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Piabiyu & Serra de Itaqui

 

O quadro geopolítico da expansão colonial jesuítica
tendo Maniçoba como entreposto idealizador antes da
Sam Paulo dos Campus de Piratinin

 

 

João Barcellos

 

 

Introdução

 

   É preciso chegar às “terras dos guaranis”, eis o grito geral. “É preciso subir a serra do mar e adentrar os matos do planalto, pois, um alemão veio pelos caminhos nativos até Piratinin depois de atravessar muitos paranás e muitas aldeias e dar de cara com as terras do Ramalho, lá na borda do campo ao adentrar o planalto”. Os portugueses e os castelhanos sabem, então, que no Piabiyu existem rotas marítimas, fluviais e terrestres – uma malha de comunicação entre os povos nativos.
A aventura da expansão territorial de portugueses e de castelhanos tem diferenças substanciais – a saber: a) aos portugueses interessa a missionação católica e, a par dela, o lucro com a divisão das riquezas entre o Estado e a própria Igreja; b) aos castelhanos interessa também a missionação, entretanto, para eles está em primeiro lugar o assentamento do seu modo de viver nas terras ocupadas. Conclui-se, portanto, que a ação colonizadora do Novo Mundo tem circunstâncias diferenciadas, e que os portugueses chegam e vão se ´aclimatando´, como fazem João Ramalho, Cosme Fernandes, Diogo Álvares Correia, enquanto os castelhanos tomam posse efetiva das terras e dos povos impondo a sua característica urbana. Mas, portugueses e castelhanos são, ao mesmo tempo, a ´besta´ que mata e esfola em nome de ´deus´... E assim é que uns e outros fazem os povos escravos, pelo ´cunhadismo´ e pela espada, e lá vão mato adentro em busca das riquezas.

   “Ninguém se faz ao mato sem ter uma perspectiva idealizada: por aqui eu chego lá”. Recepcionados com a oferta de esposas e filhas de caciques [aqui começa o ´cunhadismo´], o que não é norma para todas as tribos, os portugueses desgarrados da ação institucional colonizadora começam a forma[ta]r uma nova raça através dos três náufragos nas costas do norte e do sudeste, e ao longo da Linha de Tordesilhas. Quanto o Portugal institucional chega para colonizar encontra núcleos de luso-americanos que facilitam, de certo maneira, o intercâmbio. Longe da modernidade do pensamento que gera urbanidade, os nativos americanos são simplesmente destituídos da sua alegria de viver a vida na exuberância da hiléia e passam a servir os colonos, tanto os fundiários como os místicos, e todos em busca das pedras preciosas.
Durante a expedição do jesuíta Manuel da Nóbrega ao planalto da Serra do Mar, ele encontra-se com Ramalho, que lhe mostra a Aldeia Piratininga, e, pelos guaranis, fica a saber do caminho ancestral que liga as regiões sul do Novo Mundo – o Piabiyu. Não existe interesse de Nóbrega em relação a Piratininga, pois, o seu olhar alonga-se pelas bocas de sertão à procura de uma aldeia que possa tomar, catequizar, e dela saber como chegar aos grandes povos guaranis no entorno da ´montanha de prata´. Conhecer o Piabiyu é, para os jesuítas, a chave para assentar no sul o seu império teocrático... Naquele olhar alongado e sob condução de guias guaranis, Nóbrega passa pela Koty guarani, embarca ali ao lado no portinho goyanaz de Carapocuyba e atravessa a Serra de Itaqui para, milhas depois, ´achar´ a aldeia-entroncamento à qual vem a dar o nome de Maniçoba.
Entre a aldeia Maniçoba e a Serra de Itaqui inicia-se a expansão jesuítica e, com ela, a dominação colonial efetiva de Portugal na Insulla Brasil, porque se os ibéricos [lusos e castelhanos] chegam aos guaranis e aos incas no rumo sul, faltava-lhes o rumo sul-oeste para a expansão total e conquista da América do Sul, e o dado topográfico surge nos cadernos de Ulrich Schmidel.

 

 

Obs:

   Uma das razões que me levaram a escrever estas linhas tem nome: Susumo Harada. O conhecido artista plástico e pesquisador de história, e com o qual fiz uma breve pesquisa de campo na Serra de Itaqui, tem feito levantamentos que trazem inquietação – a ´boa´ inquietação historiográfica acerca do Piabiyu e da Serra de Itaqui. Valos, pedras perfuradas, escritos velhos sobre trilhas e rios... Susumo tem sido de uma persistência louvável diante da mesmice acadêmica sobre o mesmo assunto.
Os levantamentos de Susumo Harada levaram-me a questionar alguns estudos que eu havia feito, entre 1991 e 1995, acerca da malha piabiyuana quanto aos nós que se cruzam entre o sertão itapecericano e o sertão carapocuybano ainda no tempo da Koty situada ao largo dos campos do Caiapiá e perto do Anhamby. Quase ao mesmo tempo dos últimos levantamentos de Susumo, surgiu a obra monumental “Cotia e a Estrada”, do arquiteto Mário Savioli, na qual, a certa página, é resgatada a origem da velha Koty para demonstrar as metamorfoses urbanas da região. Obviamente, ressurgiu o interesse tendo pelo meio a velha Questão Maniçoba, aquela aldeia que o jesuíta Manuel da Nóbrega tomara além da Serra de Itaqui e na qual ficou a conhecer os ´mistérios´ da trilha ancestral dos guaranis.

 

 

1
Com os olhos no Piabiyu que leva aos guaranis

 

   Do planalto piratiningo, Manuel da Nóbrega e João Ramalho podem observar os picos de Jaraguá e de Itaqui, serras que lhes surgem como atalaias diretas dos povos goaynazes e guaranis, entre outros. No entorno de Jaraguá e de Itaqui vários povos aldeados observam, também, os movimentos do ´guerreiro´/cunhado Ramalho e do homem de preto. Já sabem do homem de preto pelas informações que lhes chegam no sistema de comunicação que é o Piabiyu [rede de caminhos ancestrais abertos e mantidos pelos guaranis no continente sul-americano, e de grande agitação nas bocas-de-sertão ´alimentadas´ pelas kotys [pontos de encontro] entre aqueles picos e o planalto da Serra do Mar.
Entre a Serra de Itaqui e o alto maciço da Serra do Mar estão aldeamentos que se comunicam numa mistura de línguas, mas que têm o guarani e o tupi como base, e só não o fazem as ´nações´ que ainda têm o canibalismo como costume na sua sobrevivência alimentar. De resto, a vasta região a oeste do planalto piratiningo é um manancial de riquezas vegetais e animais – e mais uma: porta de entrada terrestre-fluvial para locais de possível mineração de ouro, prata, ferro, esmeraldas, etc., e que é já, em meados do Séc. XVI, cobiça maior de aventureiros como o Bacharel de Cananéia, uma vez que João Ramalho é o português inteiramente integrado aos costumes nativos tupi-guaranis. É, pois, através do já luso-americano Ramalho que o chefe da milícia jesuítica tem de se entender para adentrar o ´sertão dos carijós´ e conseguir estabelecer um ponto estratégico favorável ao contato direto com os guaranis ditos carijós [karai-yos], e tal evento deve ser realizado além da boca de sertão, mas com comunicação terrestre e fluvial...
A aldeia goyanaz Carapocuyba é a primeira parada obrigatória, porque, ao lado da aldeia guarani Koty, é também um entroncamento terrestre e fluvial tão importante que só [d]aí é possível perspectivar outras possibilidades de expansão.
Entretanto, os jesuítas talvez tenham utilizado a Koty por algum tempo, pois, foi aldeia importante por muitos anos, até ser abandonada e, depois, mudada para perto da nascente do rio que atravessa: algumas sugestões apontam até a Koty como o primeiro posto avançado jesuítico em terra guarani e no planalto itaquiano, mas é pouco provável que o olhar de Nóbrega tenha parado por aqui muito tempo, porque esse olhar além quer, então, um contato mais interiorano, e vai até próximo de Arassa-y [do tupi-guarani, q.s. “rio do araçá”], aldeia na margem esquerda do rio Anhamby, sob o morro do Byturuna, onde consegue, enfim, e ao que parece, estabelecer o contato tão desejado.

   E aqui começa a Questão Maniçoba.

   Na mente de Nóbrega, a sinalização exuberante das várzeas nas planícies serranas de Itaqui e sua gente não menos exuberante insinuam caminhos sutis que levam aos povos guaranis e aos povos da prata. Logo, os guaranis devem ser ´iscados´ e catequizados: impõe-se, então, a tomada de uma aldeia interiorana. Quando lhe é servida uma comida da dieta nativa que havia conhecido entre as gentes da Serra de Itaqui – a ´maniçoba´, um iguaria feita com folhas [moídas e cozidas] de mandioca, com preparo que demora mais de uma semana para a extração de um ácido venenoso, ele decide-se: Maniçoba, eis a nossa primeira aldeia no Piabiyu.

 

 

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É bom lembrarmos a narrativa do alemão Hans Staden sobre a iguaria “maniçoba”: “[...] As mulheres fazem bebidas. Tomam as raízes de mandioca, que deixam ferver em grandes potes. Quando bem fervidas tiram-nas [...] e deixam esfriar [...] Então as moças assentam-se ao pé, e mastigam as raízes, e o que fica mastigado é posto numa vasilha à parte”.
O livro de Staden é a primeira ilustração literária acerca do Novo Mundo e, particularmente, sobre a fauna, a flora e os costumes dos povos sul-americanos, entre eles, os guaranis, que “Acreditam na imortalidade da alma” [idem]. O termo “maniçoba” é tão comum entre tupis-guaranis que os jesuítas não poderiam substitui-lo simplesmente, como tentaram, e em vão, fazer com outros termos guaranis da linguagem m´byana, e, inclusive, transformar a figura mítica guarani “Zumé” em “S. Tomé”...!

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   O Piabiyu  [do tupi-guarani pi q.s. caminho e abiyu q.s. pisado/amassado], e há quem diga que “abiyu” significa também “Peru” na língua antiga dos guaranis m´byanos, o que não deixa de ter relação direta com o ´caminho´, e que eu, inclusive, tenho adotado nos meus livros, artigos e conferências. E adiante...

   Como aparece este ´caminho´ entre os afazeres dos marujos que ficam meses e meses na beira-mar, acosteados, e entre os colonos que ainda ´caranguejam´ no sopé da serra do mar?
Durante os Anos 20 do Séc. XVI, o explorador do norte do Novo Mundo, o castelhano Cabeza de Vaca, após ter sido prisioneiro dos nativos norte-americanos, retorna para casa e é encarregado de conquistar a bacia do Rio da Prata, ao sul da Linha de Tordesilhas, em 1540. E, já no campus tordesilhano, assim o faz partindo de Porto de Patos e passando pela Foz do Iguaçu até chegar em Asunción, na prática, o mesmo percurso do português Aleixo Garcia, que se quedara a poucos quilômetros de Potosi, a fabulosa montanha de prata. É o percurso do lado sul do Piabiyu, entre o mar e os paranás que dividem o continente. Cabeza de Vaca encontra pessoas ligadas ao Bacharel de Cananéia que haviam estado com Garcia.
Mas, por que o ´bacharel´ não quis saber de montanha de prata? Ele era, como o Ramalho do planalto piratiningo e o Correia [Caramuru] da costa norte, náufrago que soube aproveitar a oferta do ´cunhadismo´ nativo e transformar-se no “imperador da costa sudeste”. Que mais lhe interessava?... O ´bacharel´ é, nos primeiros 40 anos da precária ocupação do litoral da Ilha Brasil, a referência do colono por excelência: eu posso, quero e mando. E, por isso, enfrentou a ´ordem´ institucional quando esta aportou na região que ele mesmo ajudara a povoar e que logo vai ganhar nome católico, como é da praxe colonial luso-vaticana: S. Vicente.
Na verdade, se o ´bacharel´ se interessa pelas notícias que recebe dos guaranis do sul, acerca de Potosi, ele mesmo alcança a região e se declara independente do reino de Portugal. Nada mais justo, e a história da Insulla Brasil passa a ser outra, com Tratado de Tordesilhas ou não. Mas não é o que acontece. E as notícias que o ´bacharel´ não quis trabalhar são as mesmas que chegam a Cabeça de Vaca cerca de 10 anos depois. E o lado sul do Piabiyu cai nas mãos dos seus proprietários, porque entre a Cananéia e o Paraguay passando por Patos está o Poder castelhano e não o português.
O lado sul-oeste do Piabiyu só vem a ser conhecido com a aventura do retorno de Ulrich Schmidel para a Alemanha: ele faz o percurso do Piabiyu terrestre-fluvial pelo interior, de Asunción aos paranás da Insulla Brasil até chegar ao planalto de Piratininga e dar de cara com as terras e a filharada de Ramalho.

 

 

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  É preciso ter a noção da grandeza continental hidrográfica da Insulla Brasil para se entender as particularidades da odisséia no espaço-tempo da aventura colonizadora – a saber:
O território possui um sistema hídrico diverso e complexo entre as bacias fluviais e o oceano atlântico, com rios, lagos, arquipélagos, cataratas, golfos, baías. Na maioria dos casos, um rio caudaloso e com extensão a perder de vista dá o nome a uma bacia, como é o caso do Paraná, do Tocantins, do S. Francisco, do Paraguai, do Amazonas, etc., e a região demarcada pela Bacia do Rio Paraná, que mais diz respeito à história da colonização européia, abrange 879.860 km2 entre Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Goiás, sendo que o Rio Paraná tem afluentes como o Rio Grande, o Rio Paranapanema, o Rio Iguaçu, o Rio Paranaíba e o Anhamby, todos cercados por um denso sistema florestal do tipo ´mata atlântica´, ´cerrado´ e ´araucárias´.
Percorrer, ou, como dizem os lusos, ´palmilhar´ tão vasta região da hiléia sul-americana, não é tarefa para qualquer pessoa, e os europeus valem-se principalmente do apoio logístico dos guaranis para realizarem o desejo de ir em frente.

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   A odisséia de Schmidel tem uma particularidade historiográfica: ele anota os detalhes geográficos em seus cadernos...

   Na data de 26 de Dezembro de 1552, acompanhado de 20 guaranis e 6 castelhanos, Schmidel quer, após 18 anos de aventuras, retornar a casa e sabe que tem embarcação aportada em S. Vicente. Antes de deixar Asunción, ele registra todos os dados possíveis sobre a ancestral trilha dos guaranis e cerca-se, então, de guias que já conhecem o percurso. Se o Cabeza de Vaca chegou a Asunción a pé depois de navegar o rio, eu vou pela banda do sertão, onde os perigos são menores, deve ter pensado Schmidel. Pelos nativos, sabe que a maior dificuldade é atravessar as 7 Quedas [´Saltos de Guaíra´ ou ´Guita´ ] rodeadas de vários povos não muito interessados em ´conversa´ com gente estranha, nem com outros povos do mesmo continente.
O grupo sobe o Rio Paraná [Parabot] em canoas por 26 milhas até à foz do Jejui, onde encontra dois portugueses que decidem seguir a mesma trilha. Sobem mais 15 milhas pelo Rio Jejui até Barey; e mais 4 dias para 16 milhas até Gebarerge. Logo, e a pé, 9 dias para 54 milhas até Jbaroti, onde começam a descer o Rio Monday para alcançar o Rio Pamau [Paraná] e entrar em Giengáe. No total estão percorridas 100 milhas até onde começa a terra do rei de Portugal, segundo a anotação de Schmidel. Ele está na região que, poucos anos depois, seria cobiçada pelos jesuítas: a Argentina. A marcha que se segue é de 6 semanas até às aldeias dos Thopis [Tupi] por cerca de 126 milhas, com parada numa aldeia em Karieseba, onde dois europeus são mortos e devorados pelos nativos.
Perito em armas de fogo, Schmidel sabe o que é fazer barulho, por isso, alimentam-se de plantas e raízes em vez de saírem caçando animais, até que chegam a uma região com gente Biessaie [Mbiazàs], e podem aqui permanecer por 4 dias abastecendo-se de provisões. Estão entre os guaranis m´byanos na região do urquaie [uruguai].
A partir de Biessaie, o chefe do grupo não registra quaisquer comentários e são 100 milhas, pois é uma caminhada de quase 4 semanas. Ao atingir um grande aldeamento, dito seherebethueba, o grupo descansa por 3 dias. Daqui, o grupo chega ao planalto piratiningo, território de Jahann Kaimunelle [João Ramalho], e deste percurso também não é feito registro sobre tempo ou distância.
E mais 20 milhas serra abaixo, Schmidel alcança o porto de S. Vicente, com 2 europeus e os 20 nativos guaranis. É o dia 13 de junho de 1553. Um navio está pronto para zarpar rumo à Europa e levar o alemão de volta para casa, após uma marcha de 476 milhas, ou cerca de 2.500 km.

   No seu estudo sobre a marcha de Schmidel e os seus registros geográficos, dir-se-á ´precariamente topográficos´, diz-nos Susumo Harada que antes de chegar ao planalto da Serra do Mar, o aventureiro alemão passou por boa parte do Tape [ ou Paraná] e teve de passar pela Serra de Itaqui, porque era aí que se encontravam alguns dos nós mais importantes da malha do Piabiyu na entrada/saída de Piratininga, com passagem por Itu, Araçariguama, Koty e talvez Carapocuyba. Ora, não é por acaso que Schmidel dá de cara com a ´casa´ de Jahann Kaimunelle, é que pelo percurso guiado pelos guaranis essa era passagem. Na análise de Susumo o fato de não haver anotações sobre o percurso entre seherebethueba e o planalto piratiningo pode indicar que Schmidel já se sente a salvo, i.e., em Maniçoba...
As anotações de Schmidel são um registro preciosíssimo que ajuda a mapear a malha piabiyuana sul-oeste, pois, a do sul já é bem conhecida desde os tempos de Aleixo Garcia e muito utilizada por Cabeza de Vaca.
E, voltando a Susumo, ele faz a comparação necessária com os traçados da linha férrea que liga o planalto da Villa piratininga ao interior caipira do oeste. Resultado: um novo olhar historiográfico sobre a malha piabiyuana.
A questão se coloca na relação Trem-Piabiyu não está apenas no maciço itaquiano e sua exuberância florestal [grande celeiro de araucária] para alimentar os fornos das marias-fumaças, mas e principalmente no assentamento dos trilhos que religam os velhos nós daquela malha de via terrestre, do planalto piratiningo aos campos rachados [´sorocaba´] do grande interior caipira que absorveu a maioria das tribos tupi-guaranis após a intervenção de colonos como Afonso Sardinha. Espelhar o mapa do Piabiyu sobre o traçado da linha férrea sorocabana é verificar que, após os jesuítas e após os bandeirantes, e logo depois os tropeiros, mais uma vez a trilha guarani serviu de base para o progresso colonial.

 

 

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2
Serra de Itaqui: a trilha pré-bandeirística.

 

   Pouco tempo depois, as trilhas da malha piabiyuana na Serra de Itaqui servem também à expansão dos negócios fundiários e minerários de Afonso Sardinha [o Velho], o mais rico e poderoso colono português, proprietário do primeiro trapiche [armazém de produtos e produção de cachaça] na Villa Piratininga, e vereador da Câmara Municipal: da sua fazenda no Ybitátá toma a aldeia-portinho Carapocuyba e segue para o Byturuna para minerar ouro e prata, mas volta para tomar o Jaraguá e aí minerar ouro além de estabelecer a sua principal fazenda, e vai a Araçoyaba, na Serra de Ypanen, para estabelecer a primeira siderurgia da América.
Por que o ´velho´ Sardinha segue a trilha piabiyuana-jesuítica? Porque é ele, então, o principal financiador da Societatis Jesu [SJ] e tira proveito do seu inteligente investimento. E, entre os seus negócios estão ajudas de custo e empréstimos ao capitão Jeronymo Leitão, que vem a estabelecer fazendas na região itaquiana de Mbaruery; o mesmo capitão que, em 1580, idealiza e executa a “sesmaria dos índios do pinheiros e barueri” para, justamente, proteger os interesses jesuíticos, os próprios, e os de amigos e compadres como Afonso Sardinha, diante da queda do Trono luso nas mãos dos castelhanos. E é ele, o ´velho´ Sardinha, quem estabelece o mais produtivo curso mercantil entre as regiões agro-minerárias do oeste paulista e a recém fundada ciudad Buenos Ayres, momento em que as regiões de M´barueri e de Santana de Parnaíba ganham importância social e mercantil e disputam o espaço político com a Villa piratininga.
Os percursos da malha piabiyuana no entorno da Serra de Itaqui vêm a formar as primeiras entradas das bandeiras paulistas rumo aos paranás que conduzem às pedras preciosas e aos confins da Amazônia.

 

 

 

3
Da distante Maniçoba para a entrada de sertão M´boy

 

   Pelo elementar e político desejo de ir/estar na ´terra dos guaranis´ é que o jesuíta Nóbrega avança sertão adentro e, tomando e refundando uma aldeia nativa lhe dá o nome de Maniçoba.
Dizem algumas pessoas, entre elas jesuítas, que Maniçoba está a 90 milhas da Villa Piratininga, e outras, a cerca de 35 milhas, tendo a Villa vicentina como marco zero.
Entretanto, certeza não existe. Pode estar naquele lugar que é o Rio dos Arassaris, logo após a velha Koty e a Carapocuyba, no lado esquerdo do Anhamby, ou mais além, talvez Araratiguaba [´onde os arassaris bicam na areia´]... mas, sabe-se, pelos próprios escritos jesuíticos, que os padres, a certa altura, são tão submetidos a ataques que têm de deixar Maniçoba, e vão se fixar numa aldeia guarani mais próxima ao maciço da Serra do Mar, que pode ser M´boy, a poucas milhas do portinho carapicuybano.
O elementar e quase psicopata desejo de ir/estar na ´terra dos guaranis´ é, em Nóbrega, o exercício miliciano de constituir um império teocrático jesuítico no coração da América do Sul.
Nem a São Paulo dos Campos de Piratininga nem a Maniçoba, nem qualquer outra aldeia, têm importância no quadro geopolítico nobreguense. São focos do instante da expansão, e só. A tal quadro de ação colonial junta-se, em 1554, o padre Anchieta, que dá seguimento ao plano teocrático gizado pelo seus superior hierárquico. Por isso, também, é que colonos e políticos importantes como Afonso Sardinha dão apoio fundiário-financeiro, mas não se integram na marcha jesuítica através da Serra de Itaqui, complexo geo-social que vem a ter importância fundamental no assentamento das riquezas agro-minerárias em torno de Santana de Parnaíba e Barueri. Com exceção da Família Sardinha, todas as famílias poderosas arrancham-se entre Koty e M´baruery, Carapocuyba e Santana de Parnaíba e Arassara-y[i], enquanto a São Paulo dos Campos de Piratininga quase se transforma num deserto de padres de várias ordens religiosas... com aluguéis a pagar ao economicamente parrudo Afonso Sardinha, o Velho, como sabemos pelo seu testamento.
Eis que o abandono da Maniçoba o é em função da segurança dos religiosos e seus catequizados, e não em função do plano teocrático jesuítico, pois, a Maniçoba inicial dera os frutos tão desejados por Nóbrega: as informações sobre as rotas do Piabiyu. Tão importante é Maniçoba ao tempo de Nóbrega que este a batiza com nome nativo, e não com nome de santo católico... E, talvez pelo mesmo motivo, a velha Koty da beira do Anhamby continuou com o seu nome nativo embora tenha perdido a importância estratégica, assim como a perdeu Carapocuyba.  
No caso de M´boy, os jesuítas empenham-se com mais um colégio, mas tudo fica por isso mesmo, como que a demonstrar a passagem efêmera de Maniçoba pela história luso-jesuítica na ´terra dos guaranis´. No entanto, lá em Arassara-y[i], o arraial da mina de ouro no Byturuna explorado pelo ´velho´ Sardinha, e este sempre acompanhado por um padre jesuíta, dá lugar a outros arranchamentos e fazendas, tendo pelo meio o Rio do Colégio... que, cronologicamente, é um rio assim denominado por causa da fazenda da Família Pompeu de Almeida cuja capela interna está sob o mando jesuítico, conforme se sabe pelos testamentos coevos, e uma vez que não há relato de ter o ´velho´ Sardinha patrocinado no seu rancho de mineração algum colégio, além da capela em honra de Sta Bárbara, a padroeira dos mineiros.

 

 

A finalizar...

   Quando o reinol Tomé de Souza desembarca na Insulla Brasil para ser, então, o Governador-Geral, logo ele toma decisões para disciplinar o que a Coroa lusa acha ser o ´ato libertino dos colonos´, que não acatam ordens e ainda ordenam em causa própria... Um desatino. Na verdade, a cosmopolita e gorda Lisboa desconhece a realidade da pré-colonização estabelecida por Correia, Ramalho, Pessoa, e logo seguida mercantil e politicamente por Sardinha e outros: obviamente, vale em meados do Séc. XVI ´brasileiro´ o que vale no norte luso, i.e., “pra cá do Marão mandam os que cá estão”!
Mas, por que um ato disciplinador acima da Serra do Mar?
Com a organização de Asunción e a reorganização de Buenos Ayres, a linha comercial entre essas regiões da dita América espanhola e os ´barões´ libertinos luso-americanos que nelas apostam os seus ´cabedais´, verifica-se a ascensão política e mercantil da região itaquiana [Koty, Carapocuyba, Santana de Parnaíba, Barueri], e tudo isso, sob o riso escancarado do político e minerador e banqueiro Afonso Sardinha [o Velho], porque é o Piabiyu o caminho que mais engorda os negócios entre luso e castelhanos. Entretanto, existe ainda uma guerra diplomática declarada pelo Tratado de Tordesilhas, e é o que governador Tomé de Souza quer ´disciplinar´... 1563, eis o ano em que um reinol quer mudar a história à qual os primeiros náufragos deram início: ele proíbe a circulação de pessoas e de bens pelo Piabiyu.
Proibir é uma ´coisa´, ver isso concretizado é outra ´coisa´. Dizer a quem faz um ´outro Portugal´ para parar é dizer ´morra!´. É o que os colonos entendem e logo mandam o governador ´às favas´, ou num termo mais brasileiro, ´pro brejo´.
Pela desobediência categórica, ´libertina´, os luso-americanos assentados ao longo da Capitania de S. Vicente transformam a velha rota de comunicações dos místicos guaranis, o Piabiyu, na rota continental das riquezas e da expansão colonial. A proibição do governador Souza fica no ar como o sinal que abre as porteiras para o mundo maravilhoso das descobertas que o padre Nóbrega já havia vislumbrado em Maniçoba.

   A arquitetura de um outro Portugal na imensa hiléia da Insulla Brasil [até meados do Séc. XVI, o Brasil é ainda a ´ilha´] passa pela desconstrução do habitat nativo americano, a sua colonização através da missionação [a Capela católica como marco zero em cada ex-Aldeia] e o assentamento da urbanidade ibérica.
Tudo isto pode ser lido nos relatos de Staden, Schmidel e nos testamentos de Sardinha e Pompeu de Almeida, etc. Mas, também, na releitura de Susumo Harada acerca da Questão Maniçoba.

BARCELLOS, João
Na região itaquiana, ano 2009.
[Escritor / Conferencista]

 

NOTAS

ALMEIDA, Pompeu de [família]. Reinóis que se estabeleceram no planalto de Piratininga e avançaram para Santana de Paranaíba e Araçariguama, onde comparram a mina de ouro e o arraial de Afonso Sardinha. Curiosamente, o padre Pompeu de Almeida vem a fazer o mesmo percurso econômico de Sardinha e ainda se torna, no seu tempo, um dos maiores patrocinadores dos jesuítas.

BACHAREL DE CANANÉIA   Na verdade, “[...] Cosme Fernandes Pessoa, é o ´bacharel´ de quem não se sabe onde nasceu em Portugal, mas que foi condenado ao desterro no sul da Insulla Brasil embarcando na expedição de André Gonçalves e Américo Vespúcio, em 1502. Envolvido na essência do ´cunhadismo´ que vai originar o luso-americano, casou uma filha de cacique chamada Caniné e, por esse nome, vem a ser conhecida a feitoria que estabele na região costeira, da qual se torna um ´rei branco´. Além disso, é tido como o fundador de Iguape”, segundo estudos de J. C. Macedo [análises acerca de Afonso Sardinha – o Velho; Lisboa/Pt, 1975].

BARUERI [deriva da mistura da palavra francesa “barriére”, q.s. “barreira”, com o vocábulo guarani “mbaruery”, q.s. “rio encachoeirado”], rio que deu origem a uma aldeia em 1560 durante a expansção da milícia jesuítica na malha do Piabiyu.

CABEÇA DE VACA, Alvár Núnez [1402-?] Reinol castelhano que esteve no Golfo do México, nos Anos 20 do Séc. XVI, e depois, nos Anos 40, na América do Sul, e fez a trilha sul do Piabiyu, entre o Porto de Patos fazendo a mesma rota de Aleixo Garcia: passou pela Foz de Iguaçu e chegou a Asunción.

CARAPICUIBA    [do guarani “Quar-Y-Picui-Bae” q.s. “Rio de poços” ou “Peixe que não se pode comer”], aldeia goyanaz tomada por Afonso sardinha [o Velho] pela sua importância estratégica piabyuana:  “[...] Descendo o rio para [...] São Paulo, tocava-se o sítio de Nossa senhora da Esperança com um aldeamento fundado por Manuel Preto, e que veio a ser depois a capela e povoação de Nossa Senhora da Expectação do Ó; deixava-se pouco mais abaixo, à esquerda, o sítio de Embuaçava, de Afonso Sardinha, e podia-se ir até as primeiras lavouras de Parnaíba, se se não preferisse desembarcar no porto de Carapicuíba, ou entrar pelo Jeribatiba para visitar Pinheiros e mais além Ibirapuera [...]”, como conta Mello Nóbrega citando Theodoro Sampaio.

CORREIA, Diogo Álvares [1475-1557] – Náufrago português, denominado ´o caramuru´[língua de fogo] pelo nativos tupinambás [Bahia] ao disparar a sua arma de fogo, algo que eles nunca tinham visto.

GARCIA, Aleixo [?] – Aleixo era marinheiro português da expedição de Juan Dias de Solís, que partiu em 1515 da Espanha com a missão de descobrir uma rota marítima ao oriente pela América do Sul. Em 1516, após descobrir o rio da Prata, Solís é devorado pelos índios. A esquadra tenta voltar à Europa. A nau de Aleixo afunda, 11 marujos se salvam e passam a viver na Ilha de Santa Catarina. 

ITAPEVI [do tupi “itá-peb'y”, q.s., “rio das itapevas” ou “rio das pedras chatas”], região quie era parte de Cotia, até o Séc. XX, e que serviu para base da Estação Ferroviária de Cotia por estar em meio ao sistema florestal denso da Serra de Itaqui, fundamental para alimentar a fornalha das “maria-fumaça”.

JANDIRA  [do tupi-guarani q.s. “Abelha Melífera”], aldeia sob administração de Cotia até o Séc. XX.

KOTY/COTIA [do guarani q.s., “ponto de encontro”], aldeia guarani [Carai-Yo] do Séc. XVI, primeiramente situada a poucos metros do rio Tietê, vizinha de Carapicuiba, nos campos do Caiapiã, e depois mudada para perto da Floresta de Morro Grande, no Séc. XVIII.

PIABIYU    [do tupi-guarani pi q.s. caminho e abiyu q.s. pisado/amassado]. Nota de João Barcellos: Aprendi a falar “piabiyu” com guaranis m´byanos em São Paulo e Peru, mas isso não quer dizer que falar “peabiru” esteja errado. É uma adaptação lingüística.

RAMALHO, João [1493-1580] – Português, juntamente com o Bacharel de Cananéia, pioneiro na miscigenação que viria a originar o mameluco, ou luso-americano, depois, brasileiro. Sobre este Ramalho anote-se: “[...] em 1553, o padre Nóbrega escreveu outra carta ao núncio pedindo autorização para realizar a cerimônia cristã de casamento de Ramalho e Bartira. O jesuíta alega na carta que já escrevera pedindo notícias da esposa que Ramalho  deixara  em Portugal e não obtivera resposta supondo que ela deveria estar morta. Na verdade, Nóbrega precisava do aval de João Ramalho para seguir seus projetos e, revogou a excomunhão casando Bartira com o ilustre degredado.  Em 1560, por ordem de Men de Sá, Ramalho transferiu-se de Santo André para São Paulo e, em 1562 atuou na defesa da cidadela de Piratininga. Em 1563  a Câmara reclamou de Ramalho quanto a escassez de pólvora e dos paióis. Em 1564 recusou o cargo de vereador de São Paulo. Em 1568, segundo o jesuíta Baltasar Fernandes,  estava entre os índios, não querendo nada de nossa ajuda nem mistérios. O pesquisador Moreira de Figueiredo descobriu uma Carta de privilégio na Torre do Tombo, em Portugal, Chancelaria de D.João II, livro 20, folhas 27, verso 20, do ano de 1487, referindo-se a um “Joham Ramalho escudeiro criado da rainha mjnha senhora”.

RIO COTIA  Entre exuberante fauna e flora, é parte do sistema de abastecimento denominado Alto Cotia, localizado na Floresta de Morro Grande, município de Cotia. Corre de sudoeste a oeste e deságua no Rio Tietê. Ao longo do curso tem belas cachoeiras até as várzeas onde exercem suas funções de reservatórios naturais na regularização das enchentes em épocas de chuvas, e formam os lagos e a volta das aves migratórias. Abastece várias regiões urbanas na região do Baixo Cotia, entre várzeas, na quais regula alagadiços e protege a fauna aquática; aqui, um vasto vale onde o rio preserva ainda o Cinturão Meândrico e a Mata Ciliar, vai ao encontro das regiões de Carapicuiba, Jandira e Barueri, além de abastecer também Itapevi. Ou seja: o Rio Cotia integra o sistema hidrográfico do planalto itaquiano preservando-lhe a exuberância florestal... enquanto a humanidade o permitir.

Obs: Cinturão Meândrico é a constituição natural que o próprio rio constrói em curvas [ou várzeas] para não se perder na época de grandes chuvas, pois, não possui uma lâmina d'água capaz de receber tanta água sazonal. E assim, a vegetação natural vira filtro para limpeza das águas e proteção ao ecossistema aquático

SARDINHA, Afonso - dito ´o Velho´ [Portugal ? – Brasil, 1616]   Grande comerciante luso-paulista, capitalista e minerador, vereador na Câmara de S. Paulo, desbravador decisivo no apoio aos jesuítas e na expansão os portugueses a oeste do planalto piratiningo. Dono das fazendas Ybitátá, Carapocuyba e Jaraguá, e das minas de ouro do Jaraguá e Byturuna, além de ter dado início à siderurgia americana em Byraçoyaba [Serra de Ypanen].

SERRA DE ITAQUI      Segundo estudos de vários geógrafos, brasileiros e estrangeiros, parte do Planalto Atlântico com as suas várzeas, planícies aluviais, colinas, morros e serras, e estende-se entre Santana de Paranaiba, onde se encontra a região de Aldeia da Serra, e a várzea do rio Barueri-Mirim, afluente do rio Tietê, onde está Itapevi e vai apanhar um trecho de Barueri. O topo da serra está a cerca de 1035 m. Por sua condição geo-climática, a Serra de Itaqui apresenta resquícios de cobertura vegetal primitiva nativa representada pela Floresta Ombrófila Densa [ou, Mata Atlântica] e fragmentos da Floresta Ombrófila Mista [ou, Mata de Araucárias].

SCHMIDEL, Ulrich [1510-1580] – Marinheiro alemão que assentou praça na expedição do castelhano Pedro Mendonza e  veio a estar, a partrir de 1552, na construção de Buenos Aires e de Asunción. Percorreu a Bolívia, o Paraguai e a trilha guarani Piabiyu que ligava a América do Sul até chegar às terras do lusio-americano Joãop Ramalho. Retornou para a Europa em 1554 onde escreveu as suas memórias sobre os acontecimentos vividos no Novo Mundo. Depois de Schmidel, o Piabiyu foi percorrido por Aleixo Garcia e Álvar Nunez Cabeza de Vaca. “Histórias Verdadeiras de uma Maravilhosa Navegação que Ulrich Schmidel, ntural de Straubing, fez durante os anos de 1534 e 1554 às Índias, ou Novo Mundo, em especial pelo Brasil e o Rio da Prata”, foi o título do seu livro.

SOUZA, Tomé [1503-1579] – Governador-Geral do Brasil a partir de 1549. Em 1563 manda fechar o Piabiyu para impedir o contato entre portugueses e espanhóis, mas, foi só mais uma lei que para os luso-paulistas se tornou letra morta: “[...] apesar do ´fecho´ oficial, o Piabiyu continuou sendo a rota que permitiu a construção do Brasil continental depois que o padre Nóbrega assentou a sua Maniçoba a oeste do planalto piratiningo... “ [Barcellos, 2001].

STADEN, Hans [1525-1579] – Aventureiro alemão, esteve por duas vezes na dita América Portuguesa, ainda no Séc. XVI e ali guerreou, tanto em Pernambuco como em S. Vicente. Das suas aventuras escreveu a narrativa "Warhaftige Historia und Beschreibung eyner Landtschafft der wilden, nacketen, grimmigen Menschfresser Leuthen in der Newenwelt America gelegen", publicada em Marburgop, Alemanha, por Andres Colben, em 1557, o primeiro livro significativo sobre as realidades antropológicas da “Insuulla Brasil”.

TRATADO DE TORDESILHAS   Acordo diplomático entre Portugal [rei João II] e o recém criado Reino de Espanha rainha Isabel] para demarcar terras descobertas e a descobrir, sob a benção do Vaticano. O tratado teve duas versões por imposião do rei João II, de Portugal: a) demarcar a zona piscatória portuguesa; b) dividir o mundo descoberto e a descobrir com a Espanha, mas demarcando desde logo o Novo Mundo a que os portugueses tinham direito por investigações próprias.
O acordo foi assinado em 7 de Junho de 1494 tendo o cosmógrafo Duarte Pacheco Pereira como testemunha pelo lado português – ele, supostamente o descobridor da Insulla Brasil antes da expedição cabralina!... A demarcação do campus tordesilhano foi feita pelo meridiano de 370 léguas a oeste de Cabo Verde: a leste eram terras portuguesas e a oeste espanholas.
Apesar das políticas ibéricas e vaticanas envolvidas, o Tratado de Tordesilhas foi um acordo de livre comércio entre as duas potências econômico-militares: Portugal e Espanha.

 

 

BIBLIOGRAFIA

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SOBRE O ITINERÁRIO DE ULRICK SCHMIDEL ATRAVÉS DO SUL DO BRASIL [1551-1553]. MAACK, Reinhad. Curitiba/PR, 1959. [Em viagem pela Alemanha e com base em mapas e globos antigos, reconstituiu o roteiro de Ulrich no Piabiyu.]
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