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TEMPO E ESPAÇO PARA AMAR
MAyP
“Será que a Humanidade perdeu a Fé em si mesma
e prefere, mesmo?!, uma Fé apocalíptica
sob pregações místicas, em vez de se alegrar
com o prazer sexual amorosamente relacionado?”
BARCELLOS, João – in “Sexualidade”, ensaio [2010].
Ao ler o breve ensaio “Paixão e Desilusão na Poesia e na Vida de Renèe Vivien”, do amigo e mestre João Barcellos, no site “noetica.com.br”, que ele mantém com grupos de intelectuais e artistas (do qual faço parte), e que é um dos mais buscados pela diversidade de conteúdos, lembrei das minhas primeiras noções de sexualidade, condição puramente feminina e lesbianismo, através de muitas conversas com a professora e socióloga Elen Cédron (Genève) e, depois, com a poeta Johanne Liffey (london e Dublin), filha de Barcellos.
Comentando o assunto com Barcellos, em final de 2009, soube que no site “culturahumana.ning.com” existe um intercâmbio de idéias tendo Renèe Vivien como foco, e lá está “um breve ensaio que escrevi, mas com o intuito de levar as pessoas a analisarem filosófica e amorosamente as diversas opções sexuais”.
E fiquei a conhecer essa Renèe da qual só ouvia falar quando o assunto era Natalie Barney.
No seu ensaio, Barcellos lembra e ensina (ele não é apenas o poeta, mas também o filósofo) que a “vida é um apelo que nos atira para além do estar, porque para nos vivenciarmos ´precisamos ser a totalidade das emoções que nos tomam´”. E já que Chris Paiva reniciou a discussão acerca de Renèe tendo como baliza o ensaio de João Barcellos, aqui vai a minha contribuição...
Antes de tomarmos a atitude social e sexual de Renèe como paradigma, precisamos olhar o seu entorno histórico (a problemática familiar na precariedade das relações com a mãe), a sua condição mística (ela voltou-se para o fundamentalismo católico no final da sua vida), entre outras variantes. Alunas minhas, principalmente dos cursos noturnos, ou seja, com experiência de vida, tanto em São Paulo como em Paris, questionam-me em conversas reservadas acercas das opções sexuais, às vezes (às vezes!) pressionadas por desencanto após relacionamentos com homens, e também com os pais; no entanto, as que buscam ´estar´ com outras mulheres por poesia pura são as que não precisam de ´conselhos´, porque estas sabem quem são e o que querem sexualmente, ao contrário das outras. Como não sou ´consultora sexual´, mas vivo a vida na sua plenitude sexual, apenas converso, mas faço-o com mulheres e com homens. O histórico de Renèe Vivien, um pseudônimo que a coloca “entre o masculino e o feminino, diz quase tudo sobre ela”, na opinião de Elen, e “o fato de ela ter escolhido a consagração mística católica como mortalha consagradora em termos escatológicos, mostra-a não como a mulher que buscou a poesia pura do amor, mas aquela que contracenou com o mundo feminino para fugir, também, de si mesma, ou não iria recolher-se estupidamente numa religião feita de dogmas ignorantes”, como diz Johanne.
Quando mostrei este quadro a Barcellos, ele disse: “Devemos buscar o lado puro da Renèe, o da sua vivência sexual com outras mulheres para se identificar com a vida, o que não significa ser ela-mesma, pois, percebeu-se na encruzilhada ao ajoelhar-se diante do dogma”. E remeteu-me para o seu último ensaio sobre sexualidade, do qual recebi uma cópia. Por isso, e ao conversar com minhas alunas, neste início de 2010, coloquei a questão. O primeiro grupo, o da ´opção circunstancial´, espelha-se perfeitamente nessa ´encruzilhada´, mas o da ´poesia pura´ é visceralmente contra o contato esotérico e/ou exotérico, que dizem ser “impureza na beleza do sexo”.
A minha opinião, porque devemos escrever e/ou falar com opinião própria, é que Renèe Vivien encaa a vida na sua circunstância, e mesmo que não queira fugir dela, percebe-se na sua poesia uma vivência em “êxtase de angústia suprema” [en le souffle pâmé des angoisses suprêmes], e basta recordar “A la femme Aimée” [Études et Préludes. Lemerre, Paris-1901].
A ´nossa´ Pauline Mary Tarn, que ´vira´ Renèe Vivien, esboça uma plenitude sexual para atingir a poesia pura do instante amoroso, e tem Safo – a mítica poeta de Mitilene, na ilha de Lesbos – como referência; e não apenas como referência: Renèe recria-se, espelha-se em Safo, e vive, então, uma dupla identidade. Entretanto, não se toma a identidade de outrem impunemente: se Pauline torna-se Renèe e constrói “uma poética lesbiana de profundidade literária e social”, como diz Elen, ela/ele não é Safo, e submete-se a vários relacionamentos para encontrar, como refere Barcellos, “aquele ou aquela ´alguém´ que nos ocupa a alma pela alegria sexualmente vivida”.
É asim que olho e interpreto Renèe Vivien, pessoa humana e lésbica. Poeta dos íntimos sentidos, mas limitada à circunstância social e familiar que a empurrou para outros ´campus´ da vida.
Mariana d´Almeida y Piñon.
Profª de Artes Visuais. Membro do Grupo Granja.
São Paulo / Brasil e Paris / França.
terranovacomunic@uol.com.br
Janeiro de 2010.

Paixão e Desilusão na Poesia e na Vida de Renèe Vivien
João Barcellos
Viver os sentidos, a pura emoção de uma paixão. Viver a natureza de uma relação que se constroi na paixão, que cega e choca, e se limita para não ser o amor convencional das algemas socio-institucionais. Eis o que foi a poesia e a vida da inglesa Pauline Mary Tarn, que adotou o pseudônimo literário Renèe Vivien como bandeira psicossocial e cartão de visitas.
A vida é um apelo que nos atira para além do estar, porque para nos vivenciarmos “precisamos ser a totalidade das emoções que nos tomam; emoções nem sempre socialmente aceitas, especialmente quando comportam opções sexuais rechaçadas pública, política e religiosamente... como o amor entre homens e o amor entre mulheres. Em alguns momentos da humanidade o gozo da vida na sua plenitude emocional-sexual atingiu um apogeu social que extravasava até para o meio político” [1]. Entretanto, “as religiões institucionalizadas como poder temporal institucionalizaram também o patriarcalismo o que gerou o cerceamento da liberdade pelo ato sexual e a livre escolha da parceria sexual” [2]. E assim é que a vida nos cerca com posicionamentos anti-humanos do tipo pensamento único. i.e., “tu namoras e casas, e pronto”, “não se discute nem pátria nem deus”, “a relação amorosa entre homens assim como entre mulheres é a demonização, o fim dos tempos da felicidade sob o dom divino”, “o homem é o todo social, por isso deus é a alma do patriarcalismo”, etc e etc...
“Um universo de hipocrisias e preconceitos foi o que, no final do Séc. XIX, a jovem inglesa Pauline Mary Tarn, depois conhecida como Renèe Vivien, encontrou no seu cotidiano de filha da elite ocidental, que veio a desprezar para ser ela mesma, a mulher entre mulheres” [3].
As vivências sociais e familiares de Pauline foram um turbilhão de desenlaces a ponto de ser espoliada da herança pela própria mãe. Em meio a tais atribulações conheceu a artista norte-americana Violette Shillito, a amiga íntima que se converteu ao catolicismo nos últimos dias da sua vida e incentivou a própria Paulina, já Renèe Vivien, a fazer o mesmo... e o fez!
Na companhia de Violette, a jovem descobriu na poesia de Victor Hugo a emoção pela qual projetou as suas vivências, e, logo depois, o erotismo de Safo transformou-a numa “batalhadora pela liberdade de ser mulher entre mulheres, a vivenciar a paixão naturalmente humana e que não pode ser destruida por preconceitos exotéricos de exorcismo estúpido, mas, ela também viveu a paixão por um homem, um poeta, em Paris, que um ano depois deixou-a por causa dos seus constantes acidentes psicológicos, e isso provocou nela um vazio que a acompanharia pelos restos dos dias” [4].
O processo vivencial, ou, a filosofia de Renèe Vivien, ficou estabelecido a partir do momento em que Violette a apresentou a Natalie Barney – a dama que abriu as portas dos seus salões de Paris à intelectualidade que reinventava a vida e o sexo. A relação amorosa entre Renèe e Natalie deu origem a “Estudos e Prelúdios”, o primeiro livro da “...inglesa que se apresenta ao mundo deslocada do meio convencional, mas emotivamente um fenômeno de criatividade lítero-erótica” [5]. A vivência de Renèe não renegava Paulina: atormentada por uma solidão que a devassava, ela entregou-se à paixão como organismo que sobrevive à intolerância do meio social, e criou rupturas necessárias a tal processo, o que a levou ao choque com a amada Natalie e outras. No poema “Tua forma...”, ela no-lo diz: “A tua forma é um relâmpago nos braços vazios”. Na verdade, o processo de vivência estabelecido por ela foi uma filosofia que rebateu a sua formação familiar para ter na liberdade de expressão a emoção total de se sentir mulher e ao mesmo tempo pessoa humana com direito a si mesma, social e sexualmente.
No poema “Invocação da Lua”, ela cantava “Oh lua, tu que fazes que alma entre em si mesma,/ Em sua fria verdade, indiferente e pálida!/ Oh tu, vitoriosa inimiga do dia,/ Concede-me a graça de escapar ao amor!”. Aqui encontramos a pujança da sua solidão – uma solidão trabalhada entre paixões avassaladoras... e porque avassaladoras, raramente estabelecidas na linha do amor, esse conceito que Renèe Vivien repudiava desde os tempos da Pauline menina, mulher-flor abandonada no seu da família. Logo, o sonho tomou o lugar do amor, e a realização de uma paixão passou a ser uma realização erótica não-amorosa, porque ela tinha a paixão como refúgio ideal, pois o amor convencional era a armadilha, a prisão, e eis que no poema “O que digo ao Roseiral”, ela reafirmaria que “Todos sabemos que não há nada mais perfeito que o sonho”. Então, enquanto artista lítero-erótica e emotivamente autobiográfica, Renèe Vivien buscou no sonho a possibilidade de uma vida elevada à paixão pura e natural entre mulheres, e essa paixão-poesia transformou-a no paradigma lesbiano que desbravou espaços.
Por ser uma batalha contínua, sofrida até entre paixões, a vida de Renèe Vivien demandou rupturas para ter a experiência própria do caminho a alcançar e, por aí, encontrou o budismo e, logo, o catolicismo... Talvez como catarse diante do meio em que foi gerada, em 1909, 10 de Novembro, sabendo-se pronta para a morte converteu-se à corrente religiosa que mais a estigmatizou: o catolicismo. E isso já estava registrado no poema “Tua Forma...”, quando cantava, ao resignar-se como moradora de um espellho: “É a eterna nostalgia!”.
Às vezes. Na verdade são raras as vezes..., questionam-me por que certas pessoas notabilizadas nas artes por posicionamentos sociais, políticos e sexuais, contrários às correntes místicas e suas doutrinas, acabam, no leito da morte, por exorcizar essa vida sucumbindo ao ´perdão´ daquele poder inquisitorial e dogmático? Isso acontece, primeiro, com pessoas que viveram um eu socialmente isolado, triste; segundo, porque esse eu-mesmo que não se reflete nos outros amorosamente precisa de um instante de paz diante da morte, pois que, enquanto vida, foi somente um turbilhão de rupturas. Ora, a mortalha mística é uma falsa pacificação, mas acontece porque as pessoas que se auto-isolaram precisam daquela muleta que não souberam confeccionar nas suas vivências. É o instante em que o amor surge na nostalgia a dizer ´um instante de paz é como um gole de vinho espirituoso guardado anos a fio para te celebrar, agora, que a morte ceifa a tua vida!´. E em tal caso, existe a pessoa que se metamorfoseia para carnavalizar a própria vida, como fez o poeta Mário de Sá-Carneiro, em Paris, e morrer em plena felicidade etérea, e a pessoa que prefere a mortalha como último véu, e só, como fez Renèe Vivien.
Um ponto pouco discutido na vida da poeta inglesa: a sua múltipla tentativa de suicídio. Primeiro, quando foi rechaçada pelo homem por quem se apaixonou, ou nele viu uma extensão paternal (ele tinha o dobro da sua idade), e segundo, nos vários desenlaces emotivos com as diversas parceiras circunstanciais. A entrega final da poeta ao abraço místico budista e católico teve aí um corolário que não é tão paradoxal como pode parecer numa primeira análise: Safo viveu entre mitos e deuses e deusas – ela mesma uma delas, e Pauline/Renèe quis vivenciar esse momento etéreo, uma vez que no meio físico consagrou-se como escritora. E a obra é o que fica...
Por tal verdade é que, também, não devemos tomar a vivência e a experiência de uma pessoa como referência única para o nosso viver, pois, podemos acabar cometendo os erros não visíveis que ela vivenciou silenciosamente na sua imersão psicossocial. O que devemos é ter essa pessoa como uma referência possível entre outras, e nós mesmos, e isso possibilita-nos viver além do dogmatismo do pensamento único, criando alternativas, metamorfoses entre e com pessoas humanamente ativas no processo social-comunitário.
BARCELLOS, João
Escritor e Conferencista
www.noetica.com.br
1- BARCELLOS, João – in “O Sexo Pleno É Liberdade”. ´Cadernos Clandestinos de Filosofia para a Vida´, Portugal, 1973.
2- LIFFEY, Hann – in “Pela Defesa Da Vontade de Amar Entre Paixões do Mesmo Sexo”, ensaio. Dublin/Ie, 1975.
3- ---------------- – in “Safo, entre Anais Nin e Renèe Vivien”, ensaio. Dublin/Ie, 1977.
4- MACEDO, J. C. – in “O mundo de Renèe Vivien, ou a Musa da liberdade sexual”, ensaio. Guimarães/Pt, 1973.
5- BARCELLOS, João – in “Renèe Vivien: Musa e Bandeira da Mulher que se Liberta”, ensaio. Braga/Pt, 1977; Rio de Janeiro / Br., 1987 [revisto e ampliado].
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