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Textos Acerca De
M. BRANCO DE MATOS

 

E O Seu Livro

O CELIBATO ECLESIÁSTICO
NA LITERATURA PORTUGUESA

 

 

 

“Manuel Branco de Matos
é o ser que abraça a causa da humanidade
em actos de libertação sociocultural,
ora na escola ora nas comunidades.
Autor de vários livros, faz em O Celibato Eclesiástico
na Literatura Portuguesa uma leitura com aferições
sociais e religiosas tendo por base escritores que,
directa e/ou indirectamente, trataram do assunto.
O Celibato Eclesiástico na Literatura Portuguesa é,
acima de outras opiniões, uma
mensagem para o Diálogo.”

 

 

 

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Viver a Vida Com Humanidade

Uma análise ao texto “O Celibato Eclesiástico
Na Literatura Portuguesa”, do Prof. M. Branco de Matos

 

Carlota M. Moreyra

 

   Entre os anos 1994 e 2008, estudos de João Barcellos acerca da “...importância da luta anti-celibato eclesiástico na acção humanista do político e maçon luso-brasileiro Diogo Feijó”, lançaram novas discussões, algumas das quais pude acompanhar e até delas participar, pelo conhecimento que tive do mundo eclesiástico em colégio de fundamentalistas católicos, no Rio de Janeiro.
Recebi, como todos os membros do Grupo Granja (entidade de discussão filosófica sediada no Brasil, mas com membros espalhados pelo Mundo), cópia do estudo elaborado pelo Prof. Matos, e, logo, depois, o epílogo brilhantemente escrito pelo filósofo Manuel Reis. Incumbiu-me o GG de escrever um texto de apresentação, e começo com isto: “Nascemos para morrer, e nesse espaço de tempo ou apreendemos a vida para a viver livremente, ou seremos mortos-vivos sob a canga das ditaduras políticas e religiosas”. Foi uma das primeiras entrevistas do poeta J. C. Macedo publicadas em Buenos Aires, entre 1987 e 1988, e lembro-o aqui por ter escrito sobre Manuel Branco de Matos a propósito de outros livros.
E a questão é esta: “Somos a liberdade quando a conquistamos e a preservamos no Pensamento e na Acção, sejam quais forem as circunstâncias”, dizia o professor e ex-padre católico Figuera de Novaes que, à revelia dos dogmas, amou e gerou três filhos, “...em nome do deus maior que é o ser humano”. E está tudo dito? Nem tanto. “O celibato, como o baptizado, é uma pedra fundamental no alicerce da Igreja imperial sediada no Vaticano: com o celibato imposto aos seus membros, a Igreja pedro-paulina renega Jesus e, principalmente, renega Madalena – a mulher que anunciou a ´boa nova´ da universalidade humana e cristã”, como diz o poeta J. C. Macedo.
O celibato é o objecto mais precioso do jogo administrativo-educacional que move o catolicismo, e, por isso, é também tema, directo ou não, na literatura de povos há muito subjugados pela tirania místico-política dos bispos de Roma. Uma canga ideológica [Barcellos, 2003] que, no caso da Literatura, é retratada de diversas formas pelos escritores portugueses, como observa o Prof. Matos. Entretanto, a (re-)leitura do Prof. Matos é direccionada para a compreensão do dogma místico com o qual revestiram o celibato eclesiástico, para um diálogo ecuménico aberto a um novo olhar religioso e social sobre tabus, daí, também a importância do epílogo do filósofo Reis.
“O Celibato Eclesiástico Na Literatura Portuguesa” é um livro para ser lido com o pensamento livre de preconceitos, aberto à filosofia da liberdade.

MOREYRA, Carlota Maria
Profª de Artes Gráficas. Paris/Fr., 2009.

 

 

 

 

 

 

Celibato & Letras

João Barcellos

 

   A odisseia literária em Manuel Branco de Matos é um campus de opções estéticas, e já o vimos/lemos em torno de velhas fábulas, como em lúdico lirismo no umbigo da portugalidade vimaranense, e tantas outras ´paisagens´ humanas; e eis que o poeta e ensaista abriu as portas do “não abrível”, como às vezes se dizia em torno dos ocultismos celtico-galegos sob uma grave mas tolerante gaita-de-fole, e nos diz ´algo mais´ acerca da pessoa que se submete à Vida sem o prazer do Sexo debaixo de um teto que é igreja e é altar.
O seu estudo intitulado “O Celibato Eclesiástico Na Literatura Portuguesa” é notável pela possibilidade de análises que oferece. Com um conteúdo socialmente escaldante, politica e clericalmente avesso a dogmas, o estudo descreve criticamente, e em textos comparativos, o estado psicossocial da pessoa que se ajoelha paa recusar a Vida, como dizia o político, presbítero e maçon brasileiro Diogo Feijó, ele mesmo filho de padre português, e que lutou uma vida inteira contra tudo... o celibato imposto na Igreja católica.
Branco de Matos vai a Castelo Branco e a Sá Coimbra, a Eça e a Gil Vicente, como a Camões e Manuel Reis e Alexandre Herculano, entre outros, para articular fundamentos e estabelecer não um juizo doutrinário, mas uma ideia de sentidos para nos falar/ensinar do ´algo mais´ que envolve o dogma – esse, o do celibato, que impõe o sacrifício para negar a Vida, como se a Morte fosse/seja ela própria a igreja-altar em que definha a Humanidade antes de o ser. Porque o celibato é o exercício de uma religiosidade institucional exotérica, punitiva, não o ato místico que liberta a alma purificando-a com o Amor entre prazeres vivificadores, qual esotérico cântico que se solta no orgasmo da emoção que conquista a pessoa na cumplicidade sexual amorosamente assumida. E tanto na lírica camoniana quanto na dramaturgia vicentina percebe-se a humana vitória da alegria que é o Sexo, que em Camilo Castelo Branco atinge o êxtase social. Assim, a literatura portuguesa lida com o celibato eclesiástico quase abertamente, e Branco de Matos mostra à Igreja autopunitiva o cadeado de um cinto de castidade poeticamente rebentado.
O espírito crítico e humanamente [re]construtivo de Manuel Branco de Matos é, em “O Celibato Eclesiástico Na Literatura Portuguesa”, uma odisseia tão literária quanto social e religiosa, pois, Homem e Mulher são parte de um eixo telúrico-cósmico que só amorosamente e em Sexo podem vivenciar a Vida, logo, se uma instituição religiosa quebra esse eixo, ela abre os caminhos infernais da morte lenta, da autodestruição humana.
Manuel Branco de Matos mostra-nos como, nas Letras, a batalha pela Liberdade está além de quaisquer dogmas, e o celibato eclesiástico é ali exposto como um mal social – um mal divinizado em cada sacerdote que se ajoelha contra a Vida.
E, católicos, se o viver jesuano o foi entre mulheres, por que os seus pseudo seguidores se fazem patriarcado e ajuizam doutrinas contra o prazer do Amor e a liberdade matriarcal?... Eis o que muitos escritores portugueses analisaram e analisam, e deles Branco de Matos nos dá uma colher de chã para um serão amorosamente aberto ao Diálogo.

 

BARCELLOS, João
Escritor / Conferencista

Sampa, 2009.