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J. C. Macedo
ORAÇÃO
para a
LIBERDADE
Novela De Uma Vida Feita De Infernos
Para Gerar Um Paraíso Artificial
“O mundo que vivenciamos é, pela violência animal
nata na pessoa humana, um inferno, e aliviar cada
pessoa de tal circunstância é produzir, em atos
individuais ou coletivos, um paraíso quase inatingível.
Algumas pessoas acham-se mártires e mais próximas
de um deus quando exterminam outras.”
MACEDO, J. C. – Buenos Aires, Arg. / 1988.
Livro 1
Abertura
O comerciante alonga o olhar para se certificar de algo, ou de alguém, no início da rua. Atrás de si, um velho relógio de cuco anuncia musicalmente as 18h de um fim de tarde outonal que esfria rapidamente.
Na ampla janela do escritório, ricamente mobiliado com peças construídas com madeira do Brasil, ele murmura: – E lá vem ele, mais pontual que o tal relógio da Torre de Londres...
– Senhor doutor...
Alguns anos antes, já um comerciante de bons cabedais e assediado pelos políticos influentes da cidade do Porto, ele queria ficar só na empresa: preciso livrar-me do Augusto, ou nunca vou ter o direito de fazer o que quero, dizia para os seus botões.
Corria o ano 1966. A primeira importação de produtos agrícolas do Brasil correra muito bem e o faturamento foi superior ao esperado. – Os portugueses adoram o Brasil e consomem os produtos de lá como se tivessem sido produzidos pelas suas próprias mãos. Não entendo... – dizia para Augusto. E este, que além de comerciante era ainda professor de história, à noite, deu-lhe uma lição, certa vez: – Olha, ó Armandinho, os portugueses não adoram o Brasil, o que os portugueses sentem até hoje é uma sensação de posse, até por que os jesuítas conseguiram aniquilar o tupi-guarani e impor a nossa língua, e tudo passou a ter uma proximidade quase poética levando a auto-estima portuguesa a nunca se divorciar daquele Brasil colonizado.
Armandinho ouviu com toda a atenção a explicação do amigo e sócio e professor.
Tinha por ele um grande apreço e não faltava nunca ao almoço de domingo, que Conceição, a esposa dele, preparava com tanto esmero. Sim, todo o santo domingo Augusto e Conceição recebiam Armandinho na pequena quinta à margem do Rio Douro, já quase na foz, com os armazéns do vinho do Porto no outro lado da margem que é Gaia, “a adoçarem os desejos”, como ela gostava de dizer. E ele, Armandinho, recebia aquela expressão, sempre dirigida a ele, como algo mais que ela queria dizer. No domingo de Páscoa de 66, enquanto Augusto foi buscar mais uma garrafa de vinho da casa, que o casal pisava as uvas da quinta ali mesmo e enchia cerca de uma centena de garrafas anualmente, ele disse algo em que realmente não havia pensado, mas disse: – Tu, minha querida, tu é que me dás água na boca... – e ficou quase paralisado ao perceber que dissera. Ela olhou-o, perplexa, mas não abriu a boca. Estavam muito próximos. Conceição tomou o último gole de vinho tinto que estava no seu copo, e ao levantar-se fez uma mão acarinhar o cabelo dele. Continuou calada. Para ele, o mundo acabara de ganhar todas as cores do arco-íris e o calor que exalava daquele corpo de mulher que, em cada gesto, parecia bailar entre as estrelas.
E para quê palavras? A carícia dela disse tudo. E o resto começou a ser dito nas furtivas passagens dele pelo leito dela, sempre no meio da noite, enquanto Augusto lecionava.
Livrar-se de Augusto passou a ser uma missão. E não era só ele. Também ela: – Já não consigo ser a mesma com Augusto – segredou em seu peito.
No caso dela a problemática vinha de longe: Atravessei-me no romance de Augusto com aquela mulher, que a família dele não queria, e agora percebo que agi errada. Ela era mais velha do que ele, era, mas ele gostava dela, e sei que nunca fez amor comigo como fazia com ela: ele sentia-se explodir só pela proximidade dessa mulher, e tremia de paixão. Comigo foi sempre o marido, embora, sempre o bom marido. A família arranjou as coisas para ele se interessar por uma filha de família com posses, bonita e ingênua. E lá fui eu para o altar, virgem de branco... e depois de vermelho, que o sangue da vez primeira jorrou abundante na arremetida furiosa de um macho enlouquecido por estar a tirar ´os três´ a uma mulher que ele não escolhera. Eh, mas tinha que provar a si mesmo que era macho o suficiente para me possuir como prostituta e esposa. Na manhã seguinte, enquanto ele pescava na beira do mar, eu quis ir embora, livre e independente, mas isso não era só eu querer... e tornei-me a esposa bondosa que apóia o empresário, de dia, e o professor, de noite. Por uma carta que li, sem ele saber, uma semana depois da lua de mel, soube que “namorar contigo e estar dentro de ti, por trás e pela frente, e muito especialmente contigo de joelhos diante de mim, é viver o céu que nenhum deus poderia oferecer-me”. E a minha ação em casa tornou-se mecânica, pois, sabia que nunca seria para ele o que ela foi. Não que eu não pudesse fazer o que dizia a carta, gostaria, e muito, mas ele só diria ´meu amor´ por compaixão. Cozinhar para ele e os amigos, principalmente nos finais de semana, passou a ser uma terapia para mim. A família quis que a filha única casasse com “um homem decente, respeitado socialmente”, e eu casei... dei ´os três´ e uma quinta altamente produtiva como dote. A outra? Ah, nunca mais ouvi falar dessa mulher, e acho que saiu do Porto. Um belo dia, aliás, num daqueles domingos com almoço caprichado, percebi que gostava muito de cozinhar e de servir o amigo e sócio dele, e que na proximidade dele ficava excitada a tal ponto de ter que ir para o quarto e satisfazer-me, a enfiar a mão entre as coxas. E, ao ouvir aquele “tu é que me dás água na boca...”, sentiu-se subitamente sem chão e com a calcinha cada vez mais úmida. Não conseguia articular uma palavra. A abrir a boca seria para gritar de prazer, tão amplo foi o orgasmo que a abalou. Preferiu levantar da mesa, devagar, muito devagar, e passar a mão nos cabelos dele imperceptivelmente. Ao passar a porta da sala correu para o quarto, fechou a porta e encostou-se nela; ambas as mãos enfiaram-se na calcinha após puxarem a saia. Os cabelos negros brilhavam, a pela das pernas estava avermelhada como se tivesse acabado de fazer uma corrida, e um par de olhos cor de amêndoa sorriam de espanto e de prazer. Conceição parecia ter sido inundada por uma maresia violentamente amorosa. Uma bela mulher no auge de um prazer que poucos homens têm o privilégio de ver e sentir. Mas, dias mais tarde, quando contou a Armandinho o que havia acontecido ele quis reviver esse momento, ali mesmo onde estavam, em cima de uma das mesas do escritório, em plena hora de almoço... com todos os talheres e um... Ai, como é bom!
O amigo mais íntimo de Armandinho era o pároco Zezinho. Foi com Zezinho que aprendeu as primeiras letras e depois recebeu dele o apoio financeiro para cursar o 2º Grau de contabilidade e, dele ainda, a indicação para o primeiro negócio com frutas e legumes. E o primeiro lucro. E, em seguida, a sociedade com Augusto, que lhe permitiu ir mais longe...
E quando desembarcou no Rio de Janeiro, em pleno dilúvio, na segunda semana de 1966, soube de um produto tropical cada vez mais em moda: – Na verdade, cara, é um óleo especial – como lhe dissera depois o filho de um produtor do interior da Bahia. – Sim, mas, óleo aplicado aonde? – quis saber. – O óleo da mamona é uma coqueluche na indústria cosmética brasileira, cara, e já tem até farmacêuticas muito interessadas em mais subprodutos – ouviu.
No dia seguinte, em meio ao caos provocado pela chuva do verão tropical, observou o noticiário televisionado ao vivo: – E são já mais de 100 mortes registradas no Rio, além de incalculável prejuízo material. A cidade está parada há dois dias... – dizia um repórter, com a água pluvial passando pelos joelhos numa das avenidas centrais da capital carioca. Armandinho nunca vira uma catástrofe de tamanha proporção. – O mundo vai desabar no Rio. Aqui, no Brasil, tudo é grandiosamente continental, até a chuva... – disse para o garçon que lhe servia o café da manhã. Hum, será que falamos a mesma língua? Para nós é pequeno almoço e para eles é café da manhã, ou café colonial. E ainda falam... colonial. Saudades?!, pensou. – Senhor, este senhor chegou para lhe falar... – avisou o garçon, dando logo passagem ao visitante.
– Bom dia!
Ele olhou-o. Havia algo errado. O filho do ruralista bahiano disse-lhe que o técnico especialista em mamona “é negro e chama-se Pedro”. – Desculpe, senhor...
– Everton dos Santos, ao seu dispor.
– É que... bem, disseram-me que iria conversar com uma pessoa negra...
Moreno, alto, quarentão, Everton sorriu. – Tivemos que mudar de plano. O senhor está em um hotel de alta categoria turística, e a presença de negros, mesmo sendo artistas ou empresários de sucesso, não é ainda bem vista...
– Ah, então é por isso que chamam o nosso pequeno almoço de café colonial. Isso é bom para o ego dos saudosistas portugueses e, é claro, para o da elite brasileira. Folgo em saber que estamos do mesmo lado. Mas, deixemos a sociologia, que o nosso tempo é precioso... – disse Armandinho, que se apressou ao ver que a sua carnavalesca acompanhante acabara de entrar no hotel. Foi ela que o foi buscar no aeroporto e, logo ali, deu asas à imaginação. Viu-a dirigir-se para uma pequena sala de espera e sorriu. – Ah, o seu nome é ´w´ ou é com ´v´?
– É com ´v´, senhor. Erro no registro cartorial que se repetiu no assentamento após o batizado na igreja. Aqui é habitual batizar com nomes estrangeiros e estrangeirados, não existe uma defesa cultural da língua portuguesa.
– Ah!
– Bom, meu caro Everton, sente-se e tome o café da manhã comigo. Diga-me: como conseguiu chegar até aqui no meio da destruição e dos alagamentos que pararam a cidade?
Evertou sentou-se e o garçon, atento, aproximou-se para os serviços adequados. – Na verdade, senhor...
– Pode chamar-me de Armandinho.
– Obrigado, senhor... Armandinho. O meu caminho é o mesmo que fez do aeroporto até aqui, Copacabana. Mesmo com os atalhos foram 2 horas de jipe. E vim com Aninha, a mesma moça simpática que o foi buscar. Ela conhece o Rio como ninguém.
Tomou dois goles de café e comeu um pedaço de presunto com queijo mineiro, enquanto Armandinho se deliciava com pedaços de mamão.
– E sobre a mamona?
– É por isso que estou aqui – sorriu Everton. – Esse óleo é do tipo vegetal, obtido a partir da prensagem das sementes. É rico em ácidos graxos e agora é popular na cosmética por agir como umidificante, quer dizer, é uma substância que, após aplicada, chama a si própria a umidade que encontra.
– Isso quer dizer que pode ser amplamente utilizado para fabricação de produtos de beleza?
– Sim, sabonetes e cosméticos, em geral. Já está a ser aplicado na pele para evitar o envelhecimento precoce na prevenção de rugas.
O que lhe soou como sininhos celestiais badalados por ternos e luzidios cifrões.
Instalado num hotel em Copacabana, defronte para a bela baía da Guanabara, e após um final de tarde nos braços de Aninha, a morena de curvas que cativam, pois, português não é de ferro, como pensou quando a conheceu no aeroporto, Armandinho conseguiu finalmente uma ligação telefônica com o Porto.
– Estás sentado, ó Augusto? – e ouvindo uma risada do outro lado do mundo, uma risada de quem adivinhou estar o sócio entre exóticas ninfas, disse: – Acabo de fazer o negócio do século. Escuta: é uma semente de mamona que interessa para produtos farmacêuticos e cosméticos, porque o óleo tem propriedades especiais. É um negócio e tanto. E além do cacau que também passamos a importar do Brasil, vamos comercializar esse óleo em Portugal com a abertura de uma nova empresa, e passamos a ser um grupo empresarial...!
Ouviu outra risada de Augusto. – Pensei que estivesses ilhado, pois, aqui só se fala nas mortes, deslizamentos e enchentes do Rio de Janeiro. Bom, ó pá, esse óleo de mamona é conhecido desde os tempos da Cleópatra...
– Ei, tu és professor, mas não exagera...
– Ai, ah, ah..., é que o óleo de mamona é o mesmo que óleo de rícino. Nunca bebeste um gole quando eras puto? É aquela coisa amarga que se bebe para acalmar o intestino, às vezes.
– Não liguei uma coisa à outra!
– É chamado de ácido graxo ricinoléico. Bom, mas a tua idéia é brilhante, porque em Portugal a aplicação desse óleo na cosmética é ainda insignificante.
Empreendedor, logo que retornou à empresa, Armandinho providenciou a papelada necessária à brutal burocracia portuguesa que, pelo que viu no Rio, ficou como legado também para os brasileiros; em apenas dois meses havia conseguido um lucro fabuloso só com a indústria de cosméticos. Em uma das reuniões de trabalho e diante de tanto dinheiro, Augusto ficou inquieto – O óleo de mamona é um diamante líquido! – observou, mas... – Há impostos que não estamos a pagar, e esta fortuna que amealhamos pode, de repente, virar nada... – concluiu. Armandinho, divertidíssimo, soltou uma estrondosa gargalhada enquanto lhe estendia papéis do advogado e do contabilista. – Olha aí, pá, e deixa de ser tão medroso com o fisco. Pagamos caro a advogado e contabilista para estarmos em paz e ganharmos cada vez mais. Quem foge aos impostos são os gajos brasileiros, mas isso é um problema do Brasil, porque nós pagamos o produto na fonte o que nos facilita, e muito, a vida e o relacionamento com o fisco.
O lucro dos dois era bom e, obviamente, dividido com as necessidades eternas de reforma na capela e anexos sobre a qual Zezinho deixava-os informados a cada final de mês.
– Preciso saber tudo acerca do Augusto – disse Armandinho, um dia, quando chamou o padre ao escritório.
– Tudo?! – estranhou Zezinho.
– Não vou mentir para ti, Zezinho. Enquanto ele dá aulas à noite eu gozo com a mulher dele. Já não agüento mais olhar para a cara dele...
Zezinho não se mostrou muito resistente à idéia de passar informações sigilosas que sabia de Augusto. Conhecera o jovem Augusto num orfanato, praticamente abandonado, sem família, e admirou-se da queda que tinha para estudar coisas históricas, pesquisar. Incentivou o rapaz a fazer um curso prático de gráfico nas oficinas da própria instituição, pois, “o conhecimento da escrita e como ela é impressa ajuda muito a quem gosta de pesquisar”. Ele agarrara a ´deixa´ com unhas e dentes e formou-se para logo encontrar emprego, terminar o 2º Grau e entrar para a Universidade. Do encontro com o padre Zezinho resultou a amizade com Armandinho e este, num momento de aflição financeira, convidou-o para fazer uma sociedade comercial: – Não quero que deixes de ser professor, podes sê-lo à noite, e dedicar-te às pesquisas nos fins de semana, mas preciso de ti pelo menos durante as manhãs no escritório. Sócio é sócio, e tu tens agora 50% do negócio! – ouviu de Armandinho. No mesmo momento, concordaram que pelo que Zezinho havia feito por eles, a paróquia receberia mensalmente uma porcentagem do lucro para as obras assistenciais. Por isso, o padre conhecia os dois como as palmas das próprias mãos. Mas, não informar o meu querido Armandinho das encrencas do sócio, mesmo sob segredo de confessionário, seria um suicídio na minha carreira, pensou.
Acerca de Augusto tinha conhecimento de tudo, pois, ele era diferente de Armandinho, que não se confessava. E o que sabia eram ´bombas´ sociais se tornadas públicas. Uma delas era duplamente ´quente´:
– Sei que ele mete no carro uma professora jovem e bonita, mas casada, e que ele anda também de relações com os comunistas! – disse o padre, de uma forma que não era de angústia, mas de certa revolta.
– Ele come a amiguinha no carro, hein! Mas, vermelho, o Augusto?! Não, não acredito... – murmurou Armandinho com medo das próprias paredes. Vou mandar alguém fotografar as escapadas dele, o que já me basta. Ai, ó Zezinho, tu és um anjo! – e deu-lhe um abraço forte, demorado, retribuído com um afago fraternal na cabeça.
Armandinho não entendeu muito bem aquela expressão de quase ódio na revelação das atividades nada católicas de Augusto, mas, então, não quis entrar em questionamentos como o amigo e mentor.
Entretanto, a expressão “os jesuítas conseguiram aniquilar o tupi e o guarani e impor a nossa língua” soou-lhe como linguagem subversiva, comunista.
Tanto a Igreja como o Governo gostam de manter boas relações de política privada com o Empresariado, e Armandinho era um daqueles empresários que gostava de patrocinar eventos políticos e religiosos, obviamente, sem aparecer em público.
O colaborador inteligente que sabia estar o regime salazarista por um fio, e então, para ele o código era: colaborar, sim, aparecer, não.
Depois da conversa com o padre e de já ter uma coleção de fotografias do romance entre o sócio e a professora casada – uh, e não é que a professorinha é uma lasca..., comentou depois com Zezinho, que lhe impôs respeito na hora –, quis saber como é que a PIDE poderia interpretar aquela frase de Augusto. Mas antes, perguntou-lhe: – Aquela coisa que me contaste sobre os jesuítas no Brasil é parte da matéria que dás lá na escola? – e sentou-se a acender um caríssimo e raro charuto cubano. Augusto, que não gostava das extravagâncias do sócio, entre elas o tabaco caro, disse: – Olha, está até no conteúdo dos exames que eu faço a cada trimestre – abriu um maço de folhas e mostrou para ele, e logo continuou –, ah, e podes ficar com essa cópia, que vai fazer-te bem leres algumas coisas além das revistinhas do padre e dos jornais de futebol.
Armandinho não conseguia entender como Augusto, sócio de uma empresa altamente rentável, ficava apegado a pesquisas escolares e se reduzia ainda mais na administração direta da quintinha que recebeu como brinde por casar com Conceição, embora a propriedade estivesse em nome dela. Para quê tanto dinheiro. Aonde ele gasta o que ganha?, perguntava-se. Tem tudo do melhor que há em casa, e até um pequeno escritório com máquina para telegrafar no contato com pesquisadores de fora do país. Coisas que são muito caras, mas mesmo assim uma ninharia se comparado com a parte dos lucros que recebia da empresa. E nem viajam... Conceição virou escrava do lar para atender o maridinho que, nos sábados e domingos de manhã sai cedo para a beira-mar e pesca, na maioria das vezes, sargaço. Poderia ao menos comprar um barco. Ai, mas quão inútil é este meu sócio, costumava desabafar em conversas com outros empresários. E ainda dá uma de beato, vai ao confessionário, mas não assiste a missa alguma, e claro, a sua missa é sempre uma esmola bem gorda depois que deposita nos ouvidos de Zezinho os segredos de cidadão mais ou menos bem comportado.
– Olá, meu bom Armandinho.
– Ah, senhor inspetor – o comerciante cumprimentou o inspetor da Polícia Internacional para a Defesa do Estado, vulgo, PIDE, e indicou-lhe uma cadeira almofadada junto de uma mesinha de centro, onde estava um bule com café e chávenas de porcelana dita ´casca da China´ –, queira desculpar-me por tê-lo chamado aqui quando eu mesmo sei como é ocupado o seu tempo na caça a essa maluqueira vermelha.
– É verdade – assentiu o inspetor. Um homem baixo, de cabelos castanhos cortados no estilo castrense, olhos pequenos, sagazes, e mais para o falso gordo do que propriamente gordo. Parecia ser daqueles que levam a sério o exercício físico diário. – Parece que essa gentalha vermelha multiplica-se a cada dia. As prisões e as mortes não intimidam quem come criancinhas no café da manhã, como os comunas, não é verdade?! Nem a crucificação do general sem medo faz essa gentalha ficar quieta, parece que gostam de mártires...
– Ai – quase suspira Armandinho a mostrar que está a par das insinuações do ´pide´ –, nem me fale desse 13 de Fevereiro, que uma amiga minha brasileira (ai... gostosa, gostosa, como eles dizem por lá), mata-me por causa da Arajaryr, a secretária do Delgado...
– É, realmente 1965 vai ficar na história luso-brasileira. E elas eram o quê? Amigas?
– Foram colegas na escola, mas só isso. Se tivesse havido algo mais eu já saberia. Mas a rede de contatos do general no Brasil era vasta, mas parte da nossa gente que vive lá faz parte da política sacrossanta de Salazar, é gente boa, de raça. E por falar na Naná... – e ele explica –, bem, Naná é a tal amiga que tenho em Niterói, ela deu-me a ler um panfleto (espere um pouco, acho que tenho um aqui) – abre a gaveta central da escrivaninha e pega um papel dobrado – que tem a resposta do Delgado a um correspondente da France Press, feita em 58, no Café Chave d´Ouro... hummmm, “Qual a sua atitude para com o Sr. Presidente do Conselho se for eleito?", e logo a resposta: "Obviamente, demito-o". E sabe quem deu o papel para Naná? A amiguinha que era secretária do tal general sem medo... Ou seja, essa Arajaryr era mais do que secretária, era a oficial de contatos entre Portugal, Argel e Brasil, e por isso é que ela estava no carro com o Delgado, e isso nem vocês poderiam ter imaginado. Ora, senhor inspetor, veja como as coisas da política andam de mão em mão lá no Brasil, porque aqui eu nunca soube de panfleto igual! Ai..., será que sobrou alguma cal viva e algum ácido sulfúrico lá de Villanueva del Fresno para barrar nas fuças dessa gentalha comunista?!
O ´pide´ pigarreou e sorriu, algo embaraçado. – Sabe, a nossa consciência coletiva católica é mais forte do que o comunismo, porque somos a pessoa em si entre hierarquias que podem e fazem, e no entanto, o que é a Rússia comunista senão um antro de indivíduos pagãos que se matam por uma migalha de poder atrás de uma bandeira com a foice e o martelo?... O povo de lá é como o daqui: nem sente o cheiro do poder, e quando chega próximo é chacinado. O poder é para pouca gente privilegiada, e no caso do Humberto Delgado tínhamos mais um da elite militar a querer beliscar o doce sabor do poder que deus dá a poucos. E amém... – encerrou o assunto sem alterar a voz. Deu uma olhada no escritório e dirigiu-se ao empresário: – Mas, meu bom Armandinho, a que vim eu?
– Leia!
Mais alto que o inspetor, magro, vestindo impecavelmente um terno de costureiro conhecido, o farto bigode farto, do tipo ´tripeiro´, sob um olhar verde escuro e penetrante, Armandinho entregou-lhe o maço de folhas com os questionários escolares feito por Augusto, e apontou uma parte específica...
– ... mas, mas isto é comunismo puro!
– O senhor acha? O autor é um professor de história que o senhor conhece muito bem: o meu sócio Augusto.
– Desculpe-me, meu bom Armandinho, mas nós já tínhamos umas desconfianças em relação a ele, e até por sair com alunas e professoras, mas não quisemos incomodar o amigo com coisas que são do seu sócio... e amigo.
Armandinho ficou realmente estupefato. E, quase a tremer, balbuciou: – Não entendi? Desconfiavam que ele é... comunista?!
– Isso mesmo.
– Mas, nunca percebi...
– Lembra do avião que despejou panfletos comunistas contra nós, em Lisboa, e depois foi levado para aeroporto árabe?
– Sim – disse, cada vez mais incrédulo.
– Ao que nos parece, ele foi um dos patrocinadores dessa ação terrorista contra o bom e sagrado governo do doutor Salazar.
– Oh, meu deus. E agora?
O inspetor deu de ombros, despejou café em duas chávenas e ofereceu uma a Armandinho. – Acho que é hora de termos uma conversinha com o seu sócio... E sabemos que seria muito bom para os seus negócios de produtos brasileiros, e de cama, que ele desaparecesse...
– ...ora, ora, senhor inspetor... – encabulou-se Armandinho debaixo do sorriso malandro e cheio de informações privadas do policial da secreta portuguesa. E nem poderia sequer dizer que não sabia o que queria dizer aquela alusão.
– Até um dia, meu bom Armandinho. Ficou a dever um bom almoço para os meus rapazes, que vão facilitar-lhe a alegria de viver nos braços de uma bela mulher sem temer a reação de um corno perigosamente terrorista!
Nos dias seguintes, não conseguiu dormir. Nem visitou a bela amante, esposa do seu sócio e... amigo. – Não me passem telefonemas pessoais, só casos da empresa! – advertira a secretária, que ficava numa sala após um pequeno corredor. Tinha horror a funcionários próximos ao seu gabinete. O certo é que nem Conceição conseguiu falar com ele. Ainda ontem o Augusto saiu daqui e foi direto para casa, para depois tomar o rumo da escola, pensou. E estava certo...
– ...Armandinho! O ´meu´ Augusto não voltou para casa depois que foi para a escola, ontem. E na escola disseram-me que ele não deu aulas ontem...
Era ela mesma. Conceição não quis saber dos avisos da secretária e passou por ela como um foguete até entrar, sem bater, no escritório. – Eu, eu, avisei-a! – desculpou-se a secretária. – Está tudo certo, pode ir, que eu atendo dona Conceição! – disse ele, sem se alterar. Percebera que aquele ´meu´ Augusto fora um despiste diante da secretária. Conceição atirou-se em seus braços, e logo um prolongado beijo uniu-os de vez.
A recuperar o fôlego, ele questionou: – O que foi, querida?
– O que ouviste: o Augusto não voltou para casa!
A questão para Armandinho não se punha na pessoa de Augusto, pois, ele percebera a situação por outro prisma: Quem colabora com o regime também é investigado e fichado, talvez para que o regime possa solicitar com mais facilidade apoios financeiros para certos eventos políticos e policiais. E eu, colaborador de Salazar e da santa Igreja desde sempre, eu estou nas mãos da polícia política para o bem e para o mal... E tenho que dançar conforme tocar a vitrola dessa gente que eu mesmo meti no meu negócio sob a benção do bom Zezinho. De repente, Armandinho sentiu o pé chamuscado com a notícia do desaparecimento de Augusto.
Conceição não amava Augusto, é certo, mas estava muito longe de querer que algum mal caísse sobre ele. Estava muito preocupada. – E agora? – quis saber, em jeito de pedido de ajuda.
Ele não falou. Sentou-a numa das cadeiras, desta vez como cavalheiro e não como amante esfomeado de sexo. Enquanto isso, percebeu que a secretária acabara de repassar uma ligação:
– Está lá?! – atendeu, e ouviu a voz inconfundivelmente forte e grave do inspetor.
– Não se preocupe com o seu sócio. Ele está preso por terrorismo e pode mandar o advogado desfazer sociedade, porque a confissão dele é total. Ah, meu bom Armandinho, não diga nada à bela esposa dele, e sua amante, que agora está aí. Eu mesmo terei uma conversa com ela mais logo, para deixá-la ciente que o melhor é esquecer Augusto. Até depois, meu bom Armandinho.
Subitamente ele acordou. Recordou a frase “sua amante, que agora está aí”. – Meu deus, eles estão dentro da minha empresa...! – disse, num quase grito, aparvalhado. Bateu com os pés no chão acarpetado ao senti-los chamuscados novamente.
Assustada, Conceição levantou-se e foi até à escrivaninha na qual ele despachava, comercial e sexualmente. – O que foi, meu querido?
– Foi a PIDE – disse. Não se sentou, atirou-se na cadeira.
O que deixou Conceição apavorada, pois, percebera que aquilo tinha a ver com Augusto, também.
E ele continuou, depois de respirar fundo: – A polícia tem espiões na empresa e sabia que Augusto estava metido com terroristas. Ontem, a meio caminho da escola fizeram-no parar e revistaram o carro...
– ...e?!
– Ele transportava panflos de uma organização terrorista para o meio universitário, e um caderno com anotações sobre os discursos do general Delgado. Ah, o inspetor que ligou é um velho amigo nosso, aliviou a ´barra´ do Augusto, que não foi maltratado, mas agora vai ser enfiado numa cela por muito tempo e isolado, sem visitas. O inspetor vai lá, na tua casa, no meio da tarde para te dizer o que deves fazer para não seres chamada a prestar esclarecimentos. E não vais – percebeu o horror que se espalhou no olhar dela –, não vais por que eu não vou deixar! Oh raios!, por que o Augusto esqueceu que tem um filho pequeno?...
As lágrimas de Conceição eram pelo filho, não por Augusto. Ele não merecia, em sua opinião, nem as próprias lágrimas. Começava a deixar de gostar de Augusto.
– Como é que vou tirar o Augusto da memória do meu menino?!
– É como uma reza diária. Psicologia pura. “Teu pai morreu, está no céu, e tu tens a mim, tua mãe, para viver”. E pronto.
E ela riu. Soltou duas gargalhadas. Parecia ter perdido a razão. – E é tão simples assim? Psicologia pura... – ironizou, e soltou mais uma gargalhada.
O outono de 1983 parece carregar mais frio.
A cidade está cinzenta, carrinhos desenhados como locomotivas invadem as ruas e vendem castanhas assadas que aquecem as mãos. É o ritual mais castiço pelo qual se sabe que o Outono chegou ao Porto.
Vê que o rapaz avança pela rua, cumprimenta pessoas conhecidas, e às vezes fica um pouco na conversa, mas logo continua a sua caminhada diária, pontualmente às 18h. Junto de uma locomotiva compra um saquinho de castanhas e lá vai, como que em trilhos a ganhar a vida. Ele tem barba comprida, que se parece com a de jovens rabinos, cabelos longos que se soltam de uma boina do tipo basco.
– Eis a causa da minha perdição... – murmura o comerciante já a vê-lo afastar-se do seu horizonte de observação.
– Senhor doutor... – repete a secretária.
Ele está absorvido pelos pensamentos e com a imagem do rapaz que, agora, é apenas uma visão.
– Senhor doutor...
Ele percebe que alguém o chama. Vira-se um pouco, vê a secretária, e deixa a janela para se sentar junto da escrivaninha.
– O senhor está bem, doutor?
Não responde logo e ela inquieta-se. – Estou bem, muito bem. Por que veio até aqui sem ser chamada?!
– Um senhor está na minha sala, depois de entrar pelos fundos, e disse que o mandou chamar...
– Ah, sim. Mande-o entrar. Depois, ele sai por onde entrou.
– Sim, doutor. Ah, a sua passagem já está disponível! – avisa.
– Sim, e não se esqueça de aprontar as passagens (aahhh, para daqui a uma semana)... do advogado, do contabilista e respectivas esposas, quero agraciá-los com uma recepção colonial no meu solar de Niterói.
Em menos de um minuto a secretária introduziu no gabinete um homem de meia estatura, entre 25 e 28 anos, magro e barbudo, de aspecto bem rude, com uma boina entre as mãos. – Qual é o serviço desta vez, doutor?
Armandinho não o convidou para sentar e expõe assim mesmo, com uma distância conveniente entre ambos, o serviço que ele tem a fazer. – E tens 20 minutos para isso. Ou seja: 20 minutos para ganhares um bom maço de notas e férias pagas de 3 meses na Espanha, para melhorares o teu espanhol!, e depois, uma vida inteira na Argentina, já que gostas tanto de tango..., e lá serás el proxeneta importado!
– Deixe comigo, doutor.
Livro 2
Parte 1
Sabemos pelas entranhas
Que mostramos a nós
O quão precário é o ser.
E lá entre os muitos nós
Percebemo-nos almas passadas.
Após lavar o piso de tacos e encerar, ele encosta-se na parede, do lado de fora, puxa um envelope meio amassado de um bolso traseiro e tira duas folhas. Desdobra-as com muito carinho e leva-as para perto do nariz. Fecha os olhos ao sentir a fragrância que ainda exala da carta depois de lida inúmeras vezes. – Como eu amo tanto a minha Luiza! – suspira, deleitado.
Busca uma parte da carta na segunda folha e lê em voz baixa: “...e sei que tu vais voltar logo. A tua inocência vai ser provada nas fuças desta sociedade hipócrita que só faz justiça para proteger a imoralidade dos políticos e da corja da alta finança, e pressinto que falta pouco, Trip. Continuo a dar aulas para as crianças e a juntar o dinheirinho para comprarmos a nossa casinha, cuja única riqueza seremos nós. E olha, meu Trip: já estou de 8 meses, mas não vou parar de dar aulas, não. Quero que o nosso filho, ou filha, saiba que tem uma mãe guerreira e um pai muito amoroso que, logo-logo, vai estar aqui para nos abraçar. Esta semana estou a reler o livro O Crime do Padre Amaro, que ele é bem a cara da nossa sociedade. Olha, e escrevi mais um conto policial com base nas peripécias que contaste quando nos encontramos aí; o editor do jornal da região vai publicá-lo na edição da próxima semana. Estou a ficar famosa, meu Trip amado...”. Os seus olhos sorriem. É um “Trip amado” e embaraçado com os próprios sentimentos que escuta:
– Huummm... Trip?!
Como que a acordar de um longo sono e de um sonho relatado em surdina, o Tripeiro encontra alguém sorridente na sua frente. Atrapalha-se todo e diz: – Ei, Olho d´Águia, por favor, não sabia que estava a ler tão alto. Por favor, ó pá, nada de espalhar a forma como sou tratado pela minha Luiza, ou vou ser o palhaço do pedaço.
– Não fica preocupado comigo, mas toma cuidado com a leitura tão pública de cartas amorosas. Estás maluco, pá?! Ei – fica de olho numa revista. – Ei, às vezes eu escrevo nessa revista acerca de questões culturais, e também poesia!
– Bah, por isso essa tua cara não me era estranha... ó Alex! E só agora relaciono o nome com a pessoa, porque só te conhecia pelo retrato desenhado que acompanha o teu material...
– Mas, tu trabalhas a capar gado, ou numa editora?! – espanta-se Olho d´Águia.
– Ora, pá. Tenho que ganhar dinheiro para pôr o pão na mesa, não pode ser só a Luisa. E editar a revistinha anarca tem um custo que só suporto com a ajuda de quem escreve.
Olho d´Águia dá uma palmada nas costas dele e deixa o local, na calma que o caracteriza. – E aquele chá que ias trazer?
– Realmente, pá... vou buscar lá na cozinha.
O outro tira um minúsculo tabuleiro de xadrez do bolso da jaqueta e faz mais uma jogada. É a mais solitária das pessoas que aqui fazem uma vida dupla, pois, são ao mesmo tempo parte da sociedade e nada para ela. O que mais dói a Alex é não poder continuar os diálogos socioculturais e escrever com liberdade de ação, e imagina o que é para o outro olhar para a revista e perceber a impotência que o niilismo desencadeia.
As portas de cada residência individual estão abertas. Neste setor do estabelecimento há pessoas que caminham pelos corredores e outras que jogam cartas ou xadrez. É uma rotina diária sem poucos acontecimentos relevantes que a cortem, além dos sentimentos de frustração que ganham expressões diferentes ocasionalmente. Da mesma maneira que os sistemas políticos e religiosos educam para o individualismo institucionalizado, o sistema prisional funciona como espelho radical dessa ação que provoca, física e mentalmente, o lento genocídio da própria comunidade – e, em cada pessoa encarcerada, por razões óbvias ou não, a náusea não está no vômito, mas na expressão vítrea do olhar que se propaga como mortalha. O individualismo é exacerbado aqui até às últimas conseqüências por um Eu que apenas tem diante de si um Tu cético, mas ainda assim capaz de uma solidariedade que as instituições não são capazes gerar. Aqui, cada pessoa desconhece a outra. Solução para a ignorância? Sim, a violência como escape, que faz da vida o antro da morte anunciada.
– Aiiiii, meu Jesus!
Quem caminha nos corredores deixa de caminhar, quem joga cartas ou xadrez levanta a cabeça. Como que reveladas a algo estranho, as almas congelam num primeiro instante, mas logo reagem para a percepção da bizarrice que acaba de lhes chacoalhar a quietude.
– Aiiiii, ai! – Quem grita é o Tripeiro, que descera para se dirigir a outro pavilhão. As suas mãos cortam o ar com gestos rápidos a pedir socorro.
– A coisa é brava, pá – observa um cigano de meia idade num linguajar entre o português e o castelhano, ou, como se diz na gíria da malandrice, uma lábia de quem não sabe o que é, mas faz o que pode para não ficar de fora. Debruçado no parapeito do primeiro andar, ele atira, irônico: – Fala aí, ó Tripeiro, quem quis comer o teu couro?!
– Estupor de velho cigano... – resmunga, irado. – É o gajo árabe, ele cortou-se e está no meio de uma poça de sangue!
– Uh, fica em paz, ó Tripeiro, que Allah vai cuidar dele, e se não cuidar, os cristãos daqui vão fazê-lo com aquele esmero bárbaro de sempre com direito a sinal da cruz e tudo...!
Vale de Judeus, 1984.
17h30
– Que acontece aqui?!
– Ora, sô guarda, é o árabe. Ele estava a rezar na língua dele e de repente, pimba!, o gajo apareceu a gemer deitado no chão com sangue a sair pelas mãos.
O guarda faz sinal a um companheiro que se aproxima do local e diz: – Vai buscar o enfermeiro, pois, o Rachid resolveu matar-se antes de ser apanhado pelos judeus.
– Bem, neste caso, pelos palestinos do Arafat...
– E é, pá, tens razão. Mas com uns ou com outros vai estar em maus lençóis se escapar desta!... E tu, aí, ó Tripeiro, vem cá ajudar-me a virar o gajo, que ele ainda não é presunto.
Tripeiro é um jovem de 27 anos que ganhou a alcunha não apenas por ter nascido no Porto, mas por trabalhar no abate de gado. Está pensativo. “Ela vai gostar de saber tudo acerca deste caso. A minha Luisa gosta tanto de casos policiais...”. – Ah, sô guarda, o que foi que sô disse aí?
– Ó raios! Estás a capar algum boi na tua imaginação, ó Tripeiro?! Ajuda-me aqui.
Os dois tiram-no da poça de sangue que se formara sobre os tacos que pavimentam o local. – Ahnnnnn... – ouvem-no gemer.
– É só um corte em cada pulso. Daqui a pouco está a dormir com Allah sob a lua crescente e um salmo de ninar do Nidal e uma guitarrada de salsa y merengue do Chacal – ouve-se.
– Ah, és tu, ó Olho d´Águia – exclama o Tripeiro. E continua: – Tu que estás sempre a conversar em inglês com este gajo, diz-me cá o que ele quer com tudo isto?
O outro, o único a descer do primeiro andar para ver o que acontecera, acaricia a barba longa de eremita a filosofar em causa própria, pousa o olhar azul de curiosidade sobre o árabe e sorri, para dizer: – É apenas um pequeno sacrifício a Allah pelo benefício de tê-lo deixado nas mãos da Justiça portuguesa...
– ...Estás a brincar com a gente, Olho d´Águia?! – resmunga o guarda.
– Ah, ah, ah... Vocês são o máximo. O que é que a Justiça tem contra ele? Que matou um palestino numa festa socialista no quase tropical Algarve? Não sabem nem quem ele é, e o mais provável é mandarem-no embora tão logo cumpra a pena por estar ilegalmente em Portugal. Estou enganado?
O guarda percebe que o árabe está apenas tonto pela perda de sangue. – Ei, Rachid, ainda não foi desta!
– Eu ouvi o teu comentário, Olho d´Águia.
Atrás dele está o guarda-enfermeiro. – E estou enganado?
– A tua é uma opinião de quem conhece os meandros desta droga chamada Justiça, e estás certo: o gajo vai ser solto e Portugal livra-se de ter que dar explicações ao mundo... – O guarda-enfermeiro olha em volta e logo acerca-se de Rachid para o socorro adequado.
Parte 2
A paz não cresce no meio do asfalto.
A animalidade que se diz pensante
Tropeça em si mesma.
A cada dia percebe-se mais e mais ignorante
Logo, gera o próprio cadafalso!
Albufeira, região do Algarve.
9 de Abril de 1983.
Acontece um congresso da Internacional Socialista [IS] nas dependências do Hotel Montechoro. O conjunto hoteleiro situa-se na Praia da Oura rodeado por uma natureza exuberante.
Há quase 3 dias na região, Rachid é um jovem que se mistura com facilidade entre os algarvios pela semelhança de perfis, ele na originalidade e os outros na conservação milenar da cultura árabe nesta região do sul português. Acaba de completar 26 anos e está encantado com as belezas locais, mas, não é um turista em busca de sossego ou de aventura.
Dois meses antes, na Síria, o mestre Nidal havia-lhe prometido “os bens mais dourados do céu” pelo sucesso de uma missão. Uma ação a executar em Portugal no meio de uma estrutura de segurança policial aberta para várias manifestações, e “o sucesso depende apenas da coragem e da disciplina com a certeza de termos o Islã como caminho único a trilhar pela recuperação da terra santa para a Palestina, e sermos novamente o braço forte e guerreiro que Saladino ousou levantar pela nossa oração em liberdade”.
Rachid é um entre muitos jovens palestinos que observou como parentes e amigos foram executados em território israelense, confundidos com “terroristas islâmicos”, e jovens de 14 anos simplesmente paralisados: os soldados judeus quebravam os braços de cada um sob a alegação de “não mais atirares pedras contra Israel”. A barbaridade judaica nunca será esquecida pelos jovens palestinos, como a barbaridade nazista nunca será esquecida pelos próprios judeus.
A barbaridade política e militar deixa marcas cruéis, empurra pessoas de paz para situações de limite extremo: a ação de vingança é uma delas. Com o extremismo político entre palestinos e judeus está também o mais profundo e exotérico sentimento do sagrado, cuja “paisagem celestial pode ser alcançada por atos de coragem sob derramamento de sangue no instante do sacrifício”. Cada povo acha-se “o escolhido por deus” e guerreia contra os vizinhos achando ser essa “a vontade de deus”. O velho e popular [paganus] Apolo, no seu Oráculo, em Delfos, alerta, ainda hoje: “Conhece-te a ti mesmo”.
Entretanto, para o jovem Rachid “o conhecimento é estar com a divindade, é fazer a viagem celestial com o sacrifício da própria vida”. Fechar os olhos, premir o gatilho da arma automática ou puxar a espoleta da bomba. E entre um mar de sangue e pedaços de corpos irreconhecíveis tem vez a vingança que a teologia cega e desconhecedora do oráculo de Delfos gera contra si mesma e a humanidade. E às vezes, um único tiro, uma única bala, ou uma única facada, é o suficiente para engendrar uma guerra de proporções mundiais, só porque algumas pessoas da elite religiosa acham ser “a vontade de deus”. Para o jovem que viajou da Síria para Portugal, em nome de uma causa justa, sim, que é a liberdade cidadã para a pessoa palestina, mas com “a missão de mostrar ao mundo que só a violência destrói as distorções ideológicas dos que agem só para acabar com a Palestina e os árabes”. Assim o disse o mestre Nidal, assim faz o discípulo Rachid.
Entre recortes de jornais escritos em inglês, o jovem árabe estuda a geografia de entorno num raio de 1 km a partir do Hotel Montechoro. Os recortes de jornais falam de um caso: no dia 13 de Novembro de 1979, as forças de segurança de Portugal e os serviços secretos de Israel foram incapazes de prever uma ação contra Ephraim Eldar, o embaixador israelense em Lisboa. A ação matou o embaixador e um elemento da Polícia de Segurança Pública [PSP], entre vários feridos. Reivindicado pela Organização Nasserista para a Libertação dos Presos no Egito, o ato mostra a Rachid as possibilidades de sucesso para a sua missão. Na imprensa portuguesa não existem notícias sobre articulações para reformular os esquemas de segurança em torno de personalidades de passagem, ou com presença breve em eventos políticos. A anotação fora feita pelo próprio Nidal, dias antes.
Desde que se conhece por nação e desde logo com ações de espionagem por parte de Afonso Henriques, o rei primeiro, Portugal é um ninho de espiões, uma babel de ideologias onde a traição tem morada certa, embora a recompensa nem sempre chegue ao endereço como combinado. Mas foi durante a insanidade militar e ideológica de todas as partes envolvidas na guerra dos Anos 30 e 40 que as graciosas 7 colinas de Lisboa deram abrigo ao maior contingente de espionagem internacional, e assim o é.
E, o que Mário Soares e seus correligionários poderiam esperar ao agendar para Portugal um encontro das elites da Internacional Socialista com foco na discussão sobre o Médio Oriente...? O jovem sente-se à vontade, mas certo de que terá de agir com a habilidade adquirida nos campos de treinamento para “os enviados de deus”. O sucesso é a sua recompensa. Não está só, é parte de um grupo, mas é ele o eixo de tudo nesta viagem.
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Do outro lado de Portugal um jovem viu-se encurralado. Na sua religiosidade apelou para todos os santos e santas da Igreja católica e romanamente pagã.
– O que eu fiz?
Os elementos da Guarda Nacional Republicana não responderam, algemam e levam-no para o ´jipe´.
Já no posto local da GNR puseram-no a par da “sua” situação: – O senhor Armando Campos denunciou o senhor, Duarte Ribeiro, por estupro da empregada, no quintal de casa.
Em poucos minutos, Armando Campos estava no posto, na periferia do Porto, e entrou na sala onde estava Duarte Ribeiro: – És tu mesmo, bandido. Vais pagar muito caro por isso...! – esbracejou e cuspiu no rosto do detido e algemado. Atônito, sem saber o que dizer, aprisionado na própria ignorância, o detido balbuciou: – Quem é este homem? Do que é que ele me acusa e quem é essa mulher? Essa mulher que eu não conheço?!
Um cabo da força policial riu e atirou: – Tu estupras a empregada de um homem que faz o bem para o povo e tem tantas posses que ajuda até a Igreja, e agora vens a dizer que não sabes nem quem é a empregada dele?! Ora, pois, ó engraçadinho... Vamos lá escrever as belas declarações do elemento. Ah, e dá cá essa boina que isto aqui não é Cuba...
Logo, Duarte Ribeiro foi atirado para o buraco central de uma prisão escura e fria.
Homem honrado, trabalhador, desesperou-se como nunca havia acontecido. As lágrimas rolaram no rosto, rebeldes.
– Eu trabalho, eu estudo, sou cidadão que paga impostos em dia, e amo a minha companheira. O que eu fiz para merecer de vós, meu deus, tamanho castigo?
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É o início da noite, e ainda congressistas espalhados por vários hotéis discutem as propostas do político Mário Soares e da IS sobre as ações de intermediação para dar fim à violência política e religiosa no Oriente Médio.
O político português, que dirige o Partido Socialista, parece ser o ´homem da vez´ nas missões para um diálogo possível entre as partes beligerantes. É o que pensam tanto o embaixador do Iraque como o representante de Yasser Arafat, da OLP, o médico e político Issam Sartawi. Estão nos jardins do hotel e a conversa gira em torno das possibilidades politicamente irreais diante dos massacres que os fundamentalistas religiosos, judeus e árabes, propõem para se defenderem do “tudo ou nada” que têm como bandeira. Para as conclusões da conferência, Sartawi será o primeiro orador amanhã, logo pela manhã.
Percebem que duas pessoas conversam não longe deles num inglês com um sotaque que não lhes é estranho, mas não importância. Sartawi possui uma formação humanista e, apesar de ser um dos fundadores da Organização para Libertação da Palestina [OLP] preza mais o lado político do diálogo: “Sartawi é um moderado”, na linguagem dos extremistas que fazem um jogo duplo com Arafat, o que devem ter aprendido muito bem com este. Só que Sartawi é um moderado convicto no meio de um turbilhão de irrealidades, a começar pelas políticas iraquianas de extermínio. A proximidade com o embaixador do Iraque é notada por quem os observa entre as peças ajardinadas. – O que faz Sartawi ao lado do Iraque? – questionam-se os observadores anônimos. – É só diplomacia de cocktail e petrodolar – resmunga um deles – e amanhã vai discursar como cordeiro que só quer a paz com os judeus, coisa de ocidental que não acredita em deus, mas gosta muito da ganância financeira dos judeus. E amanhã, deus mostrará de que lado está...
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– Ó, senhor Duarte – quase gritou o cabo do outro lado da porta da prisão –, o senhor vai ser encaminhado logo de manhã para Vale de Judeus e lá vai aguardar julgamento.
Porto, 22h15.
Ele não sabia o que dizer a si mesmo, e mais uma vez apelou: “Meu deus, por que me castigas assim?”
Não longe do posto da GNR, uma jovem mulher desesperada, estava em lágrimas: – Mas, o que ele fez para ser preso, se ele só trabalha?!
Para ela, nada do que estava a acontecer com Duarte Ribeiro tinha a ver com o mínimo de razoabilidade. – Ele foi acusado de estupro – ouviu do cabo de plantão na GNR. Correu para lá assim que alguém lhe disse que “a GNR levou-o algemado, como um reles assassino”. Nem viu direito quem lhe deu a informação, apenas correu. A chuva miúda fustigou-lhe o belo rosto, despenteou-a, e ao chegar lá estava encharcada e arfante. E ainda uma bela mulher.
– Como?... Estupro?! Vocês estão loucos... – quase gritou.
Bebeu um gole de água que um soldado lhe oferecera. Pelo semblante dos policiais percebeu que a situação de Duarte Ribeiro não era agradável. Estava preso por estupro e isso é um crime imperdoável, mas... – Vocês dizem-me que isso aconteceu às 19 horas? – questionou. E ouviu um sim dado por uma cabeça que se abana na sua frente. – Preciso encontrar quem o defenda, porque o deus em que acreditamos parece que nos abandonou!
**
O dia 10 amanhece a convidar para uma vida linda, pacífica, um passeio na beira-mar.
E a pacata Praia da Oura convida à caminhada por suas areias douradas, tão finas que parecem pó alquímico levantado pela brisa que abraça suavemente a colina.
Aqui o olhar da pessoa mais esclarecida pode imaginar as antigas bandeiras, formações militares árabes em conquista de mais espaço na Gharb al-Ândalus, as mesmas bandeiras que o rei primeiro Afonso fez recuar para expandir Portugal, mesmo perdendo a Galiza, a região mãe da língua portuguesa. Tudo aqui, que hoje é de um lado o Algarve e do outro o Alentejo, é uma miragem arabesca. Qualquer árabe, aqui, sente-se em casa. Todo e qualquer árabe...
O papa católico João Paulo II, na sua ´regina caeli´, vai dizer que “os evangelhos falam-nos de uma aparição de Jesus a sua Mãe: este inefável mistério de alegria está sob um véu de silêncio místico”.
Toda a colina parece, agora, envolver mistérios de um Portugal que se quer mundano sem levantar o véu das suas necessidades próprias.
Parte 3
A morte esvai-se lenta e entre os dedos
Como o véu que cai como mortalha –
Cósmico destino a abraçar-nos por outra vida.
O instante de cada pessoa é fornalha
D´emoções numa prece de bizarros folguedos.
Apesar de ser Portugal considerado “um país de brandos costumes”, máxima badalada pelos bárbaros policiais da política salazarista durante toda a ditadura fascista, o certo é que as autoridades da política abrilista mobilizaram para o Hotel Montechoro, e os outros utilizados pelos congressistas da IS, uma legião de policiais, fardados e à paisana. Sabe-se que alguns políticos estrangeiros dispensaram guarda-costas.
Para alguns, “o Portugal do pós 25 de Abril de 1974 é uma democracia plena e comandada por políticos moderados, abrilistas ideologicamente decididos”. Mas, todos lembram agora que em 1979 um diplomata israelense foi assassinado por um comando árabe em Lisboa. E o evento levou o pensamento da maioria para outro: nos Anos 60, opositores extremistas de Salazar, mas de ´brandos costumes´..., seqüestraram uma aeronave comercial, despejaram milhares de panflos sobre Lisboa e foram desembarcar em Marrocos, onde celebraram o sucesso do primeiro seqüestro político de aeronaves com Champagne. Por isso, e sem vergonha de se achar num país de ´brandos costumes´, a maioria dos congressistas não dispensou a segurança interna para personalidades. Uma maioria alerta por saber que as questões israelo-palestinas, e árabes em geral, são um barril de pólvora pronto a explodir em qualquer ponto do planeta onde ´interessados´ se reúnam.
É o momento em que o poeta-compositor e cantor Zeca Afonso faz os seus últimos espetáculos, ele, que sofreu com os brandos costumes policialescos da trupe salazarista, e por isso canta “Só olho por olho e dente por dente vale/ À lei assassina, à morte que te matou/ Teu corpo pertence à terra que te abraçou”, para anunciar que A Morte Saiu À Rua, e o fez ainda em 1972, ainda ao alcance das mãos sujas da PIDE. Essa morte que se faz vida e que algumas pessoas teimam em divinizar através de atos que fazem dos assassinos mártires, política e misticamente úteis. Poetas observam o mundo, cantam o mundo, mas sabem que a hipocrisia lhes é barreira ideológica, e são malditos intelectuais na visão dos políticos. Deixem o mundo como está, berram os políticos em seus gabinetes dourados e pagos com a prostituição social que é o tráfico de influências e a compra de acesso eleitoral. E é a estética do Poder instituído, da qual Fernando Pessoa sentiu a mão pesada de ideologia que quer, pode e manda; a mesma estética que, agora, neste efervescente ano 1983, o filósofo Manuel Reis combate ao falar da Socialização do e pelo Cinema, ao celebrar 25 anos de cineclubismo em Guimarães. A morte saiu à rua e na rua continua semeando sangue e ódios benzidos por todos os credos igrejistas. A locomover-se com imensa dificuldade e nem a agüentar já cantar a sua obra completamente, em público, Zeca Afonso vivencia uma esclerose lateral amiotrófica que o mata lentamente, como que uma maldição pidesca-salazarista... A terra já reclama o seu corpo.
Rachid está na área ajardinada do Hotel Montechoro. O resto do grupo está nos arredores.
Calmo, passeia ao sabor da brisa da manhã. Parece levantar um véu a cada passo pela serenidade que apresenta. Quando entra no hotel o faz como qualquer convidado político ou congressista, e fica pelo pátio da entrada depois de passar por dois soldados da GNR ostensivamente alheios à ´fauna´ que por aqui pulula. A manhã está linda e ninguém se negou aos costumes, logo, a manhã deverá ser o que é: uma paisagem imaculada entre a colina e o mar, apesar dos políticos...
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O advogado acabou de saber que “Duarte Ribeiro, denunciado por estuprar a empregada do senhor Armando, que foi alertado por uma vizinha que passava e viu tudo o que se passou no quintal da casa do dito senhor, dizendo parecer ver o tal Duarte, ah..., e o dito cujo já está em Vale de Judeus”.
Ele agitou-se na cadeira finamente estofada e encarou a jovem senhora que o tirou da cama em pleno sábado.
– Ele já foi transferido para Vale de Judeus.
– Como?! – Ela não quis acreditar. – Alto lá, doutor. Eu e ele não somos casados, mas é a mesma coisa quando duas pessoas resolvem compartilhar a vida sob o mesmo teto. E eu sou a única família dele. Eu preciso vê-lo, falar com ele. Preciso saber o que se passou e quem inventou essa acusação.
– Mas em Vale de Judeus, minha senhora, ele vai ficar isolado por uma semana, o que é um procedimento de rotina, e só depois poderá receber visitas. – Ele agitou-se novamente na cadeira observando a possível cliente. “Hum, mas que bela moça”, pensou. – Entretanto, como advogado ainda não constituído, mas que pode prestar um favor..., vou telefonar para o senhor diretor do estabelecimento prisional de Vale de Judeus e solicitar a presença do recluso...
– Por favor, doutor!
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Sartawi chega ao hotel acompanhado de Anwar Abu Eisheh, outro membro da OLP, conversa com outros congressistas e dirige-se para o salão onde irá discursar e colocar os seus argumentos em prol de soluções para o entendimento de soluções destinadas aos conflitos no Médio Oriente. Perto dele um jovem percebe-se subitamente agitado.
Muito longe, na Síria, mas já em trânsito clandestino para a França, o mestre Nidal mergulha em pensamentos. “Já fiz centenas de ações e sacrifícios pela vossa vontade, meu deus, e hoje daremos mais um passo nesta viagem que coroa a vossa vontade ao eliminar um fraco que troca a nossa espada da verdade divina pelo ideal ocidental de entregar aos judeus o nosso solo sagrado. Que esta prece seja ouvida, que o sacrifício enalteça mais a vossa vontade”, murmura. Não existe nada que distinga o político radical do religioso radical: são parte da mesma prece que apela à insanidade contra o diálogo, como aconteceu na velha Atenas com a condenação de Sócrates, um suicídio filosófico diante da incapacidade de raciocínio dos poderes instituídos para o diálogo que aponte a Justiça justa, democrática. O incansável Abu Nidal sabe que a morte é parte da vida e é bem pago para o dizer brutalmente. Um ano antes, em 82, havia comandado uma ofensiva estratégica que só serviria os interesses da política de expansão sionista nos territórios da Palestina: um alto diplomata judeu escapou do atentado que a imprensa ocidental alinhada ao eixo Washington - Tel Aviv atribuiu de imediato a Yasser Arafat. Enfraquecer a política moderada da OLP permite abrir caminho para a organização de um grande exército disposto a derrubar a Israel, pensara e arquitetara Nidal, já com apoios libaneses e iraquianos. Para evitar tal estratégia extremista, uma reação extremista: Israel invadiu o Líbano, cercou a OLP e vários grupos independentes. E a festa das guerras santas ganhou maior dimensão, mais tempo para negócios bélicos e mais uma corrida armamentista sob o olhar de políticos e militares que adoram vestir de cinza...
Enquanto um papa cristão fala de um mistério místico para se justificar teologicamente, um político islâmico que se diz agir sob a vontade divina encomenda a morte para outrem, e ambos representam partes do conflito.
É o dia 10 de Abril, um domingo de quietudes na Praia da Oura, mas de conflitos mortais em outros lugares do mundo.
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A jovem mulher, finalmente, conseguiu autorização da direção do estabelecimento prisional para conversar com o companheiro.
É observada atenta e quase despudoradamente pelo advogado. – E no próximo sábado estarei aí, mas talvez antes o advogado vá falar contigo... – rematou, chorona. O advogado convidou-a para ficar mais um pouco, tomar um café. “Este estupor quer é outra coisa de mim. Acha que eu não percebi...”, pensou. E disse: – Olhe, doutor, quero agradecer a gentileza, mas vou exigir um defensor público, uma vez que deus deixa que acusem o meu homem injustamente e ainda põe um ´ts´ como você na minha frente!
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“Ai de mim, deus. Eu sou uma lamparina com a tua luz, não me deixes fraquejar”, diz Rachid para si mesmo ao perceber que no momento da decisão o corpo treme, as pernas não querem obedecer ao desejo divino. Respira fundo, levanta a cabeça e avança no mesmo passo das outras pessoas.
Sartawi está na porta de entrada para o salão.
– O congresso já é um sucesso pelas propostas apresentadas! – diz um alemão ao apertar a mão do ilustre palestino, que tem Eisheh a seu lado, um quase escudeiro.
E do nada, tirando das costas uma arma presa ao cinto, alguém invade o local e alveja Sartawi, mas há mais disparos... Um homem de olhar petrificado volta-se como que a expelir fogo por todos os poros e sai do local correndo: é Rachid. “As nossas ações são profecias que anunciam o paraíso”, dissera-lhe um dos braços direitos de Nidal, e comandante de treinamento. E ele corre agora para o abraço celestial deixando um rastro de sangue e uma morte em sacrifício ideológico.
Uma algazarra, babel de línguas ecoa tanto como os disparos, e a confusão arma-se aqui de tal maneira que o jovem palestino corre pelo átrio, passa pelos dois homens da GNR que, de repente, comoveram-se por algo inusitado entre tão estranha e chic ´fauna´ política, e um deles quer saber mais da bizarrice daquele berro que em árabe diz “por Allah, pela Palestina”: corre no encalço do jovem, mas logo desiste.
Eisheh geme de dor, uma bala acertou em uma das suas pernas. Ao lado, logo percebe que Sartawi não geme, nem se mexe. Examinando a cena, o conselheiro Jim Creagan, da embaixada dos EUA, levanta e corre para avisar os responsáveis pela organização do evento da IS.
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– Mas, a senhora compreendeu mal o meu apoio? E está a ser mal educada...! E o que é isso de ´ts´?! – argumentou o advogado do alto dos seus 50 e poucos anos, ao mesmo tempo em que queria saber da sigla utilizada por ela.
– Ai, quanta ignorância... É ´ts´... de tarado sexual! O que eu deveria fazer era cortar o seu pescoço e outra ´coisita´ mais. Está aqui com a bíblia e o crucifixo na sua mesa para quê?! Para ajudar mulheres indefesas... Ora, ora, senhor doutor da mula ruça, cruzado da indecência... Eu não nasci hoje e percebi muito bem o seu olhar!
– Caramba, mais parece uma dessas mulheres-bomba que se explodem ao deus-dará entre os árabes!
– Pois olhe, senhor doutor ´don juanito´, gostaria muito de ser uma dessas mulheres, agora!
Ela saiu disparada do gabinete e deixou o advogado embasbacado, a olhar o espaço vazio e a sentir o perfume doce que negava, de alguma maneira, o vazio. – Eh, depois da abrilada as mulheres estão mais atrevidas, apimentadas – resmunga.
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Rachid ainda está em fuga, mas o noticiário internacional já divulga “a morte do nº2 da OLP, em Portugal”.
– O evento macabro não chega a enfraquecer o que se disse e o que se deixou de dizer no congresso, porque é parte da sua própria natureza política – quase sussurra um homem de cerca de 30 anos, sentado na mesa da pastelaria. Do rádio, instalado na parte final do balcão, uma estação ´fm´ continua a informar a nação sobre o caso de Albufeira. A seu lado, uma mulher ruiva, talvez da mesma idade, de uma beleza serena, mas provocante, acena com a cabeça afirmativamente, e ele continua: – E olha que ouvir uma notícia destas numa cidade tão pacata como Guimarães é como perceber que, de repente, o mundo acontece sem relógios nem geopolítica: é uma aldeia só!
– Mas, não entendo – diz ela. – Por que fazerem uma operação de tais conseqüências políticas sem solicitarem o apoio logístico das organizações portuguesas?
– Esse tal de Sartawi era um alto funcionário da OLP, mas acredito que os serviços secretos de Israel não viriam a Portugal para executá-lo, até por que Sartawi é um conversador, ou seja, Israel precisaria de Sartawi ´vivinho da silva´ para continuar as negociações paralelas com o setor moderado da OLP...
– ... e – ele abana a cabeça, põe tabaco irlandês no cachimbo, risca um fósforo, puxa a chama para o fornilho – ...e, o caso tem tudo a ver com os setores radicais da OLP, que não aceitam quaisquer negociações com Israel.
– Tens razão, e por isso não pediram apoio aos portugueses para lhes darem cobertura na ação.
“Um dos suspeitos do atentado em Albufeira acaba de ser detido”, ouve-se. É uma chamada especial do serviço de jornalismo da emissora.
– E por isso, agora perderam mais um comando.
– Vai ser solto logo – opina ela.
Ele passa um braço pelos ombros dela e puxa-a para si. – Querem mais alguma coisa? – ouvem. Ela vira-se um pouco e responde num português com forte musicalidade britânica: – Sim, senhor Manuel, dois cafés e pode fechar a conta.
Estão na parte velha e histórica da cidade, no Largo da Oliveira, e a pastelaria é o local mais freqüentado por ele. Quase sempre só, faz os estudos que precisa numa das mesas e anota o que lhe parece mais conveniente, tanto para a vida política como para o serviço de correspondente para uma nova agência de informações, com sede em Lisboa. Foram as reportagens publicadas em jornais ligados a movimentos marxistas e anarquistas, mas também em revistas culturais, que levaram a agência a procurá-lo. O convite deixou-o satisfeito. Ao receber a carteirinha de ´correspondente´ foi-lhe solicitado fazer uma reportagem sobre a importância da Universidade local.
– Ah, deram-te uma carteira?! – diz ela, divertida, a olhar a credencial jornalística que caiu na mesa quando ele abriu a carteira.
– Eh, agora posso circular com mais segurança por aí... – responde, enquanto lhe beija os cabelos.
Ela sorri e encosta a cabeça no ombro. Sabe o quanto a tão banal ´carteirinha´ é importante para os militantes clandestinos das organizações políticas que atuam contra os poderes instituídos pelas oligarquias sociais e econômicas. – É sempre bom ter um documento que nos faça escapar das armadilhas do dia a dia policial... – observa. Ele faz um afago nos cabelos dela, como que a reconhecer que “a observação tem a ver com a experiência de uma militante em luta por uma Irlanda mais céltica e menos britânica”, e o diz para si mesmo.
As informações radiofônicas dão importância à “captura de um árabe tido como principal suspeito do atentado em Albufeira”, e todas elas giram nesse enfoque pela falta de detalhes até sobre a identidade do indivíduo.
Parte 4
O amor é emoção e é ação:
Ele mostra-nos caminhos e alumia no escuro.
Abraçar e beijar quem nos gera amor
É receber um presente e ter em mãos o futuro.
Somos, por assim dizer, o fado e a revolução.
Setembro, 1984.
Porto.
– A senhora é... a senhora Emília?
– Sim. – Ela olha a mulher, mas não a reconhece como próxima ao seu círculo de amizades. E a senhora?
– O meu nome é Luisa...
– ... está quase... – observa Emília a avolumada barriga.
– É para daqui a um mês. E espero que pai possa estar ao meu lado quando der a luz.
– Ai, mas que aborrecimento! E ele trabalha fora?
– Não, a senhora mandou-o para a cadeia ao afirmar que o viu a estuprar a empregada de um tal senhor Armando...
Elas estão paradas numa calçada perto da estação ferroviária, logo após a saída do “centímetro”, o pequeno túnel que dá acesso à entrada da gare.
Emília está lívida. O seu rosto parece ter sido lavado com algum detergente, ou maquiado para uma cena dramática de teatro vampírico. “Ai meu Jesus... Aquele rapaz é casado e tem mulher grávida?!... Mas ele pareceu-me tão menino, e assim tão menino como a menina, a empregada do senhor Armando...”, pensa. Sim, Emília consegue raciocinar enquanto percebe o corpo paralisado no centro de um espaço que não se abre para levá-la dali.
– Eu?!, eu mandei o seu marido para a cadeia? Que mentira é essa?! Quem é a senhora para caluniar-me, assim?! Mais respeito!
Apesar do chapéu gracioso, o cabelo cor de fogo de Luisa agita-se no vento leve e dá uma moldura dinâmica aos grandes olhos de um verde muito claro, que enchem o rosto magro e redondo. É uma mulher de estatura média em cima de sapatos com salto pequeno. Mas percebe-se pequerrucha diante de Emília, mais alta e forte, já entrada nos 60, de pele muito branca, olhos negros de uma beleza que ainda cativa.
– Mais respeito...? – ironiza Luisa. – Então, no ano passado a senhora disse que viu o que não viu, denunciou uma pessoa que não conhecia por um crime não cometido, desespera uma família... e quer respeito?!
Emília sente-se a ponto de desesperar. As pessoas passam pelas duas e observam a estranheza do encontro pela dureza dos olhos, os corpos tensos. “Eu não entendo mais nada. Se o senhor Armando disse-me que aquele era o rapaz, é porque era mesmo!”, diz para si. “Mas, como o menino era casado?...”, indaga-se.
– Este foi o “menino” que a senhora enfiou na cadeia...
Emília olha para a fotografia que Luisa coloca na frente dos seus olhos. Perturba-se. – Mas, o senhor Armando disse-me que era um rapaz a quem chamavam Tripeiro...
Luisa não quer acreditar no que acaba de ouvir. – Como é que é? A senhora denunciou uma pessoa por indicação do patrão de uma menina violentada no quintal de casa? Então, a senhora não viu!
A engolir em seco, as mãos a tremerem sobre a bolsa de couro, Emília sai do torpor físico e avança para o outro lado da praça enquanto murmura: – Ai, meu deus! Eu não sei nada! Eu não sei nada!
Decidida a investigar a mulher que denunciar o seu amado, Luisa conseguiu dados pessoais e passou a vigiar, nas horas de folga da escola, os passos dela. Sabe agora que “a costureira leva as peças pessoalmente em casa dos clientes, e todos os dias, às 5h da tarde, toma o seu chã com torradas, ou bolo de arroz, na pastelaria logo abaixo da estação”, conforme o diário em que registra a vigilância. Ela parece ser “uma mulher respeitada, viúva que sobrevive do trabalho próprio”. E para Luisa, “algo não se encaixa no fio que conduz às peripécias da denúncia”, como ontem escreveu no ´dv´, como nomeia o seu ´diário da vigilância´. Observou atentamente Emília, dos “gestos precisos e classe com que faz da sua hora do chá um ritual íntimo, porque é um momento solitário”. Nas três vezes em que se sentou perto dela nunca viu outras pessoas que lhe dirigissem a palavra. É a solidão em pessoa. E “ela vive só. No pequeno quintal da casa está talvez o seu único mimo: um cão da raça pastor alemão”. Luisa não se atreveu a fazer perguntas à jovem atendente da pastelaria, pois, percebeu o respeito com que ela recebe e atende a cliente de longa data.
Mas, o que está errado aqui? Ela não consegue entender “o que uma velha viúva poderia ganhar com o caso da menina estuprada”. Assim pensava minutos atrás. Terminado o ritual do chá, Emília levantou-se e pagou no balcão, para logo subir a rua. Como das outras duas vezes, Luisa olhou para os ponteiros do relógio de pulso e registrou 17h30. Levantou-se e pagou o café com leite e um bolo de arroz; ia descer a rua quando, e sem precisar muito bem a sua decisão, deu meia volta e foi atrás de Emília. Tenho de confrontar-me com ela. É hora.
Agora, vê a viúva a esgueirar-se e perder-se na multidão que retorna para casa depois de um dia trabalho. Retorna à pastelaria, abre o ´dv´ e escreve: “Confrontada com a fotografia, não reconheceu o estuprador, mas... percebi que reconhecia na fotografia alguém distante, e ainda disse seguinte: ´Mas, o senhor Armando disse-me que era um rapaz a quem chamavam de Tripeiro´, a confirmar as minhas suspeitas de que Emília e Armando ´pescaram´ um culpado-inocente talvez para encobrir o verdadeiro criminoso”.
– A senhora é jornalista?
Luisa olha para a atendente e responde: – Não, sou professora... Ah, e aproveitando... aquele cafezinho espresso! Livro 3
Parte 5
As palavras doem quando ditas
À queima-roupa e disparam verdades.
Quem somos? Por que julgamos outras pessoas?
Toda a pessoa está nua diante das verdades
Nela encerradas. Pior, quando ditas!
A comunidade que habita o estabelecimento é uma colcha de retalhos sociais, religiosos e políticos, mas apesar da diversidade religiosa é um capelão da Igreja católica que atende as necessidades espirituais da maioria. É assim desde os tempos da expansão cristã a bordo das caravelas lusas e castelhanas: “Não podemos registrar nomes nativos, então, daremos nomes cristãos a quem vamos registrar no livro”, diziam os capelães e os jesuítas. E até durante o apartheid sul africano os nativos foram batizados com nomes cristãos, como se fossem outros judeus a se curvarem diante da inquisição romana e católica para sobreviverem. Foi assim que um negro africano ganhou o nome de Nelson Mandela, dado por uma professora branca, e, muito antes disso, o Brasil ganhou a língua portuguesa como forma de comunicação entre colonos e nativos tupi-guaranis. Era o velho jeitinho romano de impor o seu modo de viver, o que o catolicismo e os ibéricos colonialistas despejaram no seu molde social ultramarino.
– Eu troco o nome em cada ação.
– Hum, que interessante – comenta Olho d´Águia, enquanto observa o capelão se despedir da turma que joga futebol. – Ou seja, a tua vida é uma viagem.
– É isso. É uma viagem.
– Diz-me uma coisa, Rachid...
– ... Rachid, não. O meu nome é Al Awad.
– Al Awad.
Ao repetir o nome vê que o árabe sorri. Sente-se satisfeito ao ser chamado pelo nome próprio.
– Diz-me, Al Awad: só a violência leva a um destino no vosso conceito de batalhar por uma Palestina livre?
Estão sentados no chão, ao lado do campo de futebol, que fica entre a ala da administração, na frente, e os pavilhões prisionais, atrás; de um lado a cantina e do outro a ala das oficinas. Percebe-se que Olho d´Águia tem alguma dificuldade para entender o inglês arabesco de Al Awad.
– Olhe, já vi de tudo e ouvi de tudo, mas é a primeira vez que sei de alguém chamado Olho d´Águia...
– Ah ah, ah..., foi a minha namorada... Uma vez, a exercitar tiro com espingarda e revólver numa pedreira abandonada, ela percebeu que onde eu punha os olhos a bala ia também. “O teu olhar é como o da águia, caça a presa”, disse. E numa carta que me enviou escreveu o meu número e esse nome. Quando o guarda trouxe a correspondência, disse em voz alta: “para o Olho d´Águia”. Todos ficaram a olhar até que eu levantei e apanhei a carta debaixo dos risos.
– A mulher ocidental opina muito, participa. Mas isso não é bom, porque Allah põe no homem a sua força, e assim, a mulher deve servi-lo, até no sacrifício.
– Para mim não existe nem deus nem profetas, para mim existe a pessoa que somos em cada circunstância vivencial, e nada mais.
– Só anarquistas pensam assim...
– ...porque a liberdade deve ser parte de todas as pessoas, homem e mulher... É pena eu não ter aqui o Igualdade Radical Para A Mulher!
– ...?!...
– Um livro de Manuel Reis, e outros intelectuais, publicado em Coimbra, nos Anos 70, e que a polícia política tirou de circulação.
– ...E...?!
– A leitura do livro seria uma lição para ti, Al Awad!
Ele respira fundo, sabe tão bem quanto o outro que a conversa terá de ser feita no limite da diplomacia cultural e mística, ou não haverá mais conversa. – E sobre a questão da violência?
Al Awad ajeita-se no chão frio de cimento, passa as mãos pela barba rala. – Os ocidentais falam de liberdade e de paz, mas quando conquistam algum povo tratam de trucidá-lo, sem piedade, porque crêem que os outros povos que não falam a sua língua e adoram outro deus são bárbaros..., mas foram os bárbaros, por exemplo, que deram fim às chacinas públicas feitas pelos gladiadores e ajudaram, também, a dar fim ao império romano; e agora – ele põe uma mão no ombro do outro –, e agora vemos os judeus a construir o Estado de Israel enquanto chacinam publicamente palestinos debaixo do olhar das Nações Unidas, e isso, depois de terem sofrido com os nazis as mesmas humilhações e de forçarem, com as mesmas técnicas da camuflagem, circunstâncias de abuso militar e geográfico, além de ações de guerrilha feitas para serem atribuídas aos palestinos. Contra tal violência de um exército regular os palestinos dizem não com pedras e estilingues, e algumas bombas...
Olho d´Águia reflete sobre o que acaba de ouvir.
Durante quase um minuto ouve-se somente o grito e a correria de meia dúzia de detentos que jogam futebol. – Quando falas que a mulher árabe dever estar ao lado do homem árabe mesmo no sacrifício, tu queres dizer que a viúva de um combatente deve-se oferecer para ser transformada, por exemplo, em mulher-bomba...?! – diz. O árabe olha-o, pensativo. Parece escolher as palavras que vai utilizar. – Se eu tivesse uma esposa, ou namorada, e o meu destino (quando falamos de mártir falamos de destino), digo, e o meu destino fosse a morte, gostaria que ela, a minha mulher, seguisse na minha viagem... Mas, estás bem a par do que acontece entre os árabes... E agora estás muito pensativo. O que foi?
– Na verdade, eu ia perguntar outra coisa quando me assaltou a imagem da mulher-bomba. Aquela questão das ações feitas por uns, mas atribuídas a outros, é uma história velha de estratégias políticas e militares. Ouviste falar de Katyn?
– Não, nunca ouvi falar.
– Por causa do Pacto de Não Agressão assinado por políticos e que durou de 1939 a 45, a Polônia deixou de existir no mapa geopolítico por ter ficado entre soviéticos e nazis. Para impedir que a Polônia se reerguesse como nação, Stalin mandou chacinar toda a elite militar, cultural e científica polonesa: em Abril de 1940 mais de 20.000 poloneses morreram e foram atirados em valas comuns nas matas fechadas de Katyn, conhecida como floresta da morte. Os soviéticos atribuíram publicamente o massacre aos militares nazis, mas já em 43 se sabia que o crime de guerra fora executado a mando de Stalin e não de Hitler, da mesma maneira que as forças norte-americanas e inglesas massacraram populações alemãs já depois da rendição nazi... Hoje, os judeus exigem indenizações da Alemanha por causa dos campos de concentração, mas não os vejo a exigir indenizações do Vaticano por causa das Cruzadas e da Inquisição... pura hipocrisia política!, e nunca os ouvi falar contra os atos desumanos como o que aconteceu em Katyn.
– Não conhecia essa história! – diz Al Awad, visivelmente emocionado. E acrescenta: – Eu sei, pelo que me contaram, que Hitler ficou, como é que se diz... ah, com as costas quentes em relação a muita coisa da última grande guerra. Mas, aos poucos tudo vai ser esclarecido. Mas essa história dos poloneses é incrível. E então, os judeus aprenderam muito bem a lição dos soviéticos... Eu creio que os judeus são hoje mais terríveis do que os nazis, mas pagarão muito caro por isso, como diz Nidal.
– E ele, Nidal, o que diz?
– É um mestre – Al Awad levanta-se. Para falar do mestre só com respeito. O outro levanta-se também, e escuta: – Todas as ações que levamos a cabo são orações pela Palestina livre, e em cada uma delas somos a glória de Allah. Por isso, viver e morrer pela Palestina é viver e morrer por Allah.
– Hum, é tudo uma questão de interpretação, Al Awad – e aponta para um indivíduo alto, magro, que passeia sozinho perto deles. – O padre aí, discípulo do tradicionalista católico Lefebvre, empunhou uma faca para aniquilar um papa, aqui em Portugal, apenas por discordar das formas corporativas, não do conteúdo místico. Por isso eu digo e entendo que viver e morrer por uma causa pode não ser a melhor atitude diante da humanidade que somos. Eu mesmo discordei e combati aqueles e aquelas que passaram a utilizar uma causa em ações próprias, individuais... Certo, não matei, mas podem matar-me por isso! É o risco que se corre quando se toma a verdade por princípio. E escuta aqui, Al Awad, qual é a verdade de um mestre como Nidal? Que viagem é essa que o mestre oferece a um jovem palestino além da morte? Não é o hoje que interessa? E outra coisa: o Nidal é acusado por grupos da OLP de ter feito ações, ou de estar a fazer ações orientadas pelo Mossad, a turminha policial neo-nazista de Israel...
– Nidal é... Sabri Khalil Abd Al Qadir, e é uma lamparina que ilumine o nosso caminho e as nossas orações pela liberdade da Palestina, não é um traidor como Arafat!
Olho d´Águia sorri. O árabe fica perplexo com o sorriso, engole em seco, e aguarda uma explicação.
– Com esse nome ilustrado o Nidal pode ser confundido com um Sheik cheio de poder e uma ninhada de belas mulheres! E por falar em gente rica no nosso meio... conheci o Ramiro Sanchez, que deves ter visto no Iraque e conhecido como Chacal. Depois de fracassar em várias ações comandou um ataque em Viena... 74 ou 75?, ah, 1975, contra dirigentes da OPEP a pedido do Saddam Hussein. E se não sabes, pelo que se diz tanto na imprensa como entre vários polimil´s, o Chacal embolsou parte dos 10.000.000 de dólares pagos pela Argélia para amenizar a situação: de militante pró Palestina a reles terrorista e mercenário.
– Ouvi falar dele, mas não sei de tudo isso que acabas de falar! – o semblante de Al Awad é grave. Dá a perceber que conhece, em parte ou no todo, as informações que o português expôs.
– Até aqui, em Portugal, vi militantes marxistas-leninistas se interessarem mais pelos assaltos a bancos do que com o conteúdo ideológico das organizações. A abertura política tão desejada e aclamada por eles acabou criando um obstáculo: a Palavra é mais importante do que a Bomba na sociedade em transformação democrática, por mais periclitante que seja o momento político e social. E a militância clandestina político-militar viu-se, de um dia para o outro, sem ação pela nova luz, e atirou-se à ´recolha de fundos´ sob pretexto de alimentar as estruturas partidárias e eleitorais, como no caso do movimento otelista.
– Otelista... Otelo? Sim, ouvi falar.
– Mas é claro que sim, ó Al Awad – ri Olho d´Águia. Vocês só esqueceram apenas de fazer o contato para uma cobertura logística adequada e pagaram caro. Mas, pensando bem, até que não, pois, estás preso apenas por portares documentos falsos, e em breve vais recomeçar a tua viagem para a glória de Allah. – Olha para o árabe com um olhar de gozação, malandro, e adianta: – Não vais me dizer que não gostarias de milhões de dólares no bolso, cair na gandaia com um harém, e mandar para o inferno os chacais e os nidais da vida?....
Em décimos de segundo ambos caem na risada. Foi o jeito que o português achou para limpar as nuvens negras que a conversa estava a preparar. – Não estou a faltar ao respeito, mas que o nome brilha como num conto das mil e uma noites, lá isso brilha! E escuta: o nome verdadeiro desse que tu conheces como Al Qadir é, na verdade, Sabri Khalil al-Banna... e foi ele que em 82 tentou matar um diplomata judeu na Inglaterra atribuindo a ação a Arafat! Estratégias, meu caro, estratégias... E agora, em relação a Sartawi, tens a certeza de que é só ele, o Nidal, que está por detrás?
Al Awad levanta as mãos para o céu e pede ajuda a Allah em árabe murmurado. Abana a cabeça e deixa o local para se refugiar, como sempre faz, na sua cela dourada. O português continua a sorrir, e corresponde agora a um aceno do padre-matador. Eu não pertenço ao paradigma do luso de brandos costumes, mas estar rodeado de fundamentalistas, um católico e outro árabe, ai..., ninguém merece!, pensa.
Sábado, dia de visitas.
Dezenas de pessoas, entre familiares e advogados, conversam na entrada do presídio de Vale de Judeus.
No meio de alguns carros estacionados, duas mulheres e um homem conversam acerca do estabelecimento. – Ora, doutor, se eles tentaram cavar um buraco é porque a coisa lá dentro também não é boa! – argumenta uma das mulheres, idosa. – E depois, doutor, se os pides puderam ir embora daqui, em 75, lembra?, e foi, eles não fugiram, eles foram embora, então, por que outros não podem ir embora?! – diz a outra mulher, de uns 40 anos, bem arrebitada para o gosto do tal doutor, que não se sente à vontade e responde: – Ai, ai, ai, senhoras! Eu sou o advogado do vosso filho e esposo, e vou procurar amenizar o que ele fez: uma tentativa de fuga com danos ao patrimônio. Certo? Senhoras, a situação dele é grave, e vamos lá a entrar que se faz tarde!
A algazarra é sempre grande entre os minutos que antecedem a abertura do portão e a identificação das pessoas. Caixas, sacolas, envelopes, tudo é levado para uma inspeção rigorosa da turma de agentes prisionais de plantão.
Luisa chega ao portão às 13h20, é revistada após a identificação. Para o seu Trip, leva algumas coisinhas,como chouriço, queijo curado e bolachas, além de um pequeno rádio de pilhas e dois livros. Tudo é aberto e vasculhado.
– O que levo de mais importante para o meu Trip a polícia não pode abrir! – murmura.
Luisa é acompanhada por uma mulher um pouco mais velha do que ela, uma trintona de cabelo castanho curto que mostra um par de olhos esverdeados. É mais alta, encorpada, o seu rosto exibe traços de quem está habituada a lidar com situações difíceis. Entretanto, exibe-se em trajes de corte impecável, na moda: blusa de linho, lenço longo de seda, saia longa de duas estampas, botinas brancas. O seu modo de caminhar é uma mistura de determinação e leveza que conquista o olhar de quem está por perto.
– Sim, não podem abrir a tua cabeça – responde. “Os embrulhos serão entregues no fim das visitas”, ouvem. – Eu espero-te na sala além... – avisa e sinaliza o lugar com a cabeça. Luisa acena positivamente também com a cabeça.
Caminha devagar, sempre com uma das mãos a acariciar o ventre expandido pela vida que o amor lhe ofereceu. Ela está amorosamente esperançada.
**
Quinta-Feira, 9h30.
A diretora da escola havia-lhe indicado uma colega de liceu que “agora é advogada e trata de causas mais ou menos perdidas”. Era tudo o que Luisa queria ouvir. O escritório da advogada está montado num antigo gabinete alfandegário ligado à compra e venda de vinho do Porto, além de Champagne de procedência incerta. Segundo uma lenda local até corsários faziam rusga por aqui. É uma ruela num dos bairros mais castiços da região: a Ribeira.
– Posso passar aí lá pelo meio da tarde? – quis saber Luisa, quando telefonou no início da manhã, entre uma e outra aula.
– Sendo amiga da minha amiga pode vir até ao final da tarde, porque depois tenho reunião na antiga Bolsa – ouviu. A voz forte, determinada, da advogada, deu-lhe tranqüilidade.
Ainda não eram 17h quando Luisa encontrou a ruela e o escritório. Tudo apertado. Desde a ruazinha ao escritório: é abrir a porta e pronto.
– Ah, a amiga da minha amiga! – disse a advogada levantando-se. Ao notar o olhar meio desconcertado da Luisa, anotou em voz alta: – Toda a professorinha tem cara de professorinha.
Um armário-ficheiro, uma escrivaninha, três cadeiras, uma mesinha com cafeteira elétrica e bule entre algumas chávenas, pires e saquinhos de café instantâneo e chá variado; um banheiro que se descobre atrás de um biombo artisticamente estampado com desenhos a aguçar o erotismo, dois candeeiros de pé alto, e alguns quadros pequenos nas paredes. Logo na entrada, um não menos interessante guarda-tudo com um pequeno espelho central. O imóvel é uma antiqüíssima construção de pedra que as águas do Douro lambem de tempos a tempos no inverno europeu.
– É pequeno e bonito, funcional, e bem decorado – anotou Luisa em voz alta, por sua vez.
– Muito agradecida. O meu nome é Constança...e...
– ... ah, eu sou Luisa.
– Só utilizo o escritório para ações formais, de resto, o meu trabalho é junto do cliente e no espaço vital que diga respeito à solução para o caso em estudo. Advogada em escritório é como polícia em gabinete, um estupro à inteligência: ou age ou perde a causa.
– Caramba, doutora, é das minhas! – Luisa sentiu-se em casa.
– Vamos lá a ver se é isso mesmo. Café, chá ou Porto?
– Caramba... Pode ser Porto?
– Aqui pode tudo. Como dizia o Fernando Pessoa, ao final é o cliente que paga tudo!
– Ai, eu li isso. É dos Textos para Dirigentes de Empresas. Já fiz uma aula com esse conteúdo.
– Vejo que a professorinha é mesmo uma professora...
– Tento.
– É nas tentativas de melhor vivência que encontramos a verdadeira vida, minha cara. Gostei. E vamos ver o que posso fazer por si.
**
Quem entra em Alcoentre vislumbra não a velha aldeia do Séc. XII rodeada de floresta e estradinhas, mas uma vila acolhedora sob administração central de Azambuja, com as modernidades que as tecnologias oferecem ao Portugal europeu.
Constança dirigiu o seu Alfa Romeo desportivo para o centro. – Vamos tomar uma bica antes de irmos para Vale de Judeus? – quis saber. – Ai sim, um cafezinho vai cair bem antes de rever o meu Trip – concordou ela sob o riso da outra, que achava muito engraçado o modo amoroso como aquele Trip era tratado.
Antes de saírem da pastelaria Constança informou-se da melhor maneira de chegar a Vale de Judeus. Ela nunca havia tratado de algum caso a envolver detidos na região. O atendente da pastelaria deu-lhe as indicações como se estivesse a falar de um ponto turístico, ou de uma instituição que faz parte da vida social e econômica da região. A prisão está aqui há tanto tempo que para a população passou a ser mais uma fonte de renda autárquica e, ainda, quebra a monotonia das rotinas, principalmente em dia de visitas, refletiu.
A região de Vale de Judeus está afastada do centro urbano, como que um campo de concentração a fazer jus ao nome. Quando o Alfa Romeo entrou no pátio do estacionamento, bem na frente do portão grande e branco, ambas se olharam. – De turístico isso aí não tem nem vestígios... – ironizou a advogada.
Constança senta-se entre várias mesas.
Vê que tratam Luisa com esmero, não por estar grávida, mas por estar acompanhada de uma advogada. Logo ela é levada para a mesma sala. – É impressão minha ou a presença da doutora facilita a vida? – observa ela ao sentar-se ao lado. Constança sorri. Uma resposta convincente para o olhar atento da cliente. As duas estão sentadas no mesmo banco. Do outro lado da mesa vai sentar-se Trip, o bem e mui amado de Luisa.
Enfiada num encantador macacão com bolsos grandes, Luisa tem o cabelo apanhado em rabo de cavalo, e também calça botinas. Sobre os ombros um xale gracioso. – Espero que essas aí não achem que isto aqui seja um chá de caridade... – murmura uma guarda prisional para outra. Elas destoam um pouco da maioria das mulheres, jovens e idosas, que entram no edifício, e, obviamente, chamam a atenção.
Para lá da área administrativa o ambiente é outro.
Mágoas e ódios fervem nos sangues, pululam nos olhares. Toda a prisão é um lugar onde a inocência é uma palavra banida até do inconsciente de cada pessoa, o que vale também para a massa de guardas na qual uma minoria agrega ações de contrabando e de contra-informação ao tilintar da moeda que corrompe. Sobreviver numa prisão comum é um exercício de criatividade social, na de alta segurança é um ato diplomático no rastro de muitas influências entre as elites circunstanciais. Até na arquitetura de uma fuga a plataforma de entendimento passa pelo mando diverso, e aqui é rei quem possui informação e faz dela moeda corrente, defendida com o mais puro e ensangüentado sadismo. Não é o músculo que decide quem vai sobreviver, mas o tutano. E entre a área administrativa e os pavilhões das celas as pontes constroem-se e desconstroem-se no mesmo dia, tudo depende do valor da informação. O que é inocência? Aqui, uma palavra sem qualquer valor.
Olho d´Águia observa o Tripeiro.
O jovem do Porto está muito inquieto. Na sexta-feira de manhã foi chamado à administração para atender um telefonema. – Olá, o meu nome é Constança, estou a tratar do seu caso e vou aí no sábado com Luisa. Olhe, procure lembrar-se de coisas da sua meninice e anote num papel, principalmente as pessoas ligadas aos seus pais – ouviu.
Ouviu e ficou tão perplexo que até o diretor se assustou. – Sim, doutora, eu vou procurar lembrar-me. Até sábado, então!
– O que foi, ó Tripeiro?
– Era a minha advogada, senhor diretor. Está a preparar a minha defesa e quer que eu me lembre de coisas do passado.
– Não há passado algum que vá livrar-te de uns bons anos de xilindró. Estupro é coisa séria, malandro! – sentencia o diretor, um cinqüentão de aspecto militarista, durão.
– Eu não fiz aquilo, senhor diretor!
– Está bem, mas eu não sou obrigado a acreditar em ti... Levem-no!
Olho d´Águia come um pedaço de pão que meteu no bolso do jaleco durante o almoço.
– Olhem só a alegria do padre-matador: uma freirinha trouxe-lhe máquina de escrever e frutas. Ai, mas a Igreja é um poço de beatice imaculada – diz, ao ver o fundamentalista regressar ao pavilhão das celas.
Ao lado, o Tripeiro não esboça reação. Coisa rara nele. Sempre a querer dar nas vistas, mas talvez para fugir da solidão, como pensa o próprio Olho d´Águia, ele está agora taciturno. Ele está “in”, como gosta de dizer Rachid quando encontra alguém mergulhado nos pensamentos. Na verdade, o “out” do Tripeiro é uma algazarra bem ao jeito dos folguedos nortenhos.
– Ei, pá, por que será que a advogada quer que eu me lembre de tudo relacionado aos meus pais?
– Ahhhh, pensei que ias hibernar a partir de hoje! – graceja o outro. – Mas, fizeste a anotação de tudo o que te veio à memória? Isso pode ser muito importante, uma vez que tu dizes não teres nada a ver com a cena (tu o dizes...), e de apenas passares por lá, como passavas todos os dias na mesma hora. Eh, ó Trip, pode ser que a tua Luisa tenha encontrado algo que tu não conheces ainda... E essa história de todos os dias na mesma hora não me cheira bem!
– Espero que sim, pá. Mais um tempinho aqui e creio que vou ficar mais doidinho que o teu padreco matador ou o teu maluquinho árabe!
– Ei, Tripeiro! Visita! – ouvem. É um dos detentos do pavilhão dos bem comportados que faz a chamada.
Ele fica de frente com Olho d´Águia e questiona: – Estou bem, pá?
– Bem ou mal, Tripeiro, não é a roupa que interessa agora, mas a tua alma, o teu amor por Luisa. E ela acredita em ti... Essa mulher merece todo o teu respeito. Vai em frente!
Constança faz um carinho na barriga de Luisa. – Não deixa que a ansiedade chegue à tua criança. Daqui a pouco Duarte chega e tudo vai começar a ser esclarecido.
Luisa engole em seco. Rever o seu Trip é rever a vida. Não consegue tirar os olhos da porta pela qual ele entrará. A emoção faz tremer todo o corpo apesar da presença tranqüilizadora da advogada e, também, cada vez mais uma nova amiga.
As mulheres têm facilidade para em situações de solidariedade transformar os atos em amizade duradoura. Desde o primeiro encontro, na Ribeira, Constança e Luisa estabeleceram uma relação de quase intimidade, a ponto de a advogada ter colocado o caso como “o caso da minha vida”. E arriscou. Ao saber no colégio que o tutor da infância e adolescência de Duarte Ribeiro havia sido um padre, quis o depoimento dele. Pelo telefone obteve três negativas. Voltou ao colégio, mas foi impedida de vasculhar os arquivos. – Sei apenas que mãe e avós morreram num incêndio terrível, e o menino escapou por estar na escola. O padre Zezinho, muito amigo dos pais, decidiu praticamente adotar o menino e trouxe-o para cá, e aqui estudou para ser um bom padre, mas depois preferiu estudar artes gráficas (adorava escrever, é verdade) onde aprendeu a fazer jornais e revistas. Alguns anos depois, já ele estava fora do colégio, envolveu-se com política, foi preso e solto, e encontrou trabalho num matadouro, onde aprendeu o ofício do abate de gado, o que desgostou muito o padre Zezinho – disse-lhe uma freira, informalmente. Mas é muito, muito estranho tudo isto..., pensou. Um detetive da Polícia Judiciária [PJ], meu enamorado pegajoso, como graceja quando se encontram em algum evento judiciário, conhece a história trágica do Porto como poucos pesquisadores conhecem. – Preciso da tua ajuda, Eduardo. O casal era Conceição e Augusto Ribeiro, tinha quinta perto da Foz, e ela morreu num incêndio. Podes ver nos teus arquivos?... – solicitou. E logo: – Nem é preciso, o caso ficou famoso no final de 66, mas foi muito bem abafado pela PIDE e pela Igreja, porque envolvia adultério, uma sociedade empresarial com um dos sócios tido como comunista e pró general sem medo, e um padre mui sensible... A informação dá direito a um regalo caliente...? – disse, a dar a informação e, ao mesmo tempo, sem perder a oportunidade de encantar a sua preferida. Isso não chega, mas vou correr o risco..., pensou Constança. – Tá, Eduardo, preciso de uma informação bem detalhada sobre o casal, a empresa e o padre, quem está vivo e quem morreu. Amanhã, às 4 da tarde, no meu escritório – agendou. Sabia que Eduardo, pesquisador e rato de biblioteca, tivera acesso aos documentos da PIDE sediada no Porto, até porque “a própria PIDE era uma divisão policial forense que extrapolava a sua missão em atos de terrorismo político, dentro e fora do país”, como ele lhe explicara certa vez. E mais, “a lista de informantes e colaboradores era tão ampla que abrangia toda a sociedade e, muito particularmente, empresários e religiosos”, dissera. Sentia-se como uma irmã mais velha de Luisa. Ao lembrar o sempre presente Eduardo acendeu-se aquela luzinha... Hum, Luisa, eu sei quem vai ajudar-nos a deslindar este caso, determinou-se. Sabia o risco que tinha de correr num talvez fim de tarde amoroso com goles de vinho do Porto.
– Luisa!
Ele não se contém ao ver a amada. Corre para a mesa e abraça-a antes mesmo de ela se levantar.
Luisa olha-o nos olhos, firme e amorosa. Não consegue falar. Encosta a cabeça no peito e deixa que o calor do abraço a tome.
A advogada percebe agora com quanto de amor a relação do casal é feita. Mas, estão numa prisão. – Vamos lá. Meu caro... – ia dizer Trip, mas logo emendou – Duarte, eu sou Constança. Sente aí na nossa frente, que temos muito que conversar. E tu, Luisa, senta aqui do meu lado.
O casal fica de mãos dadas sobre a mesa.
Constança apanha um bloco de notas da sua bolsa e prepara-se para registrar as respostas do cliente Duarte Ribeiro às suas questões.
– Diz-me: cerca de 20 anos atrás, talvez 1966, algum amigo, ou amiga, visitava vocês com frequência na quinta da Foz... onde nasceste? – Constança não perde tempo, e enfatiza: – Quem ia lá?
Duarte Ribeiro aperta com suavidade as mãos de Luisa, e ela percebe um leve tremor no curto espaço das perguntas. E ela diz: – Encontrei a mulher que te denunciou, na rua, e ouvi coisas que não se encaixam. Por isso, pedi ajuda à doutora Constança, que me tem ajudado muito. Agora, Trip, é a tua vez...
– Lembro que, todos, ou quase todos os domingos, um Armando... ou Armandinho, sempre muito próximo da minha mãe, almoçava lá. E, vez por outra, o padre Zezinho, que ajudou o meu pai a formar-se, ah, o mesmo padre que me ajudou no colégio em que eu estudei! Mas não queria só ajudar, queria mais...
– Muito próximo da minha mãe, sei – repete e anota ela.
– O que quer dizer com esse sei, doutora?! – a voz dele soa a perplexidade, talvez mais a indignação pela expressão da advogada.
Ela olha-o, fixa. Abre a pasta e tira várias folhas, umas soltas e 2 maços grampeados. Estende para ele um maço grampeado com 7 folhas, a primeira com dois carimbos. – Leia com atenção... – pede. – As 7 folhas contêm um diálogo.
1966.
Corria o campeonato mundial de futebol na Inglaterra, e a seleção portuguesa fazia bonito ao derrotar a do Brasil e passar a ser considerada, com a da casa, favorita ao título. Era o que se ouvia nas estações de rádio a todo o instante. Derrotar o Brasil fez delirar a multidão portuguesa que desabafava socialmente no grito de incentivo ao luso-moçambicano Eusébio e companhia.
Perto da foz do Rio Douro, na sacristia de uma pequena igreja, Armandinho e o padre Zezinho conversavam. O empresário havia pedido para o encontro ser no seu escritório, mas o religioso teimou e ele teve que pegar o Mercedes-Benz de luxo e deixar o centro da invicta cidade.
– Olha, meu bom Zezinho, eu quero Conceição para mim, custe o que me custar. E como já estou com negócios fechados para abrir uma nova empresa no Brasil, estou também a pensar em ir de vez para lá... com ela.
– Sim, o menino?
– Quê?!
– O pai, Augusto, nós deixamos nas mãos da PIDE, mas, em que mãos vai ficar o menino? O que ela, Conceição, diz sobre isso? Vai largar o filho?!
O padre está sentado junto dele, perto da mesa onde habitualmente se fazem os registros de batizados e casamentos. O espaço é pequeno. Atrás deles uma porta dá para o anexo popularmente conhecido como casa do padre, que as beatas limpam todo o dia, após deixarem a capela nos trinques e florida.
– Ainda não conversei com ela sobre essa coisa...! – diz ele, com raiva.
– É a primeira a coisa a fazeres – observa Zezinho, enquanto lhe acaricia a cabeça com um das mãos. – Sabes muito bem que o menino poderá ser um entrave aos teus planos. Lembras?, quando eras mais moço sempre fazias isso: no meu abraço dizias eu vou ser isto e vou fazer aquilo, sem nunca pensares nas conseqüências dos atos. E assim és. Meu querido, a vida já mostrou a ti que tem de ser levada mais a sério.
– Se esse fedelho for entrave para eu ter a mulher da minha vida, eu não sei o que possa fazer?! Eu faço o que for preciso para ti, Zezinho, mas ajuda-me a pôr esse pentelho de lado...
O padre levanta-se e ele faz o mesmo. Abraçam-se forte e longamente.
– Trata de organizar a tua vida no Brasil, e enquanto isso, com um pouco de tempo, eu vou tentar convencer Conceição a deixar o menino a estudar aqui, no colégio particular de um amigo meu.
– Sabia que terias uma solução, Zezinho.
– Mas tudo isto não é fácil, pois o inspetor já me avisou que devem enviar o Augusto para uma prisão do sul, se não for para o campo de concentração de Tarrafal, lá em Cabo Verde, devido ao perigo político que ele representa, e, claro, Conceição vai procurar-me para evitar que o filho deixe de visitar o pai.
– Eh, ele tem de ser enviado para bem longe!
O rádio, entre paramentos da práxis católica, toca agora “cinco minutos de música portuguesa”, e o locutor o diz como se estivesse no Japão ou outro país longínquo.
Constança observa o cliente com atenção. Ao lado, Luisa sofre com a possível reação do amado à realidade que o documento mostra, tantos anos depois da morte da mãe e dos avós.
Ele treme, o maço de folhas em suas mãos parece uma árvore sob vento forte. Pela segunda vez retorna à primeira folha e olha o carimbo: “Confidencial”, com o título “Diálogos entre o padre Zezinho e o empresário Armando Campos”.
– Padreco dos diabos... – resmunga.
Na sua memória momentos de tensão são agora revividos com intensidade. “Quero que venhas passar o fim de semana comigo, ajudas nas missas e ficas lá em casa”, convidava Zezinho. “Não estou interessado em ser beato e menos em dormir com padre”, argumentava o então estudante e teologia. Certa vez, para forçar uma saída ele propôs: “Vem passar o domingo lá em casa, e então aproveito para falar sobre a tua família...”. E foi. O que sabia dos pais? Os nomes apenas. Não tinha histórico familiar para conversar com os amigos, que o chamavam do “filho do padre” e o deixavam louco da vida, humilhado. Na casa paroquial, enquanto do sofisticado aparelho de som ouviam uma seleção de músicas da orquestra de Paul Mauriat e do saxofonista Fausto Papetti e seu conjunto, Zezinho contou como eram os pais, gente devota e honrada, e a cada informação acariciava a cabeça do jovem. Ele percebeu que aquilo era uma encenação para algo mais, e quis saber “por que meus pais morreram queimados?”, para logo ouvir que “o melhor, na tua idade, é perceberes que a vida está contigo e deves gozá-la, porque o passado não te deixará viver em paz”. Naquele instante percebeu que o padre não queria contar-lhe a história familiar. Levantou-se do moderno e caro sofá, olhou-o duramente e esbofeteou-o com ambas as mãos, para logo dar o fora do local. O padre ali ficou boquiaberto, tonto.
– Padreco dos diabos... maldito! – torna a resmungar.
Luisa agita-se, angustiada. Constança abraça-a e com o olhar pede para não intervir.
– O que foi? Lembrou-se das tentativas do padre?...
– ...que nunca deram certo, e na última levou um par de bofetadas para aprender a não se meter com quem não deve!
– E sobre esse registro...
– Sabe, na última vez que o vi ele falou sobre os meus pais, mas de uma maneira evasiva. Então, então... foi ele e o tal Armando que fizeram tudo para a PIDE levar o meu pai!
Luisa não se contém e pega as mãos dele. O sofrimento dele torna-a angustiada, quase chorona. Não alheia ao fato, Constança esforça-se por manter o equilíbrio, recolhe as cópias dos documentos confidenciais e faz mais anotações.
– Cruzou-se com esse Armando Campos nos últimos anos? Ou com o padre?
– Creio que nem reconheço esse Armando. E o padre nunca mais me procurou depois da tareia que levou naquele santo domingo.
– Muito bem, vamos aos fatos: a Luisa encontrou a tal Emília que te denunciou por estupro, e disse que fez isso pelo que esse Armando disse para ela. E quando a Luisa mostrou-lhe a tua foto ficou perplexa, como se não reconhecesse...
– ...e mais: pareceu-me que ela reconheceu outra pessoa pela tua foto, e isso deixou-a estuporizada –intervém Luisa.
– Então, podemos considerar que num encontro entre Duarte e Emília, a Emília poderá reconhecer que foi induzida a erro por informação de terceira pessoa, ou seja, o Armando. Mas, qual o interesse de Armando em prejudicar Duarte? Ora, tu lês-te a transcrição da conversa feita pela PIDE, e o documento parece-me a chave para resolver tudo: tu passas-te a ser um empecilho aos planos de Armando que queria fugir com a tua mãe para o Brasil...
– Mas, é incrível! A minha mãe...
– Eis o foco da questão. Raciocine comigo, meu caro. A intenção foi uma só: vingança. Não sei como aconteceu o incêndio em casa dos teus avós, mas pode ter sido um ato de desespero da tua mãe, ou... Bem, e a Luisa chegou ao foco com o comportamento da Emília diante da foto de Duarte. Agora, qual a relação entre Emília e Armando? Por que uma senhora de bem com a vida, pelos menos financeiramente, aceita fazer o jogo de Armando?
– Uma acareação com essa Emília...
– É o que eu vou solicitar imediatamente, e isso pode devolver a ti a condição de cidadão honesto.
– Ai, é tudo o que queremos! – e Luisa não agüenta. As lágrimas rolam no seu rosto
Livro 4
Parte 6
Sao tudo favas-contadas
No país da verborreia
Uma brilhante carreira
Dá produto todo o ano
Digamos pra ser exacto
Assim se faz um canalha
Zeca Afonso
- in canção “Como Se Faz Um Canalha”
[Portugal, 1976]
É linda a baía da Guanabara.
Na outra banda, que é Niterói, região de tantas e tantas olarias operacionalizadas por mãos ceramistas de Barcelos e Caldas da Rainha, eis que Armandinho acaba de despachar no escritório tropicalmente decorado.
Está com sandálias de couro de jacaré, calças e camisa de linho. O perfeito colono em seu momento dourado.
Casa solarenga dos velhos tempos coloniais, ele adaptou-a para ser o meu palácio.
Numa das salas da casa, ligadas por uma varanda longa e circular, uma moça negra canta: “Um peixe me avisou/ que não tem mais lugar/ para viver nesse lugar/ da minha Guanabara/ vai mudar dessas águas/ onde foi feliz...”. .Uma balada de Byafra e Ciranda que surfa revolucionariamente nas ondinhas pestilentas da poluição que mata as águas da bela Guanabara.
– Ó miúda... – berra Armandinho, mas logo emenda, sai da gíria portuguesa. – Raios!, ó garota, vem aqui... Se quiseres continuar a trabalhar nesta casa, nunca mais ouses cantar essas coisas de comunas!
– Si, sô, mi patrão! – responde a moça, amedrontada. Portuga safado, pra meter a mão em mim ele não berra... E que é isso de comunas?!, diz para si, enquanto se afasta bamboleando o corpo moreno a murmurar Mar da Guanabara.
– Mas nem neste paraíso que é o Brasil os terroristas nos deixam em paz, raios! – ouve ela o comentário irado do patrão, e sorri.
Em uma das viagens que fez ao Estado da Guanabara, onde se situa o Rio de Janeiro, e sempre com a bela acompanhante morena, Armandinho fez um giro pela baía e ficou impressionado pela beleza da banda d´além...
O governador Estácio de Sá sabia da importância de manter a Guanabara sob proteção: ele aprendera com os nativos sul-americanos que a baía era o seio-mar, que traduzido do tupi-guarani significa Guanabara. Naquele tempo de conquista e consolidação do Tratado de Tordesilhas, e principalmente diante dos corsários da França, os portugueses aliaram-se a várias tribos com ações epo-místicas do jesuíta Manoel da Nóbrega; e num desses momentos de vitória, Estácio de Sá chamou o cacique Araribóia e disse-lhe para escolher um local para viver com a sua tribo, e o chefe tupi apontou a banda d´além baía dizendo que queria Niterói, que no tupi-guarani quer dizer águas escondidas.
Longe da multidão mundana e turística de Copacabana e Flamengo, a região de Niterói impressionou Armandinho. – Quero um lugar grandioso e tranqüilo– disse. E a bela morena, na popa do barco de passeio apontou: – Niterói.
Lugar tranqüilo, e a avaliar pelos projetos de mudança geopolítica já bem avançada, “Niterói será em breve uma entre outras pacatas cidades do Estado que será chamado Rio de Janeiro, e a Guanabara será somente a bela baía”, como lhe havia segredado Aninha. A informação deixou-o mais entusiasmado.
– Para se trabalhar com brasileiros é preciso operar com aquilo que melhor eles aprenderam com os portugueses: a malandragem maruja, o jeitinho de sempre levar a melhor mesmo nas piores ocasiões, e gostam de ser comandados..., ou os militares não estariam no poder... – dissera para Augusto, numa reunião com o advogado e o contabilista.
Quase um século depois da instauração da República, que politicamente continuou a Monarquia, e após uma caminhada política sem foco ideológico, mais no âmbito do vamos ver no que dá, que resultou até na visita pomposa do portenho-cubano Ernesto ´che´ Guevara, a classe média encampou o ideal das elites ultramontanas e endossou a política norte-americana e vaticana do capitalismo selvagem através dos militares, em 1964. E o Brasil mergulhou nas sombras de atos institucionais de autoritarismo, censura e tortura, tudo para acabar com a possibilidade da visão soviético-cubana de alguns dirigentes de esquerda e de uma intelectualidade que, apesar de empantufada, requeria posição enérgica da ordem instituída pelo nacional desenvolvimentismo. Entre os anos 1983 e 84, Figueiredo, o último general da Ditadura, enfrenta greves e uma economia em inflação descontrolada, o que dá margem para que a sociedade brasileira, e principalmente a classe média (a mesma que apoiara o golpe de 64 e que hipocritamente se diz ´traída´), saísse às ruas clamando por abertura imediata, eleições diretas e o fim das prisões e torturas.
Já sob influência do golpe de 1974, em Lisboa, que derrubara o salazarismo, e o fim do franquismo, na Espanha, o Brasil encara a sua própria história recente e faz de 1984 o ano da virada.
– Ainda estamos num país com ordem estabelecida – resmunga Armandinho. – Aqui eu pago impostos, dou emprego, unto as mãos de polícias e militares, mas eu é que mando... – reiterou a sua posição à secretária, a da sede portuense, que o visitou no solar recentemente, a trabalho. O bom andamento dos negócios luso-brasileiros passou a exigir uma viagem da secretária a cada 3 meses, e às vezes 2 no mesmo mês. – A escolha do solar foi uma ótima idéia, senhor doutor, e este país está sob controle, não é o Portugal dos militares barbudos a la Fidel... – dissera ela. E ela sabia muito bem o que dizer para agradar ao senhor doutor, e mais ainda o que fazer sobre a escrivaninha dele. Mas também sabia, e sabe, que um bom emprego não se consegue facilmente, e para quem veio de baixo todas as oportunidades devem ser agarradas com unhas e dentes. Especializou-se em estar dos dois lados: com o senhor doutor e com o senhor inspetor. A perfeita colaboracionista que não morre com o regime, antes, dá-lhe continuidade social e burocrática. E são tantos salazaristas no Brasil que parece-me estar naquele Portugal dos bons velhos tempos, percebeu, ao ser convidada para a missa anual dos saudosistas de Salazar, na Candelária. Depois, um jantar de gala no solar de Armandinho só para empresários luso-brasileiros...
Para ele, a tranqüilidade de um espaço físico, tradicional, como um solar com brasão, dá ao negociador a vantagem psicológica de mostrar um querer que pode, algo que os brasileiros não gostam, porque foram muito influenciados pelos costumes mercantis dos árabes e dos judeus. Adoram pechinchar. Armandinho, não. Eu quero porque posso querer, e pronto. Já o sócio Augusto é calmo, gosta de conversar para fazer do cliente um parceiro leal. Um idealismo que no conceito mercantil de Armandinho não tem cabimento. Ao conhecer a história de Niterói decidiu, entre goles de Caipirinha e o som das ondas mansas batendo no casco da embarcação, que “a Guanabara é o meu novo mundo e Niterói a minha casa”.
É o que Zezinho acaba de ler num conjunto de 4 azulejos pequenos emoldurados por 4 peças de mogno artisticamente trabalhadas. Uma gravura da baía com Niterói em destaque e a frase em rodapé.
Estava no seu esplendido descanso numa rede guarani quando ouviu o vozeirão de Armandinho. Alto, de quase 2 metros, o padre Zezinho está civil em seus trajes de linho, descalço. Ele faz lembrar alguns dos astros hollywoodescos e já fez bater apressadamente corações femininos, principalmente depois de batizados e casamentos. O seu estilo anglo-saxônico é inconfundível e poderia ser escolhido para interpretar 007, o eterno astro do cinema dito de ação e efeitos especiais.
– O que fez a mocinha?
– Ora, fica por aí a cantar coisas de comunas, coisas de ecologistas que não têm o que fazer... – diz Armandinho –, como se eu lhe pagasse para isso!
– Aqui, as pessoas são menos rígidas – observa o padre, e avisa: – Cuidado com exageros, meu caro. Muito cuidado, afinal, tu és um estrangeiro aqui.
Ele acena com a cabeça para dizer que entendeu o recado, mas o seu semblante enfurecido mostra que o seu comportamento vai continuar o mesmo. – Chamei-te aqui não para ouvir sermões, mas para estudarmos uma maneira de me safar da encrenca do Porto – observa.
Uma semana antes, Zezinho telefonara para lhe dizer: – Olha, fui procurado por uma advogada que quer saber tudo acerca do passado do rapaz do matadouro. Não atendi nas vezes que ela procurou, mas já soube que vasculhou na PJ a tua vida, a minha, e muito particularmente o incêndio..., pelo que me disse um dos amigos dos velhos tempos que por lá anda, ainda – e a informação deixara Armandinho em pânico. – Eu gasto tanto e tanto dinheiro com a polícia, e contigo, e agora não são capazes de evitar a investigação de uma advogada vagabunda. Eu sou parte da elite comercial, não sou um mero dono de bazar, porra! – vociferou. Zezinho chegou num fim de tarde e após um banho longo ficou com ele na ampla varanda sobre a baía. Não falaram sobre o caso, mas em alguns momentos Zezinho percebeu a perturbação e abraçou carinhosamente o amigo. E assim foi até alta madrugada. No solar, Zezinho não é o padre, é um amigo de Armandinho.
“Tu és diferente de Augusto, és um homem que se dá ao prazer, para ambos os sexos, sim, mas para ambos com plena consciência do que é amar”, ouvira dele, lá pelas tantas da madrugada, e após a mistura de Caipirinha com um velho Porto. Nunca escutara de Zezinho muitas confidências, mas acabara de entender por que ele entregou de bandeja Augusto nas mãos dos pides. Fora recusado. “Todos nós temos uma queda, maior ou menor, pelo mesmo sexo, mas Augusto é obcecado por mulheres. Eu gosto também de mulheres, é diferente, mas ele não vive sem uma por perto e não trocará, nunca, uma mulher por um homem. É a essência dele, macho, o que também explica por que se deu tão bem na poesia boêmia, nas noites da Ribeira e da Foz”, afirmou, num tom que parecia estar a explicar para si o comportamento do amigo e sócio. “Pior: o filho também recusou-me e... com um par de bofetadas!”, confessou. Perdidos e a ´botar fogo pelas bentas´, os dois caíram na risada e adormeceram sobre 3 peles de onça estendidas no assoalho esmeradamente encerado da varanda.
Agora, com a cabeça fria, e mesmo conhecendo algumas escapadas do padre com algumas beatas do seu rebanho, Armandinho aprendeu que terá de estar com o amigo de outro jeito, pois, ele é o religioso de manhas tantas que poderá escapar do caso, enquanto eu estou nas mãos dele, pensa. Olha para os pés e percebe, pela terceira vez, que entregar o sócio aos pides foi um tiro certeiro nele mesmo. Imagina o chamuscado, a fumaça de carniça estourada. E se ele repete que é para eu ter muito cuidado, é o que farei, porra!, determina-se. Canalha por canalha, ambos sabem que terão de se escutar para sobreviver ao caso que produziram lá em 1966. Escutar e solucionar, porque não têm mais os pides comparsas e a realidade judiciária portuguesa é outra. Os comunas não construíram uma nova Cuba, mas, sem a aniquilar, prejudicaram a estrutura salazarista no poder autárquico e no meio forense, e disso ambos têm plena consciência. Como fugir da encrenca?
– E a Emília?
– Procurei-a diversas vezes – diz Zezinho, com um lance de insatisfação no semblante –, e eu acho que foi abordada pela advogada e fugiu para outra freguesia. Deve estar a morrer de medo, a velha.
– Uma investigação sobre o que nos liga e um blá-blá inadequado dessa Emília, na GNR, acaba conosco!
– A questão é fazê-la desaparecer para evitar qualquer possibilidade de acareação com o rapaz – diz Zezinho. – A verdade, para nós... ai, meu deus!, para nós ela é agora uma bomba ambulante, como essas mulheres-bomba árabes.
– Mas – observa Armandinho, a pensar alto e bom som –, ela não fez a denúncia por dinheiro: quando lhe disse que “o Tripeiro mandou Augusto para a cadeia” ela simplesmente ficou vidrada e fez o servicinho.
– Não teve dinheiro no meio?... – o espanto está no rosto do padre.
– Não!
– Mas, então...
– Olha aqui, pá – e Armandinho sorri, aproveita para mostrar ao esperto e sempre eficiente padre que também é um homem de manhas e conhecimentos –, essa Emília era a tal mulher com quem o Augusto estava apaixonado, e tudo foi por água abaixo porque a família da Conceição exigiu-lhe o casamento depois um namorico numa daquelas noitadas da Ribeira. Ficou de tal maneira enraivecida a Emília que nunca mais namorou, e foi nessa raiva que eu peguei para fazê-la denunciar o rapaz, que ela nem sabe quem é, porque o estuprador da minha empregadita, coitada..., é um cafetão das docas de Leixões que eu mandei para Espanha com um maço de notas no bolso, e com destino à Argentina, onde lhe comprei apartamento... lá na baixa portenha, para não ficar tão longe das docas e nem pensar em retornar!
– Mas, então – o padre coça a cabeça, o caso parece-lhe agora mais complicado –, ai, meu deus!..., é que a cara do rapaz é a cara do Augusto!, a haver acareação ela vai saber que é o filho dele!
– Os meus pés estão a chamuscar outra vez, raios! – preocupa-se Armandinho.
– Quem fez o contato com essa Emília?
– Ah... a minha secretária...
– Trata de conseguir que eu embarque amanhã de manhã, no primeiro avião. A tua secretária deve ter ficado com alguma informação da Emília. Por que é que tu achas que sou tão cuidadoso nos meus contatos? Tu achas que é só querer?, que é só mandar?... Ai, meu Armandinho, meu Armandinho...
Aturdido, humilhado, Armandinho deixa-se abraçar. E abraça. Precisa do colo amigo. Do calor com o qual sempre caminhou: um calor que foi e é, reconhece agora, o motor propulsor do seu sucesso empresarial
Livro 5
Parte 7
Por quem me tomas? Eu sou Eu,
Diz a Hipocrisia ao Bom Senso.
Que retruca: E eu sou o que não reconheces, a Verdade!
Ora, ora, não passas de um reles elemento!,
E nunca vencerás o que sob o véu é meu...
O juiz de instrução criminal ouve atentamente Constança. Mesmo que suspeito por denúncia sem acareação, Duarte Ribeiro não poderia estar detido por falta de provas conclusivas. Como a Justiça erra desta maneira?, pensa. Mas não o diz para a advogada.
Sabe que o caso é complicado, envolve gente poderosa e com influência social, política e econômica. Depois de 2 anos na Ilha da Madeira e de um estágio de 8 meses em Paris, sobre Direito Internacional, o juiz está há 4 meses no Juizado de Instrução Criminal. Conhece muito bem Constança: foram colegas no curso de Direito. Ele, sempre sustentado com bolsas conseguidas pelas “ótimas notas acadêmicas, a par de comentários jurídicos em jornais e revistas que o fizeram referência como intelectual justo e literariamente atualizado”, como ela o apresentou a Luisa; e ela, uma “menina vinda de família com boa condição financeira, mas pouco dada a formalidades sociais e acadêmicas, excessivamente independente, mas encantadora”, como ele dissera num encontro da turma meses depois da formatura. E assim continua. A menina independente e segura de si mesma está agora aqui, não como colega, mas a advogada diante do juiz, pensa. E o caso parece um osso duro de roer.
A acareação imediata é, para o juiz, a única maneira de se evitar um prejuízo social e psicológico maior quanto a Duarte Ribeiro. Durante alguns minutos Constança percebe que algo incomoda o juiz.
– Este..., este Duarte Ribeiro é o mesmo que escreve naquela revista... Conhece-te a Ti Mesmo, editada aqui no Porto? – pergunta ele a dado momento.
Ela olha-o a querer sondar mais alguma coisa. Ele conhece-o, pensa. – A revista circula só entre intelectuais e artistas, e este Duarte Ribeiro é o mesmo que lá escreve e é o editor, sim – informa, e passa a questionar: – Já publicou algum artigo na revista?
É a vez de o juiz olhá-la, calmo, com um sorriso. – Constança. Eu tenho uma coluna jurídica permanente na revista a convite do editor Duarte Ribeiro! – revela. As formalidades são afastadas de vez. – Já conversei com ele tantas vezes e sobre tantas coisas que, eu sei, esse aí nasceu e vai morrer filosoficamente anarquista. Sabes, às vezes faço um depósito em dinheiro na conta dele para ajudar a pagar os custos de publicação, e também outros articulistas o fazem. É uma colaboração sadia, um abraço cultural. Mas não pode ser a mesma pessoa que estuprou a moça. E ele, eu também sei, é louco de amores por uma professora, que eu agora não sei o... ah, então é essa tua cliente, Luisa. Realmente, ele caiu numa cilada muito bem montada, e agora, só uma acareação pode resolver o caso!
– E a tal Emília desapareceu!
– Ih...!
– Pois é... Mas, se o estado de choque imediato da empregada estuprada já passou, e creio que sim, ela pode ser chamada para reconhecer o estuprador.
O colégio é novo, foi construído há cerca de 10 anos por um grupo de professores, mas já é uma das melhores unidades de ensino, geral e profissionalizante, no Porto.
Clara Fonseca é a diretora. Formada em Economia com especialidade em Administração Escolar, fez uma seleção entre o professorado residente na cidade para compor o primeiro núcleo de docentes do colégio. Luisa foi uma das professoras que entusiasmou Clara, apesar da sua juventude e uma prática acadêmica de apenas 2 anos. “É preciso demonstrar cabalmente à juventude que ela não é o futuro, mas o presente que faz o futuro, e por isso a escola deve ser tida como o incentivo para o estudo permanente (e não passageiro) da vida que somos, logo, a docência deve ser um exercício de vida e não de mero ambiente burocrático”, escreveu Luisa num artigo assinado em Conhece-te a Ti Mesmo, a revista que Clara recebia de 2 em 2 meses. O convite foi feito e aceito. – Para conquistarmos a felicidade, sabermos do nosso Eu, precisamos não ficar como vítimas dos nossos problemas, e alheios. O conceito vítima de mim é ótimo para pessoas místicas, mas não para quem tem de viver e gerar vida, e por isso o trabalho deve ser uma ação de responsabilidade social e ética – expõe ela à turma do curso de Contabilidade. Minutos depois de alguns questionamentos, o toque de fim de aula ouve-se em todo o edifício e ela sai meio apressada.
Constança acaba de guardar os documentos nas suas pastas respectivas quando a cabeça de Luisa espreita pela porta que deixara encostada.
– Olá, Luisa. Entra...
– Como foi lá com o teu amigo juiz?... – a expectativa está no olhar de interrogações.
– Ele entendeu que o teu Trip caiu numa cilada e já solicitou providências para uma acareação com a Emília, mas também diligências para ouvir o padre Zezinho e o empresário Armando.
– Ah!, finalmente... – o suspiro faz Luisa descontrair. Todo o seu semblante se altera, a paz toma-a.
– Eh, mas já sabemos que tanto o Zezinho como o Armando estão fora do país, talvez no Brasil, e a tramar como fugir de qualquer interrogatório ou processo. – Com algum espanto vê que Luisa não se altera, está em paz. – O que há contigo, mulher?
– Só o fato de saber que o juiz entendeu que o meu Trip é inocente... Ai, que bom! Que bom... E como seria bom ele saber disto, agora!
A advogada reconhece que tudo o que se passou no juizado é um sinal de bons tempos, mas também sabe que não existe decisão final, tudo é um tempo de diligências e que pode ser longo. – Vamos devagar, Luisa, devagar – alerta, com suavidade. – Por enquanto o juiz entendeu a nossa defesa e tem a nossa documentação como evidência forte de uma trama criminosa contra Duarte... Ah, que ele conhece muito bem, pois, olha bem..., ele assina uma coluna na revista que o Duarte publica! Ah, e ainda colabora com algum dinheiro para ajudar nos custos gráficos, porque... como é que ele disse, ai... “anarquista não tem noção dos perigos da burocracia econômica”. Ah, ah, ah... este meu amigo é o máximo.
– Ai, que maravilha! – o rosto de Luisa ilumina-se. Para ela o caso tem os dias contados. Não pensa, nem pode pensar como a advogada: a sua energia está concentrada na liberdade do homem amado, o pai do bebê que carrega há quase 9 meses.
Luisa lera, e depois lera novamente, Jonathan Livingston Seagull, a bela história da gaivota contada por Richard D. Bach. Ficou encantada com a lição de liberdade, do esforço para a liberdade. “O que eu era acabou-se; acabou-se tudo o que aprendi”, murmurou uma frase do livro que era parte da sua mesinha de cabeceira. Foi o que sentiu quando se deu conta que Trip não estava mais ao seu lado. Uma noite em branco e preto, o arco-íris que tanto gostava de imaginar para tudo o que fazia dissipara-se. O dia clareava quando se lembrou: “Para onde vamos? Não há um lugar chamado paraíso?”, e murmurou outra frase do livro. Ah, o paraíso... Sempre acreditara no credo cristão que a família lhe passara, mas as circunstâncias da vida diária e o conhecimento mais profundo da história desse credo levaram-na a duvidar do altar físico, e passou a acreditar em si para alcançar soluções para os próprios problemas. Escrevera até um artigo na revista acerca do assunto, que a família entendeu como “problema ocasional de identidade religiosa”, e só. Não posso acabar comigo porque um problema surgiu e levou o meu homem, tenho que reagir e assegurar o meu paraíso, a minha paz de mulher amada e que ama, decidiu-se. Afinal, grávida e perto de realizar o sonho irisado da sua vida – ser mãe de um filho gerado com o homem amado – Luisa quis mostrar a si mesma que se uns abandonam-se, eu não, eu sou vida. E viu em Constança não uma pessoa disposta a batalhar por uma solução digna para o caso do seu Trip, mas uma pessoa cuja dignidade profissional passa pela solidariedade.
– Luisa, Luisa – adverte Constança –, o caso não está encerrado, só começou! Espera...
O telefone toca. – Está lá...
– Vou solicitar que o Duarte Ribeiro aguarde julgamento em casa, uma vez que os documentos negam a sua participação no crime, e será chamado quando as diligências processuais o exigirem. Aliás, a prisão dele foi executada sem quaisquer provas para tal. – Ela continua a ouvir o juiz. Na sua frente, Luisa não entende o porquê da sua cara de satisfação e fica numa aflição só. – O despacho estará pronto amanhã de manhã, pelas 10h, e com ele poderás ir buscar o teu cliente, pois, antes, o diretor do presídio receberá uma comunicação por telégrafo! Boa sorte, Constança.
– Sabia que a tua honestidade e o teu conhecimento profissional iriam falar mais alto que a burocracia. Muito agradecida por toda a tua atenção, meu amigo.
Estende as mãos sobre a mesa de trabalho e apanha as de Luisa. – Podes sorrir, o juiz acaba de decidir que o teu Trip vai aguardar o julgamento em casa! Vamos buscá-lo amanhã de manhã...
O rosto de Luisa é a prova de que a felicidade é uma conquista que deve ser preservada custo o que custar. É um poema de alegria. – Ooohhh... – Alegria tanta que lhe rouba as forças. Rápida, Constança segura as mãos dela com firmeza e impede que caia da cadeira. Abraça-a e, por alguns segundos, escuta a respiração. Estende uma mão para o jarro da água, que está junto da cafeteira, verte um pouco num copo e depois umedece a ponta de um pequeno pano de prato, que passa no rosto dela. – Constança?!... – E ela reanima-se lentamente. – Agora, estás nos trinques, menina. Que susto!
Luisa ajeita-se na cadeira, despeja água num copo e bebe, sôfrega. – Caramba, esse juiz é mesmo gente fina, hein! E... – lembra-se de alguma coisa –, como é que tu disseste? Este meu amigo é o máximo. Huummm, máximo...?!
– Luisa, Luisa – ela levanta as mãos para o alto –, não queiras virar casamenteira. Eu gosto muito dele, e sei que ele gosta de mim...
– ... e ele – Luisa é uma lua sorridente – deixou-te ir embora do gabinete para depois agraciar-te com uma surpresa...
Constança está embaraçada, havia percebido que ele fizera aquilo de propósito, pois, poderia (e deveria) tê-lo feito no gabinete. – Devagar Luisa, devagarzinho, porque nunca existiu relacionamento íntimo entre eu e ele. Sempre fomos ótimos camaradas de curso.
– Mas é o que ele acha que poderá acontecer... agora!
– Talvez...
Parte 8
O que olho nem sempre digo,
Porque a palavra diz outras coisas
Que o olhar não confessa!
Quem se acha entre encantadas moiras
Não tem as pantufas do cômodo estilo.
Do radinho de pilhas Olho d´Águia escuta uma sonata beethoveniana e, no ritmo, lembra de Luisa, a queridinha do Tripeiro. Um amor e tanto o desse casal, suspira.
– Ei!
Deixa de lado as anotações que faz num pequeno maço de folhas soltas e volta-se para a porta da cela. Ao levantar-se fica recortado entre a porta e a grade da janela numa figura de arte em fotografia de sombras – Ah, és tu! Entra, pá. Estava a ouvir Beethoven e lembrei de ti e da Luisa, que só conheço de nome, mas que aprendi a respeitar pelo esforço de salvar o amor!
– Ai é, ele compôs Fur Elise, que é a nossa música de namoro – confessa o Tripeiro.
– Ai, o amor é lindo... Não deveria ser uma canção do Léo Ferré...?
– Que gracinha tu és... Bem, tu deixaste um recado para eu vir...
– ...Fui ver o concerto dele no Porto. Muito bom, o gajo. Mas, vamos em frente...
– Ó, preciso que me respondas...
São interrompidos abruptamente por Al Awad, que continua: – Por que dizes que a nossa luta não é correta?
Olho d´Águia olha-o de alto e baixo, como que a pedir mais respeito ao intempestivo árabe, e diz: – É que políticos como tu, e outros, pensam como os intelectuais ocidentais. Vocês acham que só a Palestina existe. Olha, de alguma maneira vocês também ajudam no extermínio que iraquiano e turcos fazem no povo turco, com apoio direto de norte-americanos, judeus e egípcios. Vocês não pensam como seria melhor unir primeiro o universo social árabe?
– Os curdos são outra questão!
– Ah... – interrompre o Tripeiro, num inglês perfeito, que deixa Al Awad perplexo –, os curdos são outra questão!
E, a olhar para Olho d´Águia deixa que ele prossiga. – É que vocês, repito, pensam como a maioria dos intelectuais ocidentais, ou seja, se a chama acesa além não chamusca as minhas pantufas, a coisa não é comigo! Olha, os fanáticos evangélicos britânicos mataram milhões de nativos na América, lá no norte, e os ´caridosos´ católicos ibéricos fizeram o mesmo no centro e no sul... Ora, Al Awad, são coisas do passado, não de hoje. Acontece que vocês também são coisas do passado e por isso é tratam os curdos como povo que não existe. O terrorismo de estado é tão cruel quanto o terrorismo de grupos nacionalistas, e só existe uma maneira de se evitar isso: pensar. E pensando, Al Awad, sabemos que a questão não se chama Questão Palestina, mas Questão Yankee-Judaica com apoio da maioria árabe sentada nos petrodólares!
– Vocês não entendem a nossa missão sagrada! – grita o árabe, que abandona o local a esbracejar, desapontado.
– Para eles é tudo uma questão divina... – observa o Tripeiro.
– E esquecem que alimentam um deus altivo e terrorista, igualzinho ao deus instituído por Pedro e por Paulo. Ora, ó Tripeiro, nós somos o deus, ou a deusa, como se quiser, quando pensamos e agimos como humanos decentes que se querem conhecer!
– Isso é uma premissa socrática, ou antes, de Apolo, e se Atenas não quis escutar...
Olho d´Águia ri. Sentam-se no corredor, as costas na parede.
– Mas, tu ias a dizer...
– Ah, pensei sobre o que me disseste da conversa com a advogada e a tua Luisa – diz, enquanto o outro o encara, atento. – Se a magistratura da instrução criminal levar em conta que não existiu nem acareação com a vítima, é bem possível que a advogada consiga tirar-te daqui, em menos de uma semana, pá. No mínimo, para aguardares em casa o resultado da investigação, que pode ou não levar-te a julgamento.
É hora do banho de sol para os detentos que o quiserem. Mas o sol, que nunca foi chamado para o assunto, resolveu não aparecer hoje. E a manhã é fria, mas clara.
– Ei, ó Tripeiro – é o diretor do presídio na sua habitual postura castrense –, arruma os pertences que tens na cela, desce e pega a tua roupa. O guarda vai contigo até à portaria.
Na cela contígua está Olho d´Águia. Ele ouve o vozeirão do diretor. Hum, e lá se vai a única pessoa com quem eu podia conversar por aqui..., constata. – E aí, ó Olho d´Águia, não quiseste dar as boas vindas ao sol?! – diz o diretor a espreitar na porta da cela e já a abandonar o local.
Olho d´Águia percebe a frustração no olhar do diretor. – Não se preocupe, senhor diretor, outro virá ocupar a cela do Tripeiro. Ou o senhor acha que só vêm parar aqui pré condenados?! – diz. E escuta o murro violento que o diretor desfechou na porta, enraivecido.
Sorrindo, desloca-se para a cela do Tripeiro.
Ele está sentado, os olhos fixos na parede. Não parece ter acreditado no recado deixado pelo próprio diretor.
– Tripeiro, acorda Tripeiro! – diz Olho d´Águia para o tirar da letargia.
Duarte Ribeiro, o Tripeiro, entrou em choque ao ouvir “arruma os pertences”. O inferno acabou, e não foi deus. Foi a minha Luisa que acabou com o inferno!, dizia para si mesmo repetidamente. Um eco gigantesco a envolver-lhe os sentidos, paralisando-o.
– Tripeiro, acorda Tripeiro! – continua Olho d´Águia – A tua Luisa já deve estar lá na portaria, pá!
Ao ouvir o nome da amada olha para o parceiro de inferno e levanta-se. – Dá cá um abraço, ó Alex!
Um abraço emocionado de pessoas que se conheceram no inferno das impotências sociais. – Promete-me que vais escrever sobre este nosso encontro no inferno!
Olho d´Águia volta à sua cela, retira 4 folhas manuscritas de um maço, e entrega para ele. – Eu tinha a certeza que a tua liberdade era uma questão de dias, pá. Aqui tens uma crônica sobre o teu caso jurídico para publicares na revista Conhece-te a Ti Mesmo. E dá um beijo na Luisa por mim. Ah, e o diretor engoliu em seco. A tua libertação foi pior que uma bomba no rabo dele!, o que não quer dizer que não aconteça...
– Ah, ah, ah...
Sempre gostara de ler os artigos e poemas de Alex, que sabe ser um pseudônimo literário, mas ao ver como ele levava ao papel os pensamentos e os transformava em prosa ou poesia, passou a ter muito mais respeito por quem cria a estética literária com o instante das vivências. Não tinha esse dom de criar no instante, mas gostava de escrever. E por isso, desde que soube que Olho d´Águia era Alex transformou-o em referência. E uma certeza: uma amizade para sempre.
– A tua primeira missão, Trip (agora posso chamar-te de Trip), é recomeçares a publicação de Conhece-te a Ti Mesmo. Certo?
– Certo, pá.
Enfiada num vestido longo e largo, os cabelos presos por uma boina que combina com os estampados do vestido, e um lenço neutro de seda, Luisa vai ao encontro de quem a faz feliz. A sua barriga de mulher em estado de graça humaníssima é exibida como um prêmio à vida.
A portaria alva e psicologicamente terrorista do estabelecimento prisional ganha cores nunca imaginadas com a presença de duas mulheres cheias de vida, alegria e elegância. Constança está de calças largas e casaco de couro, um cachecol de lã fina, e sapatos de salto médio, que a deixam mais vistosa ainda.
– É o nosso dia! – sussurra Constança, que tem nas mãos cópia do documento que manda soltar Duarte Ribeiro.
– É hora! – diz Luisa deixando-se abraçar.
– Luisa!
Duarte Ribeiro grita o nome da amada logo que a vê na sala de espera.
– Ai, meu Trip...
O abraço e o beijo enamorado são o corolário de um esforço pelo amor. Se existe uma teoria do amor, a paixão e a solidariedade provam-na na sequência das ações libertárias, no ato de pura anarquia.
O sorriso da advogada espelha a satisfação por um dever cumprido em prol de uma justiça justa, mais humana.
Parte 9
Não havia em Portugal
Nos tempos mais ancianos
Tantas maneiras de enganos
Nem tantos males de um mal...
Por certo o maior mal,
E que em meu reino mais importa
É a justiça estar morta...
VICENTE, Gil – in Floresta de Enganos [1536]
– Como vai, Márcia?
– Ora, ora... padre Zezinho?! Que bons (ou maus...) ventos fizeram o senhor zarpar das belas paisagens brasileiras?
– Vamos conversar no gabinete do Armandinho. Traga a chave.
Espantada, mas logo a providenciar a chave para abrir o gabinete, pois, ela sabe que o padre e uma autoridade dentro da empresa, a secretária de Armandinho avança pelo corredor. – Alguma não está a correr bem lá no Brasil? – quer saber, ainda a abrir a porta. Mas vê que o padre um gesto convidando-a a entrar, o que ele faz também.
– É aqui, na terrinha, como dizem os manos brazucas, que as coisas não estão bem, Márcia.
– ...?!
– Não me olhe com essa cara de espanto, Márcia – diz ele, a mostrar um semblante duro, nada pacífico. – Arranje-me um encontro com a tal Emília. Leve-a para falar comigo longe daqui... Hum, pode ser Póvoa de Varzim, naquele restaurante perto do cassino onde o Armandinho gosta de almoçar com clientes. Amanhã às 10h.
Márcia, uma mulher quarentona, baixa, forte e sem ser gorda, sempre elegante, gasta uns segundos a olhar fixamente o padre. E abana a cabeça negativamente. – Esse não foi o trato que o senhor doutor me pediu para fazer com Emília...
–... e qual foi?!
Ela sente-se não na frente de um pastor de ovelhas, vê-o agora como um lobo pronto para abater uma ovelha. Assusta-se. Nunca percebera em Zezinho tamanha crueldade no olhar. Sente-se fuzilada sem qualquer oportunidade de defesa. – Foi vendida a casa dela e ajudamos na compra de outra casa, na região das Antas, e para não mais ser incomodada...
– Você é ignorante?! E o Armandinho, também?! – A cólera está no rosto do padre. Como para não mais ser incomodada...? Ela acusou um rapaz de estupro e vocês acham que ela não tem que responder a processo judicial?! Que estamos naquele tempo da PIDE, quando os poderosos diziam faça-se em troca de favores financeiros e ideológicos, hein?!
Márcia está simplesmente apavorada.
– Eu executo ordens, padre! – responde. Não sabe onde foi buscar forças para responder ao religioso que, durante anos e anos, aprendeu a respeitar como pastor de trabalha para o bem comum. Mas, sabe agora, ele trabalha além da sua atividade pastoral: ele está metido em tudo o que diz respeito aos negócios de Augusto e Armandinho, raciocina. Além dos afazeres sexuais, claro!, continua, sem perceber como consegue, num instante tão periclitante, encontrar respostas a questões que durante anos a incomodaram tanto. Com o Augusto ele nunca conseguiu aquele abraço e beijo que o Armandinho lhe dá, por isso ele manda aqui como manda na paróquia. É tudo uma troca de favores, e quem aparece é o Armandinho..., pensa ela a flutuar na luminosidade que, de repente, surge no túnel do tempo. Olha-o e repete, determinada: – Eu executo ordens, padre!
– Por isso mesmo – retruca ele, impávido –, trate de encontrar essa Emília, levá-la amanhã de manhã para falar comigo, e pronto!
Ele levanta-se e deixa o gabinete, imponente. Márcia vê-o atravessar o corredor como um papa medieval a caminho de mais uma orgia antes do ´terço´, absolutamente poderoso e intocável. Será?, pensa.
Não gostou da maneira como ele falou, mas está certa de que a justiça é feita pelos poderosos e não pelo povo que tem de amanhecer todos os dias para sobreviver em trabalho escravo. Então, o Augusto foi parar com os costados na masmorra dos pides por tramóia do Zezinho e do Armandinho com o inspetor da PIDE, levado para a África, e até agora ninguém sabe que fim levou, e o filho, o Duarte, está agora também com os costados na masmorra por outra tramóia dos dois... É uma vingança, uma vingança que tem a Emília como chave de uma história que vai acabar mal. Ah, se vai... Ela esforça-se por interpretar os acontecimentos dos últimos anos e entender o que no passado levou a uma ação no presente para atingir o filho de um homem condenado, com certeza, pela ganância. E esta Emília...
Sai dos seus pensamentos quando ouve o telefone da sua mesa de trabalho. – Olá, senhor doutor...
– Faz o que o padre mandar, porque ele entende melhor do que nós o que deve ser feito para nos proteger.
– Claro, claro, senhor doutor. E os negócios, aí?
– Bem, estão bem, graças ao bom deus, que nunca abandona os seus filhos tão dedicados.
– Amém. E o senhor doutor, quando volta?
– Tudo depende do que o padre resolver aí com a tua ajuda e a colaboração da Emília. Como está ela?
– Combinamos que a deixaríamos em paz, certo?
– Mas estamos com problemas... Ou, eu estou com problemas por causa daquele rapaz. O padre já falou com ela?
– Vou tentar encontrá-la...
– ...ora, deixa tudo o que estás a fazer e trata de encontrar essa mulher doida, raios! – a fala dele é colérica. – Precisamos dessa mulher, já!
– Duarte, eu preciso fazer uma pergunta delicada...
– Pode chamar-me de Trip, ó Constança.
– Ah, obrigada.
A casa do casal é um pequeno chalé alugado perto do mar, nas bandas do Castelo do Queijo, assim chamado por causa do formato ´queijo´, uma fortificação construída sobre um rochedo que antes foi local sagrado céltico nas andanças da tribo ´draganes´, e outras, que ocuparam o território minho-duriense antes do Condado Portucalense ser estabelecido. Ambos gostam de respirar a maresia pagã caminhando na beira mar, sempre nos finais de tarde, apesar do catolicismo forçado desde a infância pelo batismo. Ele, há muito que deixou de se interessar pelos ambientes místicos, e ela, ainda tenta equilibrar a palavra de Jesus com as rotinas mundanas da Igreja. Os últimos acontecimentos derrubaram o fio que a ligava à Igreja, mas teima em não se dissociar do universalismo de Jesus na busca de Justiça e de Paz. Um quintal, uma cozinha ampla, sala de visitas pequena, mas a de jantar compensa, 2 banheiros e 2 quartos, e o local preferido do casal: um sótão com clarabóia transformado em biblioteca e escritório. Junto do quarto do casal, há um mais pequeno que deveria ter servido como aposentos de empregada, mas que será... o quarto da criança, conforme já haviam decidido. O ambiente da casa é o de um casal jovem, dinâmico, que gosta de quadros e de plantas. A sagração da vida. Do sótão, enlaçados, gostam de observar também a manhã que nasce com as estrelas que se vão para além da fortificação beijada pelo mar.
Junto dele está Luisa, que 2 horas antes sentira contrações, embora faltem 3 semanas para o parto. A dieta especial e a ginástica direcionada que pratica diariamente deixaram-na fortalecida, e isso, a par da docência no colégio. Aninhada no abraço do amado, é uma mulher feliz.
Constança olha uma representação naif do amor, entre dois vasos que dominam a saleta de visitas.
– Bem, ó Trip – começa ela, enquanto pousa o cálice de Porto na mesa central –, a questão é: existiu algum relacionamento teu com alguém lá no colégio...?
– Quer dizer, sexual...? – questiona ele, mas é uma pergunta desnecessária, porque o tom da voz dela já denunciava o conteúdo, por isso, continua: – No meu aniversário de 14 anos, uma das freiras, depois que Zezinho havia deixado um presente para mim e se foi, levou-me para uma ala com vários quartos vazios, e onde eu nunca tinha estado...
Era um dos anexos do antigo seminário que deu origem ao colégio. Viu que os quartinhos eram todos iguais: uma mesinha, uma cadeira, uma esteira e, numa das quatro paredes nuas um crucifixo. Na porta do quarto, a freira empurrou suavemente o menino para dentro. – Vamos festejar a chegada de um novo homem, um homem que deve se comportar como homem – disse ela. Com a mesma suavidade com que caminhava e tocava as pessoas. – E como é, irmã? – perguntou ele. Depois de fechar a porta, ela aproximou-se... O menino sentiu o calor tomar-lhe o corpo com um arrepio quando ela o abraçou, as mãos ativas pelo seu corpo, até segurar-lhe a cabeça e os lábios roçarem os seus, docemente, e aos poucos as línguas numa comunicação sensual. – Mas, irmã, isto não é pecado? – disse, sôfrego, envergonhado. – O pecado só existe para quem não faz, meu menino-macho. E eu vou mostrar-te como se faz um homem de verdade! – retrucou ela. Os lábios voltaram a unir-se, sôfregos. O menino tentou debater-se, mas acabou preso na doçura do abraço, na sensação de sentir homem no momento em que ela passou uma mão a apalpar os testículos e... – Ó, como está duro... – murmurou ao perceber o pênis ereto. – E é assim que um homem é macho. Agora, vou mostrar-te o paraíso, meu menino-macho... – e ajoelhou, para puxar as calças dele, a cueca, e tomar-lhe o pênis entre os lábios úmidos e quentes. – Ii..iir..irmã...! – ouviu-se o grito abafado do menino no quarto, subitamente quente, muito quente. – Isto é o paraíso! –disse ela, após engolir o esperma de um menino que quase perde as forças ao sentir-se o macho realizado nas mãos de uma mulher. – Como eu vou confessar isto, irmã?! – questionou ele, quase sufocado, depois, vermelho de vergonha, ou de alegria. O que nem ele sabia. Ela não respondeu, mas continuou a acariciá-lo para logo sentar-se nele e senti-lo penetrar a vagina. – Oh, meu menino-macho, isto não se confessa, é um segredo que se esconde a vida inteira e se leva para o túmulo. É o nosso segredo... – murmurou a freira, a respiração ofegante. – E nunca permitas que o outro homem faça o que eu fiz contigo. Macho é macho, e macho deve ter alegrias de sexo só com mulheres! – e os lábios voltaram a se unir, as mãos dele nos seios dela, a conhecer melhor o universo feminino. – O sexo é a divina sagração da humanidade, meu menino-macho! – anunciou a freira. Recompostos e sentados numa esteira, conversaram sobre a necessidade de se manter segredo: – E nem tentes falar disto em confessionário, que pagarás muito caro por essa ousadia. Tu és meu... meu menino-macho! – rematou. Aturdido entre a felicidade de conhecer a mulher e a vergonha de fazer sexo com uma freira, o menino celebrou os seus 14 anos debaixo de um par de bofetadas. – É só para lembrar que és meu e, aqui, fazes o que eu mandar, ou mando-te para castigo! – ouviu. E o castigo era a humilhação entre os colegas e, depois, semanas a lavar latrinas e outros locais, como os currais... ou, a entrega a outro homem. Então, ele soube que o castigo da entrega era feito nas celas do velho seminário, ou nos currais. Quem abria a boca, fosse menino ou menina, caía imediatamente no isolamento de uma das celas para só sair de lá obediente.
– Essa relação durou quanto tempo? – pergunta Luisa que, apesar de saber o quanto de sexo ´rola´ nas instituições religiosas, ainda se sente chocada com a iniciação do seu Trip.
– Uns 2 anos, até quase os 16 anos, quando saí para trabalhar e esquecer aquele lugar.
– Ela ainda está no colégio? – quer saber Constança.
– Sim, e acredito que deva ter falado com ela... uma mulher de talvez 50 anos agora, gordinha e bonitinha, sempre sorridente (ah, a irmãzinha sorriso, como era chamada), era ela que atendia quem chegava ao colégio, meninos e meninas, e as visitas.
Constança lembra-se dela, sim, a freirinha dos sorrisos. Um ótimo cartão de visitas numa madona que encanta pela suavidade dos gestos e da voz.
– E alguma vez a freirinha dos sorrisos falou sobre os amigos do teu pai, principalmente o padre?
– Pelo que ela me disse, certa vez, e depois até pensei que havia uma competição sexual entre eles e elas, o Zezinho tinha diversos amantes, na polícia e nas empresas. Esse tal Armandinho deve ser um deles, e talvez tenham iniciado uma perseguição ao meu pai por ele não ter entrado na confraria. Isso, foi assim que ela disse: a confraria. E por falar nisso... Constança, conseguiu alguma notícia do meu pai?
– Não existem referências a nomes nas últimas levas de presos políticos forçados a embarcarem para o ultramar, mas vamos continuar as pesquisas.
– Ou foi lançado no mar, como fazem os militares da ditadura brasileira – observa Luisa. – Precisamos encontrar Emília...
– Eu tenho um palpite – insinua Constança. O casal fixa-se nela. – É muito provável que o Armando tenha feito o contato com a Emília através de uma terceira pessoa (isto é, se não foi pelo padre), e essa pessoa pode ser a sua secretária, a faz-tudo da empresa. E eu sei que há uma relação de donativos mensais parta o colégio da irmãzinha sorriso... Acho que amanhã, não!, hoje mesmo, vou ter uma conversinha. Assim, de sorriso para sorriso – e solta uma gargalhada que exibe os seus dentes perfeitos, alvos.
O ambiente tenso das revelações dá lugar a uma descontraída conversa até terminarem o Porto dos cálices.
Tão de repente quanto a descontração, Luisa leva a mão à barriga. – Aaiiii...!
– Foi a bolsa?
– Sim, amiga. A bolsa rompeu...
– Vou apanhar as tuas coisas e vamos para o hospital – diz ele, que se precipita para o interior da casa.
– Ei, marujada de primeira viagem!, devagar... – acalma Constança.
No rosto de Luisa a preocupação e a esperança. É a mulher que se apronta para dar à luz uma vida, geração que vem com um caminho novo a trilhar entre rupturas e alinhamentos.
Após o terço dirigido pelo pároco substituto, do qual participou compenetrado, Zezinho iniciou uma série de atendimentos no confessionário, o local que mais gosta de freqüentar. Sentado, encoberto por uma grade de madeira, a escutar o rebanho na sua intimidade, como gosta de dizer, muitas vezes levou aos comparsas policiais informações que ajudaram a capturar aliados tímidos e opositores do regime salazarista. Entretanto, sempre em nome de deus, a sua práxis foi mais além ao levar à polícia política segredos financeiros de grandes industriais e comerciantes, confessados por esposas na sua beatice sacrossanta; a lista montada pelo padre foi extensa e cuidadosamente verificada, anotada, e o Estado e a Igreja enalteceram publicamente a disciplina e a solidária humildade de Zezinho com a Comunidade. Zezinho foi um dos principais participantes na montagem da lista de parcerias: a famigerada lista de colaboradores de todos os quadrantes ideológicos que diziam sim às solicitações de informação e de apoio financeiro, uns forçados e a maioria por comodismo ou medo.
– Olá, padre Zezinho.
Esta voz... Ele olha atentamente pelos orifícios de madeira do confessionário e diz: – Ah, a senhora!
– Não venho em confissão, padre. Não preciso disso para viver em paz. Mas venho acusar: o senhor, padre, e o Armandinho, enganaram-me. Deram-me a entender que o rapaz que estuprou a empregada fora o mesmo que ajudara a fazer desaparecer o Augusto...
– Blasfêmia, meu deus! – encoleriza-se Zezinho. – Atreve-se a acusar um vigário de deus!
– A palavra certa é: um vigarista!
– Olhe aqui, dona Emília...
– Olhe aqui, o senhor, padre... – e ela eleva a voz para desespero de Zezinho, que gesticula no escuro do confessionário. – Tratem de arranjar maneira de me tirarem desta enrascada vergonhosa e de libertarem o rapaz, que tem a mulher grávida!
– O que se passa, dona Emília? Por que está tão nervosa?
– Fui abordada por uma mulher que se diz esposa do rapaz que acusei. E ela mostrou-me a foto dele. Sabe quem eu vi na foto? O rosto do Augusto, quando mais moço! O rapaz é filho do meu Augusto e vocês, diabos, fizeram-me agir para o enfiar numa cadeia imunda..., como vocês fizeram com o pai dele... o meu Augusto... – diz, balbuciando. – E...e...o incêndio que matou Conceição também...foram vocês...?!
Os olhos de Emília estão inundados de lágrimas. É uma mulher abatida por ter traído o amor da sua vida. Veste inteiramente de preto e tem a cabeça coberta por um lenço rendado que lhe oculta o rosto.
– Olhe, dona Emília – diz Zezinho, aflito, nervoso. Acaba de perceber o tamanho da burrice do seu pupilo. – Vamos conversar. Temos de encontrar uma saída para esta situação realmente incômoda para a senhora... e para nós.
Emília, após a rápida conversa com Luisa no meio da rua, e então, a visualização do rosto de Duarte Ribeiro, filho do seu Augusto, perdeu a noção de tudo. Soubera que a PIDE levara Augusto, mas isso se enquadrava no que sabia dele, sempre o Don Quixote na batalha pela utopia da verdade e o prazer da vida boêmia, o que não se enquadrava era a informação que obteve após o golpe da abrilada, em 1974: “o senhor Augusto Ribeiro, empresário e professor, foi preso pela PIDE por conspiração contra Salazar, mas a ordem saiu de dentro da empresa dele...”, ouviu de um pide, seu vizinho, que lhe pediu apoio, clemência para fugir do país. A cidade do Porto fervilhava de revolucionários no 1º de maio de 1974, e ela sabia quem era o vizinho. Não era um graduado, mas um daqueles agentes sempre prontos para o servicinho sujo. Ele e a mulher não eram de bons relacionamentos na freguesia, sempre sisudos na porta de casa, e beatos após a missa dominical do fim de tarde em que se misturavam às classes altas no desfile de roupas e cabelos, menos nos carros. Um par de velhos cuja banha não acende nem lamparina de velório. Mas, na época, mesmo um reles pidezinho, poderia fazer mal a muitas pessoas. Isso ela sabia. Certa vez chamou-o de pidezinho e ele até que ficou quieto para não criar problemas sociais na freguesia. E então, pela informação ajudou o casal a sair do Porto, depois de uma ´clandestinidade´ forçada no sótão da sua casa. Quando o pidezinho se foi, procurou o sócio de Augusto, mas de Armandinho soube apenas que “o Augusto procurou a encrenca, e nós sabíamos que tínhamos informantes da polícia dentro da empresa”. Empresário muito respeitado, ele deu a entender que “a prisão e o desaparecimento de Augusto foram uma fatalidade política, mas só isso”. O que Emília ´engoliu´ até encontrar Luisa e, ao olhar o seu Augusto na foto do filho, perceber que fora usada. O desespero que vira no olhar da bela moça grávida fez-lhe mal, muito mal, de tal maneira que se enojou, quis vomitar a própria alma. Arrancar-se da vida. Jogar tudo fora, chacoalhar tudo, tudo, tudo, porque “só a chacoalhar a nossa própria vida aprendemos a ser alguém, até na morte”, como dizia Augusto a brincar de Mário de Sá-Carneiro na boêmia da Ribeira e da Foz.
– A senhora, dona Emília, fez alguma coisa sem o Armandinho saber? Voltou ao posto da GNR, por exemplo?
– Vocês puseram fogo na casa dos pais dela? – insiste.
– Olhe, dona Emília, a Márcia vai buscá-la amanhã de manhã, e enquanto tomamos um café na Povoa de Varzim conversaremos sobre tudo o que precisa saber.
Porto, 3h.
A maternidade do hospital está cheia. A turma de profissionais do atendimento médico acha que está no meio de uma epidemia de luzes, na observação da médica que estende um menino na direção do colo de Luisa. – Bonita e saudável – diz. E a jovem mãe segura a criança como a mais preciosa das coisas fofas que há no mundo. Ao lado, o companheiro baba de orgulho e alegria. – Ai, o nosso Augusto! Onde quer que esteja o meu pai deve estar orgulhoso – diz ele. Haviam decidido que se fosse menina teria o nome de Isabel, para homenagear as avós dos dois lados, e se menino, seria Augusto.
– Eu vou estar no escritório, e nem vou sair de lá, porque tenho dois processos para defender amanhã de tarde – avisara Constança, depois de deixar o casal no hospital. Era seu hábito estender uma rede guarani e dormir no escritório depois de horas de leitura e análise. Atrás do biombo, tem sempre uma roupa para troca, e o banheiro tem chuveiro.
3h21.
O telefone do escritório quase ecoa em toda a Ribeira. – Sim? – atende ela, sob o olhar quase espantado de um juiz que não sabia de reuniões forenses na madrugada.
– Nasceu o nosso Augusto.
– Ai, que bom, Trip. Antes do meio-dia eu passo aí. Estou muito contente por vocês, que merecem essa felicidade! Até, até logo... – despede-se, emocionada. Volta-se para o juiz e diz: – Ao que tudo nos mostra, Lourenço, temos mais um anarquista na praça da república democrática... Mais um Augusto.
Ele sorri. Cada vez mais apaixonado por ela, observa-a meio despida, o roupão a cair pelos ombros. Uma mulher feita para ser amada, e mais, mimada, pensa.
– Ei, esse sorrisinho aí...
– Espero que desse corpo lindo brote em breve algo para nossa maior felicidade, amor.
– Sei... – o rosto dela é uma iluminura finamente trabalhada entre livros e papéis forenses nas sombras móveis projetadas pelas 3 velas acesas no local.
Ele convidara-a para jantar e, por causa de processos em andamento, viagens e reuniões, seria a quarta negativa consecutiva, então, propôs-lhe um jantar à luz de velas no escritório, onde ficaria depois do Champagne, bebida que prefere quando ainda tem trabalho pela frente. – Lourenço... – E ficou boquiaberta quando ele lhe estendeu uma caixinha, após uma colherada de mousse de chocolate. – É lindo! – constatou. Um conjunto no mesmo estilo da tradicional ourivesaria do norte português: colar, pulseira, anel e brincos. Os olhos de ambos encontraram-se para criar um campo magnético que estava além da sedução: era entrega mútua. Fragrâncias várias com almíscar inundaram o ambiente que brilhou mais com as peças de ouro no corpo dela.
Ainda não é meio-dia quando apanha o casal na porta do hospital. Luisa não tem problemas de saúde, é uma mulher forte e que soube se cuidar muito bem para o parto.
– O que aconteceu? A tua cara diz-me que aconteceu alguma coisa muito boa para ti...
– Ora, Luisa, são os teus olhos de mãe em estado de graça!
Mas, Duarte interrompe: – Parece que ela viu passarinho verde na madrugada. Trabalho dura, hein.
Ruborizada e apanhada no pulo, Constança admite: – Está bem. Alguém se declarou num jantar à luz de velas...
– No escritório...! – espanta-se Luisa.
– Lagosta, vinho e velas, isso pode ser acontecer até na beira mar, amiga!
– Hum, esse juiz é dos meus!
– Ó, ó Luisa! – ela vai contrariar a expectativa do casal, mas volta atrás. – Eh, não tem jeito mesmo. Sim, é ele.
– E é juiz. Caramba, vamos ter duelos de casal no tribunal. Uma nova versão de Spencer Tracy e Katharine Hepburn no Adam´s Rib, do Cukor... – brinca ele tipo cineclubista.
– Não – corta ela. – Eu vou continuar, mas ele vai fazer o que mais gosta: dar aulas de Direito para endireitar a Justiça, ou assim pensa.
– Tu sabes quem ele é, ó Trip.
Apanhado de surpresa, ele olha para as duas. – Eu? Eu sei quem é?
– Ele escreve na revista Conhece-te a Ti Mesmo.
Só há um jurista que escreve, ou ousa escrever na minha revista, raciocina. – Lourenço Munhoz. E é?!
– E é! – concorda ela, o olhar brilhando.
Póvoa de Varzim, 11h45.
Chove forte. Sentado perto da vidraça, Zezinho olha o mar revolto. O café ainda fumega na sua frente. Vê que Emília e Márcia se aproximam. – Ah, dona Márcia. E como vai, dona Emília?
As duas cumprimentam-no de maneira seca, burocrática. Deixam os guarda-chuvas num recipiente próprio, perto da mesa. Márcia pede Martini e Emília um café com leite.
– Quem pôs fogo naquela casa para acabar com Conceição?! – questiona Emília, à queima-roupa.
Sem ar, surpreendido, o padre recupera-se em segundos, e diz: – Não acuse sem ter provas. A própria Conceição provocou a tragédia. Quando o inspetor da PIDE a procurou para vasculhar os papéis no escritório do Augusto, na quinta da Foz, ele quis um agrado dela (aliás, ele só foi para isso...), recusado, isso enfureceu-o, chamou-a de prostituta e revelou que se quisesse viver teria que largar o filho e fugir com Armandinho. Foi quando ela percebeu que Augusto havia sido trapaceado pelo sócio, o homem que era então o seu amante. Aquilo deu um nó na cabeça dela. Foi um ano depois da prisão do Augusto, de quem ela não tinha mais notícias. E até o esquecera, suponho, apesar do filho. Procurou-me naquela tarde, ainda, e tivemos uma conversa tão dura quanto esta... de agora. Largar o filho era algo impensável para ela. O rapaz estava na escola e ela disse-me “vou conversar com os meus pais, e se alguma coisa acontecer, cuide do meu filho e depois entregue-o ao pai se ainda estiver vivo”. Ela considerava os pais, que a forçaram a casar com Augusto, os culpados de tudo. Eu soube do incêndio 2h depois. Ninguém sabe como aconteceu, mas e acredito que ela pôs fim a tudo para poupar o filho e dar-lhe a oportunidade de encontrar outra família, ou, quem sabe, encontrar o pai. E, por seu lado, o Armandinho começou a perder o juízo, a fazer coisas impensáveis, uma delas foi armar para acusar o Duarte e se vingar da perda de Conceição, realmente, a única pessoa que ele amou...
– ...além de ti!
A voz de Emília é imperturbável. De uma dureza que atinge o padre em cheio. Ao lado, Márcia assiste. Só assiste. Como sempre fez na vida, vê tudo de camarote.
– Sim, além de ti – continua. – Eu sei, agora eu sei..., que o Armandinho não teria como denunciar o Augusto para os pides sem a tua ajuda, e tu o fizeste por vingança: ele recusou-te. Não quis entrar na confraria das orgias que tu montaste. Ele contou-me sobre isso, um dia. E depois, como tutor do menino Duarte, tentas-te rever Augusto, mas o filho fez o mesmo: recusou-te. Estou certa ou errada?
Márcia sai da sua imobilidade tática e, a olhar para Zezinho, questiona: – Mas, você é alguém de deus ou do diabo?
– Não interessa quem sou, e sexo nada tem a ver com a fé religiosa das pessoas. É preciso fazer alguma coisa para evitarmos confusões, agora!
– Eu já fiz, canalha!
Os rostos de Márcia e de Zezinho parecem, subitamente, tomados por um traço petrificado. E o padre, agora, demora para reagir. – Cooommmoo, já fiz?! – A cólera murmurada pelo padre teria, se pudesse, o poder de envenenar a presa.
– Fiz um novo depoimento lá no posto da GNR e tirei a acusação contra o rapaz, e solicitei que a Justiça indague Armandinho sobre o assunto.
– Meu deus... – o padre está desolado.
– Emília, a senhora fez a coisa certa – diz Márcia, a deixar o padre ainda mais perdido –, e sabe?, vou pedir as minhas contas na empresa, antes que me envolvam nas trapaças dessa tal confraria!
Quase ao mesmo tempo, as duas levantam-se e pegam os guarda-chuvas. Antes, o padre ainda ouve de Emília: – E faz uma boa ação neste dia: paga a conta!
Constança tem no olhar algo mais.
Ele não nota, mas Luisa, que já a conhece melhor, percebe. E não é algo mais que tenha a ver com o amor. – Minha amiga, o que tens para nos dizer, é bom ou é mau?
– Bem, já me conheces...
– Mais ou menos, amiga – diz Luisa. Olha para o seu Trip enquanto tenta guardar melhor o pequerrucho Augusto no seu abraço maternal.
– Emília reapareceu.
– Aaahhh... – o alívio de Luisa enche o ambiente.
– E agora? – quer saber Duarte.
– Ela esteve no posto da GNR, retirou a queixa contra o Trip e pediu que interrogassem Armando, para se saber quem de fato estuprou a empregada dele.
– Foi o juiz que te disse?
– Sim, ele soube do novo depoimento ontem no final da tarde. Mas só me falou agora de manhã, depois do café!
– Sim, dá para entender!
– Trip, Trip... – alerta Constança, rindo.
– Isso quer dizer que o meu Trip está livre. Livre...! Ai...
– Como é bom respirar a liberdade! – grita ele. Abre os braços, dá uma volta sobre si mesmo, para logo abraçar Constança e estampar dois beijos ruidosos nas suas faces, e depois se aninhar junto da mulher e do filho..., as suas lágrimas juntam-se às de Luisa.
– Caramba, casal chorão... – observa Constança. – Vou daqui antes que eu sofra do mesmo mal!
No posto dos Correios, o padre consegue, na segunda tentativa, ligação telefônica com o Brasil.
– Mas, como tu és burro, ó Armandinho. Fizeste tudo errado. E agora, a Emília retirou a denúncia contra o rapaz e tu é que vais ter que responder ao processo por testemunho falso e encobrimento de provas!
Do outro da linha e do oceano, um Armando Campos em ´parafuso´ que nem sabe se o amigo e amante e padre o cumprimentou, antes da enxurrada de informações. Mas, por intuição, já sabe que o Brasil é agora o meu lar.
– Preciso que tomes conta do escritório no Porto, ó Zezinho, e a Márcia ajuda-te nisso...
– Ela pediu as contas e foi embora!
– Essa ratazana...
– Ei!
– Não me venhas com sermões, moralidade barata, porra! E diz-me uma coisinha que me preocupa: – O que sabes do Augusto? O que o inspetor falou para ti sobre o local em que... como é que é... da desova dele?
Zezinho não se abala. – O mesmo que ele disse para ti: foi desovado. E pronto. Talvez com a mesma cal e o mesmo ácido de Villanueva del Fresno...
Parte 10
Criamos tudo e até deus.
Pouco sabemos de nós
E do mundo sabemos só o que nos chega.
E são tantos e tantos os nós
(Da vida) que não aprendemos a dizer adeus!
– Senhor doutor...
Armandinho nem mal largou o telefone, irado consigo mesmo, e já uma secretária morena, alta e elegante, está na sua frente.
– Senhor doutor...
– Olhe, tem que ser importante! – o olhar dele diz tudo. Não será um dia bom para conversar com o senhor doutor.
– Dois senhores, aqueles que agendaram ontem..., estão aguardando na sala.
– Ah! Pois muito bem, mande-os entrar. Acho que com eles vou abrir negócios no oriente.
Lera o relatório que enviaram sobre as “possibilidades amplas de negócio com produtos do Brasil no oriente através de Goa, tendo Portugal como eixo”, e ficara bem impressionado. Em breve serei uma multinacional, confessou para a caneta de ouro que eles lhe enviaram junto.
– Boa arde, doutor Armando Campos.
– Olá, senhores, queiram sentar-se – aponta com a mão estendida um sofá entre a sua escrivaninha e uma ampla vidraça que deixa ver a baía da Guanabara.
Um dos homens é o típico oriental de traços achinesados, com uma bolsa no ombro; o outro é um ocidental, com barba bem aparada e cabelo comprido apanhado em rabo de cavalo. Carrega uma pasta de couro. Como esta gentalha de rabo de cavalo consegue fazer negócios?..., questiona-se. A sua maneira de ser não se ajeita a certos modernismos de comportamento. E no ocidental há algo que o incomoda. Mas não consegue descortinar o que é.
– Não será melhor conversarmos sem a presença de secretárias? – observa o oriental num português que soa a Goa camoniana.
– Obviamente, senhores. Obviamente. – Armandinho verifica se há café e chá e água suficientes no gabinete e pelo interfone anuncia: – Não nos interrompam.
Ao sentar-se na frente deles, Armandinho vê que o ocidental se levanta lentamente e...
– Mas... senhores, que é que é isto?!
Mais apavorado do que surpreso, Armandinho vê o ocidental arrancar o cabelo, arrancar a barba e, como que uma peça cinematográfica de enredo horripilante, tirar lentes dos olhos.
– Au...Aug...Augusto!!!
Armando Campos não quer acreditar no que vê. O seu sócio Augusto Ribeiro. Na mão direita do oriental, que continua sentado, há agora uma arma automática com silenciador.
Armandinho está seco. Em poucos segundos engoliu a saliva de uma vida.
– Olá, Armandinho... – diz Augusto, que se senta novamente enquanto guarda os disfarces na pasta de couro e, como o outro, põe luvas de pelica.
Armandinho não agüenta e desfalece na sua cadeira de senhor colonial todo-poderoso. Os dois homens não se mexem. Aguardam cerca de 4 minutos, quando ele se reanima. – Eu, eu, ó Augusto... – vai a dizer, mas Augusto faz um gesto para se calar.
– Certo dia, lá na masmorra dos pides, no Porto, o teu comparsa inspetor veio dizer-me o seguinte: “O teu sócio come a tua mulher, e eu acabei de comê-la. Ouve bem, ó merda comuna: ela só se abriu para mim depois que prometi deixar-te vivo, aqui ou lá fora”. Só vou esquecer aquelas palavras... agora. E levaram-me para Goa sob a promessa de ficar quietinho e servir na cozinha de um restaurante. E soube, por ele, que ela se matou e levou junto os pais, enquanto o meu filho ficou entregue ao outro teu comparsa, o padre – e Armandinho mexe-se na cadeira, parece estar sentado sobre brasas, e isso sem deixar de olhar para arma do outro, mas Augusto finge não ver a aflição, e prossegue –, com quem passas-te a compartilhar a minha parte da empresa, mais 20% para o pide. A minha desova, canalha!, foi em carne viva debaixo do suplício da Conceição. Tornei-me contrabandista, bandido, matador por encomenda na máfia oriental, e tudo para ter o suficiente e voltar a estar na tua frente...
– Au... Aug...Augusto, tu és um cristão, sabes que perdoar é a nossa condição...
A gargalhada de Augusto ecoa no ambiente. – Ah, perdoar é a nossa condição... Que bonito. – Lança as mãos na direção dele, agarra-o e puxa-o. Afasta-se um pouco, mas logo, violento e cruel, acerta um chute nos testículos dele, que cai no chão, a gemer.
Augusto tira da pasta uma fita colante e passa-a uma tira na boca dele e senta-o na cadeira. Em segundos ele é amarrado com as calças e cueca baixadas até às sandálias de couro.
Os olhos de Armando Campos estão esbugalhados.
– E eu soube, recentemente, que o meu filho teve praticamente que fugir do colégio e trabalha a capar gado, embora seja um intelectual ativo. Puxou ao pai. E adiante: onde é o cofre e qual o segredo? – Solta a mão direita dele que aponta, tremendo, para um quadro na parede ao lado da escrivaninha, e depois anota num papel uma senha alfanumérica. É um cofre com abertura eletrônica. – Hum, 273.000 dólares, mais 72.321 cruzeiros. Isto paga a nossa jornada – remata. Colocam o dinheiro na bolsa e na pasta.
Augusto mexe nos papéis que estão no cofre, parece procurar por algo que sabe existir. Pega uma pequena bolsa de couro: dentro, 18 páginas datilografadas, e cerca de 200 nomes com telefones e endereços. – Ora, ora, aqui está a listinha de amigos e amigas dos pides. Sempre bem informado, hein... como é que dizia o inspetor... meu bom Armandinho. E agora, com quanto contribuis para a missa anual na Candelária que celebra a eternidade de Salazar?...
– Eu não sei capar gado, o ofício que o meu filho teve de aprender para sobreviver, enquanto o meu sócio esbanjava o que era dele, por direito. Tu sempre quiseste tudo o que te vinha à cabeça, mas nunca aprendeste a dizer adeus nas ocasiões em que extorquias ou humilhavas outras pessoas. E, no meu caso, nem te dignaste a dizer adeus. E isso eu aprendi. Porque dizer adeus é também dizer um talvez até logo entre pessoas civilizadas.
Augusto deixa de falar e tira da sua pasta uma faca de ponta-e-mola; pressiona o dispositivo de abertura e surge uma lâmina afiadíssima. Os olhos de Armandinho não estão mais esbugalhados, estão fora de órbita. Numa operação cirúrgica, Augusto faz diversos cortes precisos. O corpo em mutilação treme convulsivamente, mas está bem amarrado, e o oriental segura-o fortemente pelos ombros. Em pouco tempo, o corpo aquieta-se. Não agüentou os golpes. A faca é limpa na própria roupa de Armandinho. Augusto guarda a arma, repõe o disfarce, menos as lentes de contato, e sai com o oriental.
– O senhor doutor pede para ir lá dentro de meia hora, porque está agora a analisar os documentos – diz Augusto para a secretária. – Nós vamos para Rio das Ostras, deixamos o telefone do hotel com ele para o caso de um contato urgente.
– Sim, senhor.
**
Aturdido, desanimado, o padre Zezinho não sabe o que fazer. Tem uma procuração que o torna representante da empresa no Porto, com exceção dos 20% do inspetor, que agora é um pacato pescador com barco próprio nas bandas galegas de Vigo.
Cerca de 15 minutos antes, a cena descrita pela secretária brasileira de Armandinho deixou-o aterrorizado. “E ele foi capado, senhor padre, capado! Está vivo, mas muito debilitado e, pelo que disse um médico, talvez não sobreviva pelo sangue que perdeu. Um horror, senhor padre. Que demônios podem fazer isto?” Mas não lhe respondeu. “Eu sigo para aí depois de amanhã. Trate de tudo para mim, e logo que eu chegar resolveremos as pendências burocráticas”, limitou-se a dizer.
Pensa que uma conversa com o antigo inspetor da PIDE poderá dar-lhe luz sobre o que aconteceu, mas volta atrás. Mais encrenca, não. “Armandinho capado Brasil”, telegrafou para Vigo do escritório da empresa. E exatos 41 minutos depois, a resposta: “Es la vida y la muerte, amigo mio”. E só. O padre Zezinho sabe que está só, e tão só que nem vai ser incomodado com as encrencas criadas por Armandinho. O melhor é acabar com as empresas, vender o que for possível, e pronto..., decide-se. Mas quer ver, primeiro, como está o pupilo amado.
**
– Olho d´Águia, visita!
Não tinha agendado qualquer visita, nem da advogada. O que foi, agora?, resmunga ele.
Ao chegar à sala vê o Tripeiro. – Aaahhhh...
– Esta é a Luisa, e esse aí – aponta para o berço – é o nosso Augusto.
Ele emociona-se, o que é raro na sua circunstância de preso político. Sabia que tinha no Tripeiro um amigo de verdade. – Só tenho que vos agradecer este carinho...
– Tu foste para mim, o pá, o ombro amigo e confidente.
– E nós é que temos que agradecer – diz Luisa – toda a força que nos deu através das suas conversas com o meu Trip.
Em poucos minutos é colocado a par dos acontecimentos forenses que envolveram o caso.
– E tu? – pergunta o Tripeiro.
– Estou sob uma traição ideológica, mas vou responder à altura, política e judicialmente. Não vão passar por cima de mim para salvar meia dúzia de gajos que só se importam com as suas contas bancárias ou postos militares. Sabem, abraçar um ato ideológico leva as pessoas para o lado canalha ou para o lado heróico, e elas ficam permanentemente no fio da navalha, até que apareça alguém para pôr os pontos nos ii. Às vezes, é melhor sofrer a solidão de uma decisão do que viver eternamente com as meias verdades de um processo político...
– Tem razão – apóia Luisa.
–Sei, e eu já paguei por isso, como o meu pai pagou, e muito caro – diz o Tripeiro. – Será que um dia a verdade terá a sua vez? – remata.
– Hum, talvez, talvez o vosso Augusto possa um dia, além da revista Conhece-te a Ti Mesmo, folhear livros e jornais que lhe falem da vida verdadeira. É possível...
O casal deixou com os guardas alguns livros, revistas, e uns quitutes caseiros.
Olho d´Águia retorna para o pátio interno satisfeito por ter em Duarte, o Tripeiro, um amigo que repassa ao mundo o mesmo ideal libertário.
Porto, 16h. No meio da tarde está frio, chove. Um nevoeiro forma-se para deixar o sábado ainda mais denso.
Venta um pouco na região das Antas quando Emília escuta a campainha e vai até à porta.
– Sssiimmm... – sente o corpo tremer, as pernas dobram, e cai.
O cão, um pastor alemão muito bem cuidado, inquieta-se. O homem que havia pressionado o botão da campainha pega Emília e leva-a para dentro. Vê que não existem mais pessoas. Só o cão. Procura a cozinha e umedece um pano em água que passa cuidadosamente no rosto dela. Aos poucos ela torna a si. E não acredita no que vê.
– Augusto, meu amor!
– Sim, demorei, mas aqui estou, porque eu sei que a tua espera também foi longa.
– Ah, tens um neto... Augusto... – não sabe como lhe saiu, mas saiu.
– Verdade?
– Tens de conhecê-lo. E o teu filho já está livre das ratoeiras que o Armando lhe pôs na vida.
– Esquece o Armando, minha querida. Esse aí já teve o que merecia. Quero conhecer o meu neto, claro, mas tenho que me aproximar com cuidado, pois, não sei se o meu filho me quer. E antes, preciso resolver as burocracias com a minha documentação, porque os pides deixaram-me em Goa com nome falso.
– A minha casa é a tua casa!
– Tenho como vê-los, de longe?
– Sim – diz Emília, encantada. – Vem, eu levo-te. É lá na banda do Castelo do Queijo.
– Tenho o carro aí ao lado.
Passam alguns minutos das 19h quando o velho Opel, do tipo ´espada´, estaciona próximo da casa de Luisa e Duarte. Não tarda para que Emília e Augusto percebam que o casal está fora. – Vamos aguardar um pouco – propõe ela. Perto das 20h um Citroen 2C pára em frente à casa. – Olha, é o teu filho! – diz Emília. Vêem que ele abre o portão e depois conduz o carro para um pequeno corredor lateral que serve de garagem.
Os olhos de Augusto ficam alagados de emoção. Do outro lado da rua, sai do carro e vê Luisa carregando o berço com a criança, enquanto Duarte já fecha o portão. Emília chama-o e ele acomoda-se novamente no carro.
– Uma coisa eu posso dizer-te, meu amor: ainda tens uma vida para viver...
Ele, com a imagem do neto no berço na memória, passa o braço direito pelos ombros dela e puxa-a para um beijo.
– Não interessa o que eu vivi, ou deixei de viver, Emília, quantas pessoas quiseram matar-me ou quantas eu matei, quantos horrores eu fui capaz de praticar neste mundo de canalhas e de justiça sem ética, o que interessa é estamos juntos como sempre deveria ter sido, e tu e a minha família são, para mim... o sentido da vida!
FIM. |
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