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Manuel Reis
CARTA ABERTA
AOS MEUS IRMÃOS E IRMÃS EM HUMANIDADE:
SOBRE O CONFLITO E O CONFRONTO
ENTRE O PODER D’ABORD (A SUA FORTALEZA INEXPUGNÁVEL)
E A LIBERDADE (CONCRETA, DE ACÇÃO E INICIATIVA,
PROCEDENTE DOS INDIVÍDUOS-PESSOAS/CIDADÃOS:
O QUE NÓS CHAMAMOS, NO CENTRO DE ESTUDOS
DO HUMANISMO CRÍTICO - CEHC,
A LIBERDADE PRIMACIAL E PRIMORDIAL).
• No dia em que enterrei, no quintal (da casa em Guimarães)
a nossa gatinha ‘Ágata’, que, na véspera, já noite dentro,
havia morrido de velhice, com 19 anos e meio de idade!…
• Os animais (selvagens e domésticos) têm a sua linguagem própria e a sua rede de emoções e comunicações dentro da mesma espécie e no confronto com os outros animais; são capazes de expressar, a seu modo, contentamento e carinho,
ou irritação e raiva, em situações e movimentos de predação ou em sua defesa. Os animais domésticos, muito particularmente, (cães e gatos, no topo da escala) acabaram por integrar-se no mundo humano... percebem a linguagem gestual dos donos (não foi a partir deles que os humanos aprenderam e arquitectaram a ‘linguagem gestual’ para a comunicação com os surdos-mudos?!...) e, por vezes, a própria linguagem sonora dos seus donos/humanos!...
Não obstante, Animais são Animais; e Humanos são Humanos. Se há muitas se-melhanças na ordem elementar da Vida, há, igualmente, muitas diferenças nas gramáticas comparativas e comparatistas entre as espécies animais, de um lado, e do outro, a Espécie Humana.
Aristóteles (‘o Filósofo’, por antonomásia como tem sido considerado tradicional-mente com alguma razão) definiu os Seres humanos como animais racionais… mas também os viu como Seres dotados de Lógos (‘Zóon lógon ékhon’). Da primeira definição, o próprio Filósofo e a Tradição filosófica induziram que os indivíduos humanos eram ‘animais sociais’ e, de seguida, assumiram-nos como partes constituintes de um Todo, designado por Sociedade. Esse Todo foi substantivado como Totalidade. E, como o fun-cionamento ordenado da Sociedade requer um Poder constituído no topo da pirâmide, capaz de actuar como fonte de energia (à semelhança do que acontece nos organismos vivos), esse Poder foi facilmente divinizado… e, implicadamente, separado das massas humanas, da turbamulta da ‘Society’ (no sentido genérico…). Pelo mesmo conjunto de razões ainda não rompemos o odre das teorias organicistas da Sociedade!…
É neste quadro que o próprio Aristóteles não tem receio de definir e caracterizar, essencialmente, os indivíduos humanos como ocupando o meio termo entre Deus e a Besta, mais precisamente, entre o Anjo e o Animal. Dum só golpe, foi refundada a Di-vindade extrínseca e transcendente (eufemisticamente designada por Acto puro ou Motor imóvel) e, ao mesmo tempo, foi afastada e banida a outra definição aristotélica do Homem enquanto dotado ou possuidor de Lógos. Um Lógos, cuja semântica pregnante, já no Estagirita, encerra, claramente, as duas dimensões: Lógos = Verbum, que é ‘Noûs’ (Pensamento, acto de pensar, por cabeça própria) e ‘Word’/‘Parola’/‘Palavra’, um dizer comunicativo na Sociedade.
Essas duas dimensões encontram-se já nas práticas filosóficas, atinentes ao binó-mio da Escolástica medieval: ‘Verbum Mentis’ e ‘Verbum Oris’: o Verbo da Mente é si-lencioso, por natureza e norma... o Verbo da Fala e da Linguagem humana é natural-mente sonoro, porque procede de um corpo vivo, que precisa da linguagem sonora para comunciar entre os indivíduos.
Até aqui, o Quadro aristotélico, sumariamente explicitado nas suas dimensões e vectores, mas também nas suas contradições. Agora, a ruptura que se impõe: Onde estão os Indivíduos Humanos possuidores de Lógos/Noûs, se esta Realidade foi debilitada/dissolvida/anulada ou eclipsada em benefício do paradigma filosófico do ‘Animal Racional’, uma parte, apenas, que foi totalmente integrada num Todo substantivado pela chaveta do Poder? O aforisma paulino (Rom. 13,1): ‘Non est potestas nisi a Deo’... não se acha, afinal, tão distante, em termos qualitativos e epistémicos, do Quadro filosófico-teológico global do Estagirita.
Eis por que toda a Filosofia Política da Modernidade (desde Macchiavelli e Montesquieu, desde Hobbes e Locke a Rousseau e Voltaire, a Stuart Mill e a Edmund Burke, e tutti quanti...) não saiu, afinal, do horizonte aristotélico da famigerada inte-gração das partes no Todo societário, por obra e graça, não dos Indivíduos Humanos propriamente ditos, mas daquela Energia oriunda do Poder divino, configurado no topo da pirâmide social/societária, enquanto ‘res sacra’. Muito objectiva-objectualisticamente, — não esquecer.
É aqui de advertir que uma tal gramática ideológico-política (dis)funciona, tanto no horizonte do ‘Ancien Régime’ (das monarquias hereditárias absolutistas), como no dito ‘Nouveau Régime’ (das Sociedades republicanas e das monarquias constitucionais, que pretenderam, à surrelfa, usufruir dos predicados e práticas das primeiras: veja-se o caso do Reino Unido depois da Guerra Civil/1640-1660 e, decisivamente, depois da ‘Glorious Revolution’ de 1688-89, em contraste com a França Republicana, a partir da Revolução Francesa de 1789-95).
Em suma, até ao nosso presente histórico, os Indivíduos-Pessoas/Cidadãos são sistematicamente excluídos e eclipsados na organização e funcionamento da Totalidade societária... pelo conjunto de razões escondidas, que podem ser subsumidas na categoria definitória dos Humanos, que os dá como possuidores de Lógos/Noûs.
O que decorre deste ‘Rift’ filosófico e ideológico-cultural, ao longo dos dois milé-nios da sócio-história ocidental, é sobejamente conhecido: a) o Dualismo metafísico-ontológico (platónico/paulino) absolutamente pan-envolvente; b) o contraste (e a pseudo-ruptura) entre o ‘Ancien Régime’ e o ‘Nouveau Régime’ foi dissolvido e anulado, apesar das Promessas da nova Sociedade e da nova História; c) os Indivíduos humanos/cidadãos continuam esquizofrenados e divididos entre a Animalidade/Instintualidade e a Racionalidade/Espiritualidade; d) a própria sócio-história, em lugar de prosseguir numa Li-nha/Rumo toward the Future que, muito embora não possa ser geometricamente linear, se acha, apesar de tudo, ancorada nas decisões/iniciativas dos Indivíduos/Pessoas/Cida-dãos enquanto Sujeitos livres e responsáveis, — o que ela faz é eriçar-se em espiral em cada geração humana, em volta do sempiterno esquema geométrico do ‘Eterno Retorno’ nietzscheano.
*
• Neste horizonte (que é o clássico e tradicional, na História do Ocidente e do Mundo), mistura-se e confunde-se tudo no mesmo saco (coisas e pessoas, objectos e sujeitos, produtos acabados e instrumentos de produção...), porque é precisamente a reli-gião laica e secular do Objectivo-Objectualismo que aí impera absolutamente.
Deste sorte, a Espécie humana e o conjunto das outras espécies animais são to-madas uma pelo outro, indiferenciadamente, numa completa promiscuidade... As diferen-ças condensam-se, apenas, nas capacidades próprias dos humanos em suplantarem as ou-tras espécies animais, por força da sua Inteligência, advindo daí, por seu turno, a sua su-premacia em esquema de uma omnipotência real ou virtual, consoante as situações!... Mas, mesmo aí, tudo é reconduzido ideologicamente ao princípio supremo da Potestas d’abord. Com raríssimas excepções, os programas televisivos da ‘National Geographic Society’ constituem o espelho directo e fiel de toda esta atmosfera ideológica, que a Civilização/Cultura do Ocidente espalhou por todo o Mundo moderno/contemporâneo. Esse é o Catecismo inabalável que impera everywhere!... O preço de toda esta mundividência é claro: as religiões, societariamente institucionalizadas, mantêm-se inabaláveis, no seu esquema dos Dualismos metafísico-ontológicos, — o que obriga, ipso facto, à castração das utopias/ucronias (resultantes da insatisfação e da revolta na vida presente das sociedades) e à sua dilatação/diferimento para a ‘outra vida’!... As coisas e as questões estão naturalmente ligadas umas às outras...
Assim, a cartilha de funcionamento das espécies animais é, inexoravelmente, aplicada à Espécie humana e a um modo de ser e de funcionamento que não é o do ‘Psico-Sócio-Ânthropos’. Por seu turno, a cartilha de funcionamento da dita Espécie humana é aplicada às espécies animais, sem se advertir nas diferenças essenciais, de natureza ontológica, entre os dois tipos de espécies. Em resumo, a gramática de funcionamento societário da Espécie humana é determinada, balizada e avalizada pela cartilha das espé-cies animais, ontolgicamente inferiores (no próprio Processo da Evolução biológica) em contronto com os Humanos. Por sua vez, a cartilha de funcionamento dos animais é pro-movida aos modos de funcionamento da Espécie humana. Remotamente, a capacidade, por parte dos Humanos, de domesticação (mesmo para além dos perigos que tudo isto envolve...) dos animais selvagens, retirando-os do seu habitat natural, comprova toda a atmosfera própria, de ordem civilizatória/predadora, da nossa tese, que pretende denunciar a mundividência ideológica dos padrões antropológico/civilizacionais correntes.
As identidades (diferenciadas dos dois tipos de espécies) são medidas e carac-terizadas fora do âmbito da dialéctica e, sobretudo, do Diálogo (socrático), que deve-riam ter lugar entre os Indivíduos-Pessoas da Espécie Humana, organizados em Socie-dade. São as hierarquias verticais e a Ideologia/doutrina do Eu-mesmo, que predominam absolutamente: o Eu-mesmo da Potestas d’abord, que deriva e irradia (objectualisticamente) dos Poderes Estabelecidos e sua Ideologia, para todos os indivíduos/cidadãos da Sociedade em causa, como se o Poder fosse a única fonte da energia, das acções e das iniciativas!... Neste contexto, não se conhece (nem se reconhece), verdadeiramente, o Diferente, o Allótrios (o outro, o estrangeiro, possivelmente contrário e hostil), o qualitativamente distinto e diferente. O que é verdadeiramente diferente não é reconhecido, nem fora, nem dentro do âmbito, próprio e específico, da Espécie humana, qua tal.
No C.E.H.C., costumamos dizer, com frequência, que, em termos epistémicos e metodológicos, o Processo do Conhecimento encerra, sempre, duas faces que se podem enunciar como segue: ‘Simile a simili cognoscitur’; ‘Simile a dissimili cognoscitur’. Quando se adopta só o critério das semelhanças e da integração sôfrega na Mesmidade (do nosso Eu, do nosso reino...), o Processo do Conhecimento resultou degradado e corrompido... E não se pode estranhar que advenham, daí, toda a sorte de consequências e efeitos negativos e perniciosos.
Diálogo, Dialéctica, Crítica: precisamos muito de tudo isto no universo humano, em vias de uma humanização crescente (que é também postulada pela própria Evolução, no patamar da Antropogénese). A Evolução cultural da Humanidade tem, ainda, à sua frente, um leque muito largo de possibilidades/potencialidades.
Com uma carga satírica e de lamentação quanto baste, é preciso proclamar, hoje, aos quatro ventos: Nas tradições pré-modernas da Cultura e da Civilização, era a Religião institucionalizada que dispunha e impunha, dogmática e ditatorialmente, os com-portamentos dos cidadãos/súbditos, em suma, a norma e a ordem e o conformismo societários. Na chamada Modernidade (inaugurada e proposta/imposta ao Mundo pelo Ocidente), também se gerou uma Tradição, de índole secular e laica, que acabou por impor, a toda a gente, os comportamentos estereotipados dos cidadãos/súbditos e o conformismo generalizado, muito embora por meios diferentes do que ocorria nas tradições pré-moder-nas: as novas Agências (instituições) do Conformismo e da Servidão são as próprias Ciências positivas e experimentais (que, paradoxalmente, tanto ajudaram e contribuíram para a Emancipação/Libertação na Idade Moderna...), na medida em que elas se integra-ram nas Instituições societárias, que dão pelo nome de ‘Tecnociência de Aparelho’.
Em suma, as Ciências (‘duras’ ou ‘moles’... como habitualmente são distinguidas, para não dizer nada e deixar tudo asséptico...) já não funcionam em regime de autonomia... Elas estão submetidas às orientações e aos balizamentos, às lideranças dos sacrossantos Poderes Estabelecidos.
Uma siituação reveladora do que estamos a argumentar. Vital Moreira (o cabeça de lista dos candidatos ao Parlamento Europeu, pelo P.S.), de trânsito, em campanha eleitoral, pelo Avepark, que designou como ‘o Silicon Valley do Verde Minho’, teve o desplante de se pôr a perorar da seguinte forma: “ Isto tem a ver com a União Europeia em que sentido? Por um lado, é apoiado pela União, por outro lado, está sobretudo alinhado com a grande estratégia de Lisboa, que se chama Agenda de Lisboa, que é pôr a ciência, o saber, a tecnologia, ao serviço da economia. O que aqui temos são empresas tec-nológicas, que produzem novos produtos, novas ofertas para a economia. E com saída. Essa saída visa criar uma nova economia e serve para criar novos empregos” (cf. ‘Notícias de Guimarães’, 5.6.2009, p.3).
Perante estes balizamentos e orientações, tem já de perguntar-se ad hominem: On-de está a autonomia e a capacidade crítica das Ciências, uma vez submetidas ao caterpillar da Economia nacional ou da União Europeia?!... Onde estão um Sistema Educativo e uma Cultura substantiva e autónoma, capazes de assegurarem e promoverem a condição de cidadãos livres e responsáveis, numa Sociedade verdadeiramente democrática?!... Quando a Cultura e as Ciências são amordaçadas e domesticadas em nome da proficiência da Economia (que nunca se nomeia enquanto capitalista e, portanto, foncierement predadora), o que acontece é que já abandonámos, há muito, as Sociedades democráticas... e, sem que disso se tenha dado conta, supremamente comandados pela religião lai-ca do Objectivo-Objectualismo. O Ocidente está doente de uma ‘Ciência’ estereotipadamente institucionalizada!...
Os graves e complexos problemas contemporâneos da perda dos empregos e da necessária criação de novos empregos e, pelo meio, das soluções falazes e falsas do ‘tra-balho precário’ e da sedutora proposta da ‘flexisegurança’, — tudo isso tem a ver muito mais, e directamente, — é preciso sabê-lo —, com a má e injusta Distribuição Social da Riqueza havida e produzida, com o carácter substancialmente predatório do neocapitalismo liberalista, do que com a necessidade (tantas vezes artificiosa e voluptuosa) de diversificar os produtos mercadorias, para alimentar uma boa competição no mercado...
A lógica económico-mercantil que, em alternativa, aqui emerge, é a que se prende com os manuais tradicionais da religião laica do Objectivo-Objectualismo e que se articula com a pressuposição aristotélica, falsa, de que o progresso nas Tecnologias de pro-dução vai trazer consigo, inevitavelmente, a emancipação e a libertação, efectivas, das classes sociais subjugadas, exploradas e oprimidas!... A História social do Ocidente industrializado e do Mundo (boa parte do qual continua em estado de subdesenvolvimento, muitas vezes pela simples razão de não verem reconhecidos os seus direitos ao seu modo de produção e de vida...) está farta de comprovar até à saciedade, toda esta maneira crítica, mas ingénua e prepotente, de encarar a evolução das Sociedades e do Mundo. É o despotismo iluminado em acção!...
Evoquemos, de relance, a sabedoria eterna da Humanidade, tão bem expressa, su-mariamente, nesta quadra desse grande Poeta popular, que foi António Aleixo: “ Quem come e trabalha/não come o pão de ninguém;/mas quem come e não trabalha/come sempre o pão de alguém”. De que fala aí o Poeta, com absoluta pertinência no universo da Economia política? Da Justiça foncière nas relações entre os Seres humanos: desse imperativo categórico, estrutural/estruturante, da necessária articulação entre o trabalho produtivo e a satisfação das necessidades vitais.
Ora, à força da religião do Objectivo-Objectualismo, e da utilização imperiosa e escravizante das Novas Tecnologias (que são o seu corolário), os trabalhadores e empre-gados viram perdidos, ao mesmo tempo, o seu direito ao trabalho e ao emprego, e o seu direito a intervirem na edificação responsável do Bem Comum de toda uma Nação. O Poder d’abord, as hierarquias rígidas e substantivas conduziram à dependência de muitos e à exclusão de alguns, bem como à teoria/doutrina da ‘vida nua’ (a biopolítica de G. Agamben) de todos!...
Eis por que, neste horizonte em que é suposta progredir a odisseia distorcida e contraditória do Processo histórico civilizatório e cultural, o Projecto da vera e autêntica Democracia resulta sempre num procedimento falacioso e falhado!... Sobremaneira, quando se evoca, criticamente, a bem exigente Democracia participativa e radical. Por isso mesmo, se preferem (ou são impostas pelas classes dominantes...), sempre, as solu-ções comportadas na chave da chamada ‘Democracia representativa e indirecta’ (criada pela civilização burguesa/cristã do Ocidente).
Em termos de gramática da vera e autêntica DEMOCRACIA, as instituições só-cio-políticas da Democracia representativa, com os seus Partidos e candidaturas, em processos eleitorais, e, em pano de fundo, o sufrágio dito directo e universal, — tudo isso não passa, afinal, em última análise, de uma encenação societária monumental, que muito pouco ultrapassará a pura falácia, a pura impostura!... É o que nós costumamos designar, no C.E.H.C., como a Sociedade dos 180 graus (geometricamente, 90º para a situação e 90º para a oposição... apenas no plano teórico, como é óbvio; no plano práxico-pragmático, os 90 graus da oposição são habitualmente comprimidos até 30, 20, 10 ou zero graus, consoante os temas e as circunstâncias, como num acordeão...).
Desde logo, o sufrágio (proposto e solicitado aos cidadãos eleitores pelos partidos políticos) pressupõe as pessoas como objectos contabilizados. Isto é mesmo o que emer-ge em 1º plano, nos objectivos do processus eleitoral. No que tange aos (respectivos) pro-gramas dos partidos, isso só surge, fenomenologicamente, em 2º plano. Eis por que é pertinente formular, desde já, um imperativo categórico: a vera Democracia tem de ser radical, directa e participativa; e, em primeiríssimo lugar, ela tem de visar e balizar-se em veros programas de acção, que é preciso escrutinar nas urnas. Nesta perspectiva, o agenciamento e a cooptação das pessoas responsáveis pelo cumprimento dos respectivos programas políticos passam a questão secundária. Converter-se-iam, sem dúvida, em questão primária, quando houvesse falhas ou confusões nos programas apresentados a público.
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‘Home — O Mundo é a Nossa Casa’ (programa passado na RTP-2, em 5.6.2009, 20.45 horas, e, segundo informação ministrada, difundido já em ca. de 50 países, através da Internet).
Foi, sem dúvida, um bom programa para a celebração do Dia Mundial do Am-biente. Elaborado em torno da crescente degradação do Planeta Azul, desencadeada pelos efeitos da Civilização em que sobrevivemos, e procurando abordar o Futuro da Terra, para além das dramáticas Alterações Climáticas actuais, que a estão afectando dramaticamente, assistimos a um programa televisivo de excepção: parece ter nascido de um grupo de pessoas críticas, independentes em confronto com instituições societárias, capazes de lhe imprimirem orientações e balizas subliminares; grupo de pessoas de vários países.
Quase tudo foi passado em revista: o buraco do ozono, a subida do dióxido de carbono; o metano, que está à beira de explodir nos últimos territórios ainda gelados da Sibéria: Uma vez derretido o ‘permafrost’, a camada de gelo subterrânea, o gás metano dizimará o que sobre da vida nesses territórios; os glaciares do Árctico e da Antártida, que se desfazem a um ritmo muito mais apressado do que o esperado; a liquefacção dos eternos territórios gelados da Gronelândia está a funcionar como um vero toque de gong. A desflorestação acelerada dos principais territórios florestais da Humanidade, que eram os pulmões da Terra, como a Amazónia, constituem, hoje, um facto indesmentível.
Territórios, que ainda ontem eram agricultados, estão a ser drenados por chuvas e ventos intempestivos e pelas alterações climáticas; muitos rios já não têm água e caudal a correr para o mar. Enormes territórios da África e da Ásia e, até, no Médio Oriente, em resultado da erosão continuada, estão ressequidos e desertificados e já se colhe muito pouca água de poços cada vez mais profundos. Os oceanos viram subir os seus níveis ca. de 20 centímetros em média, no último meio século. Acentua-se cada vez mais a poluição generalizada, quer da atmosfera e da estratosfera do Planeta, quer das próprias águas dos rios e dos oceanos. Há milhares de espécies, nos reinos animal e vegetal, que já desapareceram; outras acham-se em vias de extinção.
Desde há ca. de 200 mil anos (nós diríamos: desde há, pelo menos, 350 mil anos, o aparecimento do ‘Homo Sapiens’ sob a forma do Homem de Neanderthal, o ‘Sapiens tout court’) que a presença do Homem sobre a Terra não assistia a semelhante catástrofe, preparada e anunciada, paradoxalmente, pelo que nós podemos chamar, não os efeitos naturais dos movimentos e da dinâmica da Astrofísica, mas as próprias ‘Obras da Civilização’. Consciente e criticamente, o programa em causa dava-nos conta de que 20% da população mundial extraem (minérios e outros bens físicos), detêm e apoderam-se de 80% da riqueza do Planeta.
De uma coisa o Programa se esqueceu, na sua luta pelo rigor e pela sensatez crí-tica: chamar aos bois pelos seus nomes. Não se falou do Sistema Capitalista, o vero e último responsável pela pilhagem e pela predação; o vero e último responsável por todas essas degradações e calamidades... Quando as próprias calamidades naturais (sismos, furacões e ciclones, chuvas ácidas e ventos intempestivos) constituem, em boa percentagem, o efeito de forças/factores cruzados que sabemos serem, manifestamente, obra da Civilização humana, já não é facultativo, é absolutamente obrigatório nomear o Sistema/Chave, que tudo comanda na organização e no funcionamento das Sociedades humanas.
Foi, sobretudo, nesta dimensão crítica holística, que o Programa televisivo falhou. E dizemos isto com tanto mais à-vontade, quanto reconhecemos e elogiámos o facto de o mesmo Programa não se ter deixado consumir e esgotar na vertente criticista e pessimista/trágica; ca. de 1/10 do seu discurso crítico, já para o fim, teve a coragem de tocar a tónica da esperança, a partir, justamente, das responsabilidades consciencializadas de cada indivíduo/cidadão, perante a catástrofe iminente. Ao mesmo tempo, foi acentuada a importância das energias renováveis bem como das possibilidades de economizar energia.
Já se vê que é importante e decisivo evocar-se e invocar-se a responsabilidade global do Sistema Capitalista, enquanto tal, na produção (directa ou indirecta) de todas estas malfeitorias e catástrofes. E, para sermos holísticos e criticamente completos, até deveríamos invocar, a um nível mais básico e profundo, a Cultura sempiterna do Po-der-Dominação d’abord. De outra maneira, o nosso discurso não passará de retórica fa-laciosa... pour épater le bourgeois!...
É que o Adamastor, que se perfila no horizonte, é mesmo o do ‘Poder seco’ (Po-der que ignora o Saber e o submeteu, convertendo-o em vilão...). Na verdade, gasta-se (a nível internacional/mundial) muito mais em Armamento bélico e aprovisionamento dos Exércitos e das Chefias militares, do que no Desenvolvimento dos povos e das nações, a começar pelos ‘sub-desenvolvidos’, ou em vias de desenvolvimento, como agora se diz eufemisticamente. O Programa foi capaz de concitar a atenção crítica para este facto monumental e hediondo, mas não foi capaz de o ligar, semanticamente, ao Sistema Capitalista e à Cultura do Poder-Dominação d’abord, dos quais procede directamente. E advirta-se mais: o Programa até foi capaz de se lembrar do 1º exemplo (a Costa Rica) de um país que teve a coragem de renunciar às despesas militares em benefício das finanças do Desenvolvimento nacional.
O Programa em causa é, sem dúvida, do melhor que temos visto e ouvido: nas duas dimensões críticas: negativa e positiva. Mas há, igualmente, algumas falhas estrutu-rais, que é preciso superar. É que é, precisamente, nos domínios da pragmática e da pra-xis social-societária que os problemas e as divergências vão surgir, quando, afinal, o que se impunha era unir esforços para que a eficácia das acções renovadoras fosse maior e mais profunda. Faz um discurso à puridade David King (conselheiro do ex-P.M. inglês Tony Blair) ao proclamar: ‘Não é a hora de enterrar a cabeça na areia nem de entrar em pânico. É, outrossim, a hora de agir’!...
Mas agr — o que vem isto a querer dizer? Actuar desgarradamente... no esquema tradicional do”cada um por si e a ‘Mão Invisível’ smitheana por todos”?!... — Assim, não saimos do Capitalismo, porque o Sistema Capitalista está estigmatizado por esta mesma Ideologia cristianíssima. O que, sem dúvida, começa a fazer a diferença são as acções e as iniciativas (de base), organizadas em esquema de cooperação concertada e de solidariedade fraterna. As novas perspectivas diferenciadoras reforçam-se e consolidam--se, quando se dá conta dos problemas mais profundos e se topam as verdadeiras linhas de Solução. Um exemplo típico ad casum:
Afinal, os que defendem (ou não põem directamente em causa) o neoliberalismo capitalista global de hoje, no encalço de todas as modernas formas do Sistema capitalis-ta (quer no seu pendor individualista, quer no seu pendor colectivista, capitalismo de Estado, que foi chamado erroneamente de Socialismo...), — todos esses estão a promover (a um nível social-societário mais profundo) uma vera e própria Economia política de guerra, enquadrada, como cumpre, em cadeias hierárquicas de comandos uniformes e centrais, travestidas — como se impõe — pelas matraqueadas ilusões públicas do ‘Free Market’ e pelas armadilhas astuciosas do mal/bem fadado ‘progresso tecnológico’, sem-pre ancorado e subdeterminado pela sacrossanta religião laica do Objectivo-Objectualis-mo das Ciências modernas.
Em suma, os efeitos e as atmosferas ideológicas que, no passado, eram produzi-dos e destilados pelas religiões institucionalizadas (o autoritarismo, o dogmatismo, a ortodoxia), são produzidos e destilados, contemporaneamente, pelo Objectivo-Objectualismo das ciências modernas, metamorfoseadas institucionalmente no que o C.E.H.C. chama, com propriedade, as ‘Tecnociências de Aparelho’.
É claro que, neste horizonte crítico e no concernente ao núcleo duro de toda esta problemática, a Cultura do Ocidente, que, desde a alvorada dos Tempos Modernos, tem pretendido ser protagonista do Processo civilizatório, à escala mundial, tem muitas responsabilidades e culpas no cartório.
Aqui, e a este nível, cumpre-nos fazer menção de dois parâmetros principais e es-truturantes de toda a arquitectura societária, em que ela tem sido useira e vezeira: a) todas as iniciativas e actividades com significado e consistência têm de proceder da Potestas/ /Auctoritas sacra (mesmo no chamado ‘Nouveau Régime’, dito republicano, secular e lai-co); b) as práticas do Despotismo Iluminado tornaram-se correntes e habituais, nas Sociedades ditas democráticas do Ocidente, — o que, de resto, é corroborado pelo Objectivo-Objectualismo na prática institucionalizada das ciências modernas, bem como pelas estatísticas societárias e pelos processos eleitorais de carácter puramente empíreo-criticista.
As consequências ideológicas deste horizonte psico-sócio-político são óbvias: as rupturas/descontinuidades societárias só podem ser operadas mediante golpes de Estado ou revoluções de armas na mão, desencadeadas por Movimentos revolucionários (que, obviamente, só na clandestinidade podem preparar-se e sobreviver...).
Eis por que é inevitável que haja hipocrisia, ambiguidade e equivocidade, quan-do os ocidentais (‘oficiais’ do Establishment) procuram distinguir e separar as duas realidades, que dão pelos dois enunciados categoriais: Economia de Paz; Economia de Guerra. As mentiras e as falácias logo se percebem quando se invocam axiomas tradicionais ou apotegmas jurídico-políticos da Cultura ocidental, tais como: a Paz que há?... É sem-pre a paz entre duas guerras. ‘Si vis pacem, para bellum’: Se pretendes a paz, prepara-te para a guerra!... Como se vê, no horizonte da existência das Sociedades humanas, o que vigora e impera é a Guerra sobre a Paz, e não o contrário. São, de facto, estes motes ideológicos que são difundidos e propalados aos quatro ventos do Mundo, na bimilenar história do Ocidente. As mensagens psico-sócio-antropológicas de Sócrates e de Jesus foram completamente esquecidas/ignoradas e soterradas pelas Ideologias oficiais do Establishment. Por tal caminho, o Ocidente não tem cura!...
E o típico Despotismo Iluminado do Ocidente, que se continua a mostrar absolu-tamente irredento (mesmo em época de Pós-Modernidade...), ainda assoma, como doença epidémica, precisamente naquelas situações em que o Poder Estabelecido impõe o voto obrigatório aos cidadãos. (Aqui está um topos político específico, em que o Poder de Estado se deveria mostrar limitado, e não ilimitado... No Ocidente oficial, o Poder, no seu exercício, cai magneticamente para o campo da Divindade omnipotente, em lugar de cair para o ventre que o gerou!...). Nesta circunstância do voto obrigatório, é a Liberdade dos Indivíduos-Pessoas que é posta na prisão: o direito de votar (ou não) em plena Liberdade.
Mesmo nas situações jurídico-políticas, em que o voto não é obrigatório por lei, as atmosferas ideológicas do Ocidente são tais que: a) o grau de abstenções dos votantes (que chega, por vezes, a atingir os 75% e mais...) é secundarizado e menosprezado, em termos de política constitucional; b) em tais condições, o ‘voto em branco’ acaba por ser a única saída que o cidadão encontra, quando não aceita nenhuma solução do leque dos partidos políticos apresentados a sufrágio nas urnas. Como já referimos, este é o inexorável Quadrante de funcionamento (180º ) da cartilha própria e específica das Democracias representativas/indirectas, conhecidas oficialmente no Ocidente e no Mundo.
Na verdade, os Dogmas sacrossantos do ‘Free Market’, a cartilha corrente da De-mocracia política representativa, e o estado de ‘guerra permanente’ da Economia política, constituem, afinal, os três pés da mesma Trempe. Um exame detalhado e comparativo/articulador às três pernas da tríade acabará por dissipar todas as dúvidas, que só à superfície dos fenómenos se podem aguentar.
Como é sabido, o neoliberalismo capitalista global tem insistido muito na cha-mada ‘economia do Conhecimento’... claro, do conhecimento que lhe dá serventia!... As denúncias efectivas têm de ser feitas por quem conhece realmente os factos.
O perito francês, Christian Harbulot, especialista em ‘guerra cognitiva’ e em ‘in-teligência económica’, procedeu à sua denúncia, recentemente, numa conferência havida em Lisboa e dirigida a empresários: “ A surpresa veio do efeito dominó gerado pela irresponsabilidade do mundo bancário e financeiro anglo-saxónico, que se julgou dono do mundo, depois do desaparecimento provisório dos conflitos geoestratégicos”. (Cf. ‘Expresso’/Economia, 5.6.2009, p.9).
Quando se conhece bem a realidade sócio-histórica, as explicações da Crise actual não faltam: “Esta crise era previsível, pelo menos em parte, no plano do imobiliário, pois é um sector que vive em crises cíclicas, e a última havia sido em 1997” (idem, ibidem). Mas o especialista explica-se ainda melhor, ao afirmar: “ Fui um dos raros a sublinhar, no final dos anos 1980 [aquando da Queda do Muro de Berlim, em 1989], que as relações entre as potências não tinham desaparecido e que os afrontamentos de tipo económico iriam tomar um lugar cimeiro na cena mundial. Mas eu pregava no deserto” (ibidem).
Em resumo, o mundo ocidental, a começar pelos USA, deixou-se cegar pela im-plosão da URSS... em consequência disso, desviou a atenção da geometria geoeconómica e deixou-se embarcar numa nova onda de especulação financeira, à sombra de um hiper-capitalismo definitivamente vitorioso!... O primeiro episódio, que veio com o caso Enron (2001), “fragilizou os próprios fundamentos do credo sobre o qual os EUA se baseiam para influenciar as elites mundiais” (idem, ibidem).
Ora, é claro que, sobremaneira nesta situação crísica e debilitada, “nada é mais difícil, para um império, do que bater-se em diversas frentes. Os Estados Unidos estão hoje nessa situação. Historicamente, são raros os impérios que conseguiram preservar o seu estatuto num tal quadro de relações de força” (idem, ibidem). Quando, efectivamente, na ‘caixa das feramentas’ política só se conhecem os dois tipos de actuação (o soft power da diplomacia e o hard power da guerra e das ameaças da Força), o horizonte que se pode esperar é, deveras, sombrio!... Mas a política da prepotência e da sobranceria, que é a cartilha própria de todas as organizações imperiais, não conhece outras regras. E é nesta at-mosfera ideológica que prosseguimos vivendo, actualmente, à escala mundial.
C. Harbulot sabe que “é ainda cedo para dizer se os EUA já entraram numa situação de prisioneiros de dilemas estratégicos, mas há indicadores de que a sua posição se enfraqueceu” (ibidem). Pode isso verificar-se nos planos, tanto político-diplomático como geoeconómico: é notória a perda de legitimidade no seu discurso ideológico sobre a economia de mercado, acompanhada do declínio de sectores industriais gigantes como a General Motors; a manifesta dificuldade em ‘domar’ a crise bancária está a acentuar a descredibilização total da própria política financeira; os ‘truques’ correntes da burguesa economia política, polarizada no ‘Free Market’ como uma Divindade mecânico/providencial, já não colhem tanto, hoje como ontem, visto que as próprias populações se acham mais instruídas e cultivadas. A Evolução cultural vai progredindo, — não esquecer.
Paradoxalmente, e diante do Império (supostamente mundial) dos USA, é a pró-pria China (dita dos ‘dois sistemas’, desde Deng-Shiao-Ping), que (retomando o modelo e a estratégia do Japão da Era Meiji: anos 1970-1980) se encontra já a actuar como ‘Estado-Estratega’ dos tempos hodiernos, perante o Império norte-americano em declínio, no concernente, pelo menos, à estratégia das ‘relações de força geoeconómicas’, se não militares, propriamente ditas. A simples condição do maior credor financeiro dos USA confirma-lhe todas estas vantagens. E C.H. tem razão em advertir no seguinte (ibidem): “Mas os chineses juntaram às receitas do patriotismo económico japonês o savoir-faire de um regime económico, que aprendeu ao longo da sua história a enganar um adversário inicialmente mais forte”. Uma lição que, indirectamente, o ‘Império do Meio’ aprendeu das viagens de circumnavegação da Terra entre 1420-1430, 50 anos antes dos Descobrimentos Marítimos dos europeus, protagonizados pelas duas nações ibéricos.
O que nós lemos, no pano de fundo desta advertência, são dois postulados políti-cos que os chineses assimilaram desde há muitos séculos (e que o Maoísmo, em confron-to com a antiga URSS, já praticava, em parte...): a) não correr sofregamente atrás das no-vidades históricas só porque elas o são... podem revelar-se puros enganos ou miragens; b) privilegiar sempre a via do meio, contra os dois extremos: por isso, os chineses souberam facilmente adoptar a via do Mercado, sim, mas devidamente regulado e balizado pelos Poderes de Estado.
As questões do trabalho e do emprego servilizados, ainda tão frequentes na China, têm outras fontes e factores de procedência... e a própria ‘Free Market’ do Ocidente — temos de convir — tão proclamado enquanto factor de promoção do nível de vida e da dignidade humana, é, ele próprio, uma escola muito fraca e de péssimos exemplos, para os objectivos de uma vida humana livre, com dignidade e direitos assegurados. Nestas matérias como noutras, o confronto entre as duas realidades está, via de regra, marcado de ocidentalocentrismo acrítico e perverso!...
Por que é, soberanamente, importante e decisiva a via do meio? Porque ela tem o condão de nos inibir e impedir de transformar toda a Economia política (moldada no Mercado) num universo fechado e absoluto, onde, segundo esta lógica, a Educação e o Ensino e a Cultura são naturalmente (?!...) convertidos em produtos-mercadorias trocáveis no mercado!... São precisamente estes desvios e degenerações estruturais, que o Sistema Capitalista e de Mercado do Ocidente parece que ainda não lobrigou...
A civilização chinesa (de mais de quatro milénios) tem, efectivamente, muito a ensinar a um Ocidente demencial que, por força das suas manias alvissareiras, se debate, sem saída, nos estertores paroxísticos das ‘news... more news’!... E deve observar-se, aqui, que este espírito de ambição congénito da Cultura do Ocidente já não é, contempo-raneamente, o ‘Fogo de Prometeu’, que desafiava os Poderes ciumentos dos Deuses, em função da sua própria Libertação e Autonomia.
Que significa e implica, afinal, essa (esquecida...) estratégia das relações de for-ça geoeconómicas? A) Que há um conflito natural nas relações humanas, entre indivíduos, entre grupos, entre nações, entre regiões, entre continentes, que não precisa de se transformar em guerra ou conflito armado, para encontrar a sua solução. B) Que o Global do processo (mecânico e fisicalista) da globalização hodierna carece, urgentemente, de ser corrigido e completado com as exigências e a gramática própria do Local. Já se cunhou o neologismo ‘glocal’... mas ele continua sem conteúdo definido e reconhecido. C) Tudo somado, a estratégia das relações de força geoeconómicas joga a favor do reconhecimento das diferentes Nações/Estados em-pé-de-igualdade, independentemente da sua grandeza, e em detrimento das ideologias e mistagogias do Império e do Imperialismo. D) Essa filosofia pragmática pode funcionar, perfeitamente, em benefício da considera-ção e do reconhecimento das Relações dialógicas e dialécticas, sempre esquecidas e ignoradas como a verdadeira fonte dos Poderes legítimos, no odre da Cultura sempiterna do Poder-Dominação d’abord: esquecidas e ignoradas pela simples razão de os Poderes constituídos não fazerem caso, habitualmente, desse ‘supplément d’âme’ que são os Sa-beres geminados com os Poderes.
Neste complexo universo humano de problemas políticos, jurídicos, económicos, sociais, culturais, sempre que violarmos o princípio axiomático do primado (absoluto) do Saber sobre o Poder, os resultados não se fizeram esperar: caminhos desviados ou ínvios, o empobrecimento e a destruição da ‘Humanitas’ e das Sociedades humanas dig-nas do nome. O Psico-Sócio-Ânthropos ensina, no seu primordial princípio axiomático. ‘Nihil volitur nisi praecognitum’! A Vontade e a Decisão seguem a Inteligência, como é próprio de Seres racionais, dotados de Lógos e Noûs. Não o inverso.
METAFÍSICA/RELIGIÃO/MITOLOGIA/’POIÉTICA’:
SEU ENTROSAMENTO CRÍTICO.
Que é e para que tem servido a Metafísica?
Esta é a Questão incontornável, que uma Cultura substantiva e crítica não pode deixar de pôr, na era em que vivemos da Pós-Modernidade crítica e positiva.
Nos passados anos ’50 do séc. XX, quando Hannah Arendt veio à Alemanha fazer conferências em torno do seu livro (então saído a público), ‘As Origens do Totalitarismo’, deu conta (com algum pesar...) de que o ‘motto’, que vigorava nas atmosferas académicas, se enunciava como segue: ‘a metafísica é inteiramente supérflua’!... (Cf. Elzbieta Ettinger, ‘Hannah Arendt e Martin Heidegger’, Relógio D’Água, Lisboa, 2009, p.106).
Hoje, o Centro de Estudos do Humanismo Crítico apostrofará, com fundamentos sérios, que a Metafísica não só é supérflua como é, em certas áreas do Saber, inteiramente nociva e perversa. Esta tese procede, directamente, do consabido monismo epistémico, que ainda predomina, infelizmente, na Cultura/Civilização do Ocidente, tanto nas ciências e nas tecnologias, como na filosofia. Por isso mesmo, os Sujeitos huma-nos, qua tais, e o Imaginário humano têm sido sistemicamente descartados do baralho psico-sócio-antropológico.
Os saberes e o pensamento metafísico, em geral, têm sido percepcionados e esta-belecidos segundo uma grelha fisicalista irredenta. O próprio L. Wittgenstein se deixou enredar na cartilha fisicalista da Metafísica e do Pensamento filosófico em geral. É, pois, preciso desconstruir a noção de Metafísica (numa desconstrução balizada e apurada se-gundo a gramática do filósofo desconstrucionista, por excelência, J. Derrida).
Como surgiu, na história da Filosofia ocidental, o vocábulo metafísica? Ele não foi cunhado, na acepção corrente, por nenhum dos três grandes filósofos da Antiguidade clássica helénica: Sócrates, Platão (que o traíra...) e Aristóteles (que, no hilemorfismo, procurou, de algum modo, erguer uma síntese... mas sempre na vertente dos Objectos).
Eis por que a noção de metafísica (reinventada por um discípulo de Aristóteles, Andrónico de Rodes, ca. 70 a.E.C., para localizar os livros do Mestre, que vinham depois dos livros sobre a física) detinha, originalmente, apenas, uma semântica topográfica. Não tinha qualquer sentido ontológico, de índole fisicalista, como veio a acontecer, posteriormente, na Cultura ocidental estigmatizada pelo platónico Dualismo metafísico-ontológico.
Assim, a semântica, que hoje ainda é atribuída à palavra Metafísica, na Cultura Ocidental, não pode deixar de considerar-se serôdia e espúrea, indutora, por conseguinte, de perspectivas erróneas de toda a sorte.
Curiosa e paradoxalmente, deve advertir-se que a Metafísica (na acepção tradi-cional, ontológico-fisicalista) foi uma assumpção típica e quase exclusiva da Cultura do Ocidente (inerente na fonte helénica, sem dúvida, mas igualmente, nos textos canónicos das três religiões do ‘Livro’, acima de todas, no Cristianismo paulino-católico do Império Romano e de toda a História eclesiástica das igrejas, mesquitas, sinagogas).
Desta sorte, a Metafísica, segundo a noção tradicional, se, por um lado, se pode identificar com os espaços do Saber das Religiões (institucionalizadas), por outro lado, ela pode ser considerada como a ‘fons et origo’ (sempre na vertente objectualista, que é, inexoravelmente, a sua) das mundividências laicas e secularizadas do Mundo, à rebelia das religiões institucionalizadas (para agnósticos, ateus, e sociedades secretas em geral).
Ora, o fenómeno da Religião, como é sabido, tem duas faces, qual Jano: a) a que é assumida, individualmente, nos sentimentos e reflexões do Indivíduo-Cidadão; b) a que é assumida, objectivamente, como um Colectivo, na medida em que se configura como religião institucionalizada, enquanto tal (i.e., como expressão, balizada e orientada, de um determinado tipo de Poder societário).
É justamente em virtude dessa ambiguidade da própria noção de Religião (que, via de regra, quase nunca é salientada...), que logo vai emergir, paralelamente, a característica anfibologia da noção de Metafísica: a) uma atinente aos espaços ideológicos comuns às Religiões; b) outra concernente à sua iniludível potencialidade crítica de se constituir como a derivação laica e profana, rebelde e refractária às religiões institucionalizadas...
Ora, as ambiguidades (e os equívocos...) das duas noções (da Religião e da Meta-física) permanecerão, expressas ou camufladas, enquanto, na psico-sócio-história, não for considerada e atacada, explicitamente, a Quaestio Magna da Potestas d’abord... Enquanto isto não acontecer, as sociedades (mais ou menos secretas), constituídas por ag-nósticos e ateus, prosseguirão convivendo (pacificamente?!...) com as religiões institucionalizadas, disfrutando, umas e outras, das mesmas esquizofrenias e paranóias estruturais.
Por outras palavras, a Antropogénese e a Psico-Sociogénese, na Civilização/Cultura do Ocidente, nada evoluiram em termos positivos e substantivos; e, por carambola, o ecumenismo e a unificação pacífica dos diferentes Povos e Nações, à escala do Planeta, estão muito longe de emergir como se esperava.
A comprovar isto mesmo, está, aí, a odisseia malograda das Cartas dos Direitos Humanos (desde 1792, na Revolução Francesa, até 1948, na Declaração Universal dos Direitos do Homem), onde, quer à própria escala do Ocidente, quer à escala alargada da globalização/mundialização, a perspectiva que se pode ter, actualmente, não é outra senão a do declínio e da inconsequência societários dessas Cartas!...
Serviu, aqui, a Metafísica (que se encontra no espaldar das Cadeiras que produziram essas Cartas) para alguma coisa de veramente positivo e fecundo, em termos sócio-históricos?!... Oh, como precisamos, urgentemmente, de desconstruir a Metafísica, para, no seu lugar, darmos a vez e a voz ao Diálogo (socrático e jesuânico) entre os Indivíduos/Cidadãos e entre os diferentes Povos e Nações da Terra, em-pé-de-igualdade.
Mais: é preciso e urgente tomarmos consciência crítica e esclarecida dos frutos amargos da presença e da permanência in aeternum da Metafísica: A) não mais sairemos da velha galáxia da religião laica (ou religiosa...) do Objectivo-Objectualismo; B) nos hábitos e costumes psico-societários e históricos, não saberemos fazer outra coisa senão a preservação e a promoção do sempiterno Despotismo iluminado.
Ainda sobre as relações (expressas ou ocultas, exotéricas ou esotéricas) entre Metafísica e Religião. A miragem criada pela noção tradicional de Metafísica, articulada e baseada (objectivo-objectualmente) numa suposta ‘Filosofia Perene’ (constituída de mo-do apressado e parcialmente a priori, porque eurocentrista...), converteu-se no ‘duplo’ laico e profano das Religiões institucionalizadas, enquanto tais; e tal operação ocorreu ipso facto, na medida exacta em que a própria Metafísica não foi capaz de encarar e resolver o magno Problema da Potestas d’abord.
A fundação moderna-contemporânea da ‘Humanitas’ e das supostamente novas Sociedades humanas, em bases laicas e profanas experienciou e experimentou, em todo esse processus da configuração da nova Gramática dos Direitos Humanos, sem efecti-vidade nem consequências, a sua Grande Heresia. Tornando mais explícito o processus:
A Metafísica começou por ser perfilada/configurada, num 1º passo, como ‘cavalo de Tróia’ da Religião. Num 2º passo, em nome do suposto respeito para com as religiões institucionalizadas, ela encontrou a sua Alavanca de Arquimedes no pressuposto filão cultural da ‘Filosofia Perene’. Num 3º passo, aparentemente autonomizada, ela operacionalizou o seu projecto, no pressuposto de que convinha respeitar e não discutir com as religiões institucionalizadas (ou seja, não teve a coragem de enfrentar a ‘Quaestio Magna’ do Poder). Num 4º passo, agora dado extrinsecamente, por parte dos ‘desconstrucionistas’, os seus críticos chegam à conclusão de que uma Metafísica que não é capaz de emancipar/libertar não serve para nada. E num 5º e derradeiro passo, são os seus próprios críticos que lhe assinalam a sentença de morte, reclamando a sua substituição pelo Diálogo vivo e fecundo entre os Seres humanos, enquanto Sujeitos livres e responsáveis, dotados de uma consciência reflexiva e crítica.
Aqui chegados, é mister tomar-se consciência crítica: A) de que a construção oci-dental da Gramática dos Direitos Humanos resultou malograda, precisamente por cau-sa, não só do seu carácter teórico (separado da praxis societária por abismos), mas também por causa do seu ocidentalocentrismo; B) e bem assim de que o combate e a crítica das religiões institucionalizadas, enquanto tais, têm de prosseguir, com a mesma intensidade e veemência do Poder Estabelecido, nas modernas e contemporâneas Sociedades pseudo-democráticas do Ocidente e do Mundo ocidentalizado.
Ora, é justamente na focagem deste horizonte crítico, que nos podemos dar conta, expressamente, de que a Metafísica tradicional foi uma Construção cultural absoluta-mente típica da Filosofia e da Cultura do Ocidente, oriunda, sem dúvida, da Hélade e de Roma, mas, igualmente, da outra terceira fonte do Ocidente, a Hebreia.
Mais: a Metafísica tradicional constitui um Edifício cultural intrinsecamente ge-minado, não só com a cultura (tradicional) das Religiões institucionalizadas (das quais, na origem, pretendera separar-se), mas também com a cultura da sempiterna Potestas-Dominação d’abord.
Uma vez descartada a Metafísica e a Religião institucionalizada, enquanto tal, que resta à Cultura/Civilização do Ocidente?! A refontização desconstrucionista já o dis-se (no título desta secção): a Mitologia e a ‘Poiética’.
Ao falar, aqui, de Mitologia, não estamos a referir-nos a fantasmas ou ídolos, en-carados em termos de conteúdos arrolados e seriados, sem passarem pela joeira da crítica racional; estamos a referir-nos, outrossim, às Lições semânticas (de ordem ética e moral), consignadas outrora naquela fórmula da Literatura clássica helénica que rezava assim: ‘Ó Mythos delói óti...’: o mito mostra-nos... e seguia-se a Lectio moral a captar e a assimilar, para a boa conduta na Vida.
De igual modo, inscrevemos, acima, em termos críticos, Poiética (e não Poética, apenas...). As atmosferas ideológicas da Cultura contemporânea levaram-nos a percepcionar, correntemente, no termo poética e poesia, nada mais que um jogo bem escolhido de palavras (no que toca à métrica e no que tange à rima), sem cuidar do necessário pensamento (mais ou menos inesperado ou revolucionário...), que as palavras poéticas devem encerrar, para que haja vera poesia. Nelas, como deveria ser sabido, deve ter residência, não só o lógos, mas também o noûs. É por isso que a própria palavra poética (e poesia...) foi tradicionalmente adulterada, em confronto com o significado etimológico do termo grego: aqui, o verbo ‘poiô, poiéso, epóiesa, pepóieka’ e o substantivo correspondente ‘póiesis, poiéseos’ ostentavam uma referência clara e expressa às atitudes ou dinâmicas de criar/criação, arquitectar/arquitectura, onde, por definição, não basta a presença da técnica ‘logística’, mas é absolutamente necessária e imprescindível a presença do ‘noûs’.
Integradas, de pleno direito (e até com razoáveis efeitos de saneamento cultural), a Mitologia e a ‘Poiética’, na Cultura crítica do Ocidente, temos de convir que é todo um novo Projecto cultural/civilizacional, que se nos impõe, em termos psico-sócio-antropológicos.
Assim, em vez dos dois andares habituais do Edifício (matéria/corpo: matéria inorgânica e matéria orgânica//racionalidade animal que, mediante a brecha da cissipari-dade operada pelo Poder, pode chegar às chamadas ‘obras de civilização’ de K. Popper), encontraremos um Edifício psico-sócio-antopológico constituído por três andares sobre-postos, a saber: Matéria inorgânica/orgânica, onde aflorou a inteligência e a linguagem duplamente articulada, e, por fim, um pensamento: lógos/noûs, acompanhado do fenómeno de uma consciência reflexiva e crítica.
Que fizémos nós, na passagem (à maneira dos gnósticos judeo-cristãos primevos) dos dois para os três andares do Edifício psico-sócio-antropológico?! Limitámo-nos a considerar e a respeitar a Espécie balizada pelo Ânthropos, e a atribuir toda a atenção evolucionária, em termos da Bio-Antropogénese, ao segundo patamar, que emergiu depois do primeiro. 1º: Homo Sapiens tout court; 2º: Homo Sapiens/Sapiens, dotado de uma Consciência reflexiva e crítica, que não existia no 1º patamar.
No horizonte do 2º patamar, não há um Poder separado, com a chancela de uma Divindade extrínseca e transcendente (a qual — não se esqueça — continua a estar presente, paradoxalmente, na praxis sóciopolítica corrente das modernas e contemporâneas democracias representativas e indirectas, na esteira da doutrina de J.-J. Rousseau). Na peugada da mundividência céltica, o Poder que aí se ergue e funciona, com legitimidade, é o Poder incarnado no tecido axiológico das Sociedades humanas, qua humanas, — um Poder geminado com e na Cultura da Liberdade Reponsável primacial e primordial.
Não se pode, aqui, esquecer que o terceiro andar do Edifício é, também, o do uni-verso da Imaginação humana, onde encontram a sua base os projectos da Crítica social global e da Utopia em direcção a uma Sociedade Alternativa. Ora, este universo da Imaginação humana é tanto mais importante e decisivo, quanto mais tem sido omitido ou posto entre parênteses, pelas ideologias fisicalistas e mecanicistas, o segundo andar do Edifício, concernente à Matéria orgânica e à emergência de uma Consciência racional.
E o Imaginário, como é sabido, é pertença dos Sujeitos humanos; nunca dos seus Objectos que, uma vez objectualizados, perderam toda a faísca da invenção e da inven-tividade.
A Divindade, que se vê soerguida no 3º patamar do Edifício, tem a sua residência no Coração e na Consciência de cada Ser humano, na medida em que ele for capaz de considerar e respeitar a Divindade que habita, igualmente, nas Consciências dos Outros Seres humanos. Nada mais. A partir deste Teorema, uma vez concretizado, advirá, sem ambiguidades, o reino da Paz, enquanto fruto e obra da Justiça (‘Opus justitiae pax’).
Só a partir deste horizonte crítico nos será facultado o acesso àquelas poderosas sentenças e juízos ad hominem, cultivados, paradigmaticamente, pelos Grandes Profetas do Antigo Testamento bíblico, bem como pelos Grandes Tragediógrafos da Grécia clássica. Por que estamos a evocar estes ‘monumentos’ culturais? Porque são eles precisamente que emergem no seio de um Lógos vivo e quente, animado pelo Noûs, na esfera dos Sujeitos livres e responsáveis, — em contraste com a esfera dos Objectos objectivo-objectuais, onde se configura, inelutavelmente, a Metafísica tradicional e todo o discurso doutrinário, emanado dos Poderes Estabelecidos, o qual, como é sabido, é sempre enunciado e formulado na terceira pessoa gramatical.
É preciso e urgente romper o odre da Rotina e da Banalidade societárias, onde tu-do acontece, o bem e o mal, já sem sensibilidade para os discernir. ‘A tudo a gente se ha-bitua’ — dizia Quatrefages; e Nietzsche (numa perspectiva oposta) lembrava com acume: ‘Se olharmos o abismo, ele vai retribuir-nos o olhar’!...
Acabou de chover a cântaros... e pela rua molhada continua a sua marcha aquele Vulto de profecia ou de tragédia, a lançar impropérios e imprecações, de Crítica social/ /societária, a quem o ouvia. O homem em fúria observa as caras dos que saem dos restaurantes e cafés e não se cansa de objurgar arguindo e dizendo: “Vocês vão morrer também. Ou pensam que não morrem? E vão morrer mais depressa do que supõem. Para mim, morrer nunca é cedo; para vocês, viver nunca é tarde! É essa a minha vantagem. Depois de rodar sobre si mesmo, perguntou: ‘Já viram a merda que fizeram?! Foderam o mundo e agora nós é que pagamos!’. Um casal com ar altivo saiu do restaurante e ouve estas palavras iradas. A mulher transformou a altivez em prudência e disse baixinho ao marido: ‘Não ligues, não respondas. É um doido!’ O Vulto ouviu-a e gritou com voz rouca, que umas vezes soa sub-humana, outras sobre-humana: ‘Sou doido, mas vocês é que foderam isto tudo. Tem sido uma festa! E agora ainda querem que a festa continue. À nossa custa. Com a nossa desgraça’” (José Manuel dos Santos, in ‘Expresso’ de 20.3.2010/Actual, p.4).
Em suma, “do ecrã brilhante e sombrio das televisões, onde se exibe como se fosse uma novela numérica, a crise saltou sobre as pessoas, dando razão àquelas palavras antigas, vindas do dramaturgo romano Plauto, que Thomas Hobbes fez suas e que Jorge Luís Borges gostava tanto de citar: ‘Homo homini lupus’ (‘O homem é o lobo do homem’). Por outro lado, há uma nuvem baixa de instintos que farejam, despedaçam e assassinam, como se a selva fosse o habitat que mais nos convém” (idem, ibidem).
O Vulto continua a fazer “gestos agressivos, violentos, descontrolados. Fala de Deus — e do Diabo. Diz: ‘Deus morreu, mas o Diabo não! Vocês são o Diabo. E o mun-do que nos dão é o inferno. O Diabo é o único que é feliz no inferno. Por isso, estão feli-zes. Mas vão pagar isto um dia! Vão pagar!’ Subitamente, aparece qualquer coisa na fala daquele homem que perturba a tarde. É como se as suas palavras de maldição viessem do coro de uma tragédia grega. Ou fossem a ameaça de um profeta judeu. De repente, Atenas e Jerusalém estão ali, naquele clamor, naquela rua antiga da cidade que foge do rio” (idem, ibidem).
Entre a Metafísica e as Religiões institucionalizadas, dum lado, e do outro, a Profecia e o Mito que objurgam e ensinam, acompanhados de uma ‘Poiética’, capaz, ver-dadeiramente, de criar um Mundo e uma Sociedade Novos, é preciso e urgente saber es-colher. Que o Espaço escasseia e o Tempo oportuno tarda!...
O Socratismo apostou, decisivamente, no Diálogo como ‘fons et origo’, quer da Humanidade quer da Sociedade humana. E nunca pactuou com os discípulos e amigos que o quiseram trair. Até à morte suicidária do protagonista do processus histórico. Veio a ser logo atraiçoado pelo seu discípulo, Platão, quando menos se esperava...
Por seu turno, o Jesuanismo preferiu sempre o Discurso crítico e contundente sobre o estado dominador, ganancioso e miserável das Sociedades humanas do seu tempo, sempre à maneira do Diapasão da Profecia e dos Grandes Profetas bíblicos da Antiga Aliança, e em detrimento expresso das pautas apologéticas/justificativas, que veio a adoptar Saulo/Paulo, o fariseu/cidadão romano, que atraiçoou, de fond en comble, o vero e autêntico Jesuanismo. Entre os dois horizontes opostos, há que saber discernir e escolher o caminho certo.
(Estudo revisto em fins de Março de 2010, Portugal)
Manuel Reis.
Cetro de Estudos do Humanismo Crítico (CEHC).
Digitalizado por Lillian Reis (secretária do Centro).
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