| |
clique aqui para voltar para HOME
SEXUALIDADE
Questões Míticas & Místicas
João Barcellos
Falar de/sobre Sexualidade é hoje, e depois da institucionalização da mística judaico-cristã, logo seguida da islâmica, algo como acionar uma bomba sociocultural... Será que o erotismo e a sexualidade greco-romana foi ´coisa´ que hoje não deve ser sequer considerada? Lembro que, anos atrás, preparando colegiais para prestarem vestibular para cursos universitários, elas e eles ficavam perplexos quando, ao expor a História greco-romana, eu falava da Poesia erótica e dos ritos eróticos publicamente apreciados e incentivados. Será que a Humanidade perdeu a Fé em si mesma e prefere, mesmo?!, uma Fé apocalíptica sob pregações místicas, em vez de se alegrar com o prazer sexual amorosamente relacionado?
1 A Comunidade
Mulher e homem formam o núcleo da Humanidade, como fêmea e macho o são na fauna e na flora. Existe fauna e flora sem sexualidade? Existe alguma Humanidade sem o cruzamento bio-sentimental entre Mulher e Homem?
Nós, humanos [a Mulher e o Homem no seu todo social e sentimental], crescemos entre a fauna e a flora geradas por etapas telúrico-cósmicas ao longo de muitas e muitas eras, e tivemos um progresso físico e intelectual diferenciado até se estabelecer a noção de solidariedade, o que também é visível em outras espécies, particularmente as mamíferas.
O envolvimento de pessoas em deslocamento e o desejo de formar núcleos próprios, entre a posse sexual propriamente dita e o relacionamento amoroso, leva ao assentamento da Família, e desta ao Clã – o primeiro tipo de Poder conhecido na nossa história. E todo o ideal de Política, enquanto organização das atividades de interesse do Todo comunitário, e de Economia, toma forma entre o relacionamento familiar e a produção agrícola, de pesca e de caça, para sobrevivência local. Cada núcleo desenvolve formas de Comunicação, orais e pictóricas, sinalizando Cultura própria em estágio primário. No mesmo estágio já existe uma preocupação esotérica com o Destino da própria Comunidade por não perceber que o Futuro está no desenrolar do Hoje – e, aí mesmo, outro estágio: o aprimoramento da Sexualidade, do estado bruto-animalesco ao desejo amoroso.
2 Sexualidade e Poder
Enquanto o Homem ainda se preocupa em dar espaço ao seu instinto de posse sexual e por aí logo percebe a possibilidade de chefiar o processo, a Mulher aprende a se resguardar ao tomar conhecimento dos ciclos menstruais e do longo período de gestação, no qual se reconhece como espelho/essência da Vida. E quando muitos núcleos/clãs originam povos diferenciados e em cada um deles uma Cultura, eis que a Sexualidade assume identidade socialmente posicionada sob o conceito mítico [o aprendizado que ocorre de geração em geração por narrativas circunstanciais] e o místico [a percepção da interferência do Algo não interpretável na condição feminina]...
Para algumas comunidades a Mulher é o Todo humano e dever ser encarada até como Deusa, sacerdotiza daquele Algo não interpretável no sagrado antigo, que ainda não concebe fisicamente o Altar/Templo, embora reconheça o Algo-além da Humanidade; e para outras comunidades, o ciclo menstrual põe a Mulher como parte do Algo obscuro e de difícil entendimento na vida cotidiana, é quando a Mulher é representada como Alguém que não deve ser tocada nesse período – um período ´desconhecido´, que mais tarde, por força de interesse místicos patriarcais, vem a ser denominado como ´pecado´.
É caso para dizer que “a organização societária soube abrir os seus espaços de funcionamento e existência às vontades e decisões dos Indivíduos/Cidadãos” [Reis], na sua práxis comunitária primeira, mas também soube, e como soube..., fazer “a oclusão” de si mesma ao distribuir-se por classes sociais, e pior: levando a Mulher à condição de escrava do Homem. O que se considera Justiça é um Direito praticado para favorecer o conceito do Pensamento Único e do macho-Homem.
Na mítica que nos trouxe a História humana, em geral, é a Mulher a potência-geratriz da Humanidade, e particularmente na greco-romana e céltica, na qual ela assume a condição de Deusa-mãe, até por que o Ocidente se esculpe culturalmente com características jônicas; o domínio patriarcal [o do macho-Homem] sobre a Mulher acontece na fase mística da Humanidade em seu processo de Ignorância pura estabelecida entre templos e grupos de arautos apocalípticos – arautos que desconhecem a Filosofia da vivência e buscam uma Teologia ocupacional, i.e., uma vivência exotérica que lhes permite a condição humana sobrevivendo à custa da pregação dessa mesma Ignorância transformada em Fé: aquela Fé que a Pessoa humana tinha em si mesma e que a Teologia vai arrebatar para fazer sua e colocá-la em um Altar que já é Templo. E é no Templo, enquanto Poder temporal, portanto exotérico e político, que o Homem se diz macho-Poder e recusa a Mulher na mesma plataforma mística, por ser ´impura´, em ´razão´ dos seus ciclos menstruais, e só.
3 Terrorismo Patriarcal contra a Sexualidade
É a Vida que temos que ter como Altar e Templo e não qualquer manifestação mística exotérica e politicamente assumida no Poder circunstancial e mercantil.
No contexto místico ultramontano, terrorista, meramente mercantil, a Mulher passa a ser uma ferramenta do Homem-máquina. Já não é a parceira amorosa das narrativas históricas greco-romanas, ou a deusa-mãe da sociedade indo-europeia dos celtas e outros povos. O patriarcalismo exotérico cria o Pensamento Único e derruba a pluralidade que deve presidir a Sociedade humana no seu todo; com o Pensamento Único surge o Deus-homem cuja retórica torna-se a mortalha pétrea sobre a Mulher feita sua escrava, geradora do filho-herdeiro, prostituta social e familiar. Aqui, “[...] a Sexualidade deixa de ser o acontecimento amoroso de livre expressão para ser o ato de posse do Homem sobre o destino social da Mulher, e ela é sexualmente amputada, humilhada, e, em algumas comunidades, castrada para ser ´animal de estimação´” [Liffey].
Expulsa da Vida pública, eis que “a Mulher torna-se ela mesma o Altar e o Templo em que, necessariamente, o Homem tem de buscar a alegria para ser Humanidade, pois que ele apenas está Poder, temporal e transitório” [Macedo]... E, um dia, “a Mulher sem destino será reconhecida como o único porto seguro no qual o Homem pode baixar a ancora do seu barco velho e quase a naufragar” [Barcellos].
4 Mulher Paradigma da Pluralidade [O ´caso´ Madalena]
Paradigmas da pluralidade sociocultural, “[...] as mulheres filósofas e as sacerdotizas da antiguidade, e ainda no tempo do pré-catolicismo, mas já na cristandade assumida como Templo exotérico político-mercantil, são ideologicamente sacrificadas na fogueira inquisitorial, na forca ou apedrejadas publicamente” [Macedo]. Um tempo de terrorismo puro das autodenominadas igrejas do ´deus único´, patriarca e desumano, que não aceitam nem mesmo dissidência pastoral quanto à ´questão mulher´, e o mesmo acontece no quadro judaico, enquanto “no quadro islâmico, pelo menos o Amor é assumido na sua pluralidade, apesar de a Mulher ser aí, e também, um instrumento/ferramenta do Homem” [Novaes].
´Caso´ Madalena
No instante em que a cristandade, através do mando direto dos seus bispos-doutores, ordena a queima de arquivo da Mulher que pensa e ensina, já a mulher que lhe deu origem está humilhada: Madalena, a companheira de Jesus.
Na leitura dos documentos encontrados no Mar Morto e no Egito, ditos agora Biblioteca Gnóstica, ou seja, os livros que tiveram de ser escondidos da perseguição inquisitorial dos bispos-doutores, e entre eles os que foram recusados para integrar a Bíblia cristã, encontra-se a Mulher que levou a ´boa nova´ aos apóstolos de Jesus: Madalena. Também ela, e as análises apontam para ela, autora de um [cada vez mais] importante ´evangelho´, ditado ainda quando dirigia algumas comunidades. Com o patriarcalismo assente no novo evangelho do Templo católico, a Mulher foi escorraçada de vez da atividade mística e intelectual. Mas, por que Madalena, a companheira de Jesus, é silenciada? Por que é ela que acompanha o político [na luta pelo Trono de David] e místico Jesus na odisséia palestina. E se ela dá continuidade às tarefas que havia tido com Jesus é porque tem poderes para o fazer, queira ou não o ´machista´/terrorista Pedro, que se lhe opõe ainda na presença do próprio Jesus.
Retirar toda a informação referente a Madalena para compor um Jesus divinizado, sem amor nem sexo, é o que leva a corja eclesiástica a difundir a idéia de que Madalena não é uma sacerdotiza e sim uma ´prostituta´ que recebeu apoio espiritual do político/profeta que o era na Comunidade e não no Templo...! Profanada a essência da Mulher-deusa que Madalena levava às comunidades, o Templo dos bispos-doutores radicaliza: a Sexualidade é uma idéia-práxis proibida para todo o clero cristão, e a Mulher desalojada das funções sacerdotais que tanto Jesus encorajava.
A documentação encontrada em Nag Hammadi e no Qunram, e a que virá a ser encontrada, pois, a História sempre dá um jeito de nos trazer a Verdade, mostra que a cristandade-do-Templo é uma farsa mística que se sustenta política e mercantilmente. Infelizmente, uma Mulher humilhada no seu Amor e na sua Sexualidade é, mais uma vez, o símbolo da atrocidade exotérica que se diz Igreja e Estado-Império.
Mulher, mãe e deusa do prazer, é em si o paradigma da pluralidade da Vida. Negar esta essência é pensar que o Mundo é masculino e que toda a criança nasce de alguma ´virgem´ oniricamente empalhada na esquina da Imagem e à espera de um sinal dos tais bispos-doutores que escrevem cânticos bíblicos para ´dourar´ a Ignorância que querem ´para sempre, porque é a vontade do [seu] deus´.
5 Viver a Vida, e só!
Quando a Vida é vivida na liberdade que lhe é peculiar ela é como um “...canto,/ que sai da boca,/ de todas as raças/ [...] faz dançar,/ todos os corpos” [Trindade]. Entretanto, só a Pessoa que se sabe Humanidade pode escutar este cântico alquímico.
Da narrativa oral à pictórica e escrita, a Sexualidade é uma História telúrico-cósmica, tanto de posse como de prazer. Por que não deixar a Vida acontecer pela naturalidade que a gera...?
BARCELLOS, João
Jan./Fev., 2010.
Referências
ARABI, Ibn´ – “Traité de L´Amour”. Paris, 1986.
BARCELLOS, João – “Parceria Sexual & Amor”. Artigo. Cotia, Br., 1998.
– “A Sensação Do Amor”. Poemas. Paraty, Br., 2006.
BROWN, Raymond E – “The Gospel According To John”, USA, 1966.
CAMARGO-MORO, Fernanda de – “Arqueologia de Madalena”. Ed Record, Br., 2004.
LIFFEY, Johanne – “Mulher: Destino Sem Rumo”. Artigo. Rio de Janeiro, Br., 2009.
– “Chastity Belt: No More Torture!”. Dublin/Ie, 2009.
MACEDO, J. C. – “O cântico feminino que percorre a essência masculina”. Ensaio e poesia. Guimarães, Pt., 1983.
– “Sexo & Liberdade”. Artigo. Buenos Aires, Arg., 1987.
MATOS, M. Branco de – “O celibato Eclesiástico na Literatura Portuguesa”. Portugal e Brasil, Ed Edicon, CEHC e TNComunic, 2009.
NOVAES, Marta – “O Amor Amoroso”. Artigo. Buenos Aires, Arg., 2008.
RAMON, Jusino – “Maria Madalena: Autora Del Cuarto Evangelho” [ensaio], 1970.
REIS, Manuel – “Manifesto para uma Nova Idade do Ocidente e da Humanidade”, Portugal e Brasil, 2004.
– & outros, in “Q Jesuânica”. Col Debates Paralelos. Edicon, CEHC & TNC, Portugal e Brasil, 2009.
– “A Traição de São Paulo”, Ed Edicon, CEHC e GG. Brasil e Portugal, 2007
ROMERO, Silvio – “Ensaio de Filosofia do Direito”. Landy Ed, São Paulo, Br., 2001.
TRINDADE, Solano – in “O Canto Da Liberdade”, Poesias. Brasil [1908-1974].
VERMES, Geza – “The Dead Sea Scrolls in English”., 1995.
|
|