e honestidade, sociabilidade e profissionalismo. E ela era tudo isso.
Lembrar a Profª Hissa às vésperas dos 80 anos da fundação da CAC [1927] e do centenário da imigração nipônica [1908] é lembrar a gente honrada e trabalhadora que veio do Sol Nascente para fazer crescer as gentes tropicais do Brasil.

Fonte: Família Okawara

 

 

 

 

 

 

 

ESCOLA HOLÍSTICA & ECOLOGIA
A propósito de Kiyomi Kato e de Cristina Oka

 

o que prefiro
é o algo que me faz à vida

terra e sabedoria

 

[jb, 1984]

 

 

   Duas mulheres.
Sim, sabemos que homens como Yano e Kira souberam, e sabem, honrar o compromisso que o Onaga-dori estabelece entre os povos que encanta; e entanto, o universo feminino dos descendentes nipônicos faz em Cotia um trabalho social, educativo e cultural de grande alcance...
Duas mulheres: Kiyomi e Cristina.
Kiyomi Kato, que descende de família de Ino, integrou-se à rede paulista de Ensino e tornou-se uma mestra; mas, o seu sangue levou-a em busca daquele ´algo mais´ que nunca a afastou da Comunidade: a Cultura nipônica. Dessa ligação familiar e cultural gizou ela a arquitetura pedagógica pela qual estabeleceria um dos pontos marcantes da história japonesa em terras de Cotia: o Colégio Kosmos. E “kosmos..., porque kosmos é uma plantinha danada que dá em qualquer lugar e se espalha, como aconteceu com os japoneses que vieram no Kasato-maru: chegados em Santos, logo se espalharam pelo Brasil”, disse-me ela, em 1994, quando instalou a sede do colégio em Cotia, depois de quase 10 anos em São Paulo. Os serviços sociais e pedagógicos prestados pelo Colégio Kosmos à sociedade nipo-cotiana são de um valor inestimável e transformaram a Profª Kiyomi numa das figuras mais queridas e carismáticas entre as gentes que respiram a Cultura que se faz no Sol Nascente e entre as que adotaram o sertão tropical como alma nova. Com a sua escola, a Profª Kiyomi provou que o ensino holístico é possível em meio às diretrizes normais que regulamentam a escolaridade no Brasil, ou seja, que todas as comunidades têm vez quando a Educação é tida como chave para o Progresso.
Cristina Oka [e o companheiro Afonso Roperto], que conheci no antigo e saudoso Restaurante Capitão Cook, em Caucaia do Alto, deu a Cotia um ar de sofisticação nos alvores da Internet. Cris e Afonso, que continuo a chamar de Capitão Cook, colocaram Cotia no eixo da modernidade quando inauguraram o portal CotiaNet, até hoje no ´ar´, e a principal referência de jornalismo eletrônico sobre a região para o mundo. Entre o Jornalismo, a Gastronomia e o Turismo, Cris percebeu a temperatura da sua alma nipônica e dedicou-se à abertura de ervário, momento que se ampliou para profundas conversas sobre o complexo florestal do Morro Grande, e das quais nasceu a Sociedade Ecológica Verde Amarelo [selva]. A partir daí, ela não mudou o foco das suas atividades, mas prestou-se mais ao ambientalismo e às políticas públicas de meio ambiente e turismo sustentado, que a levaram ao cargo de Diretora do Dept de Turismo de Cotia, onde projetou a idéia de um Conselho Municipal de Turismo, que vingou e é um exemplo público de trabalho bem sucedido, adentrando até áreas de Cultura e Preservação Patrimonial.

 Kiyomi e Cris são duas mulheres que se visualizam em Cotia pelo trabalho dedicado à região e suas gentes, e às quais a Comunidade Nipo-Cotiana não pode deixar de prestar a sua solidariedade.

 

 

Obs: Este artigo foi escrito para ser publicado na edição de Novembro de 2006 do CORPUS, Jornal d´Artes, Letras & Beleza, mas o autor achou melhor aguardar um momento mais propício para a divulgação.

 

 

Artistas Nipo-Paulistas Em Cotia

 

 

 

SHOKO

Um Reflexo Da Terra

 

   Em cada pedaço massageado pelos dedos, outras vezes ambas as mãos, percebe-se a magia telúrica que nos faz seres cósmicos. Assim eu via o meu avô João, ceramista, a ´construir´ o ´Galo de Barcelos´, ou a Rosa Ramalho a dar corpo ao seu ´Cristo´. E assim eu olho para artista Shoko Suzuki, que “em cada gesto molda um sonho, uma imagem que é física e ao mesmo tempo transcendental, e nesse desenvolvimento se mostra em arte, tão feminina e tão humana”, como já disse a profª Mariana d´Almeida y Piñon sobre ela.
As peças cerâmicas de Shoko não são enfeites, são manifestos artísticos que testemunham vivências e têm na base milênios de história oriental, à qual a ocidental ´praia´ brasileira agrega outros valores.
A dinâmica telúrico-cósmica que embasa o trabalho artístico de Shoko é uma poesia que lembra o haikai, i.e., uma escrita pictórica e física em poucos traços que nos deslumbra, às vezes pela incógnita, outras vezes pela certeza de uma mensagem, como é o exemplo da redonda leveza em que afirma o universo feminino do todo humano.
Shoko Suzuki é um haicai cerâmico, e nele viajo por infinitas redondezas, porque a arte me dá esse encantamento.    [jb]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

HOZUMI

A Imagem Que Fica

 

   De um fotógrafo se diz, sempre, que “ele detém a imagem final do instante”, como gosta de dizer o foto-jornalista Mário G. de Castro em suas palestras. Mas, será ´sempre´ assim? Trabalhei com M. G. de Castro na África e no Oriente, nos Anos 80 do Séc. XX, ele com a imagem e eu com a escrita, e às vezes eu dava o toque final... Isto significa que a imagem não é só o que graficamente obtemos, também é o que perpetuamos numa escrita.
Vim a re-aprender este conceito no Ano 6 do Séc. XXI, quando entrei numa loja de especiarias no ´Sacolão´ de Cotia, loja, diga-se, bem ao jeitinho oriental. E ali conheci o comerciante e fotógrafo e animador cultural Hozumi MorokawaZumi´ para as gentes mais próximas] – o fotógrafo que está além do instante...
Apaixonado pelo olhar criativo e crítico-construtivo, Hozumi faz de cada ´clic´ da sua câmera um tempo infinito, porque “a fotografia não grava, ela ajuda-nos a sentir a vida, que somos capazes de produzir”, disse ele numa oficina cultural que dirigiu num morro cotiano. Talvez por isso ele não busca o botão da máquina pela pressa de um instante, só ´clica´ quando a imagem já está processada na sua mente: é o processo oriental de olhar e capt[ur]ar o mundo que somos e o que nos cerca. “O tempo é longo, a vida é curta, então, devemos prolongar a vida no tempo”, assevera o fotógrafo e serígrafo paulista Hajime Otsuka.
A fotografia de Hozumi Morokawa marca um intercâmbio que se corrompe pela lírica vontade espiritual de mostrar e estar além da imagem, e ninguém fica imune a essa corrosão positiva... A sua fotografia é muito mais do que um retrato, ou o instante da reportagem jornalística – é a presença de todos os elementos, porque, de repente, fazemos a leitura holística da existência no simples olhar [um]a imagem. Ou seja: a Fotografia é Arte pura.    [jb]

 

 

 

 

Textos preparados para CORPUS Jornal d´Artes, Letras & Beleza, edição de Dezembro de 2006, mas o autor resolveu aguardar por um momento mais adequado para a publicação, que acontece agora.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Empresários Nipo-Cotianos
Uma Saga De Desbravadores

 

   Um estudo, por mais breve que seja, sobre a Colônia Nipo-Cotiana, abrange todo o primeiro Cinturão Verde [Cotia, Morro Grande, Caucaia do Alto, Vargem Grande Paulista e Ibiuna] estabelecido a oeste da Grande São Paulo. E nesse estudo cabem várias famílias, incluindo as que deram origem à Cooperativa Agrícola Cotia, em 20 de Dezembro de 1927.
Ao levantar a historiografia de Cotia, a partir de 1991, e com rascunhos de 1988 referentes à CAC e ao poeta Baptista Cepellos, verifiquei que famílias como a Yano [Msuji], a Kira [Kenji] e a Ueki [Ryuti e Mikio], estabeleceram empreendimentos entre a Construção Civil, a Floricultura e a Agricultura, e ainda tiveram grande atividade social para o desenvolvimento da Cidade que foi berço de Feijó e de Cepellos. Assim, falar de Yano, Kira e Ueki simbolizo uma saga geral de desbravadores que o foram pelo pioneirismo empreendedor, umas vezes à sombra dos acontecimentos gerados no Moinho Velho, outras vezes por iniciativa própria.
As famílias nipo-cotianas não apenas continuaram a estrada ancestral, a dos colonos luso-paulistas, elas completaram um ciclo empresarial que tirou Cotia do ostracismo e possibilitou, séculos depois da Fazenda Carapocuyba [de Afonso Sardinha - o Velho] e das atividades sesmeiro-agrícolas [famílias Dias Paes, Bicudo e Preto] no eixo logístico Cotia-Embu-Carapicuiba. Assim, essas famílias neo-colonizadoras deram assentamento a uma Cotia com um olhar de esperança – ou seja: a mesma esperança que fez a Comunidade Nipônica batalhar por si mesma em condições sociais e políticas adversas, era a mesma vivenciada pelas gentes cotiana.
Eis que falar dos Yano, dos Kira ou dos Ueki é, também, simbolizar uma historiografia familiar que deu corpo moderno a uma comunidade não mais estranha ao meio..., tanto que o Tratado de Geminação Ino-Cotia se dá pela integração nipônica em Cotia, particularmente a oriunda de Ino, tendo em vista um espectro empresarial de grande alcance industrial.
O que se deve sublinhar, e o faço neste breve apontamento, é que os empresários nipo-cotianos foram a chave para o progresso da região, e por isso, a Comunidade Nipo-Cotiana passou a ser, em termos historiográficos, o 7º Momento Histórico de Cotia, como referi durante as comemorações do Centenário de elevação da Vila à condição de Cidade [19.12.1906].

 

Texto escrito para Corpus e TN Comunic, em Dezembro de 2006.

 

 

 

 

 

Poesia No Espaço Nipo-Cotiano

 

 

 

E O OCIDENTE ABRAÇOU O ORIENTE

 

 

Lá dos confins e das especiarias do Oriente
Veio a sabedoria que fez do Brasil um ouro verde.
Japoneses desbravaram o sertão de Cotia
E por uma cooperativa alcançaram num dia
De dezembro o diamante que era verde
Na terra farta e de boa gente!

 

Nos velhos caminhos guaranis
Mangás sinalizaram a terra boa,
Haicais disseram dos bem-te-vis
E o Sol Nascente raiou em Cotia rindo à-toa.

 

De entre a terra de flores e batatas
Uma cooperativa se fez qual bandeira,
Qual entrada... e um novo Brasil raiou.
Foi-se o velho nativo, veio o japonês que carregou
Nos mesmos caminhos o ideal da larga eira
Cuja beira dá casa e vida para novas jornadas!

 

Se lá atrás o velho Sardinha fez a Via do Ouro
E o colossal Raposo Tavares alargou o Piabiyu, eis que Dias Paes
Deu capela à velha Koty e buscou esmeraldas e diamantes.
E foram os japoneses que fizeram de flores e batatas... diamantes!
O ocidente abraçou o oriente e estabeleceu em seus anais
Que a Humanidade é a única Via do Ouro...

 

 

UM OUTRO TEMPLO

 

 

1   a cooperativa

não sei que palavras
ouço entre os vales uma oração
a terra se abre

 

2   a nova nação

a imensidão é tropical
terras e gentes e falares lavram
a ara é um cântico de paz

 

QUADRAS
AO SABOR DA HISTÓRIA INO-COTIANA

 

Dizem os velhos que cá
O mundo é novo e maravilhoso.
Dizem os velhos de lá
Que o gênio das gentes é alegria e é choro.

E depois disso se misturaram as raças
E ninguém sabia o que era sul e o que era norte,
Mas sabiam em todos os gestos e todas as falas
Que a cada cabia um fado para tentar a sorte.

E vieram para cá, que é o Brasil, as gentes do Japão.
Pareciam saídas da terra. Adentraram o Moinho Velho,
Na velha Cotia, e o que era nada virou ilusão,
Alquimia..., pois o Brasil era beijado com enlevo!

Ajuntaram-se os do Sol Nascente. Ó, abraço
Solidário e bom. E tão forte foi que os de cá
Os imitaram para logo levarem essa luz nova ao terraço
Da nação tropical, e se fizeram ouvir lá.

No outro lado do mar
Recebeu o Japão o ritmo do Samba e o calor da pinga,
E no grande sertão tropical ficou o olhar
Rasgado, as iguarias sofisticadas e o sakê, a oriental pinga!

No trabalho e na família a alegria e o choro:
Os de Cotia foram para lá
Em busca de oportunidades e de um bom retorno,
E fez-se Brasil a vida dos que de Ino vieram para cá!

Uns vão e voltam. É cá e é lá
A viverem a tentação do maravilhoso.
Outros, fizeram da terra do sabiá
Um novo coração e vivem um tropical namoro!

Cotia/SP-Br., 1992.

 

GLOBALIZAÇÃO QUINHENTISTA
EM FERNÃO MENDES PINTO

Questão Luso-Nipo-Brasileira *

 

   Senhoras e Senhores,

permitam que vos conte uma história. Espero que acreditem... Ainda no Séc. XVI, em Montemor-o-Velho, ali mesmo, onde o Duque de Coimbra [o mais tarde famoso Infante das 7 Partidas, da literatura de cordel da Europa  de quinhentos e seiscentos] tinha o seu castelo, bem no centro de Portugal, um jovem faz-se ao Mar e à Vida após vivenciar a Corte lisboeta , para fugir das misérias de uma Nação cujas mulheres choram os homens que se foram e aqueles que ainda hão d´ir. Sobre esse jovem, no final do Séc. XX, escreveu o prof. Alfredo Pinheiro Marques, que “...fugiu – para ´dar remédio à sua pobreza´ [...] – até ao fim do mundo...! Até ao Japão” [1].
E no fim desse Mundo, já depois de conhecer Cathay [China], ao avistar a então tão falada Ilha Ji-pangu [Cipango/Japão], esse jovem percebe outros mundos pela civilização que o Povo do arquipélago lhe apresenta.
Esse jovem, cuja vivência marítima e humana, é tão arrojada quanto a dos colonos e bandeirantes lusos no Brasil, percebe em si mesmo uma missão: dizer a Portugal o quanto de Mundo ainda há a descobrir, e o quanto de dor o Mar lhe trouxe e trará. E aí, ele esquece a farsa épica camoniana que canta o Império e não canta o Povo. O seu intuito, como de outros poetas e narradores mais ousados e logo castrados pela censura luso-vaticana, como nos lembram as pesquisas do prof. Hélio Alves e as análises filosóficas do prof. Manuel Reis, é o de mostrar a Portugal com quanto sangue e quanta barbaridade é feito o Império: sangue e barbaridade que também ceifam o Povo português. Das suas vivências de mercador e de corso, principalmente ao lado do capitão António Faria, mas também de religioso, como iniciado e financiador** ao lado do jesuíta Francisco Xavier, escreve uma crônica que é a carta do sangue luso pela expansão e manutenção de um Império que o é em e por linhagem familiar, e não de e por um Povo: à narração dá o título Peregrinaçam [2].
Peregrinaçam é, até hoje, caso único na Literatura portuguesa. Esse jovem, nascido em Montemor-o-Velho, chama-se Fernão Mendes Pinto [3] e são dele as seguintes palavras:

“...e daqui por uma parte tomem os homens
motivo de se não desanimarem com os trabalhos
da vida para deixarem de fazer o que devem,
porque não há nenhuns, por grandes que sejam,
com que não possa a natureza humana...”

   A história deste jovem português, em pleno Séc. XVI, e quando o Brasil ainda não é economicamente ´coisa boa´ para o Império bragantino, está no início do espírito ultramarino das trocas civilizacionais que levariam o Mundo a um trato político, militar e economicamente global, além de ter permitido a ocidentalização do Japão e a sua militarização através da espingarda, que o grupo pirático em que se achava Fernão Mendes Pinto ali introduz.
Depois da aventura portuguesa no Oriente, entre a Índia, a China e o Japão, o Mundo tomaria outra dimensão econômica e social; e da mesma maneira que o poema épico Lusíadas, de Camões, foi/é a fachada ideológica do Império bragantino, a Peregrinaçam, de Fernão Mendes Pinto, foi/é a alma do Povo que se fez ao Mar e à Vida!

 

Questão Luso-Nipo-Brasileira

   A presença lusa no Japão abriu outros caminhos civilizatórios, apesar da intenção imperial jesuítica, que levaria ao corte das relações... como haveria de acontecer, em parte, no Brasil do Séc. XVII. Obviamente, nem a Coroa lusa nem a Igreja católica permitiriam que o mesmo evento se repetisse na América, pelos que as Bandeiras foram o mal necessário para cortar o florescimento do império teocrático jesuítico a sul da Linha de Tordesilhas. Até por que a Cristandade havia perdido o Oriente pela apetência de Poder vivida pelos jesuítas... E quando o Brasil, no Séc. XIX, torna-se Império, e depois República, abre o seu continente a outros povos, é o Japão, no início do Séc. XX, que envia, em 1908, uma leva de emigrantes para fazerem a fortuna na América e que a terra natal do sol nascente lhe nega!

   É no âmbito do evento luso-nipo-brasileiro que, hoje, neste Séc. XXI, uma comissão de intelectuais, artistas e empresários, prepara uma ação editorial e sócio-histórica para celebrar a relação entre portugueses e japoneses, mas com incidência na saga da emigração nipônica que transformou o Brasil agrário e atrasado no Brasil moderno, a partir de uma cooperativa instalada em Cotia.

   O que é esta ação?
Enquanto a velha e histórica Koty [Cotia] celebra 150 Anos de Independência Político-Administrativa [4] e 100 Anos de Elevação da Vila a Cidade [5], mas também o triste acontecimento [5] em que o poeta, promotor público e capitão da Força Pública de São Paulo, Baptista Cepellos, perde a sua amada Sofia, morta pelo próprio pai, o senador paulista Peixoto Gomide, eis que urge dizer – nunca em definitivo, porque a História sempre revela outros mistérios em velhos e abandonados baús – da importância da Cotia do sertão karai-yo, ou carijó [7] para a geografia da Colonização que, acima da Serra do Mar, faz-se a bordejar velhas trilhas como o Piabiyu [8], e as matas ciliares de rios como o Cotia e o Anhamby [Tietê]; e urge dizê-lo para que as gerações que chegam neste Séc. XXI tenham acesso a uma das cidades brasileiras [dos Campos de Piratininga e] de São Paulo mais ricas em História, como a das lavouras que deram base e logística aos atos bandeirísticos e minerários que tiveram em Afonso Sardinha - o Velho o eixo primeiro, além da primeira Via do Ouro; das tropas de burros, da expansão jesuítica a oeste e sul de Piratininga, e da instalação paulatina e certa da Cristandade em todo o território que da Piratininga se abria de maneira continental. A par disso, a Colonização luso-vaticana instala clãs familiares, como os Medella, os Dias Paes, os Sardinha, os Bicudos, os Farias, os Correias, os Quadros, os Novaes, os Borba Gato, os Tavares,  os Pretos, os Gonçalves, os Macedos, os Pires, os Taques, os Camargos, etc., o que, e mesmo com a forte presença dos Camargos e dos Buenos [da Tradição senhorial castelhana], garante a continuidade da colonização apesar do evento 1580-1640, e apesar da tentativa do Império Teocrático Jesuítico, sendo que parte dessas famílias tem origem judaica, ou é convertida desde as primeiras ações inquisitoriais ibéricas. E essas gentes, de uma maneira ou de outra, também passaram pela velha Koty guarani através do ancestral Piabiyu... o percurso luso-paulista dos desbravadores, dos Sécs. XVI e XVII, que os japoneses vieram a percorrer no Séc. XX!
É por isso que afirmo que a História piabiyuana teve e tem o seu eixo na Pessoa Humana, primeiro com os guaranis, depois com os luso-paulistas, e mais tarde com os japoneses – ou seja, o desenvolvimento que o Piabiyu e o Aqüífero Guarani proporcionaram aos nativos e aos colonizadores tem espelho no pólo econômico que levou ao progresso social em cada rincão de terra lavrada ou minerada. E na velha Koty se dividiam os interesses de castelhanos e de portugueses, porque... até à Koty a posse é portuguesa, para lá da Koty o sertão é dos guaranis e dos castelhanos. Por isso, a Koty é uma esquina da História luso-brasileira que o bandeirante Raposo Tavares resolve arredondar tirando as arestas jesuítico-castelhanas que impedem a expansão da colonização paulista e que tivera início com as fazendas e as minas de Afonso Sardinha - o Velho, e principalmente a Fazenda Carapocuyba, que ligava nos seus extremos os sertões do Piabiyu e os que bordejavam o Tietê. Esses extremos que os japoneses, mais de 300 anos depois, viriam a tanger para construírem a Cooperativa Agrícola Cotia e dar ao Brasil o progresso que gera civilização.

 

   Dois tipos de documentos são importantes para o refazer, ou para a re-apresentação da História koty-piabiyuana: os testamentos e os inventários das famílias proprietárias de terras, sesmeiras ou não, imóveis e escravos [nativos e/ou africanos]. Por eles se entende melhor a perspectiva da ruralidade e a ânsia de um recomeço pessoal para quem fugiu de um Portugal fustigado pelas misérias de uma monarquia esbanjadora e anti-popular, e se entende também o espírito formador de um Novo Portugal, bem profundo no querer das gentes dos portos de entre Aveiro e Caminha, que viriam a ser, e a partir de S. Vicente e de Santos [como ensina o grande Jaime Cortesão], o porto seguro econômico e humano para o luso-brasileiro e a comunidade brasileira que então nascia...
Por isso, é justo, muito justo, justíssimo..., que se diga do Brasil a partir dessa ruralidade paulista da velha Koty, porque das lavouras de milho, da batata, da preparação da marmelada [um produto que enriqueceu gente como o Sardinha, o Pompeu de Almeida, entre outros], e dos vinhedos e dos pomares; sim, que nos últimos anos do Séc. XVI, como se sabe pelas Cartas Jesuíticas, mas também pelos inventários e os testamentos, já os luso-paulistas produzem vinhos, tanto na Villa Piratininga como nos sertões dos guaranis e dos guayanazes, a oeste..., pois, ninguém é de ferro e um bom copo de vinho sempre mata a saudade e dosa o espírito aventureiro!

   Vive-se, entre os Sécs XVI e XVII, uma ocupação de solo que continua a já iniciada pelos povos nativos, em torno do conceito da sobrevivência familiar e cada uma cultiva as suas lavouras e amassa o barro para confeccionar os utensílios domésticos; conceito que vem a ser alargado pela ação bandeirística; e essa ocupação, já territorialmente definida com Fernão Dias Paes - o Moço, e principalmente com Raposo Tavares, vem a ser retomada no Séc. XX por outro tipo de colonização: a das gentes que buscam trabalho e dignidade longe da sua terra natal. E é quando acontece um empreendimento nipo-brasileiro, no bairro Moinho Velho, em Cotia, que vai se estender Piabiyu adentro para formar a Cooperativa Agrícola Cotia... Ora, posso dizer que o Brasil moderno, sem perder as raízes agro-mineradoras, começa com o cooperativismo já globalizador dos japoneses. Por isso, é justo que, entre Fernão Dias Paes - o Moço e Raposo Tavares se diga dos valentes e honrados Japoneses... hortifrutigranjeiros de Cotia!

   Eis a necessidade de um Pólo Cultural das Comunidades, em Cotia. E esse é o esforço da citada comissão de intelectuais, artistas e empresários, a par das ilustrações litero-jornalísticas.
E como a História urge ser contada à luz dos documentos, também é preciso que se diga das gentes de outras nações, como árabes, judeus, italianos, chineses, alemães, suíços e outras, que em [ou a partir de] Cotia encontraram e encontram um ponto de referência para a amizade e o progresso humano.
Essas gentes de falares e olhares diferentes, que assentaram arraiais ao longo do Piabiyu, e que agora continuam o progresso acompanhando também o desenvolvimento da Rodovia Raposo Tavares – um dos eixos de comunicação que faz da velha Villa de São Paulo, cidade e estado, o maior pólo mercadológico da América do Sul –, são gentes de olhares e falares diferentes que têm o Brasil como mátria essência, porque no Brasil descobrem-se a cada instante e se renovam a partir de núcleos comunitários como Cotia.

 

   Senhoras e Senhores,

termino esta exposição a clamar, como aquele jovem lá da velha e honrada e mui lusitana cidade de Montemor-o-Velho: façamos os trabalhos que estão ao alcance da grandeza humana, e principalmente dos povos que do Mar fizeram a Vida e da Vida a justa Utopia por um pedaço de Felicidade!

   Tenho dito.

 

 

 

 

1- PINHEIRO MARQUES, Alfredo – in “Fernão Mendes Pinto”, Ediç Casa-Museu do Infante Dom Pedro e do Centro de Estudos do Mar. Montemor-o-Velho / Pt., 2002.
2- PEREGRINAÇAM – O autor iniciou a sua escrita por volta de 1580, mas a obra só veio a ser publicada em 1614, após a sua morte.
3- PINTO, Fernão Mendes [1509-1583].
4- 1856-2006.
5- 1906-2006.
6- O senador assassina a filha em 20 de Fevereiro de 1906 por não conseguir dissuadi-la do casamento com o poeta do Interior paulista e de idéias liberais, e mata-se a seguir.
7- Cotia começou como Aldeia Koty, no principal entroncamento da trilha guarani denominada Piabiyu, e veio a ter batismo cristão com capela mandada ´fabricar´ por Dias Paes - o Moço, cerca de 1640.
8- Do guarani m´byano q.s. “Caminho do Peru”. Importante via de comunicação continental que serviu de penetração, apesar de proibida, para os jesuítas, os mineradores, os colonos, os tropeiros e os bandeirantes.

 

 

* Palestra nas Faculdade Europan, em 18 de Fevereiro de 2006.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DO ORIENTE AO BRASIL
COM OS PORTUGUESES

 

   Os portugueses e os brasileiros aprendem, ainda hoje, que “Portugal deu novos mundos ao Mundo”, que “o infante Henrique, dito o navegador, tinha uma escola náutica em Sagres
e foi o obreiro das navegações que levaram os lusos ao Oriente, à África e às Américas”... Pois bem, também hoje, sabemos, por documentos, que Portugal não deu novos mundos ao Mundo, e sim os chineses; que o infante Henrique nunca teve escola náutica em Sagres e nem foi o obreiro das navegações, e sim o seu irmão Pedro, duque de Coimbra e infante-regente do Império, etc e etc. Da mesma maneira, por documentos, sabemos agora que o primeiro grande obreiro da colonização lusa do Brasil foi o político, capitalista e minerador Afonso Sardinha - o Velho, que estabeleceu a primeira Via do Ouro da colônia, entre Cubatão, Guarulhos, Jaraguá e Araçariguama...
É que a História é feita de e por documentos e não adianta criar tradições orais quando se sabe que, um dia, os documentos e as amostragens arqueológicas vão mostrar as realidades que outrora foram dos nossos antepassados.

 

1
Já estamos em clima de celebração do centenário da chegada dos emigrantes japoneses ao Brasil e, no nosso caso, da chegada ao bº Moinho Velho, em Cotia, onde estabeleceram a Cooperativa Agrícola Cotia.
No entanto, e antes de se falar da importância social e econômica dos japoneses para a região de Cotia e para o Brasil, é bom recuar um pouco na História para sabermos como o Oriente chegou às Américas...

 

2
Entre os anos 1421 e 1423, Zhu Di [3º imperador da Dinastia Ming] ordena que a China passe a ter mais tributação dos povos bárbaros, ou povos estrangeiros, e para isso constitui a Ssu-i-Quan, uma escola de idiomas em Nanquim, para que os almirantes das frotas chineses possam ter interpretes e estabelecer diálogos adequados com os outros povos; e, a partir de 1421, além dos contatos com outros povos, os chineses equacionam o grande problema das viagens marítimas: a latitude e longitude, enquanto modernizam cada vez mais os seus instrumentos, como a bússola magnética. Por conta disso, as frotas chefiadas por Hong Bao, Zhou Man, Zhou Wen e Yang Qing, percorrem parte da África, da América, da Ásia, e, na entrada da Europa, em Cabo Verde, após dobrarem o Cabo, o imperador decide que “a China deve voltar-se somente para si mesma” e dá por encerrada a odisséia marítima do Oriente pelo Mundo.
O que significam as viagens chinesas de 1421 a 1423? Por diversos mapas recentemente descobertos, e que escaparam da destruição ordenada pelo imperador, sabemos que, de fato, os chineses, além da Austrália e de Cabo Verde, estiveram no Estreito mais tarde chamado “de Magalhães” e na costa do que é hoje o Brasil...
No entanto, o mapa mais importante é o mapa que Fra Mauro vendeu ao infante-regente Pedro, duque de Coimbra, em 1459: no Mapa de Fra Mauro estão todas as viagens feitas pela China ao redor do Mundo, que eles os chineses já sabiam ser redondo muito antes dos ocidentais. Assim, de posse desse mapa, o infante-regente Pedro fez dele o grande segredo do Estado português, o que continuou com o seu neto e rei João II, que através dele estabeleceu o Plano da Índia, o mesmo plano que Colombo dizia ter conhecido, mas do qual deve ter tido somente alguns dados, porque na sua chegada à América pensou estar na Índia, e chamou os americanos de índios... Ou seja: ao contrário do que cantou o épico Camões, os portugueses fizeram-se ao Mundo por mares já antes navegados, daí a certeza de Vasco da Gama quanto a uma terra a oeste das ilhas de Cabo Verde!, sim..., o Brasil.
O famoso Mapa Fra Mauro foi desenhado sob comentário do navegador Noccolò da Conti [1395-1469], tão veneziano quanto Fra Mauro [1385-1459], porque da Conti esteve em contato com os marujos chineses.
Tanto o Mapa Fra Mauro como os documentos referentes às Viagens Marítimas da China e de Portugal, foram larga e profundamente analisados por especialistas como Alfredo Pinheiro Marques e Luis de Albuquerque [Portugal], Gavin Menzies [Inglaterra], e também pelo diplomata e escritor Alberto da Costa e Silva [Brasil], de que resultaram vários livros de grande interesse histórico. Entre os vários livros que publicou, o cartógrafo Alfredo Pinheiro Marques tem um em particular, intitulado Fernão Mendes Pinto, que conta a história desse aventureiro e marujo português que esteve, no Séc. XVI, na China e no Japão, e levando para os japoneses uma modernidade terrífica: uma espingarda. A realidade histórica do Japão divide-se entre o contato social e a venda de uma arma de fogo pela turma de Mendes Pinto, o estabelecimento jesuítico, e o seu passado: mas, depois que em 1552 adquiriu e copiou a espingarda dos portugueses, o Japão nunca mais ficou longe do espírito mercantil do Ocidente.
Por isso, quando se fala de Oriente e de Ocidente, precisamos saber que a China contatou o Mundo e que, fechando-se para o mesmo em seguida, possibilitou que Portugal, através essencialmente do Mapa de Fra Mauro, pudesse chegar aos mesmos lugares ocidentais.

 

 

O OCIDENTE E O ORIENTE

do rio Mondego ao arquipélago Ji-Pangu passando por Cathay

 

“... nas partes da China e Japão e sempre me ocupei
em ajuntar bens da terra que erao os que eu pretendia;
somente em Japão, todalas vezes que la fui ou mandey,
acertei sempre perder; estando sempre penando nisto,
queixando-me quam pouco ditoso fora em aquella terra,
determinei de nunca tornar a ella, pois que tudo me
sucedia tao mal, e estando nisto comecei a cuidar que
se tornasse que me podia restaurar; acordando-me
para confirmacão do que me podia Deus ajudar,
pois com ho dinheiro que eu tinha em Japão emprestado
ao Padre Mestre Francisco, se ouve feito
a primeira igreja e casa da Companhia...”  [1]

 

    O povo do arquipélago de Ji-pangu, no Séc. XVI, à época da chegada dos navegadores portugueses, praticava navegação de costa e estavam muito distantes dos conhecimentos astronômicos dos vizinhos da China, que tinham terminado várias viagens oceânicas de reconhecimento e de comércio com povos asiáticos e africanos.
Quando os portugueses aportaram na região foram chamados Nan-ban Jin (q.s., bárbaros do sul)... Já estavam na China, já conheciam as armas de fogo e sabiam o poder que elas davam a quem as manejava com sabedoria ou não. Para esses marujos-aventureiros interessava somente fugir da miséria e das humilhações sofridas em Portugal a partir do assassinato do infante-regente Pedro, em Alfarrobeira, quando a região de Coimbra e a cidadela-estado Montemor-o-Velho foram atiradas para o esquecimento pela Casa de Bragança; e isso, porque o eixo da epopéia marítima lusa estava no rio Mondego e nos marinheiros de Buarcos.
Os portugueses desembarcaram na Ilha de Tanegashima, em 1543. A terra que Cristóvão Colombo pensou ter atingido quando chegou, em 1492, ao Haiti... Eram quatro marujos, e entre eles Fernão Mendes Pinto [2], tido como um dos aventureiros que introduziram a arma de fogo [3] na região. Com marujos, aventureiros e padres jesuítas no meio, Portugal passou a intermediar toda a sorte de ações mercantis entre Cathay/Cantão e Ji-pangu/Japão, com produtos do tipo seda, vestuário, porcelanas, especiarias orientais, vinho português, com bons lucros e o que permitia aos Nan-ban jin comprar prata. Ou seja: a costa oriental, entre chineses e japoneses, permitiu uma das mais formidáveis ações de política mercantil a projetar uma globalização econômica que logo se estenderia ao continente tocado por Colombo. Enquanto isso, os portugueses mostravam as suas habilidades militares no combate aos piratas que atacavam as cidades portuárias chinesas, o que lhes valeu a admiração local e até o presente de um território: Macau.

   Os portugueses assentaram arraiais precários, ou passaram simplesmente, por vários portos japoneses, e a partir de 1562 estabeleceram negócios mais diretos nos portos do daimyõ [chefe feudal] Omura Sumitada, que lhes concedeu o porto de Yokoseura. E logo os jesuítas, em 1571, foram para Nagasaki, pelo que o comércio entre Goa, Malaca, China e Japão, teve aí o eixo principal.
Se a expansão jesuítica no Oriente foi benéfica para Portugal, principalmente em Nagasaki, também foi a ação desses padres o ponto que levou à ruptura política e comercial entre Portugal e o Japão, porque eles tinham rendimentos nesse comércio, o que era considerado localmente uma afronta política. Tanto no Oriente [Japão] como no Ocidente [América do Sul], os jesuítas expandiram a sua ordem religiosa no mesmo percurso dos desbravadores marítimos e sertanejos, o que acabou por prejudicá-los em ambos os lados do mundo. Isso acabou por valorizar o comércio entre o Japão e a Holanda, porque os holandeses não misturavam Religião e Comércio. Foi por isso que o xogun Tokugawa, em 1635, ordenou o fim dos contactos e dos contratos com Portugal. E os contatos luso-nipônicos só voltaram à ativa comercial e diplomática em 1860, dois séculos depois!

 

  Relações Luso-Nipônicas 

   Das relações luso-nipônicas resultaram novos vocábulos. Do português para o japonês: pan/pão, koppu/copo, botan/botão, tabako/tabaco, shabon/sabão, etc.; do japonês para o português: biombo/byoobu, catana/katana.
   Já na culinária, coisas novas foram introduzidas pelos lusos na terra do sol nascente: o bolo japonês chamado kasutera, confeccionado a partir do pão-de-ló; o bolo japonês chamado konpeitoo tem no confeito. Estes bolos ainda encontram-se no dia-a-dia dos japoneses. E também o prato japonês Tenpura tem origem no termo religioso português (Quatro) Têmporas, indicando uma época antes da páscoa em que é aconselhado comer pratos de peixe e legumes. 
     E na arte, o Nan-ban Byoobu [Biombo Nan-ban]: biombo com estampas que descrevem os lusos nas suas estadias nipônicas, e é um registro que também ajuda a conhecer o comportamento nipônico, a par do “Tratado” escrito pelo jesuíta Luis de Fróis, e, mais tarde, pela atividade jornalística e literária de Wenceslau de Moraes [4].

 

A Questão Jesuítica

   Os poderosos senhores feudais nipônicos, nos primeiros encontros com os jesuítas, ficaram com a certeza de que a companhia carregava mais uma parte do Budismo e o expandia para além do Cathay [China]. "Este documento prova que dei licença aos padres vindos do Ocidente, para encontrarem ou construírem um mosteiro a fim de espalharem a lei de Buda", diz um dos documentos de 1552, que revela terem sido enganados quanto ao tipo de missionação, pelo menos no início.
A ´fome´ por terras e por poder, que na mesma época se estendia também no planalto e a oeste do Villa Piratininga, no Brasil, fez os jesuítas atropelarem a própria ´fé´ e adotarem um comportamento tão pirático quanto os dos corsários comandado pelo capitão português António Faria e o aventureiro Fernão Mendes Pinto, e talvez tenha sido essa a questão que levou o próprio Pinto a abandonar o noviciado entre os jesuítas. Entretanto, sob essa falsificação teológica alegaram logo os japoneses, indisponibilidade social e territorial; e devem ter feito esse corte tão logo retornou da Europa a Missão Tenshõ...

 

A primeira missão nipônica oficial em visita à Europa,
de 1582 a 1586.  Missão Tenshõ.

   Após o início da missionação jesuítica de Francisco Xavier, a partir de Kagoshima, no sul do Ji-pangu, três daimyōs [senhores feudais] locais convertidas ao cristianismo – Otomo, Arima e Omura – enviaram uma missão a Roma, com orientação do padre Alessandro Valignani. Quatro adolescentes missionários japoneses estavam na missão: Ito Mancho, Chijiwa Miguel, Hara Martino e Nakaura Julian. Eles saíram de Nagasaki, passaram por Macau e Goa, e aportaram em Lisboa em agosto de 1584. Em Portugal, foram visitar, segundo o arquivo, a Igreja de São Roque e o Mosteiro dos Jerónimos e regiões como Sintra e Évora; na Espanha, foram recebidos por Filipe II, então Filipe I de Portugal; e em Roma, os jovens avistaram-se com o  Papa Gregório X; retornaram a Lisboa em 1586, mas só partiram para Nagasaki em 1590, quando os holandeses ali investiam com força diplomática, e não religiosa.
A denominada Missão Tenshõ não teve conseqüências positivas para a missionação cristã-jesuítica nem para a política ultramarina portuguesa, uma vez que ela não conseguiu transmitir os valores da abertura comercial aos japoneses e os valores do colonialismo cristão em expansão, e logo [em 1639] o Japão se fechou aos interesses ocidentais até 1854.

 

 

Ocidentalização & Modernização do Japão

A Importância Dos Holandeses

1
Retirando-se a habitual histeria nacionalista e retrógrada de alguns intelectuais portugueses, que ainda acham ter sido Portugal quinhentista o ´abre-latas´ da ´modernização´, deve-se dizer que esse Portugal quinhentista foi importante, sim, para o estabelecimento do Capitalismo que desconhece Nações constituídas e suas Culturas nativas, portanto, para a Colonização e a destruição de outros povos... o que só aconteceu no Brasil, porque na América os portugueses encontraram não uma Nação, mas povos dispersos em regime de auto-destruição, o que ajudou a ação jesuítica de incorporação da Língua Portuguesa enquanto dizimava o Tupi e o Guarani. Tanto na África como na China e no Japão, os portugueses encontraram regiões com povos culturalmente integrados, e se conseguiram penetrar a África isso aconteceu pela ação comercial e diplomática do rei João II, que abriu caminhos para a odisséia marítima, o que o rei Manuel I viria a destruir com a sua ganância imperial benzida pelo Vaticano.

   Assim, Portugal não ´modernizou´, como alguns gostam de apregoar em sebentas acadêmicas, mas estabeleceu territorialmente o conceito católico da Igreja e Missionação quando teve meios humanos e militares para isso...

2
A cultura nipônica absorveu o mercantilismo da cultura ocidental expressa nos atos portugueses e nos da missionação, mas foi o mercantilismo globalizador que atraiu o Japão para a modernização industrial, o que acabou por acontecer no Séc. XIX. O arquipélago precisava expandir as suas inovações tecnológicas, e também a sua agricultura pragmática de adaptação a quaisquer solos.

3
Acordos diplomáticos com países ocidentais deixaram o Japão na linha de frente das tecnologias. No entanto, esse progresso não atingia as massas populares, principalmente as campesinas e piscatórias, então, no início do Séc. XX, o Japão estabeleceu acordos de emigração com países sul-americanos, entre eles o Brasil.
Assinado um Tratado de Cooperação Brasil-Japão, logo a região de São Paulo ficou interessada na mão-de-obra campesina para substituir a dos escravos negros já libertos e sem condições sociais de sobrevivência; e em 1908, o navio Kasato-maru aportou em Santos com a primeira leva de emigrantes do sol nascente. Os brasileiros iriam aprender, a partir da Cooperativa Agrícola Cotia, fixada no bairro Moinho Velho, com quanta arte se faz medrar uma terra tida como improdutiva...

4
Entre os primeiros contatos luso-nipônicos e o estabelecimento da emigração nipônica em solo brasileiro passaram-se mais de 300 anos, com duas guerras mundiais pelo meio, e enquanto Portugal retornou ao umbigo ibérico e sem condições de progresso por ter dado de bandeja todo o Império ao Vaticano, o Japão cresceu econômica e tecnologicamente, e ainda levou para o Brasil o seu conceito de progresso sustentado na Ciência e no Trabalho, o que Portugal nunca havia feito, mas que a Holanda havia tentado.
O amadurecimento do Japão aconteceu na observação da aptidão nata dos lusos para o comércio e na sua obstinação de galgar o mundo para fugirem das misérias ibéricas, mas retirou daí uma lição: progredir sem destruir os outros. Algo histórico introduzido entre os nipônicos pelos holandeses, que politicamente derrotaram portugueses e jesuítas... E foi com esse conceito que os japoneses lograram alcançar os feitos tecnológicos ocidentais em menos de 300 anos, e depois de terem expulsado quem os queria colonizar, cultural e religiosamente.
O progresso do Japão foi um exemplo para o Ocidente cristão: a desgraça alheia não pode servir de rampa para o bem-estar de uns poucos.

5
E o Oriente é hoje, no Séc. XXI, na sua diversidade territorial e social, foco de um progresso tecnológico e científico que, de certa maneira, assusta o Ocidente. Na verdade, o Oriente aprendeu a pescar com a vara e a linha que o próprio Ocidente lhe deu de presente naquele mercantilismo globalizador da época quinhentista.

 

 

 

 

 

Celebrar A Comunidade Nipo-Brasileira
É Celebrar Uma Saga De Sucesso

 

progredir sem destruir os outros,
mas civilizando com eles

 

   Os japoneses e os seus descendentes brasileiros começam a celebrar, em 2007, até pelos 80 anos da fundação da Cooperativa Agrícola Cotia [CAC], estabelecida em 1927 [20 de Dezembro], o centenário da chegada do Kasato-maru com as primeiras famílias, em 18 de Junho de 1908.
O sucesso das comunidades nipônicas, espalhadas por vários países sul-americanos, mas principalmente no Brasil, mostrou como a adversidade [política e social] que rodeou as primeiras famílias se tornou a alavanca que as levou a cultivar em solo alheio aquele ideal de progredir sem destruir os outros, mas civilizando com eles; logo os japoneses se tornaram agricultores e industriais, comerciantes e executivos, contribuindo decisivamente para a modernização do Brasil.

 

 

Notas

 

1- Carta do irmão Fernão Mendes Pinto para os padres e irmãos de Portugal, Malaca, 5 de Dezembro de 1554. Documento existente na Biblioteca da Ajuda de Lisboa, 49-IV-49,fls. 186v-190, publicada no volume 5 "Documentação para a História das Missões do Padroado Português do Oriente", por António da Silva Rego,1951.

2- Nasceu em Montemor-o-Velho, em 1510, onde conheceu a miséria social e política da destruição da Casa de Coimbra. Foi para Lisboa com um tio que o deixou ao serviço de Jorge de Lencastre, duque de Aveiro [casa de Coimbra], filho de João II. Foram 5 anos, 2 dos quais como moço de câmara do próprio duque. Parte para Índia em 1537 para encontrar os dois irmãos embarcados na rota do Gama. Foi aprisionado em 1538 no Mar Vermelho pelos otomanos, sendo vendido a um grego, que o vendeu a um judeu a caminho de Ormuz, onde viria a ser resgatado. Esteve em Malaca com Pedro de Faria e a partir daí, por 21 anos, peregrinou por Birmânia, Sião, Molucas, China, Japão, Sunda, etc., até que conheceu o jesuíta basco Francisco Xavier que o fez entrar para a companhia e executar tarefas no Ji-pangu [Japão], onde ajudou, física e financeiramente, a construir a primeira capela cristã. Em 1554 conhece o vice-rei Afonso de Noronha, embaixador luso na corte do rei Bungo, mas o trato comercial e diplomático desencantou-o de tal maneira que resolver abandonar os caminhos jesuíticos.
Com a ajuda de Francisco Barreto, ex-governador da Índia, conseguiu documentos comprovativos das suas ações em favor de Portugal, o que lhe valeu uma tença no papel, não em dinheiro. Descrente de tudo, mas com algum dinheiro, resolveu não voltar para Montemor-o-Velho e comprou uma quinta, em Almada, do outro lado do Tejo, onde escreveu, de 1570 a 78, a obra “Peregrinaçam”, publicada 20 anos após a sua morte e com alterações às quais não foram alheios os inquisidores jesuítas [BARCELLOS, 1995].

3-   “[...] que havia vivido mais de vinte anos no Extremo Oriente em longínquas actividades de comércio e de corso (sobretudo acompanhando o corsário António de Faria, também natural, como ele, de Montemor-o-Velho)” [MARQUES, 2002], e ali vivenciou as fontes que viriam a ser a base para o livro “Peregrinaçam” [... ], redigido cerca de 1580. Fernão Mendes Pinto e os seus companheiros, entre eles Diogo Zeimoto, que possuía uma espingarda para caçar... Quando o governador da região soube da espingarda chamou-os ao palácio, deu-lhes roupas e outros mimos, e logo eles retribuíram com a oferta da espingarda. Em pouco tempo, os orientais copiaram e reproduziram a arma de fogo. Esse momento divide o Japão arcaico, mas não inculto, do Japão ocidentalizado [MACEDO, 1975].

4- Wenceslau [José de Sousa] de Moraes nasceu em Lisboa, a 30 de Maio de 1854, e tornou-se militar, diplomata e escritor. Foi imediato da Capitania do Porto de Macau e professor do Liceu local; mais tarde, como cônsul, foi para o Japão [Kobe e Osaka] onde veio a falecer em 1 de Julho de 1929, em sua casa de Tokushima, após intensa atividade jornalística e literária. Títulos da sua Obra lítero-jornalística: Traços do Extremo Oriente; Dai-Nippon; Cartas do Japão; O culto do chã; Paisagens da China e do Japão; A vida japonesa; O Bon-Odori em Tokushima; Ko-Haru; Ó-Yoné e Ko-Haru; Relance da história do Japão; Os serões no Japão e Relance da alma japonesa.

 

 

 

 
 
Bibliografia

 

A NARRATIVA DE MENDES PINTO CALA A ARISTOCRACIA IMPERIAL PORTUGUESA E DÁ VOZ AO POVO – João Barcellos. Palestra. Praça Japonesa, Cotia/SP, Brasil-1995.

AO ORIENTE COM UMA ESPINGARDA... – J. C. Macedo. Palestra. Coimbra, Portugal-1975.

CONTRADIÇÕES DOS COSTUMES ENTRE A GENTE DA EUROPA E A PROVINCIA DO JAPÃO. Carta. Luís de Frós ]SJ], 1585.

ENTRE PORTUGAL, O ORIENTE E COTIA... – João Barcellos. Palestra. Faculdades Europan. Cotia/SP, Brasil-2006.

FERNÃO MENDES PINTO – Alfredo Pinheiro Marques. Centro de Estudos do Mar e das Navegações & Câmara Municipal de Montemor-o-Velho, Portugal – 2002. 

HISTÓRIA DA CIDADE DE NAGASAKI. Tokihide Nagayama. Ensaio. Tokyo, 1929.

HISTÓRIA DO JAPÃO – Luis Fróis.

MITO-HISTÓRIA & ÉPICA – João Barcellos, Manuel Reis, Alfredo P. Marques, e outros. Portugal/Brasil, 2005.

PORTUGAL E A NIPO-BRASILIDADE – João Barcellos. Palestra. Rio de Janeiro, Brasil, 1989.

TEPPO-KI – [Crônica da Espingarda]. Texto japonês do Séc. XVII.

1421: THE YEAR CHINA DISCOVERED THE WORLD – Gavin Menzies. Transworld Publishers, 2002.

 

 

BARCELLOS, João

Escritor, jornalista e consultor cultural.

Autor de vários livros sobre Cotia e a História do Brasil.

Membro da Associação Nacional de Escritores [Brasília/DF]
E da União Brasileira de Escritores [UBE/SP]

joaobarcellos@terra.com.br

 

 

 

COOPERATIVA AGRICOLA COTIA
FUNDADORES

 

Seiki Murakami, Masuji Yano, Kenkiti Simomoto,
Teruki Mori, Komato Kenshima, Hiromi Mizobuti,
Moiti Motuoka, Seigan Kitagawa, Kimitoshi Tikami,
Masagoiti Mitutani, Tatuo Baba, Tokie Nakano,
Guenzo Kayano, Masahati Matuoka,
Masadi Matuoka, Yoshiharu Nomura, Kumitaro Ori,
Hiroshi Mariya,  Nasami Yano, Matasabro Muronaga,
Katuki Nishimura, Kasaku Eguti, Hatuji Miyasaki,
Takei Satomi, Tackechiyo Satomi, Kurakiti Morita,
Umaji Hirota, , Kameiti Yamashita, Wasabro Hirota,
Harema Inoue, Magosaemon Takahashi, Mititaro Hirota,
Haruo Kasahara, Itimatu Akeda, Sanae Ueta,
Yosojiro Yasui, Sumie Tanaka, Ekiti Kasegawa,
Nitaro Nkamura, Rinji Ueno, Kitifei Miazaki,
Kikujiro Mimoto, Toshiharu Nishimura, Tosaku Iarashi,
Katuyoshi Matuoka, Kusuji Ishida, Susumu Uemura,
Guinosuke Tadokoro, Shimakiti Tadokoro, Yoshizo Kuzaka,
Kingo Konishi, Shigesi Takahashi, Nobushigue Yamanaka,
Massayoshi Okada, Kenkiti Tadokoro, Kameji Satomi,
Kiyosi Ando, Jiro Yoshida, Wataru Tikasawa, Tokiji Okada,
Manijiro Kinoshita, Yoshiti Katata, Haruzo Fujisawa,
Riojiro Okuda,  Katugo Ori, Guenki Okatsu, Kumaki Nakao,
Noboro Katayama, Yoshikiyo Yoshimoto, Bunjiro Nakao,
Kinosuke Ueta, Sasumu Yoshimoto, Nisaku Horita,

Kisaburo Yasumura, Taiji Maeda e Kyuma Nishimura.